domingo, 17 de janeiro de 2016

UMA TRAGÉDIA PODE ABALAR A EUROPA, ATRAVÉS DA ALEMANHA E FRANÇA

1 –  Curioso, parece que o *filme* da lenta fascização da França e da Alemanha volta a ressurgir naqueles países.

Tal como nos anos 20 e 30 do século passado, no meio de uma crise económica, política e social de uma envergadura descomunal, cujo poder dominante é exercido pelo capital financeiro, este utiliza as armas mais díspares para, através dos seus partidos e forças *nacionalistas*, e, com a cumplicidade de forças policiais e militares, tentar manter o seu domínio por meios ditatoriais.












O atentado ao *Charlie Hebdo*: a segurança em França não existiu

2 – No dia 13 de Novembro do ano passado, ocorreram ataques de membros do Exército Islâmico (EI), estabelecidos e perfeitamente enquadrados em França (mas também na Bélgica, Alemanha, e noutros países da União Europeia e da NATO).

Os ataques deram-se no centro de Paris e nos arredores (Saint-Denis), com a utilização de suicidas, que fizeram detonar artefactos, dispararam, quase militarmente, com espingardas-metralhadoras, e tinham organizado planos de fugas para os sobreviventes, o que sucedeu, estranhamente, atravessando vários Estados.

Morreram mais de 120 pessoas e cerca de 350 ficaram feridas.

Um clamor apareceu e, nele se entronizou em bicos de pés o débil Chefe de Estado francês, impondo, de imediato, o estado de emergência, limitando as liberdades e ameaçando com legislação *purista* de corte da nacionalidade gaulesa sobre os chamados binacionais, mesmo que nascidos no país, que sejam considerados como implicados +em actos de terrorismo+.

O estado de emergência – que se pretende legalizá-lo, permanentemente, na Constituição, admite detenções e investigações arbitrárias sem decisão judicial, restringe – e impede mesmo – o direito de manifestação e protesto, bem como o de circulação, se necessário, se colocarem em causa +a ordem pública+.

Quais foram os primeiros resultados práticos visíveis deste estado de emergência?

Mais de 200 manifestantes detidos por participarem numa acção a favor de medidas práticas para a cimeira do clima que decorreu em Paris.

E os resultados das detenções de *suspeitos* de casos de *terrorismo* islâmico, quantos casos tiveram seguimento?



Emergência, apenas para muscular Paris

Muito pouco. Tenho a impressão que não ultrapassam um dedo de uma mão. 

Não se sabe nada, porque não existem, sequer até agora, processos judiciais.

O que é estranho, até porque já deveria ter havido um *roteiro* organizado, com pés e cabeça, para +combater o Estado Islâmico+, nos bancos, nos negócios de armas, no contrabando de petróleo, nos financiamentos a partir de Estados.

Na realidade, a 15 e 16 de Janeiro de 2015, houve duas acções armadas sangrentas e, mais tarde, reivindicadas por aquele em Paris e arredores (Charlie Hebdo e um supermercado judeu), onde o ilustre Hollande já vociferou – só em palavras – que havia um +ataque organizado+ contra a França.

Então porque não foram fichados e presos todos aqueles que os serviços secretos sabiam que estavam prontos a agir?

A questão é que parte do EI (via Frente Al Nusra) é – ou era, até há pouco tempo – pessoal amigo do governo francês, que a promovia (talvez continue a fazê-lo) como +resistência moderada+ a Bashar al Assad, chefe de Estado da Síria.

Afinal quem é o verdadeiro inimigo do actual regime francês?

Uma eventual explosão das classes laboriosas do país face ao aprofundamento da crise económica do capitalismo.

Nesse sentido, aí está a reserva *política* de ataque que pode ser conduzida pela Frente Nacional.

Ora, nada melhor que aplainar o caminho dando-lhe as bandeiras ideológicas práticas: a emergência, a *pureza* nacional, a segurança *nas fronteiras da pátria*. Ou seja, o PS francês deu como alternativas as bandeiras fascistas da FN...

3 – Actualmente, tal como nos anos 60/70 do século passado, o patronato alemão está interessado em receber mão-de-obra barata, através de migrantes.

A situação de hoje é um pouco diferente da vaga migratória do século passado. Neste período, a Alemanha recebera milhões e milhões dólares norte-americanos para refazer a economia capitalista.

Recorreu a um processo de recrutamento, entre o legal e ilegal, do chamado +trabalhador-convidado+ em que a mão-de-obra mercadejada era trazida de forma *orientada* e lenta, embora sem grande instrução. Assim, foram arrebanhados turcos (cerca de três milhões), jugoslavos, portugueses, espanhóis e italianos, principalmente.

Actualmente, o patronato alemão está interessado em receber mão-de-obra barata, através de migrantes do Médio-Oriente, tal como sucedeu nos anos 60/70 do século passado com os migrantes turcos, e, em menor escala, portugueses, italianos e espanhóis.

Estes refugiados só existem com apoio turco

Não é por puras balofas razões humanitárias que o governo de Merkell abriu, numa primeira fase, as portas à migração.

O objectivo era, justamente, a entrada de migrantes, essencialmente, letrados, para acolher mão-de-obra barata que fizesse concorrência ao nível dos trabalhadores locais e organizados sindicalmente na sociedade alemã.

