

1 - Os males, que presentemente, o chamado mundo ocidental está a causar no Magrebe e no Médio-Oriente diferencia-se, em parte, do que aconteceu anteriormente com a colonização forçada de toda aquela região pouco depois, e nas dezenas de anos subsequntes, à Conferência de Berlim em 1815, onde os povos locais foram invadidos e trucidados, principalmente, pelas patas despóticos dos apetites coloniais europeus.
2- Todas as repartições arbitrárias de territórios, as rapinas desenfreadas das matérias-primas, as guerras civis fomentadas, tiveram um traço distintivo das dominações coloniais inglesas e francesas, principalmente, e em menor escala na Líbia, com a colonização italiana.
3 - Todavia, todas estas acções pretendiam, melhor dizendo, fazia-se propagandear na altura, que se actuava para conseguir uma transformação societária, tirando os povos árabes e muçulmanos da barbárie. Claro que essa piedosa pretensão trouxe, em parte uma desarticulação dos regimes medievais que existiam, então, desde Marrocos até ao Irão.
4 - Embora as intervenções consideradas subversivas para os regimes despóticos de barbárie dos clãs e tribos tivessem produzido um safanão e, em muitos territórios, vieram a mudar, realmente, os regimes de monárquicos para republicanos, o que em si se pode considerar que houve neles revoluções, o certo é que o papel interventor das antigas potências coloniais se transferiu para o controlo total - ou em parceria - com os novos regimes nascentes, que não evoluiram, regrediram, sempre servindo os apetites coloniais das velas potências europeias, e, de maneira particular após a II Grande Guerra tornando-se aliados, mais ou menos permanentes das verdadeiras potências ganhadoras dessa guerra, a antiga União Soviética e os EUA.
Toda a agitação nacionalista dos anos 50 que percorreu o chamado mundo árabe tinha no bojo um desejo profundo de mudança que os povos da região queriam empreender para afastar o jugo do peso colonialista anterior. Quer os EUA, quer a ex-URSS, impulsionaram essa mudança, é certo, mas faziam-no tendo em mente a conquista de interesses próprios, mesquinhos, para os seus objectivos estratégicos.
Em parte conseguiram-no. Em particular, os EUA, depois do colapso da URSS, que manietaram, praticamente, os principais países produtores de petróleo, encimando-os de regimes o mais retrógrados possíveis, como o caso do Irão, da Arábia Saudita, do Egipto pós Nasser, da Jordânia, do Iraque, da Tunísia, da Argélia e de Marrocos, entre outros.
5 - Pelo contrário, fomentaram guerras de uma crueldade terrível, como foi o caso do conflito sangrento que causou mais de um milhão de mortos, nos anos 80, entre o Iraque e o Irão, e ainda nos anos 80 e 90, provocando um cerco crescente - e armado - à Líbia, que procurava diversificar o seu comércio de petróleo, vendendo a várias potências, evitando o controlo asfixiante dos magnates petrolíferos norte-americanos.
6 - Defenderam, ao mesmo tempo, os regime tirânicos em toda a região desde a medieval Arábia Saudita à chamada liberal egipcia, sob o domínio brutal do clã Mubarak. Fizeram tudo por criar forte Exércitos nesses países sob a sua batuta, controlados por assessores do Exército ou da CIA, como esteios de retaguarda para eventuais descalabros dos regimes que mantiveram até à última.
7 - No entanto face ao incremento de um nacionalismo pan-árabe, agrupado sob a bandeira de um certo fanatismo religioso, que começava a impor-se em camadas crescentes de jovens, e não só, que surgia, todavia, como forma de política externa de anti-americanismo e anti-imperialismo, os estrategas de Washington - em especial os lobbies do capital financeiro especulativo onde predominam os judeus - com a cumplicidade dos dirigentes da União Europeia, foram apoiando certos sectores, organizados em partidos e em organizações não governamentais, sem programas definidos, mas alicerçados num movimento de "afastamento" dos "velhos déspostas" para fazer com que algo mudasse para que tudo pudesse continuar na mesma.
8 - O mesmo sucedeu no Egipto. Corre-se com Mubarak, mas entrega-se, em golpe de Estado, o poder aos seus corifeus, todos eles obdientes a Washington.
9 - A fase seguinte era a Líbia. Também aqui havia descontamento entre a juventude, também, aqui havia um velho désposta. Foi delineada uma estratégia que teria o começo na região mais longínquia da capital, a cidade de Bengazi, (dois mil quilómetros) pouco favorável a Kadafi, e situada muito perto do Egipto, de onde seriam enviadas "missões humanitárias" egipcias formadas pelao novo regime imposto pelos militares pró-americanos, que certamente transportaram armas para os rebeldes.
O regime líbio pareceu tremer. Mas aqui os jovens não puderam contar com o Exército, cuja formação provinha das estruturas montadas pela antiga União Soviética, que, apesar dos esforços de americanos, franceses, ingleses, russos e até chineses, não se colocaram em massa contra o actual lider Kadafi. Este tem conseguido resistir.
10 - A táctica ocidental engendra agora um pretexto, procurando a ajuda de uma entidade sem legitimidade nenhuma, a Liga Árabe, que tem à frente, precisamente, um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de MubaraK, Amr Mussa, e é manipualda essencialmente pelas monarquias do golfo.
Procuram-se pretextos para uma invasão. Que até será fácil.
Um dilema.
11 - Finalmente, porque não se fala na imprensa ocidental nas repressões terriveis que estão a acontecer na Arábia Saudita às manifestações contra a decrépita e corrupta monarquia, que só se mantem no poder, porque é sustentada pelos Estados Unidos?





