sábado, 2 de julho de 2016

EUA: OS CANDIDATOS FORA DO SISTEMA MOSTRAM QUE A RECESSÃO CONTINUA

1 – Façamos uma reflexão.

Qual a razão (ou razões), porque aparecem candidatos presidenciais nos Estados Unidos da América com larga aceitação popular, aparentemente, fora do controlo dos dois grandes partidos do regime, os democratas e os republicanos?

No seguimento da questão anterior, porque será que entre os republicanos a *elite do partido* aceita Donald Trump, um multimilionário vigarista, racista, *nacionalista*, e entre os democratas permitem que o debate de ideias se faça em torno do programa de um senador *marginal*, Bernie Sanders, que se filiou naquele partido para puder concorrer, e que preconiza, nomeadamente, o *socialismo* e a *revolução*.

E que o próprio Presidente em exercício, Barack Obama, um homem elevado ao poder por Wall Street, o receba e afirme que as suas propostas são válidas?

2 – Tem de se olhar para o estado da economia norte-americana e para a verdadeira situação social das classes trabalhadoras daquele país.

A pobreza (privação de dinheiro ou alimentos) cresceu de maneira evidente nos EUA desde a crise financeira de 2007/2008.

São as estatísticas oficiais que o confirmam: actualmente, atingem as 50 milhões de pessoas.



Em 2011, a pobreza cresceu para 46 milhões de pessoas. Um ano antes foram contabilizadas 43,6 milhões.

Em 2008, o nível de pobreza situava-se nos 39,8 milhões (13,2 %). Em 2000, essa percentagem situava-se nos 12,2 %.

Segundo o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) com referência a 2000, os EUA tinha naquela data, uma população entre os 16 e 65 anos que supera os 20% considerada anafabeta funcional (superior aos principais países ditos ocidentais), valor este que cresceu grandemente nos 15 anos seguintes.

Desde os anos de 1995-2000, o incremento dos salários – em particular entre os mais desfavorecidos, hispânicos, negros, brancos operários, decresceu, constantemente, estagnando, mesmo em períodos, como 2004, em que, oficialmente, se afirmava que a economia estava a crescer.

Esta já era a realidade norte-americana, quando o grande capital financeiro, instalado em Wall Street, lançou o país na pior crise económica que se mantém, apesar de todas as promessas e estatísticas enquadradas que pretendem mistificar.

3 – Em 2009, os senhores de Washington e Nova York, gritaram a plenos pulmões: grande recessão acabou oficialmente.

(Diziam isto à descarada, quando se contabilizava que, em 2008, nos EUA 463 bancos foram à falência!!!).

Com maior ou menor sonoridade, os grandes órgãos de comunicação social, bem como a Administração e o banco central (Reserva Federal) anunciavam ao aparente mínimo vislumbre de recuperação: o navio está a entrar nos eixos.

Depois a realidade.

Em 2016, logo, portanto, agora, o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos cresceu 0,5%, em dados anuais, segundo divulgou a Secretaria do Comércio do país, na sua primeira estimativa.



A este respeito, estamos a falar com dados oficiais, nos três últimos meses do ano passado, o incremento era bem maior, 1,4%.

Ou seja, a estimativa oficial para 2016 era de 0,7%.  Lógico, a recessão continua.

A economia em declínio persistente é a principal «base» explicativa da luta política que decorre nos Estados Unidos.
E esta discorrência pressupõe uma clivagem ideológica, muito obscura é certo, mas existente.

Certamente, não será a finalização da campanha eleitoral e a posterior eleição que vai levar a uma pacificação da sociedade.

Vão continuar os sintomas de crise social, possivelmente, irão crescer até face ao alastramento da crise económica mundial.

Os tempos são de mudança.

4 – Os candidatos que se apresentaram como representantes defensores visíveis do sistema, o chamado *centro*, quer do lado republicano (Cruz, Rubio, Jed Bush) quer democrata, incluindo Clinton (embora ela seja a escolhida, mas sem ideias), saíram derrotados ou enfraquecidos.

As ideias dos *democratas* - Obama dixit – estavam na candidatura de Sanders.

Trump, um homem da elite financeira norte-americana, demarcou-se, cinicamente, da mesma, alegando que esta – frisou «de que fiz parte» - era a responsável pela crise duradoura que atravessa a sociedade norte-americana.

Nada mais produziu ao nível de ideias e de propostas políticas, mas sob a sua liderança formou-se uma grande facção da classe média – branca, mas também negra e hispânica  -atingida fortemente pela especulação – imobiliária, de consumo.

Sanders foi mais contundente. Apresentou um programa político mais elaborado: mudança de poder político, ataque ao poder financeiro (encostou, totalmente, Hilary Clinton a Wall Street, ao militarismo imperial), reivindicações sociais (saúde, educação, trabalho)

É, pois, a persistência de uma crise profunda que está a despertar a sociedade norte-americana. E essa crise que permite que ideias até agora ostracizadas como de revolução e socialismo sejam +sufragadas+ no próprio debate das candidaturas presidenciais.

Em certo sentido, e de certa maneira, Trump e Sanders – naturalmente, cada um sob pontos de vista ideológicos diferentes – estão a fazer a crítica ao actual capitalismo norte-americano.

Trump alardeia que deseja uma +mudança+ no regime, tornando-o mais +forte+, ou seja governar esse mesmo capitalismo sob métodos nazi-fascistas.

Sanders quer incluir o seu (ou parte) programa na candidatura de Clinton (claro que é uma infantilidade), pensando que é possível fazer a revolução dentro das instituições capitalistas.

Claro que as classes trabalhadoras irão participar de pé atrás nestas eleições, e até nelas não participar.

