sábado, 4 de fevereiro de 2017

A RESPOSTA AO TRUMPISMO É A EUROPA UNIDA

1- O vigarista capitalista Donald Trump, com negócios ligados à Mafia, pelo menos, em Las Vegas, ascendeu ao poder supremo do Estado norte-americano.

As cabeças liberais, políticas e não só, bem-pensantes e os comentadores e políticos do conservadorimo e social-democracia (ou socialismo democrático) ocidental, mas particularmente europeu, lançaram - e lançam - gritos estridentes de virgens medievais ofendidas. gesticulando, sem rei, nem roque, como pode ter acontecido tal desiderato.

O campo democrático norte-americano - sustentam- é um farol de moralidade e bons costumes.

Com as mãos no peito, e com olhares lancinantes, vociferam ou escrevem, argumentando, com palavras ocas, como é possível que milhões de seres humanos pensantes e explorados se deixem enganar por um trapaceiro aventureiro.

O fim do mundo chegou, enfim, para os paladinos da
democracia formal, gerida e cozinhada, justamente, pela oligarquia capitalista dominante nos Estados Unidos da América. Pois, é esta, realmente, que conta nos negócios de Estado.

No rescaldo da sua derrota, não fica bem aos "crentes democratas", e é perfeitamente enganador e manipulador, vir a terreiro gesticular contra as pessoas que votaram em Trump como «carneiros» seguidistas dentro dos ditames dessa mesma democracia, e, que o evento, no seu modelo actual, não cabendo no politicamente correcto das suas orientações, se tornou uma fraude e uma surpresa.

Os democratas - atiram com estafadas justificacções que *preferiam um mal menor*, eles, - ou seja, esses mesmos, os Clinton, Os Obamas, os Kennedys, são «apenas bons ladrões».!!!

No domínio da História e da Economia política, torna-se rídiculo sustentar que um vigarista do calibre de Trump se tenha tornado Chefe de Estado da potência norte-americana e dos seus 300 milhões de habitantes apenas com a *magia* propagandística de um safado aventureiro capitalista.

A votação que escolheu Trump não está desligada da profundidade da crise económica e financeira que abala a sociedade norte-americana desde o princípio deste século.

Trump, que, com o seu slogan deseja repor a «América primeiro», no fundo, reconhece o decréscimo do seu país, e, procurou colocar-se, todavia, de fora desta realidade e fazer a sua campanha eleitoral contra o estado de coisas caótico interno. Como se ele fosse um sem-abrigo, e, não um actor maior criminoso co-responsável do descalabro norte-americano.

Foi - é - trapaceiro, é certo, mas o problema não é dele.


No debate eleitoral, não teve, na realidade, um combate político argumentativo e eficaz anti-capitalista dirigido ao cerne dos verdadeiros respondáveis pela situação.

Resultado de imagem para a elite americana

(Um aparte - a fandangagem democrata, dirigida por Obama e Wall Street, tudo fez, aliás, para desarticular e destruir uma ténue solução social-democrata de B.Sanders que atacava, ao de leve, a usura dos Goldman Sachs, e quejandos, com uma vaga *revolução social*. Sanders era um «revolucionário», nós preferimos Trump, confessava a liderança democrata!!!. O problma para eles é que a populaça de Sanders podê-lo-ia ultrapassar e fazer uma verdadeira revolução).

Ou seja, os Clinton,os Biden e Obamas são apenas a outra face da moeda do sistema democrático falido trapaceiro. Eles foram os cúmplices e autores por omissão do programa político que os norte-americanos vieram a escolher....

O avanço galopante do capitalismo sem freio, criminoso, desde a crise do petróleo de 1973 não foi harmómico entre as diferentes classes e fracções de classes da burguesia que rompeu e saiu vencedora, politicamente, desde o século XIX.

Embora o impulso capitalista enorme desse século estivesse centrado no incremento industrial e na implantação mais ou menos generalizada da burguesia industrial, o certo é que com as crises de grandes envergaduras que antecederam as I e a II Grandes Guerras, e, principalmente, o desenvolvimento societário extraordinário que surgiu após os anos 50 do século XX o que fez engrandecer e impor-se, essencialmente, foi um sector dessa burguesia, a grande burguesia financeira.

A globalização capitalista levada a efeito neste século que se estendeu desde a América ao Extremo-Oriente, incluindo a China e a União Soviética, foi conduzida, lenta, mas paulatinamente, apenas pela batuta da usura dos banqueiros, que suplantou o capitalismo de Estado soviético, mitificado como socialismo. 

O climax dessa orgia - e o início da curva descendente - sucede, justamente, com a crise de 2007 nos Estados Unidos, com a responsabilidade criminosa de Wall Street.

E a preocupação central do poder económico foi a de salvar, a todo o custo, esse centro usurário. Obama, com as suas falas mansas, foi o representante político cimeiro desse poder, que se enquadrou, majestaticamente, nos alicerces da usura judaica de Wall Street, via Goldman Sachs, Bank of América, Wells Fargo, JP Morgan Chase,  Citi Group, Morgan Stanley, entre outros. Com uma expansão imperial sangrenta em todo o mundo, particularmente no Médio-Oriente e África.Resultado de imagem para os bancos americanos



De maneira evidente, nestas últimas dezenas de anos, em todo o mundo ocidental, em particular nos Estados Unidos, porque era o seu centro, todo o poder de Estado era dominado por essa grande burguesia financeira (quer a instituição fosse republicana ou democrata). Eram os homens de Wall Street que subjugavam o sistema bancário, seguros, as grandes empresas petrolíferas, os centros mineiros, as redes transnacionais de aviação, ferrovia e marítima, as indústriais farmacéuticas, de aço, e as maiores empresas agro-industriais.

