domingo, 26 de fevereiro de 2012

EUA/IRÂO: VÃO HAVER MUDANÇAS GEO-POLÍTICAS?



      


  1 - Algo está a mudar nas declarações dos principais intervenientes na geopolítica do Médio-Oriente e Mar Cáspio, nas últimas semanas.


A mais importante, para mim, é a do chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas norte-americanas, general Martin Dempsey, que sublinhou, há dias, que o seu parceiro de confronto económico-geo-estratégico na região, o Irão", é um "actor racional", argumentando que - para ele, estratega político-militar norte-americano - "não está claro" que o regime iraniano "vai fazer uma bomba (nuclear) e com base nisso", precisou: "acho que é prematuro decidir exclusivamente que o tempo de uma opção militar chegou".


Nesta sequência, surgiram afirmações das agências dos serviços secretos norte-americanos a tocarem na mesma tecla. Não existe qualquer prova de que o Irão esteja a avançar para um programa nuclear militar. O mensageiro é o insuspeito jornal New York Times, um jornal do lobby judeu americano.


É estranho? Não é?


É que, por detrás do Irão, estão várias componentes, as mais importantes económicas (hoje, aquele país é um potentado energético), depois as relações militares estão a sofrer mudanças importantes (o militarismo norte-americano está a asfixiar a economia do seu próprio país), e, em terceiro, as intervenções das grandes potências nucleares, Rússia e China, estão, ainda que momentaneamente, em rota concorrencial com os Estados Unidos da América, face à importância geo-estratégica das matérias-primas primordiais do Mar Cáspio.


Um quarto ponto, talvez o mais significativo, no presente: a crise síria está a "gerir um número muito maior de condicionantes do que existíam no caso líbio", numa confissão, desenvergonhada, do ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, William Hague.


Finalmente, mas apenas como um aparte, o capital judeu sionista de Israel está a perceber que o seu isolamento é maior do que supunha. 


E os dirigentes sionistas do Estado israelita, como o Primeiro-Ministro, Benjamin Netanyahu, e o ministro da Defesa, Ehud Barak, que, há meses, pressionavam, com todos os pretextos possíveis, para a efectivação de um ataque ao Irão, sentem que o "chão" lhe está a fugir. E pedem contenção.


Na quarta-feira, no jornal do lobby judeu norte-americano New York Times, Efraim Halevy, ex-chefe máximo da MOSSAD, adverte para o perigo, que representa, neste momento, e isto no que diz respeito à sobrevivência de Israel, um ataque aos complexos industriais nucleares do Irão.


E, porquê, na perspectiva deste chefe-mor da secreta israelita, uma eventual movimentação "descontrolada" contra a Síria, revolucionaria tudo à sua volta.


(Curioso, para quem goste de analisar estas coisas, os chineses estão a construir, neste momento, uma das maiores auto-estradas de Israel!!!).



2 - Significam estes indícios que o assalto imperialista ocidental aos mercados energéticos do Médio-Oriente e do Mar Cáspio irão diminuir. 


Penso que não. Ir-se-á refinar porque as rotas das energias (oleodutos e gasodutos) estão a sofrer alterações de vulto, de maneira evidente na área do Mar Cáspio.


Há reformulações geo-estratégicas, possivelmente, até de alianças naquela região do mundo, que apontam que, possivelmente, neste ano, vamos assistir a mudanças drásticas em toda a região.


A chamada "Primavera árabe" está a trazer mais dores de cabeça para o Ocidente, Rússia e China, do que pensaram quando estimularam os "movimentos internos" desde Marrocos até à Síria.




Quer na Túnísia, quer no Egipto, as eleições foram ganhas por forças políticas religiosas, construídas, essencialmente, em torno das chamadas "Irmandades Muçalmanas", que, na prática e como se pode ver no terreno, foram financiadas pela Arábia Saudita.


Embora, esta última seja uma aliada de Washington, tem também uma agenda própria, agenda esta que está muito ligada à sua tentativa de sobrevivência como regime teocrático e ditatorial na região.


Mas, também ganharam protagonismo forças político-religiosas, como os salafitas, que estão muito ligados ao Irão. Há, nesta contenda, uma potência nascente regional muçulmana, que é a Turquia, que pretende interferir em toda a região (muitos dos povos com os azeris e os iugures, entre outros, têm uma ligação aos turcomanos), mas surgem, como potência, com um óbice para os seus correlegionários, quer sejam sunitas ou xiitas. Está ligada à NATO e aos norte-americanos.


Todavia, a crise na Síria e a presença crescente naval na região do Irão, por um lado, e da Rússia e China, por outro, na região (não esquecer que o governo chinês tem 25 navios de guerra entre a Somália e o Golfo Pérsico!!!), embaraçou a Turquia, e, isto porque a intervenção turca no interior do território sírio já levou à captura de perto de 100 "homens das tropas especiais" de Ancara, sendo que, na sua maioria, segundo a imprensa local, pertencem aos serviços secretos.


Ora, a passagem e presença de navios de guerra iranianos ao longo da costa mediterrânica, que abrange a Síria, Israel e a própria Turquia, é um sinal dado por Teerão de que uma nova potência - ainda que regional e incipiente - está a dar a cara aos seus possíveis concorrentes.


Um alto político iraniano foi muito explicítico (embora com alguma dose de demagogia): a presenças de esquadras navais da Rússia e do Irão, quer no litoral líbio-egípcio, quer na Síria "é uma mensagem forte contra qualquer possível aventureirismo dos EUA".


"No caso de os EUA cometerem qualquer erro estratégico na Síria, há real possibilidade de que o Irão, a Rússia e vários outros países ripostem com força esmagadora contra os Estados Unidos", acrescentou o mesmo político.


Este é que é o busilis da questão: Quem cometer um erro - passagem da diplomacia para a guerra, não se terá uma percepção, no imediato, quem terá os estragos mais elevados e quem necessitará de empregar mais meios militares e mais violentos. 


A prazo, sabe-se que os EUA poderão vencer. 


Mas, antes desse prazo, poderão ficar sem homens para levar para a frente, e aqueles que estão em países ocupados da zona poderão perder os "laços" hierárquicos com o centro, Washington. 


(Quem esteve na guerra colonial na Guiné sabe, de experiência própria, como o general Spínola teve de abandonar a guerra, de calças na mão, em 1973, porque as tropas já não lhe obedeciam).