Há um despertar de consciências,  os próximos tempos vão indicar se a experiência da busca da «revolução» e do «socialismo» irá ter continuidade na luta social.

Poderá haver uma espécie de adormecimento, logo após o acto eleitoral, mas as indicações dadas pelas primárias, a nível de mobilização, em especial em torno de Sanders, parecem mostrar que um grupo renovado de militantes procura uma via de ruptura dentro da sociedade norte-americana.


terça-feira, 21 de junho de 2016

A UE NUMA ENCRUZILHADA: OU REGRESSO AOS NACIONALISMOS OU REVOLUÇÃO

1 – A União Europeia (UE) está a viver um período de turbulência, de desnorte e evidente mostra de incapacidade dos seus dirigentes em responderem ao anseio dos povos por uma nova orientação democrática e de inverter o domínio do capital financeiro sobre todas as esferas da produção.

A turbulência na UE está directamente ligada à crise financeira de 2007/08, iniciada nos Estados Unidos daAmérica, que, de imediato, foi empurrada para a UE, ficando encarcerada e enlameada, chupada até ao tutano, pelo grande capital financeiro, sediado em Wall Street.

Floresceu, desde então, em roda livre, o «reino dos mercados».

Ora, esse reino é, nada mais, nada menos, o reino do capitalismo financeiro centrado no eixo Wall Street/City londrino.



Este capital que domina todas as alavancas do poder sofreu um choque terrível quando se confrontou com uma crise de tal envergadura que está a colocar em causa a sua própria sobrevivência.

No mundo actual, os centros de poder económico diversificaram-se e caminham, também, para se tornarem, - através da força desse seu poder, reforçadas com parcerias estratégicas territoriais, logo em zonas de comércio multinacional, - em «postos avançados» de emissão de moeda, com capacidade de rivalizar, principalmente, com o dólar. 

Logo, na busca de «espaços económicos» para conquistar e manter, numa divisão de zonas de influência que pensam enquadrar.

Como se reflecte essa crise, a dispersão multipolar de centros de geoeconómicos e geopolíticos e o ascenso de nacionalismos fascistas, na unidade europeia e, acima de tudo, na turbulência que atravessa?

2 - A unidade europeia foi um processo que decorreu relativamente bem, em cooperação entre Estados, com a formação de um território contínuo desde Portugal até às fronteiras russas, com mais de 500 milhões de pessoas.

E isto até se tornar um potentado económico.

E o processo avançou, porquê?

Porque a experiência histórica europeia mostrou que as guerras entre potências e povos, retalhamento de Estados, desprezos solenes dos «suzeranos» pelos sentimentos nacionais teriam de ser invertidos.

Acima de tudo, porque a burguesia europeia adquiriu a plena cidadania, sabendo que para vingar teria de ultrapassar os condicionalismos das restrições económicas e políticas que as fronteiras nacionais impunham.

O ensinamento histórico central desde o século XII, curiosamente a partir do condado portucalense até ao reino de Portugal e dos Algarves, com mais ou menos sequências na maior parte do espaço europeu nos sete séculos seguintes, ditam-nos que a organização estatal que se coaduna com o avanço económico e social da Europa está ligado à formação de Estados extensos em território, alicerçados já na nacionalidade, e, não em pequenos condados, ducados e pequenos reinos, entraves à circulação mercantil.



Na realidade, foi, precisamente, com a criação de grandes Estados, mais ou menos centralizados, que o capitalismo se enraizou rapidamente na Europa, e, de certo modo e em certo sentido, permitiu a expansão extra-europeia, com a criação do mercado mundial.

Com avanços e recuos naturalmente, a constatação da experiência histórica era evidente que foram a criação e solidificação desses Estados que permitiu o estabelecimento dominante político da burguesia na Europa.

O avanço para a cooperação harmónica transfronteiriça europeia advem – melhor dizendo – está intimamente ligado à necessidade de estabelecer a paz nesse enorme espaço dilacerado por guerras, mas também por nacionalismos tacanhos.

Tal não pode significar desprezo pelos sentimentos nacionais, mas limitar, e, se necessário expurgar os atritos e conflitos provocados pelos nacionalismos irracionais para forjar uma nova entidade supranacional que sirva, principalmente, os interesses das classes trabalhadoras.

Temos de entranhar nas nossas mentes:
a organização estatal europeia, agora ainda nas mãos da burguesia, serve como rolo compressor para se vir a estabelecer o poder das classes trabalhadoras.

Se não ultrapssarem o estigma cego do nacionalismo, as classes laboriosas, necessariamente, serão enredadas nessa retrógrada orientação.

Uma coisa é exigir democracia, marcar autonomia própria na gestão nacional, outra coisa é fechar o Estado nas barreiras das fronteiras e das moedas nacionais.

3 – Quando, no final do século XX, a Europa iniciou o seu caminho para a unidade política confluíram diferentes divergências numa amálgama de contradições.

Estas pressagiavam que, além dos escolhos internos, se estavam a forjar, principalmente, inimigos externos.

E, assim, sucedeu.

O que levou à situação actual.

Quando a UE avançou para a criação de uma moeda única, e, em simultâneo, para a elaboração da sua estrutura política, adquiriu o estatuto de principal potência comercial do Mundo.