Eles ocupam o poder político (quer o seu nome seja Obama, Bush, Clinton ou Reagan), os bancos centrais (Reserva Federal, quer seja o judeu presidente fosse Alan Greenspan, ou outro judeu Ben Shalom Bernanke ou a judia Janet Yellen), quer sejam homens ou mulheres, são lacaios serventes influentes e determinantes dos Bank of America, JP Morgan Chase, Citigroup and Wells Fargo, que, de uma maneira ou de outra, são os quatro principais accionistas das petrolíeferas Exxon Mobil, Royal Dutch/Shell, BP Amoco e Chevron Texaco.


Ora, esses bancos são, por seu turno, os principais accionistas das maiores firmas ou holdings do chamado índice Fortune 500, ou são os indicadores dos representantes da alta magistratura, das chefias militares ou a diplomacia.

Era - e é -ainda essa grande burguesia financeira, que controla a legislação de Washington, através da Câmara dos Representantes ou Congresso. Enfim, ocupam toda a fileira político-económica-judicial-castrense.

E o resultado, que se preve para a chamada democracia ocidental, na sua orientação actual, é a falência do sistema.

A questão é, pois, qual a saída para essa falência?

A burguesia que se ensarilha em torno de Trump apresentou-se ao eleitorado com o propósito de ultrapassar este descalabro.

Procura, ou quer fazer uma «revolução» por dentro, visando salvar o capitalismo financeiro da sua agonia: (reindustrializaçao, apostada na alta teconologia, proteccionismo militar bilateral, para impor o seu modelo de comércio, liderança incontestada de Wall Street, incremento do complexo militar-industrial no próprio espaço, etc, etc).

Eles - e nestes neles, estão os capitais judeus, evangélicos, católicos, republicanos e democratas, pois, estes últimos (a elite que impõs Hillary Clinton) que aspiram a um *salvamento musculado* da podre democracia norte-americana - irão unir-se à clique voraz de Trump para forjar a sua *revolução* através de um tipo de democracia unicacamente pró-americana, e só praticada dentro da +legalidade+ de Washington, e, se possível, fascista.

2 - O aglomerado eleitoral que veio a colocar a dupla Trump/Pence no poder enquadrou um conjunto classista que reflectia, por um lado, o descontentamento das classes trabalhadoras +brancas+ e não só (o proletariado afectado pela desindustrialização interna), a pequena burguesia afundada pela crise financeira (hipotecas de casas, desemprego ou subemprego), a burguesia industrial, completamente afastada do poder político, e principalmente, dos centros de decisão económica (deslocalização de fábricas). Por fim, largos sectores camponeses afectados pelas limitações das suas exportações, e, de maneira evidente pelas hipotecas de fazendas e abaixamento de preços à produção.

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Mas, no centro dirigente dessa argamassa que vota está, na realidade, a grande burguesia financeira que pretende *reciclar* o sistema capitalista falido, optando, se necessário, pela repressão mais acentuada, quiçá, inclusive a guerra regional ou generalizada (três generais ocupam os lugares dirigentes da estrutura civil das Forças Armadas e Segurança Interna). A fracção trumpista julga-se a salvadora castrense do sistema capitalista ocidental que está no ocaso.

E pensa que o mundo ainda gira em torno dos seus ditames.

Aqui reside, pois, o busílis da questão: os EUA estão em decadência, embora poderosos ainda, e outras potências em ascensão. Que desfecho?

O sucesso do capitalismo, primeiro europeu, depois norte-americano, no desenvolvimento industrial que se expandiu pelo mundo - em fases diferentes, e em épocas com altos e baixos, crises profundas, por vezes mesmo retrocessos civilizacionais, desde o século XIX - trouxe duas vertentes balizadoras que marcaram a evolução da sociedade no geral nos últimos 100 anos.

O incremento planetário da burguesia industrial levou, por um lado, aquela a ganhar a sua cidadania, mas especialmente, a sua implantação nacional nos países feudais ou pré-capitalistas, e com tal facto ajudar a construir, pelo seu poder económico interno entretanto ganho, pólos concorrentes com o sistema dominante norte-americano, e, por outro, a fazer nascer, em extensão, o então incipiente proletariado ligado a essa indústrias, que nos tempos actuais, deram origem às classes laboriosas, que impulsionam e desejam criar uma nova sociedade, despojada da exploração.

Essa evolução industrial capitalista lançou - segunda metade do século XIX, primeira década do século XX -, para a ribalta societária, primeiro, e, principalmente, na Europa, o incremento e o alastramento, pelos Estados e Nações, o proletariado dessa mesma indústria.

O sucesso que a revolução industrial trouxe, justamente, à Europa, foi o da modificação, em dois séculos, das relações de produção feudais, e esta modificação, teve pois, no seu bojo, a capacidade de fomentar as revoluções em muitos desses países - no seu início revolucões nacionais, conduzidas pela burguesia industrial que se alçou assim ao poder político, substituindo a monarquia e a nobreza, e, em situações específicas revoluções proletárias, casos da Comuna, e, mais tarde da soviética na Rússia czarista, a Spartaquista na Alemanha, ou a Húngara de Bela Kun, e, dezenas de anos depois revoluções anti-capitalistas, como o Maio de 1968.Resultado de imagem para revolução espartaquista


A evolução, que foi, realmente, marcante e iniciadora na Europa, fez, justamente, deste continente, o marco modernista da nova sociedade capitalista, com o brutal crescimento industrial. Foram aqui que se deram os grandes movimentos revolucionários e foram os Estados europeus industriais mais desenvolvidos que nos pareciam serem os mentores das revoluções sociais radicais.

Esta percepção, que, historicamente, não se revelou inteiramente correcta e justa, apesar de ser na Rússia de Outubro de 1917 que se iniciou um caminho sem entraves de revoluções proletárias.


(Nos 100 anos da Revolução soviética, que passam este ano, irei analisá-los noutro artigo).

