sábado, 17 de novembro de 2012

BLOCO DE ESQUERDA: O QUE É UM GOVERNO DE ESQUERDA?





1- O Bloco de Esquerda, um partido parlamentar, que se afirma apologista da actual democracia, e que, de vez em quando fala "em socialismo", efectuou, nos passados dias 10 e 11, a sua VIII Convenção (um neologismo para o termo Congresso), tendo como tema central apenas uma causa táctica: "Vencer a Troika",  na busca de "uma força de confluências de esquerda".

O BE, que mudou a liderança do "velho" troskista Francisco Louçã, que defendeu sempre o então PCUS, como um partido operário, mas degenerado, para uma coordenação conjunta entre um antigo dirigente do PCP, João Semedo, que nunca se demarcou da política contra-revolucionária da antiga União Soviética, e uma jovem de nome Catarina Martins, cujo pensamento político é desconhecido

Esta Convenção realizou-se quando Portugal - e praticamente todo o mundo capitalista - se encontra *enlameado* numa crise económica,social e política de proporções gigantescas. 

As classes assalariadas estão em grande efervescência, especialmente, na União Europeia, e em parte nos Estados Unidos da América e China, aliadas a situações de conflitos abertos no Médio-Oriente, Paquistão, e em grande parte da África. 

Estas sucessões de crises, que se têm agigantado e radicalizado desde 2007, que caminho podem tomar?

Face a um provável agravamento desta situação, em especial na Europa, coloca-se uma possibilidade de uma ruptura, que pode tomar um rumo revolucionário ou então mudanças, mais ou menos convulsas, de governos enfraquecidos dentro do actual sistema político.

2 - Como deveria actuar um partido, como o BE, que, formalmente, sustenta procurar o socialismo, embora nunca tenha formulado um programa que coloque o principal objectivo de uma revolução: a conquista do poder político pelas classes trabalhadoras, visando, não o mero aperfeiçoamento da democracia, mas reestruturar todo o espaço social?

Nada tem de errado fomentar, como táctica, o encaminhamento de partidos, tidos como revolucionários, ainda que hesitantes, ou mesmo republicanos radicais. no sentido de uma política de progresso, levando inclusive ao poder um desses partidos, mas nunca inserir na sua orientação política central uma "coligação" que desprezasse os interesses principais das classes laboriosas. 

Não poderá, nesse, caso haver cumprimento de participação de um partido que se arroga do socialismo no trilho atolado de uma governação pró-capitalista.

O BE colocou, no entanto, como objectivo final, na actual conjuntura explosiva, tanto portuguesa, como europeia, uma proposta de um *governo de esquerda* dentro do actual sistema político parlamentar.  

A transição seria feita após eleições parlamentares antecipadas.

Desconheço o que é "um governo de esquerda".  



É o PS, um partido de esquerda, um partido socialista, ainda que com limitações? É o PCP, um partido revolucionário, ainda que preso a concepções antiquadas de poder político?

Também não percebo o que separa, realmente, em termos de poder, o PS a apoiar a troika do PS de "rompimento" com a mesma. 

O PS é, desde o 25 de Abril de 1974, um partido republicano liberal, cuja evolução política se encaminhou, claramente, para ser um gerente do Capital, quando ascende ao governo do país. 



O PS passou de partido, em 1973, com um programa muito próximo ao do PCP, a um Partido integrado nas concepções capitalistas ligadas ao capital financeiro, em conjunção real, na governação de Portugal, como PSD e o CDS/PP.

O PCP mantém o seu programa de Capitalismo de Estado, agora sem fazer referência ou apoio público à antiga União Soviética, tornando-se, aliás, uma entidade partidária adepta feroz de um nacionalismo serôdio.

(Nunca na Convenção se verificou uma intervenção dos dirigentes de topo a fazer uma demarcação política e programática com o PCP, tendo apenas, e, isto relativamente ao PS, sublinhando que aquele tem "um pé na oposição - Que oposição, pergunto eu? - e outro no memorando", segundo Semedo).

3 - Vamos à realidade. 

Em caso de se tornar possível uma crise político-partidária profunda, que leve a eleições antecipadas, na presente situação, seis meses, um ano, os resultados apontarão que haverá uma mudança partidária, dentro do princípio de rotatividade, possivelmente com a ascensão do PS ao poder, com maior ou menor, *política de austeridade*.

Estaremos perante um governo de cariz liberal.

Que fará, então, o BE? 

Vai convocar o PS e o PCP para conseguir um "governo de esquerda?

Admitamos, no entanto, que surge uma radicalização, que paralise em parte o actual aparelho de Estado, e se coloque uma situação pré-revolucionária, ou mesmo revolucionária, que programa apresenta o BE para esta situação?  

Diz Semedo, "não há nenhum preconceito no Bloco relativamente ao exercício do poder" e que, após a Convenção, aquele partido afirma claramente que "haja um Governo de Esquerda e nós estaremos nesse governo de esquerda".

Então, os partidos ditos de Esquerda, PS e PCP ganham as eleições e o BE entra nele, em minoria, dentro do sistema capitalista?  

Esta ânsia pela participação no poder, sem definir as propostas de uma partido independente, é uma queda absoluta no pântano. 

Mas a ânsia está na cabeça dos mentores do BE.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

XVI CONGRESSO: A CHINA DO PODER E DAS DESIGUALDADES SOCIAIS


1- Começou em Pequim, no passado dia 8, o XVII Congresso do Partido Comunista da CHina (PCCh). O conclave terminou dia 14.com a eleição dos novos corpos gerentes do Partido.

Os jornais ocidentais colocaram a ênfase num pormenor: a mudança de uma geração, e, em particular, a "rotatividade" entre os descendentes dos dirigentes que estiveram na origem da actual República chinesa.

É, assim o penso, uma análise redutora, que procura obscurecer que esta República nasceu de uma Revolução com um programa de ruptura socialista do Mundo, mas que sofreu uma derrota.

Evoluiu, muito rapidamente, para uma República capitalista, cujos desenvolvimentos a impulsionaram para um papel crescente na economia mundial. É esta entidade capitalista que está hoje em apreciação.

No citado Congresso, os seus dirigentes e principais quadros analisaram esses resultados e, principalmente, o estado da sua economia.



Os efeitos da crise financeira que começou nos Estados Unidos em 2006 e tece efeitos profundos não só naquele país, mas também na Europa, começa, agora, a repercutir-se na China.

Como potência emergente planetária, a China tornou-se uma entidade concorrencial na geo-política, na geo-economia e na geo-estratégia, em confronto, directo, com os EUA e a UE em primeiro plano, e, com a Rússia, a Índia e o próprio Brasil em diferentes planos secundários.

Este facto obrigou o Estado chinês a empolar os gastos militares e, nessa, medida, a estruturação, reformulação e preparação castrense das suas Forças Armadas dependem, acima de tudo, das condições materiais (quer da economia, quer da parte humana, da própria sofisticação da tecnologia de guerra).