/Dados da UE. Actualmente, dos 28 Estados-membros da União Europeia, 19 adoptam o euro como a moeda oficial. A população total da Zona Euro supera os 323 milhões de habitantes.
Apesar da turbulência e da desaceleração económica, o euro é ainda usado por mais 210 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais 182 milhões em África que utilizam moedas de câmbio fixo em relação à moeda europeia.
O euro é a segunda maior moeda de reserva e a segunda moeda mais transacionada no mundo depois do dólar norte-americano.
A UE é a maior economia do mundo, representando mais de 20 % do produto interno bruto mundial (PIB). Graças à dimensão do seu PIB (14 biliões de euros) e à abertura do seu mercado interno, cujas exportações representam 2.415 mil milhões de euros e importações representam 2.188 mil milhões de euros. 
A Europa é a maior exportadora de bens e serviços do mundo e ela mesma é o maior mercado de exportação para cerca de 80 países. As trocas comerciais entre a UE e o resto do mundo atingiram 3 421,6 mil milhões de euros em 2013/.

Adquiriu a auréola de nova unidade económica em ascensão e o euro, como moeda forte, transformou-se em *chamariz* atractivo para os países, principalmente, produtores de matérias-primas, que queriam fugir ao controlo imperial do dólar, e, consequentemente, dos Estados Unidos da América.

Agigantava-se, economicamente, mas, na geopolítica mundial, tinha (e tem) um calcanhar de Aquiles que a tolhe: a inexistência de uma força militar única (e a consequente diplomacia unificada) para impor uma política própria.

Mesmo assim, a UE tornou-se paradigma para a constituição de novas formações estatais transnacionais, como o MERCOSUL, que, ao iniciar o seu processo, tentava justamente afastar-se da vassalagem ao dólar e a Washington. E efectuar uma parceria estratégica com a Europa…

O euro atraiu países produtores de petróleo, como o Iraque, o Irão, a Líbia, e mesmo africanos, como, curiosamente, o Zimbabué (diamantes) como possível moeda forte para contornar a asfixia do dólar.

A ascensão da UE como grande economia mundial e com uma moeda de referência que começava a atrair os países do petróleo lançou Washington para uma campanha desenfreada para reaglutinar o seu espaço de influência directa: a Europa e a América Latina.

Os resultados estão à vista.

Não só nesses dois continentes, mas no imenso território da produção petrolífera do Médio-Oriente.

Claro que a Rússia, como potência militar vizinha, e em fase de relançamento económico, também, procura influenciar – e até imiscuir-se -na unidade europeia. Mas não é, neste momento, o principal escolho externo. Tem interesses económicos imediatos no espaço europeu.

4 – Quando a UE deveria estar a impor-se pela exportação e pelo incremento da sua moeda face ao dólar, os EUA lançaram-lhe a crise financeira para cima e impuseram-lhe os alargamentos sucessivos da NATO.

E isto porque não tinha a seu favor uma diplomacia e um exército unificados como arma da sua política externa.

Claudicou.

Com a crise surgiram os velhos «demónios» europeus.

A grande burguesia financeira da Europa, com a corda ao pescoço sob o espectro de ser varrida da História, procura, pelos seus particularismos, agarrar-se a tábuas de salvação, fomentando, através de suas facções, os radicalismos nacionais.

O exemplo mais flagrante é o do Reino Unido e a defesa da sua moeda, da sua «identidade», como se a monarquia dos Windsor fosse uma nacionalidade única.

Claro que eles estão a alimentar uma realidade que entra pelos olhos dentro: desde a primeira crise de 2002, que precedeu e preanunciava a de 2007/08, os homens do capital financeiro que geriu os interesses de cada Estado deitaram às urtigas a cooperação harmónica europeia e governaram, e governam, em função do «mais forte», menosprezando inteiramente os sentimentos nacionais dos outros Estados.

Enredaram nesta teia as classes trabalhadoras.

Quanto desperdício de dinheiro, quanto desperdício de energia se tem consumido nesta década nestas mesquinhas intrigas e na vassalagem ao capital financeiro de Wall Street!!!



5 – Claro que para se vencer esta fase do avanço europeu,  o caminho não pode ser trilhado pelo domínio do capital financeiro, nem da submissão, é necessário um novo poder político. Uma Revolução europeia.


E nesse sentido somente pode ser conseguido pela entrada em força na vida política de uma unidade das classes trabalhadoras da UE.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

ESTÁ AÍ, NOVAMENTE, O FANTASMA DO COMUNISMO

1 – Nunca, como hoje, desde há várias décadas, se fala e escreve sobre «o regresso do comunismo».

Numa retrospectiva, retoma-se o «papão» do sovietismo, claro que não nos termos extremamente arrebatados que o sistema capitalista lançou, inclusive, recorrendo à guerra, quando vingou a Revolução soviética em 1917.

Mas porque este alarido do sistema capitalista, através dos seus agentes e intelectuais enquadrados nos grandes meios de comunicação social?

Na actualidade, as relações de produção burguesas encontram-se numa crise de tal envergadura que está a abalar, até aos alicerces, todo o sistema capitalista, ao mesmo tempo que as forças produtivas, que evoluíram dentro da mesma sociedade, fomentaram tais condições materiais que se vislumbra um caminho para a resolução desta contradição.

Desde 1917, decorreram, praticamente, 100 anos.

Este período longo, enquadrado, do ponto de vista político, por prolongadas e sangrentas contra-revolucões, mas também de lutas revolucionárias, modificou e fez evoluir, por vezes em marchas forçadas, incluindo a própria União Soviética e a China Popular, a penetração do capitalismo em todos os países e nações da Terra.

O que mais está a *marcar* os últimos 30 anos do desenvolvimento económico e social, é, justamente, o incremento das forças produtivas.

Ora, é este facto que está a preocupar a grande burguesia, em especial a financeira, pois não está em condições materiais de resolver a situação.

Aproxima-se, portanto, uma época de convulsão política, que se pode transformar em ruptura radical com o sistema político vigente.