A história, prudente, ensinou-nos: Embora a indústria europeia - e em parte a francesa - fosse a mais desenvolvida e a burguesia e o próprio proletariado gauleses aqueles que pareciam ser o motor de uma revolução radical social. O certo é que esse caminho não se deu.


O que sucedia na Europa com a industrialização crescente, não correspondia, todavia, a um avanço da sua burguesia industrial como motor do impulso dominante mundial desse mercado.

Ora, o que constatamos, presentemente, é que a burguesia industrial europeia tinha pés de barro: não alcançara ainda a conquista do seu poder efectivo no mundo, e, por isso, por um lado, não dominava a própria Europa (estraçalhada ainda pelas particularidades nacionalistas e principalmente pelos resquícios feudais), mas, acima de tudo, porque não se tornava soberanista - ou seja, dominante - no mercado planetário.

Esse papel foi transferido, depois da I Grande Guerra, para a América do Norte, pouco beliscada pela desvastação guerreira.

Foram, portanto, os EUA, que não tiveram de ultrapassar os entraves do sistema produtivo feudal, na implantação do seu sistema industrial pelo território, que através de uma guerra civil que moldou e deu orientações para uma verdadeira revolução industrial num conjunto de territórios/Estados jovens, irmanados pelo ideal de um poder político de *igualdade de oportunidades* uniforme de Leste para Oeste: desbravaram, atravessando Estados, as grandes ferrovias, as grandes rodovias, as grandes urbes centros da nascente indústria moderna do automovilismo, da aviação, dos electrodomésticos, das cidades universitárias da investigação ligadas ao grande capital. Impuseram uma moeda única.

E acima de tudo, construiram um Exército unificado que serviu a diplomacia imperial de transportar a sua indústria e os seus produtos manufacturados e agro-industriais modernos a  conquistar, forjar e consolidar um mercado mundial. Este sim posto ao seu serviço.

O que tolhia, na realidade, então a Europa era o seu «corporativismo», porque os Estados industriais europeus estavam manietados pelas burocracias alfandegárias entre eles próprios e não tinham capacidade militar para impor o seu grande mercado nacional no domínio do espaço extra-europeu, que estava controlado pelos EUA. E estes controlavam a Europa, desde a II Grande Guerra, com o seu Exército e o laço compressor continuo financeiro da UE, que não se conseguiu até hoje separar desse aperto tentacular.

Revolution 1848, Glorreicher Barrikaden.


Sem defesa e seguranças próprias, não pode haver diplomacia comum que injecte e fortaleça o seu mercado extra-europeu.

3 - Ao passar a face moderna, nova, crescente da burguesia capitalista para os Estados Unidos da América. O seu sucesso foi evidente. Transformaram a América do Sul em repúblicas sob a sua tutela industrial e financeira. De certa maneira, destruíram, em parte, os restos de feudalismos europeus, para ali levados, pela colonização luso-espanhola, com o latifúndios dos coronéis.

Foi sob a batuta castrente e comercial de Washington (a aliança Nixon-Mao foi essencial) que as relações capitalistas se desenvolveram, em especial, no Extremo-Oriente.

Foi também, sob o incremento financeiro de Washington que a Europa destroçada pela guerra de 1939/45 pode recompor a sua produção, baseada na cooperação multinacional, e refez ela própria a sua industrialização. (Ultrapassando e minando o capitalismo de Estado do COMECON).

Embora com a tutela ianque, os dirigentes esclarecidos da burguesia europeia tiveram a percepção de a reconstruir, e fazer desaparecer, lenta, mas progresivamente, as barreiras alfandejárias e de circulação de pessoas e mercadorias.

Esta Europa unida transformou-se na maior potência comercial, mas não a maior potência capaz de impor esse comércio em todo o planeta.

O seu ponto forte de então: dinâmica de desenvolvimento, opção pela construção multinacional económica cooperativa, e, em fase mais adiantada, uma moeda que surgia como a alternativa real ao dólar.

Mas, sempre, com a sua fraqueza de estrutura política inacabada: sem política externa comum, sem Forças Armadas unificadas, sem uma harmonia total na relação entre necessidade de Estado federal ou confederal e os direitos próprios, democráticos e autónomos dos povos dos seus Estados.

É justamente no final do século passado, com a UE em ascensão, que começou o calcanhar de Aquiles do capitalismo imperial norte-americano. E este sentiu o peso concorrente comercial e alternativo de moeda universal europeu.

Mas, a UE não teve discernimento para continuar como unidade económica e política cooperativa, projectando a sua defesa e segurança exterior de Washington, e, inicia uma fase de derrapagem política e até ideológica, fazendo vir ao de cima os estigmas de velhos imperialismos europeus e de egocentrismos soberanistas saloios de «renascimento» de velhas Inglaterras, velhas Alemanhas e velhas utopias napoleónicas de pigmeus «socialistas« francesas.

Sim, porque a visão da «América, primeiro» trumpista passa, em primeiro lugar, pela desarticulação europeia para controlar, novamente, uma a uma a sua economia +nacional+. É assunto que a expandiremos noutro artigo.
A questão que se vai colocar, no imediato, na geoestratégia para a América de Trump é, precisamente, o mercado económico que se está a organizar, expansivamente, no Extremo-Oriente, sob a liderança chinesa. E cujo, objectivo central estratégico é a Europa.

5 - O muro que o capital financeiro norte-americano +criou+ no crescimento, sem peias, sem entraves, do seu domínio do comércio mundial está, na minha opinião, no processo de retrocesso industrial da sua própria burguesia.

A América da evolução total mundial comercial encontrou-se nas contradições das suas próprias fraquezas.

A burguesia financeira, na sua busca de uma usura desmesurada, transferiu o desenvolvimento da sua industrialização para os Estados de mão de obra barata, como a China e a Índia. O lucro fácil apenas se vislumbrava entre os seus olhos.