Claro que a Rússia joga aí com a sua habitual política de duas faces: não quer a presença maciça ocidental, mas também pode deixar cair os seus aliados ocasionais, como o Irão e a Síria, em troca de vantagens de "ascensão" na liderança mundial.


A questão, todavia, do ponto de vista geo-estratégico-militar, é o precedente que se criou.


Na realidade, as águas marítimas do Mediterrâneo magrebino na última década e do Mar Negro e Golfo Pérsico eram um "quintal" das forças ocidentais, capitaneadas pelos EUA, que, com uma simples ameaça, obrigava os seus potenciais oponentes a conterem-se nas movimentações e exercícios militares.


Hoje, o Irão, que foi martirizado, entre 1980 e 1990, por uma guerra conduzida pelos EUA, por interposta personagem que abandonaram, Saddam Hussein, do Iraque, faz zarpar parte da sua esquadra pela costa mediterrânica junto a Israel e faz questão de enfrentar - ainda que em palavras, mas não só - a única potência militar exterior à região os EUA.


Tempos atrás, o Egipto, fiel submisso a Washington e em concluio com Israel, impedia a passagem de navios de guerra iranianos pelo Mar Vermelho. 


(As autoridades político-militares do Egipto vão levar a julgamento um conjunto de "cooperantes" de ONG (Organizações Não Governamentais) norte-americanas a operarem naquele país, que interferiam e organizavam as "manifestações" anti-governamentais).


Desde a queda de Mubarak, a Marinha de Teerão já navegou duas vezes pelo Canal do Suez.


A propósito da crise na Síria, é real que a influência, quer da Rússia, quer do Irão, aumentou na região.


Naturalmente, em território sírio, estão "conselheiros iranianos", como também devem estar russos e chineses. 


Os Estados Unidos (e Israel) temem certamente este avanço, que poderá ser maior, com uma internacionalização crescente do conflito. 


Temos de nos inquirir: qual a razão, porque o Egipto "abre mãos" da sua antiga hostilidade ao Irão? 


Será porque as forças da "Irmandade Muçulmana" estão demasiadas ligadas à Arábia Saudita? Ou será que pretende "rever" a sua "asfixia" pelos norte-americanos? Porque será que o comando militar que governa o Egipto atira com "as culpas para mãos estrangeiras" face à continuidade das movimentações populares no país?  Porque será que a Irmandade Muçulmana, vencedora das recentes eleições legislativas, ameaçou rever o Tratado do Sinai, assinado em 1979, por Sadat e Beguin, com a intervenção do ex-Presidente dos EUA Jimmy Carter?


Os indícios apontam para novas relações geo-estratégicas na região.


3 - A crise capitalista financeira de 2008 trouxe repercussões imediatas nos Estados Unidos, e por arrasto, em quase todo o mundo capitalista mundial, incluindo a China, como estrutura económica de capitalismo de Estado.


No confronto concorrencial, que se estabeleceu no mundo, o centro financeiro de Wall Street, em cumplicidade directa com a City Londrina, e os seus capatazes governamentais ingleses (conservadores e trabalhistas) virou-se para a União Europeia, a potência económica mundial em ascensão, com a moeda mais poderosa e atractiva. 


Esta UE, com pés de barro na sua componente militar e diplomática, e na sua autonomia financeira, sofreu - e ainda sofre - uma dos mais ferozes e concentrados ataques de morte entre grupos capitalistas, que se dizem aliados e amigos do peito.


Concorrência, certo, mas também conjução para se salvar do descalabro.


Eles estão, de um lado e doutro, na mó de cima, estão a controlar toda a crise que se abateu sobre eles, e eles fazem-no sentir sobre as classes exploradas, mas abriram a caixa de pandora: houve uma mudança radical nas relações inter-capitalistas.


Os EUA tiveram de retrair a sua ânsia imperialista feroz, minados por uma debilidade que está a vir, novamente, ao de cima, no seu sistema financeiro. 


Mas, tal não significa que a voracidade do complexo industrial-militar não empurre os representantes políticos para a guerra, como forma de "avançar no meio dos destroços". Todavia, os tempos estão a mudar.


Seria exaustivo, neste texto, desfiar a situação actual do sistema bancário e segurador nos EUA, que pode ser consultado nos resultados dos próprios bancos, bem como nos relatórios da Secretaria do Tesouro e até da Reserva Federal (FED).


Estão, em certa medida, a virar-se para dentro, para uma certo proteccionismo comercial, ao mesmo tempo que os países capitalistas, chamados emergentes, como a Rússia, China, Índia, Brasil e Paquistão adquirem uma projecção maior nas actividades do capital e do comercial mundial


E nesta conjuntura é que se deve analisar a evolução da União Europeia. Ela resistiu, como entidade económica capitalista, pois teve a flexibilidade suficiente para ultrapassar as suas dificuldades institucionais. O seu incremento futuro irá ser ditado, pela modificação total da capacidade de se modernizar em democracia.


Mas, também foi na UE que os mecanismos de auto-defesa e mudança se produziram, porque o poder económico (e certamente político) sentiu que, por detrás desta pressão, está a possibilidade de uma forte contestação popular.








Infelizmente, esta contestação é fragmentada, e não está apoiada num programa político estruturado de ruptura.


O atraso entre a teoria e "praxis" é grande, como grande é a ausência de uma organização supracional europeia revolucionária.


Os tempos vão determinar o que vai surgir: fascização, democracia ou revolução. E a Europa é o centro de toda esta capacidade de mudança.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

UMA PEQUENA PASSAGEM PELA ACTIVIDADE DO NOVO CARDEAL PORTUGUÊS










1 - Os grandes meios de comunicação social portugueses embandeiraram em arco com a nomeação, recente, de um hierarca religioso de origem português para ocupar o cargo de cardeal da Igreja Católica Apostólica Romana. O senhor chama-se Manuel Monteiro de Castro.

Ficamos a saber que é um homem da diplomacia do Vaticano, ou seja, um profissional de carreira no interior da Santa Sé, conhecedor dos negócios mundiais da Igreja Católica Apostólica Romana. 


Na biografia oficial distribuída pelo jornal papal "L`Observattore Romano", assinalam-se alguns locais da sua passagem: "Panamá, Guatemala, Vietname, Austrália, México, Bélgica, Caraíbas, El Salvador, Honduras, África do Sul e Espanha, onde permaneceu entre 2000 e 2009; foi também observador permanente do Vaticano na Organização Mundial do Turismo".