2 – A revolução soviética de Outubro de 1917 surgiu num período de incremento do capitalismo na Europa e na América do Norte, em que se colocava a questão do poder socialista, e isto a partir da experiência jugulada, sanguentamente, da Comuna de Paris em 1871.

Esta colocou, pela primeira vez, na História, as reivindicações proletárias, instituiu formas de novo poder político, de salariato, de organização da saúde, de ensino, de relações entre o Estado e as superestruturas jurídico e religiosas.

A Comuna foi derrotada e o período seguinte de várias décadas foi de profundo retrocesso contra-revolucionário, mas a experiência, que começou a ficar entranhada na consciência do activismo político, estava marcada por um programa de Revolução social.

Assim sucedeu na própria Rússia czarista em 1917.

A Revolução de Fevereiro de 1917 trouxe o afastamento do czar e o surgimento da República. A deposição de Nicolau II produziu na sociedade duas formas de governo: o provisório, parlamentar e capitalista, imperialista na sua essência porque defendia a continuação da grande guerra de conquista, e o soviete de deputados dos trabalhadores e soldados de Petrogrado, que transportava as consignas revolucionárias da Comuna.

Esta via pelos sovietes ia buscar a experiência do passado, dentro do Império derrubado, à Revolução russa de 1905.

Ou seja, em Fevereiro de 1917, havia a perspectiva de uma mera mudança liberal dentro do mesmo regime capitalista que já imperava sob o absolutismo czarista.

Outubro exigiu uma mudança radical, profunda, da estrutura estatal.

Quem apresentava então o programa radical de mudança era o Partido Social-Democrata da Rússia (bolchevique).

A radicalização política, entre Fevereiro e Outubro, dos principais intervenientes, os operários e soldados, estes com ligações profundas ao campesinato mais pobre, entregou o poder aos sovietes e ao partido bolchevique que entretanto alcançou a maioria no interior daqueles.

O programa governamental posto na Rússia pós czarista levou à nacionalização dos meios de produção e distribuição e a perspectiva de uma mudança de vida dos povos aliciou os Estados que circundavam a Federação russa, permitindo a constituição de uma nova federação estatal em pé de igualdade, a URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Esta ruptura de transformação estatal abalou de tal maneira a burguesia internacional, que, em perfeita unanimidade, não teve pejo em intervir, militarmente, dentro da própria nova União Soviética.

A emergência, a partir da década segunda do século XIX, dos partidos pró-capitalistas de ideologia fascista ou nazista está, estreitamente, relacionada com o apoio que os capitalistas, desde os Estados Unidos da América à Alemanha, à Itália e ao Japão, deram a esses mesmos partidos.

3 – Porque faliu, então, a URSS e porque se manteve, tantas décadas no poder, uma estrutura estatal que se tornou abertamente contra-revolucionária com um programa revolucionário,  modelo esse que veio a ser seguido por outros Estados que entretanto passaram da revolução à contra-revolução?

A revolução soviética produziu, no seu início, o afastamento do monarquismo czarista e da burguesia que, já naquela altura, dominava o poder económico na Federação Russa.

Esse afastamento foi realizado com o apoio declarado do operariado e de uma parte esmagadora do campesinato.

De repente, em questão de meses, uma enorme massa popular estrangulada por um regime absolutista burguês deixou de ser dominada.

Os primeiros meses de uma revolução, apesar de cercada e atacada do ferozmente do exterior, satisfizeram essa maioria popular.
Recebeu, pois, o apoio entusiástico do interior, mas não só: impulsionou os movimentos operários e revolucionários em todo o Mundo.

Todavia, a montagem de um novo poder de Estado embatia com uma União Soviética frágil, arrasada na sua produção e com um incipiente e enfraquecido desenvolvimento económico que se debatia, além do mais, com o cerco erguido pelas potências capitalistas que lhe restringiam o acesso ao comércio exterior.

O desmantelamento do Estado capitalista czarista ficou, deste modo, nas baias do capitalismo de Estado, que o próprio Lénine, o Presidente do Conselho de Comissários do Povo da União Soviética, definiu. Nunca mais ultrapassou essa fase.

Para conseguir consolidar uma via socialista, o novo Estado soviético teria de contar com o apoio de revoluções socialistas no Ocidente, que desarmassem o poder do capitalismo mais avançado e pujante que existia nessa parte do Mundo.

Tal facto não sucedeu e a revolução socialista russa estava, assim, destinada a soçobrar.

A maioria popular que derrotou o czarismo e que apoiou, energicamente, os primeiros anos do novo poder soviético, foi-se restringindo.


A minoria dirigente que se enquistou no controlo do Partido bolchevique, sob a liderança do secretário-geral Josef Stáline, que sucedeu a Vladimir Lénine, modelou o novo Estado a um desenvolvimento económico sob capitalismo de Estado, com um braço de ferro repressivo.

Claro que não se manteria no poder se não tivesse contribuído, durante um largo período de tempo, para uma melhoria da situação económico-social das massas populares.

E fê-lo sempre, mesmo quando aplicava métodos repressivos extremos, sob as consignas da velha Revolução soviética.

Essa minoria no poder conseguiu fazer crer, já com o apoio passivo dessas classes trabalhadoras, que geria o novo poder de Estado como seu representante, e com a bandeira do comunismo.

A longevidade do modelo soviético de capitalismo de Estado, com as bandeiras comunistas - um embuste com dezenas e dezenas de anos – explica-se, também, em parte, porque foi praticado noutros grandes Estados, em particular, na China, também ela, em 1949, uma instituição estatal de pré-capitalismo que, no processo revolucionário, que se seguiu, evoluiu para o capitalismo de Estado ainda vigente no país, embora já numa fase de consolidação do capitalismo financeiro desenfreado que predomina no Ocidente. 