E as elites desses Estados - os mais fortes, os mais capazes, os mais organizados internamente - deram rédeas à sua burguesia industrial para forjarem e incrementarem a sua produção industrial, que impulsionou também a sua produção comercial e pós-industrial pela sua barateza de colocação extra-fronteiras. Eles nestes 50 anos ergueram os seus meios de produção modernos, no fundo, fizeram as suas *revoluções* económicas internas.

Nestes 50 anos, quer a China, quer a India, mas principalmente a primeira, «arrazaram» todos os resquícios principais da sua atrasada produção feudal ou pré-capitalista. Entraram na época do grande capital financeiro. E, curiosamente, sob um modelo modificado de capitalismo de Estado.

Estão a fazer concorrência ao comércio norte-americano nos seus «terrenos de caça»: Europa, Ásia e África.

Mas, estão a fazer alianças geopolíticas e geoeconomómicas com a Rússia e países da euroásia, através de um chamado «roteiro da seda».

E nesta, aliança, a China está a chegar-se à frente com o fortalecimento da sua moeda, o yuan, como moeda de troca e de crédito.

Com um bloco de aço de respeito: tudo isto com a modernização e um ressurgimento das suas Forças Armadas nas rotas marítimas e na implantação de entrepostos armados.

Por seu turno, os orçamentos monstruosos de guerra norte-americanos fizeram crescer a já enorme dívida pública de Washington. O militarismo é uma arma decisiva num período de expansão, mas torna-se um fardo quando as despesas castrenses constantes oneram o orçamentos sociais, sem um retorno que consiga suprimir essas despesas.

Ora, o militarismo norte-americano, cada vez mais custoso, contribuiu enormemente para o défice do Estado. E os destastres sucessivos no Médio-Oriente trouxeram mais gastos materiais e psicológigos. É aqui entra a questão russa.

6 - A questão russa para o sistema imperial norte-americano, na visão dos trumpistas, torna-se secundária, porque o inimigo central está na China.

E, assim o penso, o objectivo estratégico de Washington (Pentágono, NSA, CIA, complexo militar) é evitar uma grande aliança russa-chinesa com o controlo de todo o espaço entre o Mar Negro e o Cáspio - gás, petróleo e outras matérias-primas, bem como as vias rodoviárias e aéreas - e o Médio-Oriente.

Para os estrategas de Trump, a Rússia, contida nas suas fronteiras não será uma ameaça iminente e perigosa para a Europa, até porque, assim o têm afirmado, Moscovo pretende fragmentar a UE.

Logo, Washington vai procurar separar a Rússia e da China.

Ora, segundo penso, a Rússia está interessada numa distensão com os EUA, porque desse modo, alivia a despesas militares crescentes que tem feito com a militarização da sua fronteira europeia. E, e aqui está o busílis da questão, a Rússia quer uma aproximação com a Europa, não só pelo comércio, mas também porque necessita da cooperação europeia para incrementar o seu desenvolvimento industrial e pós-industrial.

Porque a Rússia tem a perfeita noção de que a sua entrada com sucesso no domínio do mercado mundial passa justamente pelo aprofundamento da industrialização, que é o suprassumo da sua entrada, com trombetas, na era da grande produção moderna do grande comércio, depois de se ter conseguido impor na exploração do complexo industrial militar e espacial.

Ora, a UE, com a hostilização crescente da política trumpista, também necessita de uma boa vizinhança de fronteiras e comércio com a Rússia.

A UE e a Rússia terão de ser aproximar, devido à hostilidade crescente que a política proteccionista de Trump se virar para fomentar divisões e se possíveis guerras locais que enlameiam os paises vizinhos da Grande Rússia.

Os EUA ficarão ao longe, nestas refregas, para virem apanhar os cacos, pagos a peso de ouro dos *empréstimos* brutais em dólares.

7 - Durante todo o consulado de Obama, mas já antes desde a ascensão do capitalismo *liberal* de Reagan, todas as burguesias capitalistas ocidentais e os seus partidos se coligaram e formataram sobre o estigma da chamada *democracia norte-americana*, nas suas diferentes artimanhas de defesa dos «direitos humanos».

Tudo o que cheirasse a simples *social-democracia*, como os partidos sul-americanos, tipo PT, ou europeus, tipo Syriza, era arrumado no rol dos sinistros partidos do socialismo ditatorial, da anarquia comunista.

Ufa, toda essa cálifa, que só falava em «necessidade da ordem», se achava a salvo desses +pérfidos inimigos+ da gloriosa civilização ocidental.

Agora, ai jesus que estão aí os «populismos».

Proclamações sonoras a favor da democracia. Só hipocrisia.

Essa democracia ocidental é o «populismo» na sua fase decadente, que se procura salvar pela repressão.

A questão para o mundo, mas especialmente para a UE, que representa o de mais avançado nessa democracia representativa,está na crítica e no desmantelamento dessa velha ordem que faliu.

A arte geoestratégica da UE está na elaboração de um programa de acção comum para substituir a gestão económica e política da actual burguesia por um programa de progresso revolucionário.

Deixemo-nos de olhar para a UE com a visão
retrógrada da velha política nacionalista. Mas sim dos interesses comuns das suas classes trabalhadoras.

domingo, 25 de setembro de 2016

O CONFLITO SÍRIO VAI AGRAVAR A RUPTURA EUA/UE?

1 -  O agravamento da crise síria, com o ataque aéreo dos Estados Unidos a uma unidade do Exército do regime de Bashar Al Assad no leste do país (Deir ez-Zor),  onde os islamistas wabadistas o procuram cercar, ataque este ocorrido, propositadamente, em pleno vigor de cessar-fogo, irá certamente ter repercussões na União Europeia.

O ataque norte-americano não foi acidental, nem produto de falta de coordenação.