Qual será a razão porque uma Igreja dita espiritual necessita do "turismo"?


Naturalmente, para sacar dinheiro, que é um valor muito material. E quem visitar o Vaticano poder viver "in loco" o frenesim monetário, naquele sector, dos negócios "sagrados" da Santa Sé.


Desde a Capela Sistina à mais simples vela. Tudo em nome da Fé, da Fraternidade, da Solidariedade....das "esmolas" papais.


E claro a Santa Sé sabe, perfeitamente, de toda a poda, pois, ela, com o seu sentido espiritual e desinteressado do materialismo, está no topo dos negócios do capitalismo internacional, (legais e ilegais) através dos seus bancos, das suas empresas transnacionais, das suas vigarices bolsistas.

A Manuel Monteiro de Castro  - convém referir que se passeia pelos *corredores do Vaticano* desde 1961 -
deram-lhe um cargo de "penitenciário-mor da Santa Sé", e acrescenta-se, na sua biografia oficial, que a representou "em muitos congressos e conferências a nível mundial". 


Como penitenciário-mor, presidente de um tribunal que, na Idade Média e Moderna, tinha um poder repressivo enorme, hoje, em termos mais suaves, ele dedica-se a conceder as absolvições, as dispensas, as comutações, as sanções, as remissões e "outras graças". 


O alemão Martinho Lutero, no século XVI, rompeu com a Igreja de Roma, devido, justamente, em outras razões, ao papel material negocial que as indulgências e dispensas representavam no engrossar da corrupção material da Santa Madre Igreja Romana.


Em termos práticos, elas significam, ainda hoje, uma canalização muito grande de dinheiro para os cofres do Vaticano.


A finalizar esta introdução semi-errática sobre a vida e actividade do novo cardeal um pequeno apontamento: o lugar onde nasceu e viveu nos seus primeiros tempos de iniciação como ser pensante - a aldeia de Santa Eufémia de Prazins, no concelho de Guimarães. Na parte final, faremos a conexão.  


2 - Falemos agora na sua ideologia e maneira de pensar.


Como cardeal, que a biografia do jornal papal faz questão de  referir que se destacou em "defesa dos mais fracos", ele falou directamente para os portugueses, em entrevista inserido no jornal Correio da Manhã", e analisou, justamente, o papel da mulher.  


 "A mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos", defendeu Manuel Monteiro de Castro, considerando que existe falta de apoio do Estado à família. Um problema em Portugal.



Ao Jornal de Notícias, o cardeal, de 73 anos, que, certamente, dedicou imenso tempo às suas obrigações familiares, como celibatário, sublinha: "devíamos dar muito mais valor à família e ao valor da mulher em casa. O trabalho da mulher a tempo completo, creio que não é útil para País". 


"Trabalhar em casa sim, mas que tenham de trabalhar pela manhã até à noite, creio que para um País é negativo. A melhor formadora é a mãe, e se a mãe não tem tempo para respirar como vai ter tempo para formar", sublinhou no seu douto pensamento.


Realmente, em primeiro lugar, é de uma grande desfaçatez, um hierarca de uma entidade que se reclama, acima de tudo, do espiritual, imiscuir-se nos assuntos materiais e sociais de uma sociedade, que eles rejeitam.


Em segundo de um cinismo a toda a prova, pois eles escolhem o celibato, exactamente como acto consciente de abandono da sua condição de dar apoio à constituição e criação de uma família.


Em terceiro lugar, como pode um hierarca que, como seguidor do cristianismo, menospreza os direitos humanos e as relações sociais comunitárias, emitir palavras piedosas em sentido contrário.


Cito, para conste as orientações de Jesus Cristo, retiradas do Evangelho de Mateus:


"Se alguém me reconhecer diante de todos como seu amigo, abertamente o reconhecerei como meu amigo diante do meu Pai no céu. Mas se alguém me negar publicamente, eu o renegarei publicamente diante do meu Pai no céu. Não julguem que vim trazer paz à terra! Não, antes vim trazer conflitos(sublinhado meu). De facto vim para lançar um homem contra o seu pai, a filha contra a mãe, a nora contra a sogra.


Os piores inimigos de um homem estarão justamente dentro  da sua própria casa! Se amarem mais o vosso pai e mãe do que a mim, não merecem ser meus; se amarem o vosso filho ou filha mais do que a mim não merecem ser meus. (Mateus, pag. 24, O Livro, Publicações Europa- América, 1981)

3 - Finalmente, e procurando interligar a naturalidade do novo cardeal com a similitude de nascença dos principais hierarcas da Igreja Católica portuguesa, faço uma pequena incursão, em parte do seu *BI*, do conjunto de bispos católicos portugueses, que sejam titulares de uma diocese, ou seja, em termos práticos, que exerçam a carreira activa dentro da hierarquia da sua confissão religiosa.

Existem, geograficamente, 20 dioceses, e um bispo diocesano para as Forças Armadas, que se intitula, na liturgia, Ordinariato Militar. 


Curiosamente, é este último, de nome Januário Torgal Ferreira, que ostenta igualmente o posto de major-general ou contra-almirante, o único bispo titular actual que nasceu numa grande cidade, Porto.


Todos os restantes nasceram em aldeias, de onde vieram, posteriormente, para seminários, onde se formaram.


Citamo-los, com as suas naturalidades:


Vila Real - Amândio José Tomás, nascido em Cimo de Vila da Castanheira, Chaves;


Viana do Castelo - Anacleto Cordeiro Gonçalves de Oliveira, natural de Cortes, Leiria;


Portalegre-Castelo Branco - Antonino Eugénio Fernandes Dias, Longos Vales, Monção;


Leiria-Fátima - António Augusto dos Santos Marto - Tronco, Chaves:


Angra do Heroísmo - António de Sousa Braga, Santo Espírito-Vila do Porto, Ilha de Santa Maria;


Aveiro - António Francisco dos Santos, Tendais, Cinfães;


Funchal - António José Cavaco Carrilho,  S.Clemente de Loulé, Loulé;


Braga - Jorge Ferreira da Costa Ortiga, Brufe, Famalicão;


Beja - António Vitalino Fernandes Dantas, Oleiros, Vila Verde;