Naturalmente, são estes conjuntos de assuntos que vão estar no centro da nova reformulação de poder que vai sair, ou já está delineado antecipadamente e foi agora ratificado neste Congresso.

2 - O XVII Congresso do PCCH decorreu, numa altura, em que o PIB (Produto Interno Bruto) do país decresceu - segundo dados oficiais - este ano para 7,5 %, uma descida acentuada depois dos 10,4 % de crescimento em 2010 e 9,2 % em 2011.

As previsões estatais apontam que este crescimento desça para 7 % em 2015 (segundo a Comissão do Desenvolvimento e Reforma chinesa, o crescimento económico anual caiu para 7,4% no terceiro trimestre deste ano), mas vários especialistas chineses, bem como instituições internacionais diferenciadas, admitem que, naquela data, o crescimento possa descer para um valor da ordem dos 6 %. 

O que a suceder, assinalam, significa uma barreira de retrocesso económica de tal ordem que poderá dar origem a situações de conflitos internos de certa monta.

(Em termos práticos, quer isto dizer que a crise financeira e económica que começou em 2006 nos Estados Unidos está a atingir agora a China. Em grande medida, o facto de as principais exportações chinesas decresceram, substancialmente, está relacionado com a desaceleraracão da economia nos EUA - 2% de crescimento do no terceiro trimestre deste ano, muito inferior aos 4,1 % do quarto trimestre do ano passado e à estagnação económica na UE).

A China teve um crescimento económico espectacular nas últimas três décadas, que, em grande medida, reformularam, aceleraram e fizeram evoluir toda a sua estrutura económica segundo o actual modelo capitalista moderno, centrado na ascensão desenfreada do capital financeiro especulativo. O crescimento do PIB naquele período ultrapassou os 10 %.

Este desenvolvimento trouxe progresso industrial, trouxe também movimento de dinheiro e, em maior escala, um salto enorme na evolução do mercado, especialmente do seu mercado externo.

Com este progresso, e a ascensão na China na cena política internacional, os seus dirigentes tiveram também de revolucionar a sua própria superestrutura militar, o que veio a traduzir-se, igualmente, num reforço da sua capacidade industrial castrense e no revolucionamento da sua maneira de estar no mundo, impulsionando a sua geo-política na relações internacionais, que adquiriu um peso acrescido.

A China transformou-se numa "potência atómica", com capacidade de atingir qualquer país do planeta, incluindo os EUA, tornou-se membro do Conselho de Segurança da ONU, e, as suas forças navais patrulham, actualmente, várias partes do Mundo, desde o Pacífico ao Índico.

No somatório deste desenvolvimento económico, modificaram-se certas relações entre a cidade e o campo, levando a uma cada vez mais necessária mão-de-obra abandone o sector primário e ampliando, até pelo aumento das relações de salariato, o consumo interno.

Criou, deste modo, principalmente, nas cidades, e, em particular nas cidades mais industriais um acréscimo desmesurado de assalariados, numa percentagem elevada, sem classificação profissional e muito barata, laborando, na maioria das vezes, em métodos artesanais. (São referenciados 200 milhões de migrantes do campo para a cidade, que representam cerca de 1/3 da população economicamente activa - entre os 15 e os 65 anos).

Com a abertura crescente ao capital estrangeiro e com a existência de uma mão-de-obra barata o afluxo desse capital foi enorme.  Admite-se que, entre 1982 e 2005, tivesse sido introduzidos no país mais de 1,05 biliões de dólares, como movimento estrangeiro directo.

Os capitalistas internos prosperam e dominam a própria superestrutura partidária.

Mas mesmo esse investimento está a desaparecer envolto na crise. São dados do Ministério do Comércio chinês, apresentados para o Congresso em curso: "No que diz respeito à atracção de capital estrangeiro, o número de empresas de capital estrangeiro, recentemente criadas, reduziu em 10 % nos primeiros três trimestres, a utilização de capital estrangeiro também baixou em 3,8 % em comparação com o ano de 2011".

De referir que uma parte substancial das empresas de alta tecnologia instaladas na China é pertença de capital internacional, ligadas, por mil teias, ao sistema financeiro norte-americano, e, deste modo, a Walll Street.  Por exemplo, recorrendo as estatísticas de meados da primeira década de 2000 - os dados são escassos da parte chinesa -, cerca de 33% do total das indústrias textéis era ocupado por empresas de capital estrangeiro (67 % da totalidade do comércio exportador em 2005), bem como 99,4 % da indústria de computador.

Em primeiro plano, os próximos Presidente, Xi Jinping, e primeiro-ministro,  Li Keqiang



3 - O afluxo de camponeses às cidades chinesas, principalmente nas últimas três décadas (antes este movimento já era significativo, engrossando as populações de grandes centros urbanos, como Pequim e Xangai), veio a intensificar o incremento da proletarização, e, concomitantemente, à difusão do salário. A evolução económica arrastou, necessariamente, o aumento de consumo.

Embora as entidades oficiais sustentem que os assalariados urbanos estejam a ganhar mais do que no início da grande fase exportadora, iniciada há duas décadas, o certo é que o consumo familiar tem decrescido, ainda segundo dados das próprias autoridades.

Assim, o Instituto Nacional de Estatísticas chinês, referindo-se a resultados apurados antes do Congresso, assinalou que os assalariados urbanos da China ganham, em média, dois mil yuan (mais ou menos 240 euros, mas especialistas que escreveram em alguma imprensa oficial admitem que este valor não enquadra a maioria desses trabalhadores.

Retiramos do jornal português Expresso, de onde provêem também os valores acima citados: "As estatísticas oficiais foram calculadas com base nos salários em vigor nas empresas estatais, empresas com capitais externos e grande empresas privadas, disse Liu Junsheng, investigador do Ministério dos Recursos Humanos e Segurança Social, citado pelo jornal *China Daily*.

E acrescenta: "Os trabalhadores das pequenas e médias empresas, que empregam quase 70 % da mão-de-obra não foram incluídos, salientou o especialista".

Entre a década de 90 do século passado e a primeira deste, verificou-se que o consumo das famílias chegou a descer a 36 % do PIB do país. Concretamente, entre 1983 e 2003, balizamos este período, porque se conseguiu obter uma sequência estatística que apontava uma descida contínua de 57 % para 36,7 por cento.

Os responsáveis chineses pretendem "reparar" este declínio, sustentando que estão a reorganizar a sua economia da exportação para o mercado interno, o que pressupõe aumento de salários e possivelmente deslocalizações de sectores industriais e uma aposta crescente no incremento dos sectores de serviços.

O desenvolvimento capitalista chinês tem sido protagonizado, em termos políticos, por um partido que se diz comunista, e que na sua elite dirigente se foi apropriando da mais valias criadas pelas classes laboriosas em proveito próprio. 