Só que a Turquia, acossada por um fluxo enorme de refugiados provindo dos conflitos – Síria e Iraque - em que fomentou, e fomenta, juntamente com os seus parceiros da NATO, aproveitou a oportunidade, para organizar através de redes, para canalizar uma mole indiferenciada de pessoas, que incluía, jovens, mulheres, crianças e até idosos, para os remeter maciçamente com a indicação, perfeitamente orientada, repito, perfeitamente orientada, para que seguissem para a Alemanha e países nórdicos.

E, com esse fluxo desordenado, que, curiosamente, partiu (e continua a partir) sempre da Turquia, servia (e serve) os objectivos de Erdogan de pressionar a UE, aflita, para *conter* essa movimentação a troco de choruda compensação financeira.

Ao mesmo tempo, pressionar a Alemanha para *facilitar* a aproximação à UE sem condições.

Ora, a Alemanha poderia receber esses migrantes, em condições normais de evolução capitalista da sua economia, o caso é que, nos últimos dois anos, deu-se uma regressão no tecido produtivo do país, que entrou em estagnação.

Aqui o patronato alemão entrou em parafuso, perante a avalanche, que não consegue fazer entrar na cadeia produtiva, até porque os migrantes são, em grande parte mulheres, crianças e homens, sem instrução e dificuldade de adaptação.

Pressiona, então agora, a sua chanceler para conter, e até fazer retroceder parte dos migrantes, e, ao mesmo tempo esse mesmo patronato fomenta, com o apoio de forças de serviços secretos e de segurança, e, através dos grupos fascistas, o confronto e a xenofobia, esperando o endurecimento político do regime.

Reflictamos sobre os acontecimentos de fim de ano em Colónia.
Esta foto colocada na net como sendo de Colónia é uma manipualção: Trata-se de uma agressão ocorrida em Londres à modelo Danielle Lloyd, 

Na realidade, começaram, noticiosamente, a 4 de Janeiro (quem deu a notícia aos jornais?), empolados três dias depois, com dimensão nacional, e, curiosamente, apesar da sua aparente dimensão e gravidade.

Desapareceu, nos últimos dias, quase por encanto, dos noticiários dos grandes meios de comunicação social.

Um relato sucinto: a 4 de Janeiro, em certa imprensa alemã, surgem notícias de que junto à estação ferroviária de Colónia, Alemanha, se produziram desacatos, onde teriam havido roubos, alguns casos de assédio a mulheres, com apalpões, e, um ou dois casos de violações (ou tentativas).

Noticiou-se então que teriam sido um centenas os eventuais criminosos, uma parte, minoritária, de indivíduos com a «aparência» de norte-africanos e árabes.

Do primeiro relatório policial, referia-se que os agentes, destacados para o local, conseguiram dissolver a concentração, levá-los para o interior da estação, onde os teria abandonado à sua sorte. Sem qualquer detenção ou contenção.

O sucedido ter-se-ia dado depois do abandono da polícia.

Após 4 de Janeiro, os casos de eventual assédio sexual crescem exponencialmente, e, fica-se a saber que acontecimentos idênticos tiveram lugar em outros cidades alemãs em diferentes Estados regionais.

Cito as interrogações sobre estes acontecimentos feitos, no passado dia 10 pela rádio pública alemã Deustche Welle.

*O que se sabe sobre os crimes na passagem de ano em Colónia?

Mais de uma semana depois dos assédios sexuais contra mulheres na noite de passada passagem de ano, em Colônia, muitas questões continuam sem resposta.

Confira o que se sabe até o momento e quais perguntas seguem em aberto.

O que se sabe

– Segundo a polícia, os criminosos saíram de um grupo de cerca de mil homens que se concentrava em frente à estação central de Colónia, ao lado da Catedral.

– Segundo o presidente regional do sindicato da polícia, Arnold Plickert, já na noite de passagem de ano, os agentes abordaram e pediram os documentos a mais de 70 pessoas. Destas, quatro foram detidas, 11 foram mantidas sob custódia e houve o registo de 34 ocorrências. 

Segundo ele, várias pessoas abordadas apresentaram comprovantes de registo do Departamento de Migração, que são concedidos a pessoas que pedem asilo. "Isso mostra que havia refugiados entre elas", disse. Ele não soube responder por que as pessoas foram abordadas pela polícia.

– A polícia de Colónia registou 516 ocorrências até este domingo (10/01), sendo que cerca de 40% são de assédio sexual. Há também muitos casos de furto de telemóveis, bolsas e carteiras. Duas pessoas testemunharam que teriam sido violadas.

– A polícia de Colónia afirmou que 20 suspeitos estão sob investigação. Muitos deles foram identificados, mas não foram detidos. Um marroquino de 19 anos foi detido neste sábado. Está referenciado pela polícia desde 2013. As identidades dos demais suspeitos não foram reveladas. Entre os investigados estão sobretudo homens de países do norte da África.

– A Polícia Federal, que é responsável pela segurança dentro da estação central e numa distância de até 30 metros do prédio, registou 32 ocorrências na noite de passagem de ano, incluindo ferimentos, roubos e crimes sexuais. 