Porto - Manuel José Macário do Nascimento Clemente, S.Pedro e S.Tiago, Torres Vedras;


Setúbal - Gilberto Délio Gonçalves Canavarro dos Reis, Barbadães de Baixo, Vreia de Bornes, V.Pouca de Aguiar;


Viseu - Ilídio Pinto Leandro, Rio de Mel, Pindelo dos Milagres, S.Pedro do Sul;


Lamego - Jacinto Tomás de Carvalho Botelho, Prados de Cima, Rua, Moimenta da Beira;


Lisboa - José da Cruz Policarpo, Alvorninha, Caldas da Raínha;


Évora - José Francisco Sanches Alves, Lageosa, Sabugal;


Bragança-Miranda - Manuel Garcia Cordeiro, Vila Nova de Seles, Angola;


Algarve - Manuel Neto Quintas, Mazouco, Freixo de Espada à Cinta:


Santarém - Manuel Pelino Domingues, Lentisqueira, Mira;

Coimbra - Virgílio do Nascimento Antunes, São Mamede, Batalha;


Guarda - Manuel da Rocha Felício, Mamouros em Castro Daire. (fonte Anuário Católico).


4 - Vive esta hierarquia e a respectiva entidade religiosa das "esmolas" e dos peditórios feitos às saídas ou entradas das respectivos edifícios de culto?

Não, a Igreja Católica portuguesa é uma instituição muito rica, cujos valores patrimoniais, financeiros e negociais são desconhecidos. Pode dizer-se que vive, realmente, na abundância.

Na realidade, através das dioceses e paróquias, essa Igreja controla, com entrada fresca de dinheiro dos utentes e subsídios estatais, uma parte substancial da assistência social, da saúde pública, da educação, e rendas não especificadas de valores patrimoniais e empresariais.

Pela Concordata de 2004, tem acesso, ainda, a benefícios e privilégios específicos, que, aliás, outras confissões não têm.

Além de valores astronómicos que recebem, cada ano, do Orçamento de Estado para as IPSS, na esmagadora maioria no âmbito da sua gestão, controlam o que eles consideram ser "Obras de Acção Social", que enquadram creches, jardins infantis, escolas básicas e ATL. ( Estes são 1754 no país, segundo o Anuário Católico).

São proprietários de 164 escolas católicas. Igualmente gerem 360 "Centros da Vida Cristã), que comportam Casas de Retiro, Capelanias e Santuários. Tem na sua dependência 99 Institutos Religiosos Femininos e 17 Masculinos, bem como Institutos Culturais (desde Bibliotecas a Museus).

De referir, a terminar que controlam uma parte significativa da comunicação social em Portugal, com 539 jornais, revistas, boletins, rádios, editoras, tipografias e livrarias. (Fonte Anuário Católico).

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

EUA: EXPLOSÃO SOCIAL E RAZIA BANCÁRIA?


1 - O capitalista judeu norte-americano George Soros, uma das eminências principais do sistema especulativo mundial, centrado em Wall Street, afirmava, a 24 de Janeiro último, à revista Newsweek, ela própria nas mãos do lobby judeu, que havia a possibilidade, nos tempos mais próximos, do colapso do sistema económico mundial.
Pode surpreender-nos, como um paradoxo, esta frase desse explorador, ele que tem sido dos capitalistas que mais tem ganho com a especulação desenfreada, que está estabelecida a nível mundial, desde o surgimento da crise financeira global de 2007.

Claro que Soros tem perfeita noção, que, no momento presente, esse colapso não está eminente, mas procura criar pânico e medo entre as classes exploradas, aconselhá-las ao imobilismo, para que não surjam nas ruas os slogans e movimentos que serão então inquietantes, e, prenúncio, quando vierem a ser, realmente, soltos e colocados na ordem do dia de "combate ou morte", estaremos em trabalho de parto de uma sociedade nova.

Eu penso que, apesar da crise, sem precedentes do sistema capitalista na actualidade, ainda não estão criadas as condições para uma sublevação societária. 

Há, no entanto, sintomas. É verdade. 


O futuro - talvez mais próximo do que estejamos a magicar - o irá determinar.

Para que as classes trabalhadoras possam ter capacidade de efectuar a sua própria libertação, terá de haver uma conjugação a seu favor entre o domínio da relação produtivas e as relações sociais. E, nesta interligação, a mais importante é que as classes laboriosas se tornem, elas próprias, como o centro da acção. 

Quer isto dizer, sejam classes revolucionárias no sentido político do termo.



Clique aqui para ver o gráfico em tempo-real sobre Bank of America 1 Ano


















evolução das acções do Bank of America em 2011


2 - Nas declarações de Soros à Newsweek, o especulador sustenta que o Mundo enfrenta um período "malévolo" e pede à Europa para lutar para evitar "cair no caos e no conflito".


Mas, qual a razão desta preocupação de um magnata que tem lançado o "caos" financeiro para sacar mais valias bolsistas, enormes mais valias, que se apressa a esconder em off-shores e/ou a colocar em produtos chamados fundos de investimento, anónimos, altamente rentáveis e inúteis, de que ele e outros semelhantes são os principais detentores, quer a nível de empresas financeiras, quer em conjugação com os bancos?


Porque ele está interessado que aumente a dívida pública (e absorva a privada, principalmente), porque ele sabe que isso satisfaz, principalmente, a horda burguesa capitalista financeira, onde ele se insere, pois ela com o afundamento constante do défice estatal se torna na fonte principal do seu enriquecimento.


Pois, ele sabe que, que no sistema legislativo e executivo norte-americano, quer no europeu, os seus (deles especuladores) representantes transferem o dinheiro sacado aos contribuintes, cada vez mais e em maior quantidade, para o sistema bancário a juros da ordem da "uva mijona", que depois colocam na especulação a preços mais elevados, que o próprio Estado terá de suportar a juros de agiotagem. 


Mas então porque fala no perigo do "caos" e do "conflito"?


Porque a situação da especulação está a chegar aos limites da bancarrota. 


E não propriamente, na pequena Grécia, mas sim, porque os indícios da economia política, apontam para uma provável "implosão" em alguns dos principais bancos mundiais, que estão situados, justa e principalmente, no centro do seu sistema especulativo, Wall Street.  


Uma realidade: em 2011, assistiu-se a um afundamento do valor das cotações de grandes bancos, como o Bank of América (ver gráfico acima).