As figuras que dirigiam o PCCH até ao XVII Congresso, os grupos que giravam à volta de Hu Jintao (Chefe de Estado) e Wen Giaobao já eram capitalistas firmados no espaço económico da China e mesmo mundial. 

A equipa que lhe segue, aliás toda ela formada na "alta roda" do núcleo central da classe dirigente, que se formou logo após a Revolução de 1949, onde predominam Xi jinping (futuro secretário-geral, Presidente da República e Presidente do Comité Militar) e Li Kegiang, que ascenderá a Primeiro-Ministro, são, abertamente, senhores de enormes fortunas.

(Um dos mais representativos capitalistas chineses Lian Wengen, que esteve como delegado no Congresso, é senhor de uma fortuna pessoal que ronda os 5,9 mil milhões de dólares). 

A ênfase posta pela nova equipa na "luta contra corrupção" é uma confissão de uma desigualdade que cresce no país, já ensarilhado em crise económica, social e até política (esta menos visível). 

A China que, realmente, cresceu e se agigantou, está a ser percorrida também por uma crescente fase de conflitos sociais nos últimos dois/três: 300 mil contabilizam fontes internacionais, 90 mil admitem as autoridades.

Qual vai ser o seu futuro nos tempos mais próximos?  A evolução da sua situação económica interna nos próximos 10/15 será determinante.

4 - A revolução chinesa de 1949 foi, acima de tudo, uma revolução emancipadora nacional, embora tivesse sido conduzida sob um partido que se intitulava comunista e procurou, numa primeira fase, impor um programa de cariz socialista. 

Não seguiu um caminho próprio, aproximou-se do capitalismo de Estado que vigorava na antiga União Soviética.

Mas, acima de tudo, já nessa época, 1953 em diante, tendo justamente em atenção a evolução claramente reaccionária da antiga URSS, se verificava que o nível de incremento económico naquele país, e por tabela, na própria China de maneira nenhuma prenunciava a possibilidade, então, de destruição, pura e simples, da produção capitalista.

Depois da consolidação do poder após a vitória de 1949, e, principalmente depois de "se afastar" do modelo soviético stalinista, com quem entrou em ruptura, a liderança chinesa de então, com Mao Tsé Tung à cabeça, não pode, nem soube, nem conseguiu levar a efeito a revolução emancipadora, sob cujas consignas, ascendera ao poder. 

Porque o país ainda vivia de uma imensa mole camponesa, onde o operariado era essencialmente manufactureiro e artesanal, o PCCH não conseguiu desfazer o principal empecilho que impedia a sua reorganização económica: a feudalidade que dominava o mundo rural, e quando o tentou fazer utilizou a repressão mais sangrenta contra as camadas camponesas mais pobres. 

Não organizou um programa coerente, ainda que aproveitando, temporariamente, certas receitas que interessavam de um desenvolvimento burguês, para reorganizar toda a produção segundo um espírito nacional. 

Trucidou, por assim dizer, toda a iniciativa de mudança que o povo desejava. 

Alicerçado em ideias confucionistas de submissão, forçou o povo a orientar-se pelos lemas estranguladores do partido, com o usufruto nas políticas de métodos antiquados de cultivo da terra, políticas fiscais draconianas.

Nos anos 70, ainda com Mao Tse Tung no poder, a liderança começou a alimentar um programa de abertura capitalista sem freio, que anos depois a equipa de Tseng Siao Ping refinou e pôs em marcha, com as chamadas  "quatro modernizações" - privatizações, fim do monopólio do comércio externo, abandono da planificação central e lassidão no conceito de propriedade estatal, que as "gerações" que se seguiram elevaram ao desenfreado capital financeiro especulativo que hoje é reinante na China.

Naturalmente, que a situação actual é uma derrota face aos propósitos iniciais da Revolução de 1949.

Todavia, não é propriamente a destruição da Revolução que está em causa.

O que foi destruído foram os rastros ilusórios animadores de uma Revolução, mas que não tinham consistência na relações sociais e económicas as quais não estavam suficiente maduras e agudizadas, principalmente, entre as grandes massas camponesas.

E particularmente pelo retrocesso ideológico de um Partido Comunista, que conduziu, posteriormente, todas as fases de contra-revolução naquele país, o que criou um descrédito enorme ao longo de décadas para a criação de um poderoso pólo revolucionário, não só na China, como na ex-URSS, mas essencialmente no Mundo.

Mas trouxe um amadurecimento, cujos indícios de uma nova situação de progresso pode estar em marcha com novas condições.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A SUPREMACIA IMPERIAL NORTE-AMERICANA ESTÁ EM AGONIA





1 - Fiz, recentemente, uma viagem turística por Timor-Leste. País pequeno, com uma independência controlada, há já dez anos. 

Quando à chegada a um hotel situado na baía que bordeja Dili, a capital, via-a enxameada de grandes navios de guerra. 


Distinguia-se, perfeitamente, um grande navio de envergadura, possivelmente, multi-usos, com dezenas de aviões de combate e dezenas de helicópteros no convés. Outros estavam mais afastados. Em todos, flutuava a bandeira dos Estados Unidos da América.


Dele levantavam, de vez em quando, grandes helicópteros, transportadores de tropas, que se movimentavam quer para o interior do território, quer em direcção a um ilha, que ainda não sabia nome, que via à distância, e que vim a saber pouco depois ser Ataúro.

(Na mesma baía, mas fundeadas a alguma distância daqueles, estavam outros navios de guerra estrangeiros, estes com as bandeiras australianas).

Quando pretendi, na primeira sortida pela cidade, qualquer coisa, com espanto, reparei que a moeda de troca era o dólar norte-americano.


De nacional, apenas os vegetais e animais (porcos, galinhas, cabritos) vivos que se mercadejavam, entre os naturais, num sistema medieval de troca directa, e, para estrangeiros, tudo a dólar e a altos valores.


Os oficias e soldados estrangeiros, principalmente, australianos, pavoneavam-se, pelas entradas do principal hotel citadino em camuflados de combate de deserto, e mesmo na avenida marginal, como se fossem os "senhores da guerra" em grandes missões de "soberania" num país que não o seu.


Claro que esta maneira de actuar de potências mundiais, ou regionais, em pequenos países, não estão enquadradas em missões protocolares de visita. 


Elas são, facilmente, travestidas em acções de "manutenção de paz" ou "humanitárias" por cumplicidade directa dos dirigentes nacionais, como, neste caso, Timor. 


Disseram-me, " à boca pequena", algumas personalidades locais que, tanto "Ramos Horta, como Xanana Gusmão, são agentes estrangeiros, figuras criadas e moldadas fora de portas, anos atrás, como heróis, para serem colocadas na direcção do Estado e servirem os interesses dessas potências".


(O certo é que o dinheiro transferido para Timor-Leste, no âmbito dos negócios do petróleo e do gás, propriedade do Estado "já desapareceu" - as fontes eram as mesmas - e a ostentação de riqueza desses e doutros dirigentes e ex-dirigentes é uma evidência na imensa pobreza da população maubere).