A Polícia Federal afirmou ter identificado 32 suspeitos. São eles nove argelinos, oito marroquinos, cinco iranianos, quatro sírios, um iraquiano, um sérvio, um norte-americano e três alemães. Desses 32 suspeitos, 22 são requerentes de asilo.

Nenhum deles foi até o momento acusado de crimes sexuais e as acusações contra eles assinalam casos de ferimentos e furtos.

– Na sexta-feira, a polícia de Colónia prendeu dois suspeitos, de 16 e 23 anos, um deles do Marrocos e o outro da Tunísia. Os dois são requerentes de asilo e foram libertados pouco depois por falta de provas.

Três pessoas estão em prisão preventiva por suspeita de roubo durante naquela noite.

O que não se sabe

– Não se sabe quem são os criminosos e quantos são.

Até o momento há apenas suspeitos.

– Também não se sabe se há requerentes de asilo ou refugiados entre os criminosos.

Eles formam, porém, o principal grupo de suspeitos. Requerentes de asilo e pessoas que vivem ilegalmente na Alemanha estão no foco das investigações da polícia de Colónia, mas a própria polícia ressalvou que nada foi provado contra eles.

A Polícia Federal afirmou que há refugiados entre os suspeitos. Testemunhas, vítimas e polícias, falam de homens de aparência árabe ou norte-africana.

A polícia local abordou e pediu documentos a pessoas que estavam na área da estação central, e entre elas havia refugiados, mas não se sabe se as pessoas abordadas têm alguma relação com os crimes cometidos.

– Não se sabe também se os criminosos planearam ou organizaram o que aconteceu diante da estação central de Colónia. Também não se sabe se há relação entre o que aconteceu em Colónia e crimes semelhantes ocorridos em outras cidades alemãs na mesma altura.

A procuradoria de justiça de Colónia, porém, parte do princípio de que se trata de crime organizado.

O ministro da Justiça, Heiko Maas, também afirmou acreditar que haja uma relação entre os acontecimentos em várias cidades e que as agressões foram planeadas com antecedência.

O jornal Bild am Sonntag publicou que grupos de norte-africanos usaram redes sociais para chamar conterrâneos para Colónia.

Segundo informações da emissora WDR, a polícia investiga já há alguns meses grupos de criminosos formados maioritariamente por argelinos, marroquinos e tunisinos.

Esses grupos estaria a seguir para a Alemanha como refugiados. Viajariam para Istambul e, de lá, entram na Europa misturados com grupos de refugiados que vêm da Síria, do Iraque e de outros países, segundo as informações da WDR.
Fonte.AS/dpa/epd/kna*

Esta ambiguidade do poder político alemão, acompanhada de toda a trama obscura da estrutura policial, lançando suspeitas sobre a existência de um *grupo organizado*, sem identificar, que enquadrou, a nível de várias cidades do país, uma acção, onde pontificaram *árabes e norte-africanos* deu imediato alento à irrupção de manifestações fascistas.

Facto este aumentado pela grande imprensa conservadora.

Empolado, organizadamente, na net com fotografias, claramente manipuladas, de pseudo agressões, sexuais ou não, de mulheres que teriam ocorrido em Colónia na noite da passagem de ano. Le Monde 11.01.2016

4 – A velha tragédia do capitalismo financeiro alemão e francês pode avolumar-se naqueles países através da sua fascização. Por agora, apenas pela via eleitoral.

Se não se encontrar uma alternativa política revolucionária nacional e ao mesmo tempo europeia para fazer frente a essa realidade.

Não se pode esperar que a alternativa surja no *mal menor* de uma Merkell ou Holande.

A aparente luta entre, por um lado, a coligação CDU/SDP e os partidos fascistas alemães, por outro o PS/Holande e a Frente Nacional, é uma comédia entre os dois lados dos apologistas da *ordem nacional* capitalista.

Esperemos que um alento de viragem que se verifica em outros países europeus brote, no meio da crise capitalista, e estilhace a argamassa que ainda consegue manter o poder do Capital.

 










sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

PORTUGAL PRESIDENCIAIS: SERÁ POSSÍVEL MUDAR COM UMA CONSTITUIÇÃO CONTRA-REVOLUCIONÁRIA?

1 – Portugal está em período de campanha eleitoral para a Presidência da República.

Pela troca de opinião entre os candidatos, quer se digam  de esquerda ou de direita, parece que se entendem todos nas águas mornas do regime existente, ou seja, na chamada democracia.

Ou seja, pergunto eu, quem poderá mudar a política prática, e beneficiar as classes trabalhadoras, dentro do regime que, desde 25 de Novembro de 1975, amordaçou e desfez tudo o que foi conseguido por essas mesmas classes trabalhadoras no período de 25 de Abril a 25 de Novembro de 1975?



Os candidatos – sem excepção –, desde Marcelo Rebelo de Sousa, que tem o apoio do PSD/CDS até Marisa Matias, do BE, passando por Maria de Belém (apoiada por uma fracção PS), Sampaio da Nóvoa (apoio de outra ala PS) e Edgar Silva (PCP), dizem que apoiam a actual Constituição e a farão cumprir.

Os restantes representam sectores minoritários sem verdadeira componente classista.