 Por seu turno, o Morgan Stanley anunciou em Dezembro passado, que em quatro departamentos de Nova Iorque irá despedir, pelo menos, 589 funcionários, e anunciou aos seus trabalhadores que encara a possibilidade de cortar cerca de 1.600 empregos em todas as regiões geográficas e em vários níveis hierárquicos.


Explicação: razões económicas, devido a quedas astronómicas nas receitas de banco de investimento e actividades comerciais.



Analistas admitiram que o banco teve um prejuízo profundo no quarto trimestre de 2011, devido a um negócio pouco claro em que terá de despender de 1,8 mil milhões de dólares com um acordo com a seguradora MBIA.


A projecção de receita total é de 6,48 mil milhões de dólares, segundo a Thomson Reuters I/B/E/S, o que significa que está a a haver uma queda de 25 por cento por ano, e já há vários anos.



Também em Dezembro, o Citigroup anunciou o corte de 4,5 mil postos de trabalho no mundo. Mas admitiu que possam ser muitos mais. 


Refere a revista brasileira Veja, de Dezembro, que o Citi  junta-se a outros bancos mundiais nos cortes de postos de trabalho, mais de 120 mil, uma vez que reguladores impuseram normas mais rígidas de capitais e a economia continua fraca. 


As demissões envolverão as unidades próprias de actividades comerciais, que estão sendo reduzidas.



Mas esta perspectiva de razia sombria nos grandes bancos norte-americanos, pode alastrar-se a outros países, que procuram "esconder" esta realidade, com notícias bombásticas e continuadas sobre a União Europeia, caso do Reino Unido (o Lloyds está pelas ruas da amargura, bem como O Deustche Bank (Alemanha) e a Société Générale (França).


Quem está, realmente, no "caos" é o dólar ou o euro? 


Devemos centrar-nos nos próximos nos ventos que sopram dos Estados Unidos.


3 - Ora, chegamos à verdadeira preocupação de Soros: os "confrontos nas ruas dos Estados Unidos".


A questão é real. Mas pode ser mais abrangente. 


As perspectivas apontam para um despertar da cólera, um pouco por todo o Mundo, desde a Europa à China, passando pela própria Rússia, e seguindo mesmo para a Índia e Brasil.


A agitação eleitoral, que vai percorrer grande parte do chamado mundo ocidental - França, Grécia, Estados Unidos da América  - e mesmo fora, passando por vários países do Médio-Oriente, poderá servir para fazer aumentar a consciência de que os povos assalariados espoliados pela agiotagem do capital financeiro.


Mas, também estará em jogo, com as mudanças económicas, que podem surgir, transformações geo-estratégicas de grande envergadura, que poderão fazer aumentar a tensão internacional, a que não estarão alheios as conquistas e reformulação de alianças em torno dos chamados grandes espaços da energia, em especial mo Médio-Oriente e no Mar Cáspio, que trataremos num outro artigo.













domingo, 5 de fevereiro de 2012

AS GUERRAS DO DINHEIRO NAS IPSS

Fonte :CNSI

1 - Dois hierarcas da Igreja Católica portuguesa, os padres Lino Maia e Arsénio Isidoro, degladiaram-se, domingo, para controlarem a liderança dos órgãos sociais da Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade Social (CNIS).

Aparentemente, parecia estar em jogo uma orientação para prosseguir uma acção benemérita a favor dos desfavorecidos, que a Igreja Católica debita, no seu dia a dia, como razão da sua "acção caritativa".

Para muita gente, uma crítica a "esta guerra" poderá ser encarada como uma acto de insensatez, já que serão essas "Instituições de Solidariedade Social" os verdadeiros "antros da acção humanitária" no nosso país.

Por muito que custe, o que está em cima da mesa nesta refrega, são "jogos de poder monetário e financeiro", um processo de rendimentos ilimitados do erário público em benefícios dos sátrapas e acólitos da Igreja Católica.

O vencedor neste pleito, o já Presidente da CNIS, padre Lino Maia, defendia no seu programa que um dos seus objectivos principais era discutir com o governo um "mecanismo financeiro que permita ajudar a solucionar os problemas das instituições relacionados com a gestão corrente".

Ou seja, forçar o Estado a dar mais dinheiro para os bolsos do CNIS.

Naturalmente, as Instituições Privadas de Solidariedade Social existem e exercem uma função, que os responsáveis estatais e governamentais, se demitiram para as entregar de mão-beijada às negociatas dos dignitários católicos. 

Claro que estas instituições têm trabalhadores ao seu serviço, organizam creches, lares, hospitais particulares, casas de recuperação de toxicodependentes, estabelecimentos de ensino pré-escolares, mas não o fazem por "solidariedade", mas sim por dinheiro e muito dinheiro.

No Orçamento de Estado para 2012, ficaram destacados para as IPSS mais 2,1 mil milhões de euros. Mais de 90 por cento vão para instituições geridas pela Igreja Católica.

E querem mais. E este governo já se comprometeu, através da canalizações de verbas substanciais, cujos montantes não foram tornados públicos, mas que satisfizeram os interessados "caritativos".



2 - Não se conhece, com rigor, os valores pagos pelo Estado a essas instituições. 

Porque além dos dinheiros canalizados pelo OE, que contemplam fundos canalizados, através de acordos de cooperação, típicos ou atípicos, aquelas são destinatárias de outros financiamentos públicos através de subsídios eventuais e subsídios pagos pelo Fundo de Socorro Social, de apoios canalizados através de alguns programas existentes, como sejam o PILAR e o PAII, bem como de transferências destinadas a investimento por via do PIDDAC. 

(Um poço sem fundo)

Acrescem ainda os benefícios fiscais e para-fiscais de que gozam ou que, através do chamado regime de mecenato social, conferem aos respectivos doadores, quer sejam pessoas colectivas ou
indivíduos, por simples consequência da sua constituição e registo como IPSS.

E uma realidade existe: não se sabe, com controlo rigoroso, como são usados os dinheiros públicos. 



3 - Não consegui, para este ano, saber, através das investigações que fiz qual é o valor que o Estado desembolsa para custear, por exemplo, os lares dessas IPSS.

Em 2010, o Estado procurou fixar esse custo individual mensal em 775 euros, mas a Igreja Católica, através das suas "holdings" para o scetor queriam 1126 euros.