Mas, a razão central da presença dos navios das potências, neste caso EUA, e da sua cúmplice de segundo plano, Austrália, não tem a ver com "a paz internacional", mas, simplesmente, com meros e mesquinhos interesses de rapinagem de riquezas-primas daquele nobel Estado: o petróleo e o gás natural, que lhe está a ser sonegado, pura e simplesmente, pela voragem das grandes multinacionais do sector, através de um argumento de força. 


Que eles, imperialistas propagandeiam, com toda a desfaçatez, como fazendo parte da "defesa dos seus interesses nacionais".  Ou seja, em linguagem nazi pura: a procura do "espaço vital".


2 - Desde o final da segunda Grande Guerra, as grandes potências vencedoras - EUA, ex-URSS e Inglaterra -, principalmente a duas primeiras, dividiram, a seu bel-prazer, a Europa, e, por tabela, delimitaram as suas zonas de influência coloniais e semi-coloniais no controlo do comércio, mercados de armamento e distribuição de territórios ricos em matérias-primas.


Trucidaram sentimentos nacionais, cilindraram ou obstruíram os desejos de povos em conseguirem a sua independência política e económica.


Uns com argumentos inflamados de "luta contra o comunismo", outros com frases ocas, mas sonoras", de "luta pelo socialismo".


E, nesse período, finais dos anos 40, não se pode negar que muitos dos povos saudaram, quer de um lado, quer de outro, aparentemente, em barricadas diferentes, essa submisssão e humilhação, mas, no meio da arrogância violenta dessas potências, que se consideravam "superiores" e "invencíveis", irrompia uma verdadeira revolução de cariz anti-colonial, que levou, ainda que com dezenas e dezenas de anos,  a um fracasso total de domínio de uma das super-potências, e a uma lenta, mas que está agora a mostrar o seu estilhaçamento, da outra superpotência, que, colocando a cabeça na areia, como uma avestruz, ainda não reparou que uma grande mudança geo-estratégia se deu no mundo nos últimos dez anos.


Na realidade, a revolução anti-colonial, que começou, justamente, no grande continente indiano, em 1947, com a separação, ainda que, artificialmente, armadilhada pela potência decadente inglesa, que levou à Constituição de dois Estados- União Indiana e Paquistão, numa lógica de confrontação fomentada pelo maniqueísmo britânico, foi movimentada e conduzida, em passadas lentas ou mais apressadas, até aos anos 90 do século passado, com um desejo geral de conseguir alicerçar as reivindicações nacionais ou regionais, bem como a implantação de uma liberdade política fora da alçada das potências, e particularmente da superpotência, Estados Unidos da América.


E, se nesses Estados nascentes, essa revolução foi conduzida e solidificada, mais tarde, pela burguesia nacional, a realidade é a bandeira que era levantada pelos povos que aspiravam à libertação tinha a estampa de uma ruptura com o poder capitalista dominante, sob o espectro de uma revolução socialista.


Com esta mudança, ainda que conduzida pela burguesia,  deu-se, a nível mundial, uma evolução industrial que impulsionou grandes países colonizados, agora independentes, como a China, a Índía, a Indonésia, a África do Sul, e, em grande medida, os semi-colonizados países da América do Sul.


Deu-se, justamente, desde os finais dos anos 80 do século passado até ao princípio deste milénio, um impulso de uma grandeza nunca antes imaginada no alargamento do mercado mundial.


Com esta evolução, os centros de negócios, de desenvolvimento capitalista, - porque de impulso capitalista se deu realmente -, diversificaram-se, criando fortes blocos e países concorrenciais. 


Cercado por seu nova realidade, os Estados Unidos da América, que eram o mito idolatrado da grande burguesia, e dos seus sequazes representantes nos diferentes países, optaram, desde esse salto qualitativo e quantitativo dos grandes países ditos emergentes na liça da concorrência de mercados, de matérias-primas e de negócios,  por uma política de ferro e fogo, que percorreu praticamente toda a África (Angola, Moçambique, Nigéria, Argélia,  Ruanda, Uganda, República Democrática do Congo/Zaire), mas antes já na Indochina, passando depois para o Médio-Oriente, directamente ou através dos seus lacaios israelitas, e nos últimos dez anos, Iraque, Afeganistão, Paquistão, entre outros.


Os fracassos chegaram e ainda vão chegar muitos outros.


Porque a violência não é somente um acto de guerra ou conflito, mas, essencialmente, uma questão económica.


A violência pressupõe o uso da força. 


Ora, esta assenta, essencialmente, nas Forças Armadas e nas estruturas para-militares que lhe estão adstritas, ainda que privadas ou semi-privadas. Quer isto dizer, em termos reais, que custam dinheiro. 




O Orçamento de Defesa dos Estados Unidos de 2011 ultrapassou os 739 mil milhões de dólares, que foram retirados de um Orçamento de Estado de cerca de 3,7 biliões de dólares. Quer dizer, cerca de 1/5 do OE é devorado pela máquina militarista.


Isto, em si, não seria grave se esse orçamento militar proviesse de dinheiro que se fosse buscar a um acréscimo de produção económica nacional, mas não é o caso dos Estados Unidos. 


A produção industrial, particularmente, a pós-industrialização, não está a dar riqueza ao país. 


Os sintomas de estagnação da economia são evidentes, a inflacção real está a atingir (ou mesmo a ultrapassar) os 10%, o desemprego atingiu em Outubro passado os 8 %. A dívida estatal (pública, mas essencialmente privada) está na ordem dos 15 biliões de dólares (mais ou menos 100 % do PIB), e , na última reunião do G-20, a administração norte-americana teve de reconhecer que está à beira do "precipício orçamental".


Com a feroz concorrência mundial e o aparecimento de pólos de potências capazes de fazer evoluir a sua produção industrial em pé de igualdade com os Estados Unidos, e, concomitantemente, de obrigá-los também eles a criar os seus próprios sistemas e sofisticados armamentos, para o sistema político e económico de Washington, o papel castrense tornou-se, na prática, o fio estratégico dominante para o próprio Estado.


E assim entraram numa voracidade de engordar e empolar os gastos militares não só internamente, como no exterior.


Ou seja, os Estados Unidos têm mais de 500 mil homens espalhados em todo o Mundo, ao mesmo tempo que expandiram um sem número de bases militares, estações de rastreio castrense, pistas de aviação ou de passagem, mas acima de tudo, tropas de ocupação e em guerra, desde a Europa, Próximo e Médio-Oriente, Coreia do Sul, Japão, Corno de África, América do Sul, Austrália, Indonésia.


O grave de toda esta panóplia para manter estruturas e homens das Forças Armadas é que está a devorar a própria economia real dos norte-americanos. 


Está a empobrecê-los. Está, no fundo, a ditar o vírus da sua própria decadência.