Explicação da evolução da Constituição desde 1976 até 2005, ou seja a actual, contada pela própria Assembleia da República:

A Constituição da República Portuguesa, aprovada a 2 de abril de 1976, dotou a Assembleia da República de poderes de revisão constitucional, exercidos, pela primeira vez, num longo (entre Abril de 1981 e 30 de Setembro de 1982) processo de revisão do seu articulado inicial, o qual reflectia opções políticas e ideológicas decorrentes do período revolucionário que se seguiu à ruptura contra o anterior regime autoritário, consagrando a transição para o socialismo, assente na nacionalização dos principais meios de produção e mantendo a participação do Movimento das Forças Armadas no exercício do poder político, através do Conselho da Revolução.
A revisão constitucional de 1982 procurou diminuir a carga ideológica da Constituição, flexibilizar o sistema económico e redefinir as estruturas do exercício do poder político, sendo extinto o Conselho da Revolução e criado o Tribunal Constitucional.
Em 1989, teve lugar a 2.ª revisão constitucional que deu maior abertura ao sistema económico, nomeadamente pondo termo ao princípio da irreversibilidade das nacionalizações directamente efectuadas após o 25 de Abril de 1974.
As revisões que se seguiram, em 1992 e 1997, vieram adaptar o texto constitucional aos princípios dos Tratados da União Europeia, Maastricht e Amesterdão, consagrando ainda outras alterações referentes, designadamente, à capacidade eleitoral de cidadãos estrangeiros, à possibilidade de criação de círculos uninominais, ao direito de iniciativa legislativa aos cidadãos, reforçando também os poderes legislativos exclusivos da Assembleia da República.
Em 2001 a Constituição foi, de novo, revista, a fim de permitir a ratificação, por Portugal, da Convenção que cria o Tribunal Penal Internacional, alterando as regras de extradição.
A 6.ª revisão constitucional, aprovada em 2004, aprofundou a autonomia político-administrativa das regiões autónomas dos Açores e da Madeira, designadamente aumentando os poderes das respetivas Assembleias Legislativas e eliminando o cargo de “Ministro da República”, criando o de “Representante da República”.

Foram também alteradas e clarificadas normas referentes às relações internacionais e ao direito internacional, como, por exemplo, a relativa à vigência na ordem jurídica interna dos tratados e normas da União Europeia.
Foi ainda aprofundado o princípio da limitação dos mandatos, designadamente dos titulares de cargos políticos executivos, bem como reforçado o princípio da não discriminação, nomeadamente em função da orientação sexual.
Em 2005 foi aprovada a 7.ª revisão constitucional que através do aditamento de um novo artigo, permitiu a realização de referendo sobre a aprovação de tratado que vise a construção e o aprofundamento da União Europeia.

Esta explicação retrata, em traços largos, o caminho contra-revolucionário seguido pelo poder político até agora.

Logo, como se pode colocar como *princípio programático* de mudança de *ciclo político* com uma defesa da Constituição que sedimentou, jurídica e legalmente, uma contra-revolução?

2 – Com o estrangulamento da semi-revolução a 25 de Novembro de 1975, impulsionada após a tentativa de golpe de Estado contra-revolucionário, empreendida, meses antes, a em 11 de Março, desapareceu, também, a influência política daqueles que se intitularam revolucionários, representados no governo provisório e ainda na Assembleia Constituinte (PCP) ou apenas naquela (UDP), mas serviram, de uma maneira ou doutra, como apaziguadores instituicionais, nos meses a seguir ao golpe de Novembro.



Depois de afastados e ostracizados pelo poder estabelecido, abandonaram, progressivamente, os seus resquícios revolucionários e integraram-se no regaço da chamada democracia.

Chegaram à situação actual, em abraço com o PS, campeão do 25 de Novembro.
A UDP reformada no Bloco de Esquerda, tal como num período intermédio o fez com a aliança eleitoral com a LCI, de Francisco Louçã.

Representam a pequena burguesia dita progressista que levanta os punhos revolucionariamente quando as classes trabalhadoras estão na mó de cima, e, agitam a defesa *intransigente* da Constituição liberal quando a *mudança* pode ser obtida  legalmente...

A questão que se coloca, portanto, numa campanha eleitoral que se pretende de *mudança* é a do poder.

Que poder?

Para haver uma mudança real que produza uma transformação na sociedade, e não um mero arranjo na forma de Estado +mais ou menos democrático+ que favoreça as reivindicações profundas, classistas, das classes trabalhadoras, não só de Portugal, mas principalmente da União Europeia, tem de existir um programa de ruptura revolucionária com a situação actual.

Ou seja, os avanços das reivindicações revolucionárias em Portugal, para serem consistentes e terem, realmente, uma orientação de mudança social terão em estar em sintonia programática com idênticas reivindicações classistas dos restantes Estados da UE.


Para serem conhecidas essas reivindicações, nada melhor do que uma campanha eleitoral mediática para fazer a sua divulgação.