Não. Teve um objectivo preciso impedir – ou, pelo menos, limitar – uma inversão de posições que o regime sírio e a Rússia, Irão e hizbolá libanês estão a empreender na parte nordeste daquele país, com uma derrota dos seus aliados *combatentes da liberdade*, que proliferam nas organizações militares financiadas e municiadas por Washington, como o Exército Islãmico, Al Qaeda/Frente al Nusra, Exército Livre Sírio, Ajnad al-Sham, Fatah al-Islam ou Ansar al-Islam.
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O que se vislumbra no conflito sírio é o progressivo e desconjuntado recuo do apoio «no terreno» das forças oposicionistas armadas à ofensiva conjunta do Exército de Damasco e as forças armadas iranianas e chiitas libanesas, - que igualmente operam juntamente com o Exército de terra do Iraque – e a supremacia aérea russa.

Ora, os EUA estão, pois, os acossados, cada vez mais enrodilhados, num conflito estratégico que os está a afundar, não só militarmente, mas, principalmente, em termos económicos.

A reacção a esta senda de recuo pode levar o complexo militar industrial financeiro norte-americano a reagir sem pés e cabeça.

E aqui a guerra será generalizada.

Mas, se apostarem nesta solução, os seus aliados europeus não se irão precipitar.

Então poder-se-á aprofundar a clivagem, já mais que evidente, entre a União Europeia e os Estados Unidos da América.

Para o sistema político-económico norte-americano, o afastamento «afectivo» da UE face aos EUA é contabilizado em primeiro lugar em termos comerciais.

Então o que está em jogo?

2 – Justamente, o mercado europeu.

A UE é, apesar da próxima saída do Reino Unido, a principal potência comercial do Mundo, e, até hoje o  principal aliado americano na luta concorrencial com as outras potências económicas e militares, nomeadamente, a Rússia e a China. Além de conter um território com perto de 500 milhões de pessoas.

A sobrevivência da Europa, como unidade política, depende, portanto, por um lado da superação da crise em que está envolvida, refazendo a cooperação, o mais harmónica possível, entre os países e nações que a compõem, por outro, a unificação da sua política externa, assente na sua própria capacidade de defesa, ou seja um Exército único, que sirva de cobertura para que o apoio à sua evolução no sector exportador.


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Este é, para mim, o seu grande desafio.


Este desafio somente irá avante se tiver a pressão constante dos movimentos sociais e dos partidos e organizações revolucionárias.

O que obriga, assim o penso, à elaboração de um programa revolucionário europeu que seja a alternativa à política capitalista que domina a Comissão Europeia, o Conselho Europeu, o Eurogrupo e o próprio Parlamento Europeu.

Esta alternativa advém do facto de o capitalismo financeiro dominante no Mundo, mas especialmente, nos seus centros mais pujantes (EUA e UE), se encontrar numa encruzilhada que o pode fazer colapsar ou avançar para formas violentas de resolver essa crise.

3 – Pode argumentar-se: certo, há uma crise internacional do capitalismo, mas os EUA ainda são a potência hegemónica económica e militar. 
São eles que determinam os destinos do Mundo.

Sim é real, os EUA ainda são uma grande potência económica, o dólar ainda é a principal moeda de troca a nível internacional, as suas Forças Armadas estendem a sua manápula por mais de 80 países.

O que se tem de analisar é o que mudou, de maneira evidente, desde os chamados atentados das Torre Gémeas, em Nova Iorque.

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A China emergiu como potência económica. A Rússia reestruturou a sua economia, depois de cerca de 10 anos de estagnação e retrocesso, no pós desagregação da URSS, e, acima de tudo, impos uma nova capacidade tecnológica e reforço da estratégias castrenses. Institucionalizaram-se os BRICS, como parceria geo-estratégica em confronto com os EUA.

O dólar já não é a moeda omnipotente nas relações comerciais e financeiras internacionais. A UE, com as suas debilidades actuais, continua a ter uma unidade monetária, o euro, que se está também a impor como referência. A China em parceria com a Rússia organiza trocas comerciais sem a interferência do dólar.

E acima de tudo, a economia norte-americana entrou em estagnação, a situação social interna regrediu. A política «proteccionista» de Donald Trump, que pode ser o próximo Presidente norte-americano, é a bússola indicativa de que irá haver uma *reestruturação* interna da actividade produtiva (com regresso de empresas deslocalizadas, apostas declaradas em novas indústrias, possivelmente até com um confronto entre o capitalismo +cristão+ em ascenso e o capitalismo +judaico+ dominante).

Esta realidade da vida societária interna tem, pois, os seus reflexos, de maneira evidente, na esfera militar.

A supremacia militar internacional norte-americana não se impõe, actualmente, nos principais focos de disputa nos diferentes pontos do globo, desde o Médio-Oriente ao Golfo Pérsico, passando pelo Mar da China ou mesmo no leste da Ucrânia. 

É, justamente, no conflito afegão-sírio-iraquiano que mais se nota as contradições e fraquezas dos EUA na sua concepção militar.

Incendiaram o norte de África e o Próximo e Médio-Orientes, procurando impor o seu «modo de vida», mas armando e financiando o sector mais retrógrado do wabadismo como +força ideológica+ para destruir +as ditaduras nacionalistas+.

Os seus «filhos», combatentes da sua liberdade, estão a roer-lhes a corda, obrigando-os caminhar, lenta, mas paulatinamente, na estratégia delineada pela Rússia.

4 – Será, pois, na UE que se vai concentrar o esforço norte-americano para não perder a suserania sobre esse enorme mercado e ao mesmo território de «contenção» com o concorrente militar russo.

Se os EUA têm na sua estratégia a derrota da reemergência mundial da Rússia como superpotência militar, através da utilização do «tampão» europeu, que poderá servir de campo de batalha, a UE parece ter despertado, finalmente, do +abraço+ económico-político-castrense de Washington, seguindo uma via de conseguir a coesão europeia.