E isto porque grande parte dessas bases, com aparelhos ultra-sofisticados e dispendiosos, hoje podem ser todos destruídos pelas potências concorrentes, ainda que de menor dimensão, embora não estejam ainda no patamar económico e social dos norte-americanos.


É esta realidade que os países, mesmo os mais pequenos, começam a ter uma percepção da sua fraqueza. 


Está a acontecer no Afeganistão, como sucedeu no Iraque e anteriormente ocorrera no Laos, Cambodja ou Vietname.


3 - Mas o relevante facto progressivo que, conjuntamente, com a revolução anti-colonial pós II Grande Guerra, foi o surgimento de  um sentimento de "mea culpa" europeia, segundo a qual eram os próprios  Estado da Europa que, exacerbando as guerras no seu território, favoreciam a ganância de potências exteriores e faziam regredir o avanço civilizacional que o seu espaço deu ao Mundo.


No fundo, reflectiu-se sobre o facto de que a Europa, que impulsionou a Revolução Industrial (século XVIII) e a Revolução política (século XVIII/XIX), estava a espezinhar ela própria a evolução societária de que fora pioneira e "exportara" para o resto do planeta.


E foi este "clique", este "toque mágico" que despertou um sector mais avançado da burguesia europeia, que tomou as rédeas de uma parte do poder económico e, em grande medida, do poder político nos principais Estados do centro europeu, para uma "nova experiência económica" extra-fronteiriça, que desabrochou um novo tipo de produção industrial e de reforma do próprio sistema capitalista europeu. 


Nasceu, primeiro, a Comunidade do Carvão e do Aço, depois a Comunidade Europeia, mais tarde, alargou-se novos países, destruíram-se restos do velho fascismo económico e político em Portugal, Espanha e Grécia. 


Agigantou-se com uma harmonização monetária, que ultrapassou particularismos nacionais.


De registar que esta evolução foi levada avante, principalmente porque o espectro de uma ruptura revolucionária "mordia os pés" da burguesia europeia. 

Foi, nessa Europa das grandes convulsões reivindicativas e mesmo revolucionárias, como o Maio de 1968, as explosões populares na Grécia dos coronéis, as lutas operárias em Itália contra os governos entrelaçados entre democratas-cristãos, sociais democratas de Craxi e o PCI de Berlingueres e Napolitanos, as greves constantes dos mineiros ingleses contra Tatcheres e Majores, que uma grande melhoria significativa no nível de vida foi ganha pelas classes trabalhadoras.

É esta experiência que coloca, justamente, na actualidade, a Europa na sua busca de unidade, também, no centro de uma nova retomada da movimentação radical popular, e, ainda que às apalpadelas, procura romper um bloqueio de luta unitária revolucionária, que as próximas greves gerais em vários países são indícios de que provavelmente uma nova era de grande convulsão poderá estar a ser forjada.

(Convém recordar que a questão nacional ainda não foi removida totalmente da Europa, e, na minha opinião só será resolvida que um avanço político e militar comum no espaço que hoje é da União Europeia. E a questão nacional, na presente situação, pode contribuir para a real mudança que se deseja e espera).


Na realidade, a União Europeia catapultou-se, em cerca de 50 anos, de um conjunto de países desmembrados  e espezinhados a uma potência económica de gabarito e riqueza produtiva, que rivalizava e se tornara um "espécie de farol" na evolução capitalista pós-moderna. 


Era o rival concorrencial de capitalismo avançado que estava a ameaçar, real e profundamente, a supremacia norte-americana. 

Quando surgiu em 2007 a crise especulativa financeira nos Estados Unidos, que ameaçava o sistema bancário naquele país, os capitalistas de Wall Street viraram-se para a Europa e exploraram as suas fraquezas, através das incapacidades e as relações privilegiadas e submissas dos dirigentes europeus com o Capital norte-americano.

Quatro anos foram passados, o euro, apesar das vicissitudes, manteve-se.

É na Europa que se está a evolucionar um novo tipo de organização política, um novo tipo de estruturação monetária e económica, e, acima de tudo, o território que mantém a base mais avançada de movimentação popular.

O centro da actividade política mais participada e radical concentra-se na União Europeia. É pois daqui que pode haver um impulso de uma nova ordem mundial.

Esperemos para ver.
















quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A GREVE GERAL DE SARAIVA: A CONFISSÃO DE QUE O PODER ESTÁ NA FINANÇA


                                               





1- A declaração do senhor António Saraiva, Presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), em entrevista ao jornal lisboeta Diário de Notícias, de domingo passado,  admitindo a vontade de fazer "uma greve geral de empresários", é, em primeiro lugar, uma graçola de gente bem instalada, mas, em segundo lugar, tem uma perspectiva política, que não se pode menosprezar: a burguesia industrial, que deu o seu aval e empenho na ascensão ao poder do actual governo, e lhe deu a garantia de existência, quando ele lançava as medidas mais gravosas sobre as classes trabalhadoras, está ficar excluída da mesa do poder.

A apresentação do pacote de impostos pelos Ministro das Finanças, Vitor Gaspar, "o enorme aumento de impostos", que recaiu, mas uma vez, sobre os trabalhadores dependentes e pensionistas, colocando a burguesia industrial e a pequena burguesia, praticamente na oposição, veio mostrar que, sob a batuta do actual executivo, cada vez mais, está a reinar apenas a fracção mais tratante da burguesia, o Capital financeiro mais desclassificado. 

Ela - essa facção - é a beneficiária das rédeas do poder: Ministérios das Finanças, Economia, Saúde, Segurança Social, Defesa, Agricultura e similares, Educação, Administração Interna. Todos os seus representantes provêem directamente do sector financeiro ou são representantes das principais sociedades de advogados que servem justamente de "intermediários" directos desse Capital.

Ela dita a política, faz as leis, distribui os principais cargos políticos, desde o papel interventor nas privatizações (Carlos Moedas e António Borges), até aos aconselhamento da mesma política económica (Braga de Macedo, Vitor Bento, Ferraz da Costa).

Voltando ao senhor Saraiva. Ele foi um dos apoiantes do tipo de governação, que desde o 25 de Novembro de 1975, que serviu para começar o tipo de crise que veio a avolumar-se e atingir as proporções actuais.

O estiçalhar da economia portuguesa tem, por detrás, a mão criminosa da CIP, particularmente, desde os tempos onde dominava um senhor chamado Ferraz da Costa e cuja linha política governamental apoiou e estimulou. Só que, a CIP então era um aliado precioso, como representante da burguesia industrial, para cimentar o poder do capital financeiro. 

Só que o poder único e exclusiva da burguesia capitalista financeira tornou irreparável a destruição do comércio e da indústria, e, deste modo, assistimos agora ao caricato do homem da CIP clamar por uma greve geral.

Convém recordar ao senhor Saraiva que a enormidade da crise vai ainda dar cabo ainda mais da indústria e comércio nacionais, pois o facto de uma parte dos grandes industriais e os grandes magnates do comércio, principalmente, distribuidor vão virar-se agora ainda mais para a concorrência interna e destroçar tudo o que resta da média e pequena produção.