Ora, elas não existem.

domingo, 3 de janeiro de 2016

FRANÇA: QUANDO OS SOCIALISTAS SE TORNAM ARAUTOS DA ORDEM NACIONAL E DO PURO SANGUE

1 – O Primeiro-Ministro francês, Manuel Valls, anunciou, no passado dia 23, numa conferência de Imprensa, dada no Palácio do Eliseu, que o Presidente da República, François Hollande, tenciona propor legislação que revisa a Constituição, segundo a qual será retirada a nacionalidade francesa aos binacionais, de origem estrangeira, mesmo aos que tenham nascido em França, condenados por «crimes contra a vida da nação».











Um binacional contra a binacionalidade

No mesmo pacote legislativo, está a proposta de inscrever o «estado de emergência» na mesma Constituição.

Estes propósitos foram reafirmados por Hollande na sua mensagem de fim do ano em 31 de Dezembro.

O estado de emergência permite aos representantes policiais e judiciais estatais efectuarem buscas, prisões domiciliárias e dissoluções de associações sem permissão da autoridade judicial, apenas com o pretexto de simples suspeita de ameaça para a segurança pública.

O que tem de grave tal legislação, quando a França está envolvida, este ano, em graves casos de atentados mortíferos no seu território?, questionarão os adeptos da ordem estabelecida e da segurança.

A questão é que a França não está a ser atacada, essencialmente, do exterior, mas sim envolvida numa profunda crise interna, económica, política e social, cujos tentáculos se estendem à sua ambição imperialista.

Porque não se interrogam as pessoas sobre o que, realmente, se passa em França, quando dezenas e dezenas de seus cidadãos, nascidos, criados e com vivência da forma de vida do país, agem, sangrentamente, contra o mesmo e contra o modelo burguês político existente?

A taxa de desemprego oficial em França subiu para os 10,6% em Julho de 2015, e, a taxa de desemprego entre jovens está nos 25%, enquadramento etário este onde se situa uma parte significativa dos cidadãos franceses «binacionais».

A economia de França está em estagnação.

A dívida pública atingiu os 100%, sendo que, na realidade, a grande maioria corresponde a dívida privada, que foi incorporada naquela, por  pressão do capital financeiro.

Esta é a realidade: o actual regime político francês, representado, no presente, pela fracção da grande burguesia que se acolita no PS gaulês, depende, sem qualquer contestação de relevo, do grande capital financeiro especulador.

O que está a conduzir, de maneira evidente, desde a anterior governação dos chamados republicanos gaulistas, de Nicolas Sarkozy, a outra fracção política da grande burguesia que alterna no poder, a um continuo empobrecimento do Estado a favor dos bancos.

Sarkozy injectou nos grandes bancos franceses, directa ou indirectamente, uma verba fabulosa de 360 mil milhões de euros para «salvar» o sistema financeiro.

Apesar desta injecção, os bancos continuam em crise, atravessados por fraudes, desvios de dinheiro, colocação de investimentos em processos especulativos.

Esta «ajuda» estatal reflectiu-se num enorme esbulho fiscal sobre os trabalhadores, cujos sectores mais desprotegidos, os habitantes dos subúrbios, são os mais afectados. Empurrados, em suma, para a marginalidade, por inexistência de uma alternativa revolucionária de poder.

2 – Do alto da pose, pretensamente, majestática de François Hollande, após os atentados em Paris de 13 de Novembro, sustentando que iria combater o «terrorismo», o que, para tal, iria propor a inclusão do «estado de emergência» no texto constitucional e recorrer à repressão dos «binacionais» ligados ao mesmo, está a mera hipocrisia.

Além de bombardear a Síria, unilateralmente, sem autorização das autoridades legítimas do país, o chamado Estado Islâmico.

(Ironia das ironias, uma entidade em que a França republicana actual foi uma das *potências* ocidentais fomentadoras e financiadoras!).

Os mesmos homens «de Estado» que, em 2012, sustentavam, através das palavras do Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Laurent Fabius, que a Frente Al Nusra, o ramo sírio da Al Qaeda, em parceria com o EI naquele país, estava a fazer «um bom trabalho» oposicionista na Síria face ao regime de Assad, batem, agora, no peito, com todo o descaramento, a sua militância guerreira contra os então *moderados* jihadistas.

French President Francois Hollande (R) and Foreign Minister Laurent Fabius (2nd-R) meet with Saudi Defence Minister Prince Mohammed bin Salman bin Abdul Aziz al-Saud (2nd-L) at the Elysee Palace in Paris on June 24, 2015. AFP PHOTO / POOL / REMY DE LA MAUVINIERE

French President Francois Hollande (R) and Foreign Minister Laurent Fabius (2nd-R) meet with Saudi Defence Minister Prince Mohammed bin Salman bin Abdul Aziz al-Saud (2nd-L) at the Elysee Palace in Paris on June 24, 

Quando em Janeiro de 2015 um comando do EI atacou o jornal satírico «Charlie Hebdo» o regime de Hollande olhou, olimpicamente, para o lado, com umas pequenas barafustes, e continuou a apoiar os «moderados» oposicionistas a Bashar Assad, moderados estes que treinava, aliás, como seus +guerrilheiros+.

Não conheciam a Presidência da República francesa, os seus serviços secretos, a sua polícia, os principais integrantes desses *moderados* em França, que eles, aliás, alimentavam e financiavam?.

Seria possível a tais *terroristas* organizarem-se, em extensão e quase à luz do dia, em território francês, sem que os serviços de segurança não os tenham referenciado?.