E tal via pressupõe, portanto, o corte com a supremacia de Washington.

Neste caso, a Rússia, porque é continuidade territorial europeia, pode servir de +aliado táctico+ numa fase mais distendida.

Moscovo, igualmente, necessita da UE para impulsionar a sua tecnologia e interagir com o sistema económico europeu para receber produtos em melhores condições de mercado e exportar, particularmente, as suas principais matérias-primas.

Os indícios de um agravamento das relações EUA/EU são dados por episódios recentes:  o ataque aparentemente pessoal a Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia, por ter passado, com armas e bagagens, para os quadros dirigentes do Goldma Sachs, o banco de Wall Street, que fomentou em grande parte a crise financeira da Europa; as multas cruzadas entre Washington e Bruxelas sobre as grandes empresas multinacionais (Apple, Google, Volkswagen, Deustche Bank); a suspensão, praticamente corte, das negociações em torno do Tratado de Comércio e Investimento Transatlântico (TTIP), e, principalmente, o recomeço dos projectos de Forças Armadas e de Segurança da União.

Os próximos tempos vão ser, na minha opinião, pois, de tensão crescente nas relações EUA/EU, naturalmente, em muitos casos essa tensão andará pelos bastidores.


Vamos esperar para ver as mudanças geopolíticas que se vão dar.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

G 20: O +NOVO+ CAMINHO CAPITALISTA VAI ESTAR ENQUADRADO POR *ZONAS DE INFLUÊNCIA*?

1 –  A guerra de conquista e divisão na Síria entrou numa nova fase de violência, precisamente, quando, aparentemente, o inimigo «jurado» de todas as partes envolvidas – chamado Estado Islâmico - parecia estar a claudicar, rapidamente, nos últimos meses.

Porquê esta repentina escalada da violência quando o Exército legal sírio cerca a cidade mais populosa do país, Alepo, e se apresta para atacar Raqa, a chamada capital do EI?

A Síria – e também o Iraque – é o «cadinho» onde se está a definir uma nova geopolítica mundial, que pode determinar a queda rápida da antiga única superpotência (económica e militar), que se confronta com uma nova realidade social: a actual fase do modelo de produção capitalista está a chegar ao fim.

A Síria tem sido o palco guerreiro de experiências castrenses da mais alta tecnologia dos últimos tempos.

Talvez, comparativamente, mais do que sucedeu no Vietname e no Camboja nos anos 60/70 do século passado. 

O que transforma o território num espaço de testes militares em nível mais elevado (quem experimentava na Indochina, então, essencialmente, a alta tecnologia eram os Estados Unidos da América) é o facto das principais potências militares mundiais e as potências regionais, bem como grupos paramilitares que podem vir a ter maior intervenção futura no Médio-Oriente, como o Hezbolá libanês, actuarem, frenética e num espaço de tempo curto, em alianças e contra-alianças – e compromissos tácticos no terreno – aparentemente para buscar benefícios nacionais em eventuais divisão de despojos.

(Repare-se que neste conflito, as potências envolvidas, particularmente, as ocidentais, - EUA, França, Alemanha, e também a Turquia, estão a agir na Síria ao arrepio das chamadas normas internacionais, violando, ilegalmente, o território sírio. Em parte, com a conivência táctica da Rússia, mais interessada em ver os seus concorrentes a «chafurdar», enterrando-se, na lama do conflito).

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alianças e contra-alianças: jogo de sombras

Mas, o que surge, na realidade, é o crescendo sem freio do militarismo.

E o militarismo exacerbado é sempre prenúncio de guerra. Mas também custa muito dinheiro. 

Ainda, por cima, agravado, sem não tiver retorno +compensador+.

2 – O conflito militar na Síria esteve na agenda dos G-20. E não é por acaso.

Está ligado a nova geopolítica que se desenha no Mundo e que os líderes políticos, representantes das facções concorrenciais do grande capital financeiro pretendem analisar e apontar «caminhos» para tentar salvar a fase actual em decadência total desse capital.

A Síria, e por tabela o Iraque, são territórios nacionais, retalhados e ensaguentados pelas disputas, sem olhar a meios, das potências ocidentais, em primeiro lugar, mas também da nova potência militar mundial, a Rússia, em paridade com os EUA, e, em alianças flutuantes, por vezes desconcertantes, como a Turquia e o Irão.

(Se se analisar o campo de batalha sírio, pelo menos, desde 2015, verificamos que a entrada da Rússia no terreno do conflito, aparentemente, chamada pelo o regime de Bashar Assad, tem uma estratégia definida - o apoio castrense do Irão e, discreto, mas actuante, da China desde o início: defender a unidade territorial do país, derrotar as organizações ditas terroristas.

As restantes potências –EUA, França, Alemanha, Reino Unido, e, agora, a Turquia, - agem erraticamente, conforme as conveniências, num apoio claro ao EI, notando-se uma clara percepção de que pretendem retalhar a Síria. Se a Rússia conseguir manter Assad no poder e a unidade síria, haverá, naturalmente, uma mudança na geoestratégia mundial).

Uma chamada de atenção: tudo isto se está a passar a leste da chamada *comunidade das nações*, ou seja da ONU.

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Estreito de Ormuz: a importância do controlo

A diplomacia está a dar lugar ao confronto.
Directo: Médio-Oriente-norte e corno de África; indirecto, Mar da China, Ucrânia-Mar Negro, golfo de Omã/estreito de Ormuz.

Na realidade, já Clauzewitz o definia: a guerra é a continuação da política por outros meios.

3 – Tal como os europeus, em particular os portugueses, no início do comércio mundial no século XV, e, principalmente, no XVI, a preocupação primeira, após a chegada ao Oriente foi o controlo de rotas e estreitos de passagem de mercadorias.