Claro que os representantes das IPSS protestam, argumentando que o valor que recebem é sempre inferior aos custos reais e têm dificuldade em dar respostas às famílias mais carenciadas. Balelas.


Essas IPSS, além daquele valor, retiram a cada utente da sua pensão 80 e mais por cento. 


Quando o utente está acamado, o valor total da mesma - ou somatório - fica na posse da instituição.


É, realmente, um *empochamento* de dinheiro escandaloso.

O mesmo se passa, por exemplo, com os preços que levam às crianças em idade pré-escolar





sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

4 DE FEVEREIRO: AS LOAS ACTUAIS DOS NACIONALISTAS AOS REGIMES CAPITALISTAS *ULTRAMARINOS*




O Presidente da República do antigo regime, almirante Américo Tomás, numa vista "guiada" às antigas colónias








Três imagens de Angola nos últimos 30 anos: o remeço da circulação do caminho de ferro de Benguela; o Huambo actual e durante a guerra civil








1 - No próximo dia 4 de Fevereiro, vão comemorar-se 51 anos do que se convencionou chamar início da guerra colonial nas antigos território ultramarinos portugueses.


Curiosamente, são poucas, hoje, as vozes, pelo menos à boca cheia, que vociferam contra a entrega "sem vergonha" das antigas províncias ultramarinas, contra a "descolonização desastrada", contra esses "vende-pátrias", como fazia, ainda há poucos meses, esse estadista bem comportado e arregimentado pelos esconsos lugares de depravação, como é o caso do actual Ministro dos Negócios Estrangeiros.


Os escuriços de algumas dezenas de anos atrás são, agora, os verdadeiros desbravadores da acumulação primitiva que a era capitalista fez penetrar, verdadeiramente, nos últimos 20 anos, logo transformaram-se, finalmente, em parceiros.


Na realidade, aqueles arautos de antanho, que não é, aliás, de muito antanho, descobriram agora que o seu nacionalismo de pacotilha, se esborou, porque os que alcançaram a independência e são hoje os impulsionadores dos novos regimes capitalistas naqueles novos países, ensinaram-lhe, em pouco tempo, - e eles aprenderam também - que a presença colonial, não era somente posse de terras e de dinheiro, mesmo até introdução de algumas máquinas e outros meios produtivos, mas, essencialmente, uma "artimanha económica" que é a introdução do salariado, em larga escala no espaço nacional.

Com efeito, a passagem da ordem económica feudal ou quase feudal, que existia nas ex-colónias, em 1974, numas mais, noutras menos (Angola estava a ser um cadinho nessa transformação, mas fora a guerra o seu motor!) , para a ordem económica capitalista, que, actualmente, está a ser dominante nas antigas colónias está a ser obra, pela violência (a corrupção, o despotismo, a intervenção brutal do poder de Estado), da nova classe capitalista, que emergiu nos destroços dos laivos de um pseudo-socialismo, que não era, nada mais, nada menos, que da iniciação do presente "liberalismo económico", mas então germinava sob a forma de capitalismo de Estado.


Ou seja, a força, que os tais "nacionalistas" do Império defendiam e praticavam no período anterior ao 25 de Abril, sem conseguirem subverter o sistema económico, porque nunca conseguiram descortinar o que era necessário para pôr em marcha um novo modo de produção, foi feito, em marchas forçadas, desde os anos 90 por essas novas classes. 


E fizeram-no, realmente, pela força. 


Ora, esta está a ser o verdadeiro motor transformador da velha sociedade feudal-gentílica nessas colónias. 


O que significa, para a economia política, que essa força, colocada na verdadeira concepção de transformação social, é um agente económico. 


Até os "nacionalistas de pacotilha" do velho Império aplaudem, agora, com as garras de velhas raposas cheirosas de negócios fáceis.
  
2 - Os dirigentes de Lisboa do colonialismo português do anterior regime nunca tiveram uma perspectiva de transformar as sociedades dessas colónias.


Para eles, esses territórios africanos eram uma coutada, que servia, primeiro, como área de retirada de recursos naturais, e em lugar secundário, como processo de escoamento de algumas matérias transformadas, bem como lugares de degredo, e de uma colonização incipiente, baseada na formação de comunidades brancas auto-suficientes, que viviam ou sobreviviam, essencialmente, com o seu próprio trabalho, e uma exploração desenfreada, sem dó, nem piedade, em regime de escravatura dos autóctones negros, que deu origem as primeiras grandes revoltas.


Alguns colonos capitalistas, que procuraram modificar este estado de coisas, nunca se sentiram apoiados pela chamada "Metrópole" para empreender essa via, que, aliás, era vista e sentida, em Lisboa como "atitudes autonomistas e até separatistas". 


E reprimidos, normalmente, com afastamentos para fora da colónia, ou até com prisões.





A baía de Luanda na actualidade


3 - Mas, seria o colonialismo português um conceito e uma prática apenas dos velhos mentores e defensores do Regime do Estado Novo? 


Em escalas diferentes, por vezes até com argumentações diversificadas, monárquicos, situacionistas pró- Estado Novo, oposicionistas republicanos, socialistas e até o PCP estiveram irmanados, praticamente, até ao início da revolta colonial (e ela não começou, realmente, com a questão angolana, mas com o chamado Estado da Índia, nos anos 50 do século XX, na defesa do Portugal "pluricontinental").


A "extrema-esquerda da República", como se intitulava o grupo da revista "Seara Nova", onde pontificavam António Sérgio, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, entre outros,  mantiveram, desde a sua fundação até, pelo menos, a segunda metade do século XX uma linha constante e consistente de defesa da política colonial.


Já na década de 60, em plena guerra em desenvolvimento, os antigos republicanos, muito próximos do velho socialismo social-democrata, como Cunhal Leal, oposicionista de Salazar, defendia na sua obra "Coisas do Tempo Presente - o colonialismo dos anti-colonialistas: "É preferível, mil vezes preferível, o nosso colonialismo, honrado e progressivo, ao colonialismo de certos anti-colonialistas, em especial aos da Rússia, com os seus campos de concentração e de trabalho forçado e com milhões de vítimas, e ao dos Estados Unidos da América, com o seu colonialismo interno".


O PCP, nascido em 1921, esteve em vias de incluir no seu primeiro programa o desprezo total pelo movimento anti-colonial, preconizando o informe inicial do Comité Central "a venda" das colónias aos ingleses. 