3 – A Revolução soviética de 1917 rebentou, precisamente numa altura, em que a Europa e os Estados Unidos da América, e, em grau menor a Rússia czarista e parte da própria Europa de Leste, eram percorridos por uma revolução industrial monumental. E esta última revolução trouxe para a agenda política as relações classistas extremadas.

Era, precisamente, na Rússia imperial que, com o início do incremento industrial, se começava a desenvolver uma burguesia e despontava um proletariado, surgido, em grande parte, da destruição do sistema produtivo artesanal. A grande guerra de 1914 exacerbou um mal-estar social já existente.

O turbilhão da revolução soviética entra no bojo de uma contradição que não conseguiu resolver, porque, como atrás referimos, para o fazer era essencial e determinante que houvesse o apoio de revoluções ocidentais.

Desde a segunda metade do século XIX, o desenvolvimento económico capitalista estava em crescimento.

Ou seja, as relações de produção capitalistas ocidentais estavam em expansão, montadas nesse desenvolvimento económico e na prosperidade industrial.

Além do mais, embora já não houvesse uma grande dispersão de programas revolucionários socialistas, e, apesar de se ter lançado ainda no século XIX, uma estrutura programática partidária mundial, a I Internacional Comunista, para dirigir o combate político classista das classes trabalhadoras, o que é certo é que, na primeira década do século seguinte, eram incipientes ou mesmo inexistentes os partidos com programas comunistas.

Os partidos que vieram a intitular-se comunistas na Europa ocidental e EUA mais industrializados na altura nasceram todos depois da Revolução soviética e sob a supervisão programática do Partido Comunista da União Soviética.

(Os Partidos Comunistas da Alemanha em 1918, dos EUA em 1919, de França e Espanha, em 1920 e Italiano em 1921).

Ora, estes partidos comunistas ocidentais foram moldados pelo programa da III Internacional, organizada a partir de Moscovo, o que implicou a submissão à chamada ideologia marxista-leninista e aos ditames da aliança operária-camponesa, que levava uma distorção evidente dos ensinamentos de Karl Marx e Frederico Engels sobre o papel classista do proletariado face ao campesinato.

Havia, pois, uma diferença evidente de desenvolvimento social entre a nascente União Soviética e a Alemanha, a França e a Inglaterra, onde já, nestes Estados ocidentais, *reinavam*, por um lado, uma burguesia industrial implantada e em crescendo e, por outro, um proletariado, produto de uma grande indústria.

Ou seja, enquanto a Rússia continha em 1917, um proletariado pouco desenvolvido – não haveriam mais de 10 milhões em toda a enorme extensão do novel país – e uma imensa mole humana camponesa, no Ocidente industrializado o campesinato estava em regressão e a indústria (e com ela a sua burguesia) dava cartas de alforria e de poder há quase um século.

As derrotas contínuas das revoluções de modelo soviético no mundo entre 1917 e 1958 (a última foi a experiência cubana) trouxeram desorientação e dispersão sobre o programa que deve ser alçado para atingir o objectivo de alcançar um novo poder socialista.

Embora com certa frustração, o certo é que as classes laboriosas sempre lutaram, apesar dos condicionalismos pela transformação societária. 

Muito sangue tem sido derramado nestas batalhas.

A experiência acumulada dos fracassos tem ditado que uma revolução, como a socialista soviética, que foi alcançada, praticamente, como um ataque de golpe de mão popular, não deverá ser possível na actualidade.

Hoje, o amadurecimento das condições objectivas é muito maior do que há 100 anos, mas as condições subjectivas exigem um progresso organizado multinacional.

Não se podem encerrar os processos de luta no âmbito de um Estado e unicamente na *defesa dos interesses nacionais dos trabalhadores*.

Tal como a burguesia capitalista procura alargar o seu espaço de poder, ultrapassando as fronteiras nacionais e continentais, através de tratados legais de *livre comércio*, também as classes trabalhadoras têm de forjar a sua liberdade de organização em todo um grande espaço sem fronteiras.

E essencialmente forjar um programa revolucionário, através de uma crítica elaborada e fundamentada ao modelo marxista-leninista.


domingo, 22 de maio de 2016

BRASIL, ALÉM DO GOLPE -QUEM PERMITIU O AFASTAMENTO DE DILMA ROUSSEF?

1 – A Presidente eleita do Brasil, Dilma Roussef, foi afastada, temporariamente, do cargo que ocupa, através de um acto de destituição empreendido pelo Presidente da Câmara dos Deputados do país, entretanto afastado, Eduardo Cunha.

Roussef foi suspensa com a alegação de ter praticado «um crime de responsabilidade» na gestão do Orçamento de Estado, ou seja, concretamente, na aplicação administrativa das verbas públicas.

A acção, que começou na Câmara dos Deputados, foi levada em seguida para o Senado, o órgão eleito com capacidade jurídico-política para decidir sobre a destituição, primeiro temporária, depois definitiva. 

Entre a suspensão temporária e a eventual definitiva passam seis meses, sendo que nesse período o vice-Presidente exerce o cargo de Chefe de Estado, com um governo interino.

Então o que permitiu, em poucos meses, após a reeleição de Dilma Roussef, com amplo apoio popular, ser afastada pelos próprios órgãos parlamentares, sendo que a maioria a apoiava?

O Partido dos Trabalhadores (PT), sob cuja sigla foram eleitos Lula da Silva e Dilma Roussef,  surgiu no rescaldo da ditadura militar que governou o Brasil desde 1964. Foi fundado em 1980 e legalizado em 1982.