Resta-lhe juntar-se à imensa mole humana que deseja mudar radicalmente a situação presente e apostar na reindustrialização ligada por um lado à produção nacional, por outro, aos projectos de alta tecnologia e relançamento da economia baseada no aproveitamento dos bens para satisfação de uma população empobrecida.

2 - Reuniu-se a 5 de Outubro um Congresso que se intitulou Democrático das Alternativas. Juntou PS, Bloquistas, uma parte muito pequena do PCP e um conjunto de personalidades que se dizem independentes.

Que alternativa política de poder apresentaram? Nenhuma. Está tudo dito.

Mas existe alternativa de poder? Claro que existe. Ruptura com o actual sistema político. Colocar no centro da questão: o controlo do sistema financeiro e da distribuição da riqueza. Reformulação total da governação e da eleição dos representantes populares.








quarta-feira, 3 de outubro de 2012

EIS O ESTADO DOS BANQUEIROS E O REINO DOS SEQUAZES COMENTADORES





1 - Sustenta a economia política, mesmo num Estado capitalista, que a organização estatal,  somente, pode ser interligada com o verdadeiro interesse nacional - acima dos partidos e dos interesses de facções - se existir uma bem calibrada e harmoniosa proporção entre as receitas e as despesas desse mesmo Estado.

A questão terá, pois, de ser colocada em torno do pressuposto: como conseguir essa harmoniosa proporção, sem diminuir o nível de vida das classes trabalhadoras, que já é, injustamente, inferior aos das classes dominantes, e porque o sector produtor trabalhador já é o principal alvo do pagamento de impostos?

A resposta a esta questão é o centro da resolução da presente crise, e, no fundo, a resposta a uma modificação radical da actual situação existente no domínio da gestão equilibrada do Estado.

Em termos práticos, a resposta em economia política é esta: não é possível estabelecer uma proporção minimamente justa sem atingir a forma de governação económico-política do sistema preponderante na gestão da coisa pública e sem estabelecer legislação efectiva e conclusiva que modifique, inteiramente, sem peias e indecisões, a actual distribuição de impostos.

Outras "vias" e "visões" são opiniões e argumentos que procuram sustentar o poder da classe dominante, e, no seio desta, a facção que exerce realmente esse poder: a máfia do capital financeiro.

Sejam elas, quais forem, em particular as que são usadas dia a dia por comentadores de pacotilha que enxameiam as televisões, rádios e jornais, bem como dos chamados jornalistas assessores desse poder.

Desde o 25 de Novembro de 1975, mas essencialmente, desde que a coligação AD, onde pontificavam o PPD, mas tarde PSD, (de Sá Carneiro) e o CDS, (de Freitas do Amaral), o rumo da semi-revolução que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, foi, ostensivamente, alterado para dar primazia ao poder crescente do capital financeiro mais desclassificado, que já reinava, de maneira nos Estados Unidos da América, e se começava a impôr, de alma e coração, na chamada Europa Ocidental, no Japão, na Austrália.

Os governos que lhe seguiram consolidaram essa dominação. O actual é o expoente máximo.

As declarações recentes do consultor político-económico do actual executivo para as privatizações António Borges veio por a nú, sem meias palavras, a essência de toda a governação dos últimos 25 anos:

Finalmente, o capital financeiro, que detém o poder real do país, concordou com a introdução da taxa social única (TSU), que representa, em termos práticos, a "subvenção" directa dos capitalistas à custa dos assalariados. 


Ou seja, era a forma mais directa de controlo e supremacia sem freio dos banqueiros ( e associados). 

Daí, o anátema que lançou sobre os viscosos homens do Capital. São "ignorantes", disse o homem. 

E são, do ponto de vista capitalista, mas o que Borges não percebeu é que esses ignorantes são merdosos, que querem sobreviver, logo são "pragmáticos" como todos os sinistros homens que dominam o sistema financeiro português e mundial, preferem recuar e impor impostos que vão recair, directamente, nos mesmos, e, deste modo,  o ónus do problema irá recair, essencialmente, neste governo, que, sendo o governo dos banqueiros, se for necessário, deixarão cair para implantar um outro "executivo" integrado de outros homens tidos como mais "independentes".

Todavia, permanece o essencial: o domínio, sob o actual sistema do "centrão" político burguês, pertence a essa facção da burguesia, o capital financeiro mais desclassificado e troglodita, com os especuladores da Bolsa, os investidores "sem rosto" dos fundos de investimentos, os detentores de oligopólio das redes da grande distribuição, ligada aos monopólios estrangeiros. E as "escolas secretas" laicas e religiosas.

Foi esse Capital, através dos seus homens-de-mão, que conduziu à miséria extrema, e, é pela imposição dela, com a subserviência dos seus valetes, que o grande Capital financeiro arrecada, sempre, mais valias em forma crescente.

Em 2010, os grandes grupos capitalistas anunciaram com trombetas lucros descomunais, que, meses depois, desapareceram (desapareceram como? sumiram-se pelo ralo da banheira?), exigindo depois uma "recapitalização" ao executivo a juros praticamente a zero, com lucros fabulosos de empréstimo ao Estado.

A actividade predadora da troica, que representa justamente o Capital financeiro (FMI, BCE e Comissão Europeia) não é, nada mais, nada menos, do reflexo na Europa do que se passa em Portugal. Quem domina o poder político na União Europeia é esse Capital, que suga, em primeiro lugar, os elos fracos.

Ora, a questão portuguesa é a questão europeia:

É necessário ferir os interesses do Grande Capital financeiro para estabelecer o equilíbrio entre receitas e despesas em toda a Europa.

E sem atingir esse "centro" da dominação do sistema capitalista, não haverá capacidade de equilibrar o Orçamento estatal, seja de que Estado for,, sem levar à míngua humana as classes trabalhadoras.

Esta é a verdadeira e actual alternativa política.

2 - Claro que a política governamental tem os seus "mensageiros" nas empresas de comunicação capitalista. E os chamados jornalistas de pacotilha, tratantes, asseclas bem pagos, que foram contratados para exercerem a voz do "dono", como é o caso de um senhor chamado José António Saraiva, que dirige um jornal semanário chmado "Sol", pertença exactamente do capital especulativo, e neste caso angolano, de imediato utiliza a caneta para dizer "TSU: o recuo trágico".

(Convém aqui esclarecer quem é jornalista e quem exerce um cargo com esse nome, sem nunca ter sido um verdadeiro jornalista de tarimba. Saraiva é o exemplo. Foi escolhido por Francisco Balsemão, há mais de duas dezenas de anos, para integrar a direcção do Expresso, e , com esta medida foi-lhe entregue uma carteira profissional. Não existe naquele sector profissional com uma carreira, mas sim como um homem de mão. Infelizmente, na actualidade, gente desta laia medra nas grandes empresas de comunicação social: televisão, rádio e jornais).