Ora, o «estado de emergência», legalizado na Constituição, com o beneplácito dos *partidos da ordem* - PS, Republicanos gaullistas e Frente Nacional – será uma arma utilizada por aqueles para reprimir os protestos reivindicativos dos trabalhadores e explorados.
Serão eles –os explorados - que irão por em causa o actual regime francês, que é o suporte legal do grande capital financeiro especulador.

3 – Quando o PS de François Hollande subiu ao poder prometeu que iria integrar os imigrantes e fazer com que conseguissem o direito de voto pleno na sociedade francesa.

Em Dezembro de 2014, o empertigado Hollande afirmava, ainda com a máscara dos palhaços ricos, na inauguração do Museu da História da Imigração em França, que «o suceso da integração determinará o nosso destino nacional».

(Este museu que deveria ter sido inaugurado, há oito anos, no consulado do outro parceiro dos «partidos da ordem»Nicolas Sarkozy, foi protelado, precisamente, quando o filhos de judeus imigrantes húngaros que ascendeu à chefia de Estado gaulês, virou a casaca e se juntou à Frente Nacional na condenação da invasão de *estrangeiros*).

Hollande adiantou, na sua cara de pose imperial, vociferante:  “Sempre há demagogos. Os estrangeiros têm sido sistematicamente acusados dos mesmos males. A novidade é a penetração dessas teses num contexto de crise interminável e de globalização”.

Este propósito solene deixou de estar, agora, na cena política dos chamados socialistas franceses.

Antes de partirem para a aventura imperialista na Síria, procurando esconder os problemas reais da vida societária francesa, os dirigentes socialistas franceses, cúmplices integrantes da «ordem nacional» da fascista Frente Nacional, atiram-se contra os *binacionais*, tal como o fazem há muito os antigos republicanos gaullistas de Sarkozy e desde o seu início o partido dos le Pen.

Precisamente, quando são divulgados e desclassificados os documentos políticos e judiciais do governo fascista de Vichy, curiosamente autorizados pelo primeiro-ministro Manuel Valls, regime esse que instituiu a separação entre francês de sangue e imigrante.

E em que  o ministro da Justiça do governo de Vichy, Raphaël Alibert, fazia gala de declarar que “os estrangeiros não devem esquecer que a qualidade de ser francês é um mérito”.

Até agora apenas a Frente Nacional ousava atacar, aberta e ferozmente, a existência da binacionalidade. Ou a política do *puro sangue*.

Os arautos do +socialismo democrático+ transformam a ideia fascista em realidade.

Com a conivência da Ministra da Justiça, Christiane Taubira, uma negra nascida na Guiana francesa, que foi militante independentista daquele país, e até dias atrás, contrária a institucionalização do estado de emergência e da separação de nacionalidades no interior do país.

Os apologistas da Revolução francesa das palavras de ordem de Liberdade, Igualdade e Fraternidade e da Declaração Universal dos Direitos do Homem bandearam-se, perante a perspectiva de uma possível revolta popular, para os lados da contra-revolução.


Mas sempre com o ar solene imperial.

sábado, 26 de dezembro de 2015

PAPA FRANCISCO: «AS ATROZES ACÇÕES TERRORISTAS» DOS OUTROS

1 –  Comovente, exclamam, embevecidos os crentes de seita, sobre as declarações do papa católico Francisco inseridas na sua mensagem de Natal, dia 25, que denunciou «as atrozes acções terroristas» e «a destruição do património histórico e cultural de povos inteiros».

Escusado será dizer que este coro é ampliado pelos grandes meios de comunicação social do chamado Ocidente, incluindo os piedosos portugueses.

O mesmo Francisco que lançou, na mesma ocasião, um apelo a favor das pessoas que fogem da miséria e dos conflitos e pediu, santeiramente, «abundantes benções para todos aqueles, quer sejam cidadãos e Estados, se empenham com generosidade a socorrer e acolher os numerosos migrantes e refugiados (...), ajudando-os a se integrar».

Claro que nesta ajuda desinteressada não contempla o Estado da Santa Sé, nem o dinheiro de um poço sem fundo que mergulha no sistema financeiro controlado pelo Vaticano. 

2 – Estarrecedor é o lado negro dos negócios terrenos armamentistas do Papado romano, lado esse que os santeiros vaticanistas, embrulhados na metafísica da religião boazinha, procuram fazer esquecer nas mentes dos +pecadores+, mas não deixam de engordar, sorrateiramente, à custa das «atrozes acções terroristas».

Os aviões de guerra da Finmeccamica

Desde os finais dos anos 50 do século passado, o Vaticano é o accionista de referência do grupo Finmeccanica, um mega-empreendimento industrial do armamento italiano, que se expande por todo o mundo. (Ver Nino Lo Bello, o empório do Vaticano, 1968).