O PT agrupou, no seu início, uma base sindical operária aguerrida, que se formou nas grandes greves dos centros industriais a partir dos anos da década de 70 do século passado, entre os quais o próprio Lula da Silva, e, activistas ligados aos grupos de guerrilha urbana, ex-presos políticos e exilados, entre os quais Dilma Roussef, José Dirceu e José Genoino, bem como «católicos progressistas» provenientes da Teologia da Libertação e ainda intelectuais e artistas de renome no país.

O desbravar do movimento sindical classista durante a ditadura militar teve no seu bojo e cresceu como crítica prática ao sindicalismo reformista praticado pelos partidos comunistas existentes, o PCB (Partido Comunista Brasileiro) e o PC do B (Partido Comunista do Brasil), um de orientação pró-soviética, outro pró-maoista, levando à formação de uma nova central sindical, a CUT, despejada dos vícios do +entrismo+ nos sindicatos oficiais.

O nascimento do PT também se alimentou da crítica ao que classificou ser o reformismo dos velhos partidos, provindos das orientações da III Internacional, os mesmo PCB e PC do B.

Todavia, o seu programa ficou restringido a uma moldagem de *esquerda* dentro do novo regime parlamentar saído dos escombros da ditadura militar.

O PT assume-se como adepto do chamado +socialismo democrático+. Dentro da democracia.

2 – Foi com a governação do PT que se abriu caminho a alguns benefícios que favoreceram os sectores populares e as classes trabalhadoras, desde a instituição de um salário mínimo, desde a energia (Luz para Todos),  habitação social (Minha Casa, Minha Vida), cultura, ambiente, saúde, entre outros sectores.

Mas, enquanto se distribuíam umas +migalhas+ pelos mais pobres, os governos petistas entregaram, no entanto, a gestão financeira do Estado aos representantes do grande capital financeiro, que iam ocupando, paulatinamente, os bancos públicos, incluindo o Banco Central, bem como os ministérios das Finanças, Economia e Planeamento.

Pensavam que esta *cedência* apaziguasse os apetites das classes capitalistas.

Lula da Silva, como Presidente, escolheu Henriques Meyrelles, hoje Ministro das Finanças de Marcelo Temer, como Presidente do Banco Central do Brasil. 

Este, como banqueiro nas administrações de bancos nos EUA, durante 20 anos, assumiu inclusive a Presidência do Conselho de Administração do potentado Global Banking do FleetBoston Financial. (Meyrelles é, ainda, hoje presidente do Conselho de Administração da J&F, dona do Banco Original, JBS, Vigor, entre outras empresas. É também membro do Conselho de Administração da Azul Linhas Aéreas).

Lula da Silva e Dilma fizeram ascender a cargos de ministros com a responsabilidade da economia homens ligados ao sistema financeiro, como Guido Mantega (ministro da da Fazenda, Finanças, em Portugal, ministro do Planeamento, Orçamento e Gestão do Governo), Joaquim Levy (Ministro das Finanças, que esteve no FMI, Banco Interamericano de Desenvolvimento e BRADESCO) e Nelson Barbosa, também nas Finanças que sempre conviveu com os bancos (Banco do Brasil 2009-2013 e Membro do Conselho de Administração da Vale S.A. 2011-13). E ainda passou pelo Banco Central do Brasil (1994-97) e Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social.

Ou seja, eram, realmente, representantes da grande burguesia financeira que dirigiam a administração do Estado, que, além do mais controlavam, e controlam, a opinião pública, através dos grandes meios de comunicação social, e determinam a estratégia do poder judicial.

Contou essa grande burguesia, na sua ânsia de enriquecimento, com uma chusma de dirigentes do próprio PT, alguns com passado de resistência à ditadura, mas que se prostituíram e participaram nas mais repugnantes fraudes, acompanhando o poder bancário num roubo descarado da riqueza do Estado, entrando, deste modo, no círculo dos crápulas e dos mafiosos que começaram a inundar todas as esferas do governo, do parlamento e do poder judicial.

3 – O ascenso ao poder político no Brasil de um partido com uma base operária e aureolado por um estatuto de progresso democrático revolucionário não desbravou caminho para uma mudança radical do regime político.

Nem trouxe conquistas reais para a emancipação das classes trabalhadoras.

A mudança política dentro do regime brasileiro com a subida do PT ao poder há 12 anos não conduziu, portanto, a um avanço revolucionário.



Pelo contrário, a submissão ao grande capital que a aquele partido permitiu, levou a que se formasse dentro mesmo do governo, e, essencialmente, nos organismos parlamentares (Câmara dos Deputados e Senado) uma forte corrente de cariz contra-revolucionária, abençoada pelo capital financeiro, em particular o de Wall Street.

O retrocesso político no Brasil, mas não só, igualmente noutros países, como a Venezuela, foi aprofundado, precisamente, devido à recessão económica mundial, que alastra desde 2007/2008.

Ora, esta recessão foi, justamente, provocada pela grande burguesia financeira internacional, que, no entanto, não teve uma resposta classista revolucionária que a responsabilizasse e pusesse em causa o seu domínio sobre a sociedade.

Todo o amortecimento da revolta foi conseguido pela existência no poder de partidos que se intitulavam de esquerda, como o PS francês, o Partido Democrático italiano, o PSOE espanhol, o PS português, o chavismo na Venezuela, ou o petismo no Brasil.

A continuidade sob umas «cores de esquerda».

Esta é a realidade: sem uma perspectiva de uma mudança revolucionária, sem a existência de um partido com esse programa, as classes trabalhadoras aceitam entregar o poder a quem lhes aparenta uma representação de mudança.