A força militar está, pois, a ser utilizada para conseguir vantagens territoriais e geoestratégicas para o controlo do comércio e zonas privilegiadas de matérias-primas.

O que está, portanto, a suceder do meu ponto de vista?

A China está procurar impor, via pressão directa militar – navios, construção de aeródromos e cais de embarque/desembarque em ilhas disputadas no Mar da China -, uma posição dominante de, por um lado, controlo de rotas vitais marítimas comerciais, por outro, o acesso a matérias-primas que existem na área marítima profunda ao largo das mesmas.

A Rússia procura disputar influência no mar Mediterrâneo oriental e solidificar a posição geo-económica de campos de gás e petróleo do Médio-Oriente, em conveniência com as rotas navais e terrestres que o confinam.

Se o conseguir, em grande medida, com o controlo do Mar Negro, terá estabilizado «uma área de paz» sul para o seu projecto conjunto euro-asiático com a China.


Frota russa na Crimeia

Significa isto, que perante o *jogo de forças+ que se desenha no horizonte, Rússia e China pretendem impor, no mínimo, +zonas de influência+ no mapa planetário.

E isto, se houver, um compromisso diplomático. Porque, se houver guerra, ainda que regional, os interesses dessas potências podem ser mais ambiciosos.

Toda esta movimentação tem, no seu bojo, o essencial: a actual fase do modelo capitalista está a chegar ao fim.  

O futuro pode ser tumultuoso, até porque por detrás do regime capitalista estão as classes laboriosas, que o sustentam – ainda que dispersas e sem um programa revolucionário internacional - mas que desejam uma nova vida societária.

Os próximos tempos vão definir melhor o jogo de sombras que está na agenda dos G-20.


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A QUESTÃO RELIGIOSA E O VESTUÁRIO ISLÂMICO

1 – Estamos a perder tempo em polémicas estéreis em torno de suprimir véus, burquinis islâmicos nos locais públicos ocidentais.

Pode dizer-se que esta utilização de véus e burquinis e burcas tem uma forçada conotação ideológica-religiosa.

Certo, como tem a mesma conotação quando o Presidente da República portuguesa realiza a sua primeira visita oficial de Estado para beijar a mão ao Papa, numa submissão propositada e forçada de um cargo público a uma religião, neste caso, a Católica Romana.

A questão que tem de ser equacionada é esta, a meu ver: porque o regresso da religião ao domínio do Estado?

A ideologia dominante no Ocidente faz crer que os Estados teocráticos são um exclusivo das ditaduras islâmicas actuais. Não é verdade.

Embora formalmente, sejam democracias, países como o Reino Unidos, Suécia, Noruega, Dinamarca, os seus chefes de Estados são ao mesmo tempo chefes das Igrejas cristãs dos mesmos.

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Outros, como Portugal, Espanha ou Itália, têm a primazia da religião católica contratualizada em leis extra-territoriais (concordatas), cujo mentor (ideológico e material pelas benesses recebidas) está no Vaticano. É quem determina a política prática face ao contrato estabelecido (que é essencialmente económico).

E as chamadas religiões civilizacionais ocidentais (catolicismo, protestantismo, evangélicos, manás, mormons, judaísmo) estão, cada vez mais, implantadas no aparelho de Estado, através de partidos políticos e eleições legislativas.

Na recentes primárias norte-americanas para a escolha do candidato presidencial republicano, os dirigentes do partido optaram, para a candidatura à vice-presidência, pelo governador do Estado do Estado de Indiana, Mike Pence, pela sua ligação à ultra-conversadora igreja evangélica norte-americana.

Igualmente, a tertúlia do poder democrata escolheu o senador pela Virgínia, Tim Kaine, para idêntico papel naquele partido, justamente, por ser um fervoroso católico e falar castelhano.

Por exemplo, o Brasil actual. Dados da Câmara dos Deputados: a Frente Parlamentar Evangélica – que inclui católicos, protestantes e pentecostais - conta hoje com a participação de 199 membros (39% do total) e quatro senadores. Determinantes para a orientação governamental.

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2 – As ditas religiões ocidentais (catolicismo, protestantismo nas suas diferentes matizes, judaísmo) estão perfeitamente integradas na sociedade capitalista.

Caminharam em toda a sua conveniência, adaptando-se, com toda a naturalidade, em harmonia prática aos ditames da grande burguesia.

Para aquela, o seu deus tornou-se o dinheiro. 

Assim, o dinheiro erigiu-se na preocupação central dessas religiões.

O Vaticano é, na actualidade, um dos principais centros capitalistas financeiros do Mundo, a par de Wall Street, feudo do judaísmo, mas ambos, juntamente com a Igreja de Inglaterra, são a «bússola ideológica», via civilização ocidental, do expansionismo imperialista capitalista liberal.

O catolicismo, bem como o protestantismo, alçou-se, com eficácia, aos princípios judeus. O seu deus é agora comum e universal.

Os Estados ocidentais são, desde a segunda metade do século XX, a face violenta do imperialismo, dominante, e fazem-no dizendo defender a «civilização ocidental». Que significa, nada mais, nada menos, a civilização «cristã» burguesa.

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E, deste modo, a ideologia judaico-cristã pode  «obscurecer-se, ficar na sombra» sob o manto diáfano da não-violência.

O expansionismo religioso islamista surge, como concorrencial mais violento, porque é o ponta de lança político-ideológico militante de um sistema económico poderoso, em matérias-primas, mas com um desenvolvimento social pré-capitalista.

Esse expansionismo ganhou espaço e mesmo força militar, devido ao facto de ter sido um aliado operacional do imperialismo ocidental, nos últimos 20 anos, na concorrência geo-política e geo-estratégica com as potências emergentes, em especial Rússia e China.

3 –  A separação da religião da esfera do Estado, levando-a para o domínio do privado, exige, na situação actual, uma revolução política.