Hoje, o grupo Finmeccanica enquadra os ramos da aeronautica /Alenia Aermacchi, ATR (50%), SuperJet International (51%), Eurofighter GmbH (21%)/; helicópteros /AgustaWestland, NHIndustries (32%), HeliVert (50%), Jiangxi Changhe-Agusta Helicopter (40%), Libyan Italian Advanced Technology (25%)/; espaço / Telespazio (67%), Thales Alenia Space (33%),NGL Prime (30%)/; defesa e segurança, /DRS Technologies, Selex ES, Eurotech/; sistemas de defesa /Oto MelaraWhitehead Sistemi Subacquei, EuroTorp,MBDA (25%), Eurosam (33%), EuroSysNav (50%)/; transporte e construção/  AnsaldoBreda, Ansaldo STS (40%), BredaMenarinibus), FATA/.

A empresa tem escritórios em mais de 100 países.

É a terceira maior holding europeia de material militar, logo após a BAE Systems, do Reino Unido e Airbus, da França.


Esses interesses pela indústria do armamento atravessam o Atlântico e estão nos Estados Unidos da América, onde a estrutura accionista das empresas Boeing, Lochheed, Douglas e Curtis Wright tem uma percentagem significativa da Santa Sé (Ver Avro Manhattan, em *The Vatican Billions*).




terça-feira, 22 de dezembro de 2015

BANIF: PORQUE NÃO A NACIONALIZAÇÃO OU A FALÊNCIA?

1 – Nos últimos dias, *a salvação* do banco BANIF está na ordem do dia da comunicação social portuguesa.

O actual primeiro-ministro, António Costa, em declarações  solenes de pose, na noite de segunda-feira, afirmou mesmo, no final de uma reunião entre os seus ministros e, eventualmente, banqueiros (não sabemos com que se encontrou, pois não explicou): salvar a actividade do BANIF exigiu o avanço de mais de 2,25 mil milhões de euros, dos quais 1,76 mil milhões chegam directamente pelo Estado, o que vai elevar para 2,4 milhões de euros a factura passada aos contribuintes (DN 20 Dez).

Mas qual a pressa em *salvar* o BANIF?.

O *interesse público*, preconizado pelo actual governo?.

Balelas.

A questão é, pois, a *salvação* do capital financeiro. Não só português, mas acima de tudo europeu.

E não venham com argumentos do «mal menor» e das restrições provindas de Bruxelas.

Lá, como cá, o que se deve por em causa é o domínio do lumpen grande capital financeiro especulador. 

2 – O que este processo de «salvação» bancária veio mostrar à saciedade, ao longo destes últimos anos, é que o domínio do poder político está nas mãos de um sector específico da grande burguesia: a financeira.

E o actual governo se realmente estivesse interessado em colocar em marcha uma verdadeira política de esquerda, não submissa ao capitalismo de Bruxelas, colocaria apenas uma de duas hipóteses: ou nacionalizava o BANIF e, em seguida, o Novo Banco, ou deixava que o primeiro ficasse entregue ao seu destino, sem recapitalização, o que levaria aquele capitalismo a inverter toda a sua arrogância perante o Estado.

E colocaria os tiranetes de Bruxelas no seu devido lugar.

Certo. Mas quem emprestaria depois o dinheiro? Questionariam os habituais propagandistas do poder capitalista.

O actual governo, se quisesse comportar-se como anti-capitalista, com os próprios partidos ditos de «esquerda» que o suportam, tinham a seu favor a força dada pelo capital político que ganharam: teriam de actuar, pois, em posição de força e, se assim fizessem, obrigariam a burguesia financeira, para sobreviver no mínimo, a reforçar os bancos públicos, e deste modo, a reforçar o controlo estatal de todo o sistema bancário.

Como não vão fazer isso, terão de se submeter aos ditames do poder dominante. 

O défice publico vai aumentar, os impostos e taxas sobre os trabalhadores vão crescer.

E se tal ocorrer o sonho de um «governo de esquerda» transformar-se num pesadelo semelhante ao da Grécia actual.




sábado, 19 de dezembro de 2015

FRANÇA: A FRENTE NACIONAL É UM PARTIDO CAPITALISTA, NÃO UM ABCESSO EM DEMOCRACIA

1 – As cabeças bem pensantes da Europa ficaram sideradas com a possibilidade de o partido fascista francês Front Nationale (FN) vir a ser a formação dominante em vários governos regionais daquele país, após os resultados eleitorais do passado domingo.

Pateticamente, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, acenou com o espantalho da guerra civil no caso de vitória do FN, como se essa ilustre personagem – e a direcção do seu partido - se fosse colocar na primeira linha de combate contra o avanço eleitoral da Front Nationale.

Os políticos instalados nos diferentes países da União Europeia sabem – e muito bem – que o incremento do fascismo, que está a medrar por via eleitoral, não é produto de um *acidente* que está a ocorrer em França, mas instalou-se no próprio aparelho de Estado dos mesmos países, com a própria cumplicidade de senhores *socialistas*, como Manuel Valls.

Meses atrás, na Polónia, um partido abertamente fascista, anti-europeista, fervorosamente fanático reaccionário católico e xenófobo, como «Lei e Justiça», do discípulo do falecido Papa João Paulo II (convém não esquecer este facto) o ex-primeiro-ministro Jarosław Kaczyński, ganhou as eleições legislativas, com maioria absoluta, sem qualquer contestações institucional de envergadura.  Nem do senhor Valls.