Desde os começos deste século, sabendo-se vulnerável, essa grande burguesia financeira fez-se governar sob uma perspectiva +vermelha+, apoiou, tacitamente, a chegada ao poder desses partidos ditos de esquerda.

Constatou, desse modo, que a governação capitalista poderia prosseguir, sem que os de baixo entrassem na via revolucionária.

4 – A fase actual da evolução do poder a nível mundial passa por um período de avanço conservador contra-revolucionário, e, a grande burguesia financeira, acossada por uma crise profundíssima que coloca em causa a própria existência do regime capitalista, procura, desesperadamente, sobreviver exercendo o poder por métodos nazi-fascistas.

Os movimentos populares, que se levantam desde a  França até ao Brasil, contra a subversão reaccionária, são indícios de que os retrocessos conduzidos pelos partidos ditos de esquerda, que defendiam uma mudança radical dentro do actual sistema político, não abrandaram a chama de uma ruptura radical com o capitalismo.

A capacidade de influir nesse movimento para uma etapa mais avançada depende da capacidade dos seus líderes de se libertarem da influência programática dominante de que é possível derrotar o capitalismo dentro da democracia.

A constituição de um partido revolucionário, principalmente, a nível europeu, pode ser o caminho mais consistente para recuperar e levar as energias existentes entre as classes populares, para ultrapassar o rasto de derrotas sucessivas no seu seio desde o século XIX.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

O PODER MILITAR DE WASHINGTON ESTÁ A SER POSTO EM CAUSA

1 – Um frenesim de exercícios militares junto das fronteiras da Rússia e das águas territoriais da China, supervisionados pelos Estados Unidos da América, tem sido mostrado ao Mundo desde meados o ano passado.

Ao mesmo tempo, impulsionaram-se, na América do Sul, movimentos que destabilizaram alguns dos principais governos de países (Brasil, Argentina e Venezuela) que, de uma maneira ou de outra, estavam a tentar fortalecer, entre si, uma parceria de comércio livre dentro das fronteiras do espaço geopolítico daquela região do Globo.

Claro que, à superfície, esses movimentos continham, em grande parte, indícios de descontentamento popular e enquadravam, tanto na Venezuela, como na Argentina, actos eleitorais legais. A questão foi (e é) que o movimento político está centrado no exterior.

Paralelamente, surge um movimento diplomático vincadamente *imperialista* do Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, pressionando as assinaturas de *Parcerias/Tratados de Comércio e Investimento*, sob a liderança de Washington.

Essa mensagem está abertamente divulgada por Obama, num artigo que, recentemente, publicou no jornal *Washington Post*, onde ele sustenta, a propósito desses Tratados: «A América deve impôr as normas. A América deve decidir. Os outros países devem agir segundo as regras estabelecidas pela América e os seus aliados, e não ao contrário».

Mas, o porquê desse frenesim militar, dessa ameaçadora mensagem imperialista?

2 – A realização, a 9 de Julho de 2015, em Ufá, Rússia, da VII Cimeira dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), onde aqueles dirigentes deram um impulso institucional com a criação de um *Novo Banco de Desenvolvimento e do Arranjo de Reservas*, para «apoio financeiro recíproco, como um passo importante na cooperação financeira de nossos países», em concorrência directa com o FMI e o Banco Mundial.


E, principalmente, porque aqueles dirigentes deram luz verde para a utilização bilateral das suas moedas nacionais, em detrimento do padrão internacional dólar, no mercado das transações de matérias-primas.

A essa reunião dos BRICS seguiu-se uma cimeira de Chefes de Estado e de Governo dos países da União Económica Eurasiática e da Organização para Cooperação de Xangai (OCX), bem como os Chefes de Estados observadores da OCX.

Esta reunião, que enquadrava desde 2005, a China, Cazaquistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão, decidiu alargar o grupo à Índia e ao Paquistão. E tem como observadores, entre outros, o Irão e a Bielorrússia.

Ou seja, o lançamento de uma estrutura de controlo económico e militar, fora da influência norte-americana, em toda uma região, que contem as maiores reservas de petróleo e gás, além de outras matérias-primas.

(Esses projectos tidos como estratégicos enquadram a construção de gasodutos e oleodutos, bem como uma estrutura conjunta de refinarias e complexos petroquímicos de grande complexidade).

As campainhas soaram em Washington.

Pode dizer-se, com algum menosprezo imperial, que as economias dessas regiões ainda estão em reformulação e as debilidades das suas moedas em trocas bilaterais são evidentes.

Mas, isso são nuvens propagandísticas lançadas para esconder o que germina, de novo, na geopolítica mundial.

O que é certo que é esses países já começaram a fazer trocas entre si, sem passar pela moeda intermediária, o dólar.

O Irão, logo que abrandaram as sanções, anunciou abertamente que as suas trocas de crude no mercado mundial seriam feitas por uma moeda alternativa ao dólar, neste caso o euro.

O que significa, em termos práticos, que o dólar começa a deixar de ser referência.

3 – Em política, o que parece é.

E, embora, haja sempre algo de circunstancial e imprevisto nos acontecimentos internacionais, o certo é que os dados confrontados têm um guião permanente e não surgem por acaso.

Em Março de 2015, ou seja nas vésperas no encontro de Ufá, os EUA enviaram para Riga, a capital da Letónia, forças e material militares, envolvendo-os numa missão vaga de *treino na região do Báltico*.

Estes exercícios militares, para ganharem *respeitabilidade*, são realizados, teoricamente, sob os auspícios da NATO e estendem-se à Estónia e à Lituânia.