Só a intervenção forçada do delegado da IC, Humbert Droz, levou aquele organismo a abandonar a sua pretensão.


Praticamente, ate à segunda metade dos anos 50, a questão colonial esteve arredada do programa partidário daquele partido.


No I Congresso, segundo o jornal Avante de Novembro de 1943, o informe do seu principal dirigente, um jovem estudante em ascensão chamado Álvaro Cunhal, que usava um pseudónimo (Duarte) estava, justamente, intitulado, "Unidade da Nação Portuguesa na Luta pelo Pão, pela Liberdade e pela Independência". 


Defendia Cunhal que o PCP deveria encabeçar uma "luta nacional contra o fascismo", enquadrando este "nacional" os territórios do Minho a Timor-Leste.


Em 1946, o PCP efectua o seu II Congresso, sendo o relator o mesmo Álvaro Cunhal, agora personalidade mais solidificada na liderança daquele partido, sublinhando que o seu papel é o de "unir e reconciliar", sustentando ainda que deveria ser formado um "Conselho Nacional na amplitude do Movimento de Unidade Nacional", incluindo "republicanos, monárquicos, militares, anarco-sindicalistas, nacional-sindicalistas". 


E assinala o "Avante" que se referiu "à unidade com os católicos como o passo mais decisivo que falta dar na criação dum amplo movimento de unidade nacional".


Toda esta política táctica, insere-a Álvaro Cunhal no projecto de uma "unidade da Nação para a conquista da Democracia". 


Destacou que a luta contra "a opressão colonial" apenas deveria ser defendida uma "outra política" na gestão corrente das possessões do Ultramar.


Este projecto de "Unidade da Nação" está subjacente na questão de Goa, ocorrida em 1947, quando movimentos separatistas surgem naquela antiga colónia. 


O Jornal "Avante" culpa "O Salazarismo" de afastar "Goa de Portugal". 


Vejamos o argumento rebuscado em toda a sua sequência: "pela sua política antidemocrática e de opressão colonial, o governo salazarista está cavando um irremediável abismo entre Portugal e os povos coloniais".


Curioso é o elogio do mesmo jornal à morte de Paiva Couceiro, um monárquico convicto e colonialista ferrenho, com notícia central de primeira página. 


Eis o título "PAIVA COUCEIRO; inimigo do fascismo", e corpo central da notícia: "As ideias e a acção de Paiva Couceiro nada tinham que ver com as nossas, de comunistas. Mas um ponto comum nos unia: a luta pela defesa da independência e liberdade de Portugal, a luta contra o governo fascista de traição aos interesses do povo e da nação portuguesa". (sublinhando meu). 


Hoje sabe-se que, desde 1952, havia divergências entre a orientação da direcção do PCP e os "jovens coloniais" que nele militavam ou estavam próximos ( o angolano Lúcio Lara e a moçambicana Noémia de Sousa chegaram a participar em reuniões da cúpula daquele partido).


Estas divergências devem ter contribuído para que, em 1957, apenas no seu V Congresso, o PCP tivesse inserido no seu programa o direito à independência das colónias portuguesas.


Mas, o rumo da sua política estava centrado na busca da unidade nacional. 


De certo modo, a grande clarificação dá-se com o início da própria guerra, onde a questão colonial se tornou um dos pontos centrais das divergência surgidas em 1961 no Comité Executivo e levaram à primeira grande cisão "pela esquerda".


É também a guerra, já na parte final, que obriga o recém formado Partido Socialista, em 1973, a defender idêntica posição, precisamente, num comunicado conjunto com o PCP.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

UM CERTO COMUNISTA ESPADA...





1 - Nos idos anos de 1974, seu final, ou, em 1975, conheci um jovem, que os seus "bajuladores" e seguidores, que enxameavam, como papagueadores letrados, os grupos marxistas-leninistas, que vieram, a constituir, primeiro, a União Democrático Popular (UDP) e, mais tarde, o PC(R), Partido Comunista (Reconstruído) -  o mentor daquela que nasceu depois (mas isso é outra História...) -, chamava-de João Carlos Espada, e era erigido, nos seus 19 anos, como um dos suprassumos teóricos do partido nascente.


Consideravam-se, esses papagueadores, altos oficiais-generais, armados em pretensos ilustrados letrados, frequentadores de universidades, julgando-se sabedores do "marxismo" empacotado em manuais, construídos na antiga URSS pelos promotores do stalinismo, com os títulos sonantes de "marxismo-leninismo".


Quando perguntei de onde vinha o rapaz, disseram-me que "tivera de passar à clandestinidade, pelo papel que desempenhou no movimento associativo estudantil liceal", e se tornara num dos dirigentes do marxismo-leninismo em Portugal. Ri-me para dentro...


O Espada foi, realmente, um dos impulsionadores carreiristas na nova estrutura que se formava, e era um dos "teóricos" em ascensão, para a qual contribuiu a influência do brasileiro, seu padrinho, Diógenes Arruda, já falecido, o número dois da principal organização marxista-leninista, fora do poder, do mundo ocidental, o Partido Comunista do Brasil (PC do B), que hoje integra o governo de Dilma Roussef, como participou no de Lula da Silva. 


(Ao registar este facto, como mais à frente irei comentar, reconheço, no entanto, que a ruptura, ocorrida no início dos anos 60, primeiro no Comité Executivo do PCP, e depois, em várias estruturas e militantes dispersos, foi uma tentativa séria de impulsionar o movimento revolucionário em Portugal, enquistado pela atrofia reaccionária que provinha da degenerescência da Revolução Soviética de 1917. 


Só que esta tentativa, do ponto de vista filosófico e de economia política, ficou pelo meio-termo, pois não extraiu lições da derrota daquela Revolução ao abraçar o "maoismo" acriticamente, sem discernir que era um versão, em projecto político, idêntica à original).


O rapaz comunista Espada ascendeu ao Secretariado do PC(R) e foi escolhido para ser o director do jornal "Voz do Povo", onde eram simples aprendizes, dedicados e calados militantes, alguns dos mais importantes profissionais que se multiplicaram, mais tarde, pelos mais importantes órgãos de comunicação social, desde as televisões até aos jornais, renegando, de uma penada, todo o seu passado de actividade revolucionária.