Num editorial publicado no número de 28 de Setembro, Saraiva é taxativo no argumento da sua arrogância: "O TSU não era importante para o governo - era importante para o país. Era talvez a medida estrutural mais importante de todas as que têm sido tomadas".

E se o governo não o fez, porque teve a movimentação popular na rua, e porque esse povo viu que tal medida era umas transferência directa de uma parte do salário do trabalhador para o bolso do capitalista, ele aplica-o, de imediato, no seu jornal. Assim, o Sol  vai reduzir os salários dos trabalhadores em valores entre 7,5 e 25%, medida que deverá fazer-se sentir em Outubro, segundo um relato retirado de uma acta do  Conselho de Redacção em contacto com o rapaz Saraiva.

Claro que, até hoje, ainda não foi auditado todo o movimento financeiro e contabilistico entre o grupo especulativo angolano e os "intermediários" da direcção do Sol. E quem sabe, a mãozinha do actual governo.

 Não há almoços grátis

3 - Mas o mensageiro, não é só o que se intitula jornalista, é essencialmente, aquele que, sendo o sequaz ferrenho do Capital, se torna "comentador" económico-político, trazido para o ecrã, rádio ou jornal, pelos capitalistas senhores proprietários das empresas da imprensa falada ou escrita.

E um caso paradigmático chama-se Vítor Bento, que, por acaso, é economista e se acoita, politicamente, da carroça do PSD e, acima de tudo, do Presidente da República.

Vítor Bento afirmou, recentemente, que não vê alternativa para relançar a economia a não ser sacar dinheiro aos trabalhadores dependentes.

Foi, precisamente, na altura, que este tratante, sacador de dinheiro do Estado e de tudo o que é privado, considerou que a redução na TSU - e alardeou-o em comentários na televisão - era essencial para financiar os capitalistas.

"Julgo que ainda há ideias vagas na questão do crescimento económico, toda a gente fala da necessidade de crescimento, mas não vi nenhuma medida concreta destinada a promover o crescimento económico", destacou Vítor Bento, numa conferência de uma multinacional, em Lisboa.

"A TSU tinha em vista estimular a componente externa da economia, por forma a compensar o aperto na parte interna por via da austeridade. Podemos é discutir a sua eficácia", defendeu, citado pela Lusa.

Vítor Bento considera que a discussão em torno da eficácia da medida devia estar no centro das atenções e afirmou que até agora a única discussão concreta que viu foi a do estudo de cinco economistas das universidades do Minho e de Coimbra.

O estudo conclui que a TSU tem um efeito diminuto na criação de postos de trabalho, enquanto o aumento da contribuição dos trabalhadores leva a uma redução significativa do emprego.

Mas Bento, qual iluminado pelo dinheiro, insiste que a taxação dos trabalhadores, a sua diminuição de poder de compra, é essencial para "a competividade e o emprego".

E aí está o que Bento e os da sua laia preconizam em nome dos banqueiros: o Ministro das Finanças anunciou hoje um aumento brutal de impostos.

Enquadremos este vigarista que se diz economista. É administrador da Galp, liderada pela família Américo Amorim e conselheiro de Estado nomeado por Cavaco Silva.

Sem qualquer curricullum, saltitou de Presidente do Conselho Directivo do Instituto de Gestão do Crédito Público, Director-Geral do Tesouro, Director do Departamento de Estrangeiro do Banco de Portugal (notem só as reformas que ele está a acumular!!!...), Vogal do Conselho de Administração do Instituto Emissor de Macau e Presiddnte do Conselho de Administração da SIBS - Sociedade Interbancária de Serviçõs, SA.

Como consegue toda esta movimentação? Diz a Wikipédia: "Um individuo bem relacionado na esfera maçónica". Acrescento: e um títere do Capital.

Não haja dúvida que o governo português - e consequentemente o seu Estado - não representa senão o poder das sociedades capitalistas de acções que gerem o sector económico, social e cultural.



terça-feira, 25 de setembro de 2012

ATAQUES CONCENTRADOS MUNDIAIS À LIBERDADE DE INFORMAÇÃO






1 - Os sintomas crescentes de um ataque concentrado, mundial, à liberdade de imprensa, do interior dos regimes mais reaccionários, Arábia Saudita, Irão, Turquia ,China ou ditos democráticos, como a França, Reino Unidos ou Estados Unidos, deveriam "fazer arrepiar" todos os amantes da democracia, da liberdade política,  da liberdade de expressão e opinião, e os que defendem à própria liberdade do simples direito humano.

As críticas, manifestações de todo o tipo de cariz religioso, ou simples tentativas de evitar as fotografias de uma senhora que é uma personalidade pública inglesa, que pretende ser púdica formalmente, mas não gosta que esse falso pudismo seja exposto e desmascarado, com o argumento de ser privada a sua exposição ao ar livre (!!!), como é o caso de Kate Middleton, que se casou com um fantoche que se auto-apelida de príncipe, com direitos especiais, são fogos fátuos para actuar, na realidade, contra a liberdade de informação, para a imposição de censura, para preparar, subtilmente, o poder ditatorial nazi-fascista dos tempos modernos. O mesmo se passa com as manifestações contra as críticas aos chamados profetas das religiões, quer sejam Maomé, Javé ou Jesus Cristo.

Por detrás destes pequenos incidentes, com o lápis azul da censura da classe dominante, está uma orientação geral da mesma classe para materializar a acção repressiva geral contra as movimentações crescentes das classes laboriosas em quase todo o Mundo contra a opressão capitalista crescente e absolutamente enrodilhada nas suas contradições, que procura resolver pelas introduções de sistema políticos ditatoriais conservadores, e, em último caso, regimes de carácter militarista violento, com guerras regionais ou locais mais ou menos alargadas.




2 - Ora, o que está a suceder, na minha opinião, não se percebe sem se ter em conta a imensa convulsão social que está a germinar debaixo da capa finíssima arrogante que a classe dominante, e de maneira especial, o capitalismo financeiro desclassificado parece controlar sem alternativa.

Os movimentos revolucionários que percorreram a Europa, os Estados Unidos, e em grande parte na Ásia e na América do Sul, em especial nos anos 60 do século passado - Maio de 68, movimentos sociais e estudantis na Califórnia e na região de Nova Iorque em 1969, lutas de guerrilha incipiente anti-imperialista na América Latina (anos 60 e 70) , luta guerrilheiras nacionais na Indochina, Indonésia, África, (anos 60), embora sem conseguirem efectuar rupturas na sociedade capitalista, eram indícios de que a perspectiva de uma mudança radical se eriçava nas profundezas da casca superficial inteiramente ocupada desde então pelo capitalismo financeiro, sem qualquer oposição visível.