Segundo o governo da Lituânia, a NATO irá efectuar esses treinos *em permanência*.

Entretanto, meses depois, a NATO anuncia, com a conivência do governo pró-fascista católico polaco, liderado pelo partido Lei e Justiça (PIS), supervisionado por Kaczynski, e que tem como primeira-ministra Beata Szydlolei, uma *marioneta* daquele, que serão realizados na Polónia, manobras da NATO.

Estas manobras enquadraram 40 navios de guerra, cinco mil militares, a maioria norte-americanos, de 17 países.

Os exercícios na região do Báltico continuam.

Desde finais de Março de 2015, que na região do Mar Negro, muito perto do território russo, se efectuam exercícios navais com forças da Bulgária, Roménia, Turquia, Reino Unido e França.

E estes exercícios são mais frequentes desde a anexação da Crimeia por parte da Rússia, após o golpe de Estado efectuado na Ucrânia por forças pró-ocidentais.

Exercícios militares estes que, por seu lado, também estão virados, a partir de Julho de 2015, para a intervenção da NATO na própria Ucrânia.

Desde os finais de 2015, os EUA tem tentado arregimentar a Geórgia, que faz fronteira com a Rússia, para efectuar treinos militares envolvendo forças de intervenção norte-americana naquele Estado.

Para este mês de Maio, estão programados exercícios militares conjuntos da Geórgia e dos EUA com o nome de código *Noble Partner 2016*, para terem lugar nos arredores da capital, Tbilisi.

4 – Porque será, que, de repente, na segunda metade de 2015, se multiplicaram os *confrontos legais* para substituir os dirigentes independentes de Washington na América Latina, aproveitando as eleições presidenciais e legislativas?

A par da UE, a América Latina era, no passado, o mercado tipo *quintal* norte-americano para escoar as exportações, incluindo as militares, dos EUA.

Com o surgimento de economias em concorrência feroz com Washington, a América Latina tentou (e tenta) organizar e desenvolver a sua *armadura comercial* interna, através do MERCOSUL, e, aprendendo com  a UE, pela negativa, estruturar uma componente castrense correspondente, a UNASUL, que defenda os seus interesses.



Vejamos então o que sucedeu:

A 22 de Novembro de 2015, teve lugar a segunda volta da eleição presidencial na Argentina. Venceu o candidato Maurício Macri, um milionário com negócios fraudulentos, apoiado abertamente pela administração Obama.

A campanha eleitoral já se tinha iniciado em Agosto com a escolha *criteriosa*, segundo os padrões de Washington, de Macri, que era presidente da Câmara de Buenos Aires.

Naturalmente, a anterior gestão governamental argentina, liderada por Cristina Kirchner, como representante do capitalismo nacional,  e que apoiava o *peronista* Daniel Scioli, tinha os *pés de barro*, pois permitiu todo o tipo de corrupção e nepotismo.

Todavia, não estava sintonizada com o *império* norte-americano.

O primeiro acto político de Macri foi atacar o governo venezuelano, que estava envolvido na campanha eleitoral para as legislativas do país. Governo este que, desde os tempos de Hugo Chavez, encabeçava o poder anti-imperialista burguês na América Latina.

As eleições legislativas venezuelanas ocorreram a 6 de Dezembro de 2015, e, o partido governamental, Partido Socialista Unidos da Venezuela, é derrotado por uma frente eleitoral conservadora, igualmente apoiada pelos EUA.

O primeiro acto político foi arremeter contra o Presidente da República, Nicolas Madura, procurando levá-lo à demissão.

Curiosamente, e talvez não, inicia-se a 2 de Dezembro desse ano, o processo de destituição da actual Chefe de Estado do Brasil, Dilma Rousseff.
O processo surge em torno de uma questão processual de aplicação das leis orçamentais, em torno da gestão do governo presidencial.

Todavia, o processo foi empolado e conduzido apenas por uma via política, procurando explorar um caso bem real: um eventual combate à corrupção existente no sistema político, que atinge todos os sectores desde a Câmara dos Deputados até aos Tribunais, passando pelo Senado e mesmo ministros e ex-ministros.  A sua face mais visível é a governação do Partido dos Trabalhadores.

E entre os promotores do processo de destituição, curiosamente, estão os principais deputados representados na Câmara.

Este processo é seguido, sôfrega e atenciosamente, pela administração norte-americana. Porque em causa está o papel que o Brasil está a desempenhar na instituição do MERCOSUL e da UNASUL.

4 – Este frenesim militar pode apresentar, aparentemente, poderio. 

Os Estados Unidos da América estendem o seu *braço imperial* a mais de 180 bases e quarteis castrenses espalhados pelo Mundo.

Mas, tudo isto custa dinheiro. E o dinheiro não terá suporte contínuo se não estiver estribado na produção interna industrial.

A realidade é que o crescimento produtivo nos Estados Unidos da América estagnou.

Ora, o militarismo norte-americano para se expandir necessita de novas injecções de investimento.

O erário público começa a ficar exausto.

A Secretaria de Defesa dos EUA anunciou, que, para 2017, estão já orçamentadas  despesas militares de 583 mil milhões de dólares (537 mil milhões de euros).

Um balúrdio.

Este militarismo desenfreado terá de conduzir à falência financeira.

Como, dentro do sistema norte-americano começa a existir a noção de que a concorrência poderá colocar em causa o seu *modo de vida*, este afã pela via militar torna-se perigoso.

Ou há uma contenção mundial das despesas castrenses, ou mais cedo ou mais tarde, soarão as trombetas de guerra generalizada.

Mas, também, poderão surgir sintomas de mudança radical no actual sistema político internacional.


O tempo o vai dizer.