2- Tive contactos mais próximos como o João Carlos Espada, precisamente, quando ele era director do jornal "Voz do Povo", e eu como jornalista, responsável partidário pelo sector profissional nacionalizado e privado (jornalistas, revisores e gráficos, ligados à imprensa escrita, falada e televisiva) - e isto já nos finais dos anos 70-, fui chamado à Comissão de Agitação e Propaganda do CC, e vim a saber, de chofre, no meio de uma confusão de divergências que existiam no órgão dirigente, que o rapaz estava com "uma profunda depressão", que o impedia de efectuar as tarefas.


Com o desenrolar das conversas, percebi que o Arruda já saíra de Portugal e o Espada tinha arranjado umas divergências, defendendo uma "uma via" para a acção do PC(R) e da UDP, preconizando "a ampla unidade da esquerda". Disse para comigo, este está a arranjar um pretexto para "arrumar as botas" e entrar nos carris da "normalidade burguesa".

Ele batia, no entanto, no peito e jurava a sua fidelidade eterna ao comunismo.


Como eu estava, numa fase de "ostracização" pela organização, pois defendia que a política do PCP e do PC(R) era, em tudo semelhante, e a experiência, na minha opinião, aconselhava a de analisar todo o percurso do chamado Movimento Comunista, desde a Revolução de Outubro de 1917, pois os projectos dos PC da URSS, da China e da Albânia eram os mesmos, algo estaria errado - assim o pensava e assim o penso - desde a consolidação do regime m-l na antiga União Soviética. 


Fui afastado dos cargos e contra mim foi desencadeado um processo político pelos núcleo dirigente de então que não ficou a dever nada aos métodos da PIDE.


Tempos depois, soube que esse grupo, onde pontificava o Espada, rompera com o PC (R) e organizara um grupo chamado Movimento Comunista, e continuava a jurar a sua fidelidade aos mesmos princípios. 


Neste intermédio, faleceu, já no Brasil, Diógenes Arruda e o João Carlos Espada fez questão de ir à sede do PC (R) apresentar condolências ao partido de onde saíra, em nome dos seus ideais comunistas.


3 - Abandonei o PC (R) nos princípios dos anos 80, pouco depois de a UDP se ter aliado ao PCP, transformando-se num "satélite" daquele partido. Vingaram dentro do PC (R) as teses que Espada e outros defendiam. 


Segui a minha vida profissional e fui ler, então, com tempo e atenção, os clássicos do pensamento revolucionário. 


Na realidade, havia uma desfasamento abismal entre esse pensamento e os manuais stalinistas, erigidos em doutrina universal de um pretenso marxismo do século XX, chamado leninismo.


Entretanto, fui verificando que os papagueadores da ortodoxia iam-se instalando nos partidos "burgueses", como dirigentes e deputados de topo, banqueiros, administradores de empresas,  públicas e privadas, altos quadros das universidades e da vida social.


João Carlos Espada foi um deles. Fundou e pertenceu a um chamado Clube Liberal, uma experiência "centrista", para zarpar para novas posições ideológicas.



Hoje, João Carlos Mosqueiro Mendes Espada (nascido em 1995) é "reputado" professor universitário português.


Na sua biografia é apresentado como director do Instituto de Estudos Políticos - Universidade Católica Portuguesa, Professor Associado da Faculdade de Ciências Humanas e Professor Convidado da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais daquela Universidade.


É doutorado em Ciência Política na Universidade de Oxford (1990-94), onde foi orientado por Ralf Dahrendorf. Foi ainda Professor Visitante nas universidades de Brown (1994-96), Stanford (1996) e Georgetown (2000), além de Visiting Scholar no Americam Enterprise Institute dor Public Policy Reserarch (2004) e Senior Associate Member do ST Antony`s Collegge, em Oxford (2005).


- Como se refere, os nomes estão em inglês, na biografia


Foi, ainda, presidente da Associação Portuguesa de Ciência Política (2002-2006).


É consultor para os Assuntos Políticos do Presidente da República, Cavaco Silva (desde 2006), depois de ter exercido funções semelhantes junto do Presidente Mário Soares (1986-91).


É editor da revista quadrimestral Nova Cidadania (desde 2007).


É colunista em vários jornais.


(Realmente muito ocupado!!!)

4 - Traçado o roteiro, vamos à polémica e razão deste artigo.


No dia 23 de Janeiro de 2012, nas páginas do jornal "Público", João Carlos Espada defende que a reforma laboral (que o recente acordo firmado entre o Governo e o patronato, com a conivência oportuna e sempre presente, em casos idênticos, da liderança da UGT, veio *legalizar*) "é um passo importante na direcção de mais e melhores empregos para o maior número de pessoas".

 Esse acordo sentencia Espada: 

"É, em minha opinião, um acordo notável que abre caminho à superação de um dos principais entraves ao crescimento económico.

Neste aspecto, merece particular elogio a atitude da UGT: não fez caso da retórica comunista da CGTP e assinou o acordo. E fez muito bem, porque uma legislação laboral rígida não serve os trabalhadores.

Este talvez seja o ponto que urge clarificar. Mesmo vozes moderadas vieram dizer que o acordo é muito desequilibrado a favor do patronato. Mas esse é um equívoco intelectual que vale a pena discutir.

Em clima de concorrência, o interesse de uma empresa é basicamente comum a trabalhadores e accionistas".

Quando era apologista de Marx e de Engels, e eles hoje mantêm toda a sua actualidade, aqueles filósofos e pensadores  alemães, argumentando contra os que davam loas ao "interesse" comum entre assalariados e accionistas,  Espada esgrimiria que as relações entre preços e salários são dominadas pelo lucro ou Capital. 

Logo, não existe qualquer tipo de interesse entre sectores antagónicos. Eles estão, na empresa, tal como dois exércitos em campo de batalha, e Karl Marx enfatizava: "a questão resolve-se com a ascensão do poder de um ou de outro combatente".

Ora, agora, citando o ponto de vista de Frederic Engels, este frente-a-frente tem como ponto comum a violência - mesmo que não seja mortal. 

Ora, é violência dos assalariados que faz aumentar o valor dos salários e baixar o dos lucros: neste sentido, essa violência e´, também ela, um factor económico.

Temos, pois, que com o acordo, quem venceu, violentamente, foi o patronato, e uma mudança de situação só será possível, se a força assalariada, fizer inverter a situação "no campo da batalha".

E, se tal acontecer, então o novo "acordo é que será notável".