E isto, porque a religião cristã está, intimamente, conectada e formatada com o regime capitalista dominante.

Sem a separação económica e política da sociedade em geral do emaranhado religioso, ou seja sem pôr em causa a especulação financeira, e o sistema de usura inerente àquele, continuarem, permanentemente, com a questão religiosa na ordem do dia. A religião no domínio do Estado é um entrave ao avanço ideológico societário.

Se retirarmos à religião o seu poder económico, naturalmente, estará aberto o caminho para conduzir o seu domínio público actual para a esfera privada, onde dever ficar restrita.


terça-feira, 16 de agosto de 2016

90 ANOS DE FIDEL: DO REVOLUCIONÁRIO SÓ RESTA O MITO

1 – O antigo Presidente do Estado cubano Fidel Castro fez, sábado, 90 anos.

O ainda líder político de Cuba, já que dirige o partido que governa o país, formalmente retirado dos negócios correntes do Estado, apresenta-se, ainda agora, como revolucionário e comunista, alicerçado no facto de ter encabeçado os partidários que derrubaram o regime ditatorial capitalista pró-americano cubano do sargento Fulgêncio Batista, na noite da passagem do ano de 1958.

O regime castrista efectuou-lhe homenagens laudatórias, procurando fazer crer que Castro representa o mesmo ideário dos primórdios da Revolução anti-imperialista cubana.

Mas, continua Castro a ser o revolucionário que liderou a revolução nacional anti-imperialista de 1958?


2 – O papel desempenhado por Fidel Castro, nestas quase seis décadas, não se analisa pelas suas declarações a favor de uma ideologia ou de um estado de espírito, mas sim pelo protagonismo que desempenhou e desempenha no interior da sociedade cubana.

Em 1958, o grupo guerrilheiro de Fidel Castro – Movimento 26 de Julho - tomou Havana, após cerca de dois anos de combates contra o regime de Fulgêncio Batista, um protectorado dos Estados Unidos da América.

Ganhou a governação contra o poder de Estado existente, mas também contra a orientação política do então maior partido oposicionista, o pró-soviético Partido Comunista de Cuba.

A mudança de regime em Havana deu-se com uma revolução nacional anti-imperialista, numa conjugação de forças que incluíam a burguesia liberal, cujo representante era Manuel Urrutia Lleó, que foi o primeiro Chefe de Estado em 1959.

O novo poder político mereceu, de imediato, a hostilidade da administração norte-americana, o que levou Fidel Castro a procurar uma aliança com a então União Soviética.

Em poucos meses, o novo regime assume-se como socialista. Desfaz o velho PCC e funda um novo, a imagem e semelhança do novo poder, liderado por Fidel Castro.

Preconiza medidas de aparente socialização da sociedade, como a apropriação dos meios de produção.

Decreta e vai formalizando medidas económicas e sociais, que são do agrado de uma maioria do povo: tais como a diminuição do fosso salarial, ensino e saúde para todos.

A sociedade cubana era na altura do derrube do regime de Fulgência Batista uma sociedade de latifúndio, com um fraco desenvolvimento industrial. O proletariado era muito minoritário e sem real expressão no desenvolvimento societário.

Em termos económicos, o poder nascente adquiriu o modelo de capitalismo de Estado, com uma minoria a organizar a instituição estatal em torno dos interesses específicos que se vão tornar dominantes.

À medida que a sociedade cubana se tornava dependente das exportações para a ex-União Soviética e seus países +satélites+, dentro do regime cubano começam a verificar-se clivagens, que não surgem, aparentemente, à luz do dia, mas tem a sua expressão com a saída de Che Guevara do governo e de todas as funções políticas em Cuba e a saída para procurar «focos» guerrilheiros no exterior.

Guevara tinha criticado publicamente a antiga URSS no decorrer de um périplo ao estrangeiro, a chamada «declaração de Argel».

Ernesto Che Guevara foi-se tornando, progressivamente, crítico do «modelo socialista» implantado na ex-URSS.

Hoje, conhecem-se os seus escritos políticos sobre a situação nos chamados países socialistas.

Num carta de 1965, dirigida ao então ministro da Cultura cubano Armando Hardt, ele manifesta-se contra «o continuísmo ideológico» do regime face à política soviética.

Mais tarde, numas «notas críticas» sobre o Manual de Economia Política da Academia de Ciências da URSS, elaboradas entre 1965 e 1966, Guevara já assinala mesmo que os chamados países socialistas tinham entrado abertamente na via capitalista.

3 –  Embora o regime castrista não tivesse apoiado a via de desagregação do sistema soviético de capitalismo de Estado, e, continuasse com proclamações sonoras no apoio ao socialismo, o certo é que o Estado cubano era (e é) dominado pelo Capital.

(Guevara pode considerar-se como uma ténue via radical que não teve consistência económica e ideológica para subverter a situação).

A sua apropriação «colectiva» dos meios de produção ficou nas mãos dessa minoria que se auto-intitula revolucionária e que instituiu o novo Estado aos seus interesses.

A diferença formal entre o poder político castrista e o poder do capitalismo liberal de Wall Street assenta «numa maneira frugal» como beneficia da apropriação do produto dos meios produtivos.

O impulso da revolução cubana de 1958 para a via socialista exigiu um desenvolvimento económico que não estava ao alcance da sociedade, nem teve o apoio de revoluções socialistas noutras partes do mundo, que não existiram ou não conseguiram vingar.


Fidel Castro é um protagonista contraditório produto dos acontecimentos que sucederam no Mundo, ao longo de décadas, mas que não se sedimentaram.


O revolucionário Castro desapareceu com o ascenso contra-revolucionário que alastrou pelo planeta desde segunda década do século XX. 
Embora a sua auréola se mantenha em certos sectores sociais mundiais.