A liderança do Partido Lei e Justiça

Aliás, além do citado, a vida política polaca é, ainda, dominada por vários partidos reaccionários católicos capitalistas, que procuram tornar clandestina qualquer formação política que se intitule anti-capitalista.
Igualmente, na Finlândia, é um partido fascista que lidera o governo os «Verdadeiros Finlandeses», em aliança com os capitalistas conservadores.

Na Letónia, também o partido fascista «Aliança Nacional» faz parte da coligação com dois partidos conservadores «Unidade» e «União dos Verdes e dos Agricultores».

2 – A questão que se põe é esta: aparecem os partidos fascistas do nada, para serem +mauzinhos+?

Os partidos surgem da sociedade e representam interesses classistas ou de fracções de classes da mesma.

Desde que o capitalismo ganhou foros de cidadania plena, com a grande industrialização mundial depois da I Grande Guerra, que se estendeu, principalmente, para a América do Norte, as crises que o acompanha tornaram-se cada vez mais frequentes, mas também, nas últimas décadas, em tempos sempre mais curtos. E acima de tudo, elas são mais profundas.

No estertor final da I Grande Guerra, confrontado com a vitória da Revolução Soviética em Outubro de 1917, o capitalismo enfrentava um novo modelo de sociedade, que a vingar e a estender-se, à parte europeia mais industrial e produtiva, o poderia destruir rapidamente.

E agiu, rapidamente, em duas direcções:

O financiamento de uma coligação armada poderosa, que destruiu, em grande parte, a estrutura produtiva incipiente do novo país nascente, que se veio a chamar União Soviética;

o apoio financeiro classista e incitamento à formação de partidos e formações políticas abertamente reaccionárias em países, como Alemanha, França, Espanha, Itália, Portugal, Hungria e Roménia.


Partido Nacional Socialistas dos Trabalhadores Alemães em 1922

Os partidos fascistas não se apresentam perante as sociedades como formações adeptas abertas de uma intervenção violenta a favor do capitalismo.

Pelo contrário, em palavras até se dizem anti-capitalistas.

Com propostas de intervenção política diferenciada, por vezes, aparentemente incoerentes, mas assentes em objectivos precisos: impedir o ascenso do «socialismo e comunismo», formar «Estados fortes», «acabar com a luta de classes», militarizar a sociedade.

Assim sucedeu com o partido fascista de Mussolini, ou o partido nazi de Hitler, ou com a falange espanhola, que alçou Franco ao poder.

3 – Historicamente, desde as primeiras décadas do século passado, o ascenso dos partidos fascistas está ligado às profundas crises que o capitalismo atravessa.

Enquanto o desenvolvimento capitalista flue, normalmente, nas suas transações de mercado, levando a uma expansão sem sobressaltos, a sua gestão política é assegurada, com sucesso, por entidades partidárias «socialistas», «sociais democratas» ou mesmo «conservadoras democratas».

É, pois, nos períodos de estagnação capitalista, em alturas que a possibilidade de se abrir vias de mudanças políticas profundas, mesmo revolucionárias, que o capital usa as suas entidades políticas extremas para conseguir manter o seu domínio.

Não se coíbe, portanto, para tal, de fomentar a militarização da sociedade, como sucedeu com a Alemanha nazi, a Itália fascista ou o Japão monárquico-medieval de 1939.

Hoje, a situação torna-se mais grave para o sistema capitalista.

As forças produtivas que se agigantaram nas últimas décadas estão em fase de travagem pelas relações de produção existentes.

A crise financeira de 2007, iniciada nos Estados Unidos da América, veio mostrar qual profunda era a crise económica e social mundial nos dias de hoje. É problema que se alonga pela Europa, pela Rússia, China, Brasil.

Perpassa pelos diferentes continente, onde a capacidade de mercadejar está em concorrência inaudita entre potências: umas que se afundam, caso dos EUA, outras que pretendem ocupar o seu lugar, como Rússia e a China.

Ora, tudo isto sucede dentro de um quadro económico extremamente preocupante e explosivo: os índices de desemprego são astronómicos e cada vez mais permanente.

A técnica e a ciência que se desenvolvem estão a fazer-se com menos emprego, cada vez menos, e mais degradante.

As sociedades estão em crise continuada de superprodução, sem escoamento mercantil.

O capitalismo está a ter a percepção que a encruzilhada não está a desaparecer.

4 – Voltemos à Frente Nacional.

Como vai ganhando espaço político?: Afirma-se em luta contra o sistema existente, embora, como lhe convém, seja ambígua sobre a forma real de poder que pretende.

Adopta um vago «nacionalismo», explora as contradições entre trabalhadores que já trabalham e aqueles +estrangeiros+ que procuram melhoria da sua vida.



São firmemente contra o «socialismo» e o «comunismo» que procura identificar com o capitalismo de Estado da antiga era soviética russa e o da actual República chinesa.

Mas, acima de tudo, propagandeiam a necessidade de *solidariedade nacional*, a favor de impostos baixos.

A FN diz-se ainda favorável à simplificação fiscal, e, afirma mesmo defender impostos para mais ricos, entre outros itens.

Ou seja, aparentemente, se isoladas do seu contexto de poder, poderiam ser subscritas por um partido de revolução.

A questão está, pois, aqui: não existem partidos a propor um poder revolucionário, mas a defender a vacuidade de uma democracia dentro do actual sistema.