Embora, desde essa altura, não se tivessem produzido verdadeiras revoluções societárias, tiveram o mérito de trazer para primeiro plano as reivindicações das classes laboriosas, e, ainda que limitadas e controladas pelo sistema capitalista, fizeram inscrever, e pôr em marcha no seu sistema estatal, reformas (e apenas reformas), que deram algum bem-estar e melhoraram minimamente o nível de vida nos Estados mais avançados politica e economicamente, e fizeram despertar a consciência social noutras partes do globo, desde a China à América do Sul.

Esse período, que vai grosso modo, de meados dos anos 60 de século XX até aos primeiros anos deste século produziu um forte movimento "sísmico" com certos indícios revolucionários, mas não foi produto, essencialmente, de reivindicações políticas.

Mais do que o esforço generoso de Che Guevara, ou da tenacidade de Ho Chi Minh, da valentia dos guerrilheiros do Araguaia, no Brasil, da tenacidade de Carlos Marighela, ou das barricadas quase anárquicas de Paris semi-revolucionário de 1968, o que produziu mais convulsão no interior no sistema capitalista foi o desenvolvimento revolucionário económico, que pôs em órbita o primeiro Sputnik, levou o homem à lua, forjou a alta tecnologia da Internet, massificou a computação, lançou os GPS e a Internet, criou o micro-ondas, desenvolveu a valores nunca antes conseguidos os transportes de massa a longa distância em tempo cada vez mais curtos, entre muitos outros processos científicos e industriais.

Ora, este avanço produtivo, científico e pós-industrial clássico foi o facto mais marcante do ponto de vista revolucionário do que a própria acção dos dirigentes mais conhecidos, dezenas de anos atrás. 

E isto, torna-se contraditório, porque, aparentemente, quem estava no leme da estrutura político-económica eram os seguidores do capital mais desclassificado.

Ora, esta direcção, que desprezou o sistema produtivo, veio canalizar o declínio de todo o sistema social mundial. 

Trouxe o empobrecimento real da população, no meio da exuberância da evolução produtiva da própria sociedade. 

Neste aspecto, desenham-se perspectivas sombrias que fazem lembrar o que de que pior despontou no Mundo no estertor da Idade Média Europeia.

Todavia, por debaixo da casca germina uma contradição em larga escala: é o embate final entre o avanço da sociedade, que pressupõe uma ruptura, e as forças do retrocesso que se querem manter no poder à custa do empobrecimento humano.

O que está a movimentar-se em todo o mundo são as forças que deram o impulso revolucionário à sociedade nos últimos 50 anos, que foram espezinhadas e querem voltar à luz do dia.  

Querem emancipar-se, estiveram muitas dezenas de anos no subsolo, estão ainda cegas, mas querem ver a luz do dia.

Querem uma nova sociedade de futuro. 

Vêem ao largo, ainda no mar alto, uma vaga estilo maremoto, que irá desembocar numa revolução social, mas não sabem ainda quando chegará a terra, porque vai obrigar, nos próximos anos, os homens - os seus partidos, novos ou velhos - a formular a capacidade de forjar a sua própria emancipação.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O GRANDE ABRAÇO NA "POBREZA" ENTRE O CAPITAL E A IGREJA CATÓLICA



banqueiros do Vaticano

Um abraço de cinismo inadmissível está a ser propagandeado, há dias, pela Igreja Católica e um dos principais causadores da crise financeira e económica em Portugal, o Banco Espírito Santo (BES). 

E este cinismo e crime de mercantilismo mais puro está a ser esquecido e obscurecido, no país, pelos partidos ditos da oposição, mas também pelos grandes meios de comunicação social.

O que fizeram então a *caridosa* Cáritas e o "piedoso" e sinistro BES?

Uma parceria para arrecadar dinheiro, através de "doações" dos "pobres" que serão depositadas naquela instituição de rapina financeira, ligada a casos de branqueamento de capitais de ditadores, de fugas de capitais, de negócios da mais pura ilegalidade dentro do actual sistema.

Eis uma extracto de um texto de propaganda do BES, que intitula: "Muitos não pedem na rua, mas pedem à Cáritas".

"Hoje - refere o texto - há famílias carenciadas que recorrem à Cáritas para algo tão simples como pagar as despesas mensais de água, luz ou gás. Famílias que pedem à Cáritas, porque não podem  pedir a mais ninguém. Presente em todo o país, através de 4.350 estruturas locais, a missão da instituição é identificar os problemas de cada família e encontrar a melhor solução.

Este é o trabalho da Cáritas, trabalho que conta com o apoio do BES, mecenas (imaginem...mecenas, é preciso ter lata!!!) da instituição. A sua ajuda também é muito importante para pessoas que estão a passar por dificuldades dentro e e fora de casa.

Obrigado".

Então o que preconiza o BES - que é um dos principais responsáveis do endividamento do Estado português, e do roubo dos salários e pensões dos portugueses?

Apelas aos espoliados portugueses que façam um donativo que vai cair nos seus cofres. Cita-se "a partir de um euro fazer o seu donativo em quotidiano/pagamento/Besnet" ou "arredondando os seus pensamentos" a favor do banco (isto mesmo), ou então transferir através do NIB, ou "abrindo uma conta", certamente para o banco colocar a render os "donativos".

E Com este "enchimento" de cofres para os "pobrezinhos" a caridosa Cáritas recebe "um euro por cada conta aberta". E a Igreja Católica enche deste modo os bolsos.

Grande abraço entre o Grande Capital e a Santa Madre Igreja Católica. Não é, apenas, nojento. Merecia um pesado castigo se o sistema político fosse outro.

2 - E a Igreja Católica continua a "brilhar" na defesa do sistema político português. E a mostrar a sua verdadeira cara nesta crise.

Dias atrás, a senhora Isabel Jonet, uma piedosa que se intitula Presidente do Banco Alimentar contra a Fome, curiosamente, uma instituição ligada à Igreja Católica portuguesa, considerou que um novo pacote de austeridade e um "mal menor", embora admita que posse ter influência na vida dos portugueses.

Todavia, a dita Jonet dá o benefício da dúvida ao Governo, pois, certamente, ela irá colmatar as necessidades dos portugueses com um ou dois novos peditórios, cujos produtos serão canalizados, de borla, para instituições, ditas de solidariedade social, controladas pela Igreja romana. sacando, deste modo, mais dinheiro aos utentes das ditas instituições.

A "caridade" da Igreja Católica, através de todas essas instituições "católicas", recebe anualmente do Estado (OE 2012) 1,2 mil milhões de euros, a que se acresce a nível particular os valores em dinheiro que os utentes tem de desembolsar.

Claro que a Igreja Católica distribui, "igualitariamente", este dinheiro pelos cofres da instituição ou em investimentos rendosos em bancos de que accionista (principal ou preferencial), através de "testa de ferro" civis.

3 - Os hierarcas da Igreja Católica portuguesa reuniram-se, há dias, em Fátima, esse centro turístico arrecadador de dinheiro de fiéis, e fizeram questão de pedir "estabilidade" para a vida política portuguesa. Ou seja, não se ataque o governo, que embora seja mal, é o governo que eles apoiam.