quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

QUEM PAGA A "CARIDADE" DAS MISERICÓRDIAS?



1 - Os abutres da hierarquia da Igreja Católica portuguesa "salivam" de contentamento com a crise. 

No passado dia 16, Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesa (uma entidade pertença da Igreja Católica), saltitava de contente, com a situação de pobreza, porque - segundo esse douto caridoso "enquanto existirem misericórdias não há razão para haver fome em Portugal".

Basta, segundo o piedoso católico, ir de braços caídos chafurdar nas gamelas das ditas.

Mas quem paga estas "mãos largas"? O Estado, ou seja o contribuinte. 

Lemos tem a lata de afirmar que se for preciso mais dinheiro para os bolsos das Misericórdias o governo tem guardado mais 58 milhões de contos para reforçar "a sopa dos pobres".

"Quem quiser e estiver em condições e precisar(...)pode ir a uma misericórdia de Portugal e a muitas IPSS (instituições particulares de solidarieddae social), onde de certeza terão o que comer", vomitou Lemos.

É esta indignidade que deveria fazer com que a Igreja Católica fosse levada à alçada da Justiça, para determinar para onde vão esses dinheiros, se os tempos políticos fossem outros.

2- Meses atrás, estes abutres gritavam a plenos pulmões, vindo para os órgãos de comunicação social, que estavam em vias de fechar muitas desses "antros" de caridade de sacar dinheiro à custa do contribuinte, porque o Estado - ou seja o governo - não lhe enchia às mãos de dinheiro.

Falavam então de pobreza, e ameaçavam que seria os coveiros dos casos de conflitualidade, se não houvesse "comparticipações" suficientes para os cofres da Igreja Católica.

O representante desta no Ministério da Solidariedade, o actual ministro Pedro Mota Soares, fez-lhe a vontade.

E depois o padre católico Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade Social, eufórico, proclamou aos "crentes": não só não vai haver cortes (nos apoios estatais), como vai haver um reforço, ainda que curto, das comparticipações do Estado às Misericórdias, Mutualidades e Institutições de Solidariedade Social (IPSS), que estão, em mais de 95 % na posse das estruturas da IC.

"Muito embora estejamos num momento de acentuada crise, com cortes sucessivos por vários razões, este protocolo não prevê cortes até haver alguma valorização na comparticipação por parte do Estado às instituições. É pequena, mas é um sinal muito positivo", regozijou-se o sacerdote da Santa Madre Igreja Católica.

E certamente, como bom samaritano, pensou com os seus botões: "venha a nós o vosso reino".




3 - Vamos aos números e ao esbulho que o Estado (Orçamento da Segurança Social) faz ao retirar o dinheiro dos salários para o entregar à Igreja Católica, com o argumentação de "caridade" e "solidariedade" em 2013.

a) Transferência em conta corrente estatal para "as instituições sem fins lucrativos" - 1.450.415.630 euros 

b) Subsidios estatais para "as instituições sem fins lucrativos"                                   - 480.611.105 euros

c) Transferências de capitais para "instituições sem fins lucrativos"                            -   77.741.689 euros

Em 2012

a)  transferência corrente                                                                                        - 1.580.700.865,00

b) subsídios                                                                                                             - 384.169.127,00

c)  capitais                                                                                                       - 95.139.328,00


Convém referir e repisar que toda esta rede de "instituições privadas de solidariedade nacional", além dos dinheiros do Estado, ainda sacam, mensalmente, parte das pensões dos utentes (valor que pode atingir 80 por cento do valor recebido).

Ou seja, na prática um duplo pagamento. Do Estado e do utente.

E o valor individual que a Segurança Social paga por idoso que está entregue a um Lar da Santa Casa da Misericórdia ascende, actualmente, a cerca de 700 euros.

Segundo dados da própria União das Misericórdias, em 2009, havia cerca de 50 mil idosos em lares, centros de dia ou com apoio domiciliário.

Além do mais, como estruturas privadas, pagas com dinheiro público na sua criação, as Misericórdias - segundo dados da União citada - têm, na sua posse, 105 unidades de cuidados continuados. Ou seja hospitais de retaguarda.

A finalizar, deve-se referir que um número elevado recebe uma parte muito significativa de produtos alimentares grátis da recolha, através de Bancos Alimentares e outros semelhantes, também elas entidades da Igreja Católica.

Em nome de Deus, a hierarquia - e os seus acólitos leigos - suga muito dinheiro ao contribuinte português, sustentando que o faz por "caridade".

Claro que estas divulgações podem ferir muitas piedosas consciências, argumentando que estão a caluniar quem presta assistência às populações desfavorecidas. 

É verdade que prestam um serviço, mas fazem-no, não por solidariedade, mas para arregimentar dinheiro.

As populações não precisam de "caridade", necessitam sim de uma distribuição de riqueza através da sua participação na economia do país. 

E a missão do Estado é evitar a "parasitagem" formulada sob o manto diáfano de uma "solidariedade" de aves de rapina deste calibre.

A Igreja Católica vive à custa do Estado, e isso é que tem de acabar.








terça-feira, 18 de dezembro de 2012

NARRATIVAS DA INFÂNCIA DE CRISTO SÃO HISTÓRIA INTERPRETADA- BENTO XVI



1 - O Papa Católico Apostólico Romano, o alemão Joseph Ratzinger, que se veste de Bento XVI, no seu ritual de Chefe de Estado da Santa Sé e de bispo de Roma, na sua profissão de fé, decidiu, na sua corporização humana, discorrer, em escrita vulgar, naturalmente não etérea, sob o dogmas da Igreja de que é Sumo Pontífice (Pontifex Maximus, copiado do expoente religioso dos antigos imperadores romanos) para expor, em livro, logo em meros estratagemas terrenos, a sua versão da vivência de Cristo, como o título " Jesus de Nazaré - A infância de Jesus".

(Deixemos de lado, este repetitivo de títulos - Jesus, coisas de somenos importância na literacia actual!).


O que assinala, então, de relevante o Sumo Pontífice da Igreja Católica Romana: que "as narrativas da infância (de Jesus Cristo) são história interpretada, a partir da interpretação, escrita e condensada".


Sem qualquer metáfora, o Papa Ratzinger reconhece que os escritos sobre o cristianismo (e a história da criação da figura de Jesus Cristo é o início, preciso, da modelação dessa confissão religiosa) foram obras de seres terrenos, que interpretaram, à sua maneira, um evento que pretendiam divulgar.


Pode Ratzinger, "remexer depois na caldeirada", sustentando que "entre a palavra de Deus e a história interpretadora há uma relação recíproca: a palavra de Deus ensina que os eventos contêm *história da salvação*, que diz respeito a todos", mas o que ele admite, para a racionalidade histórica, que é essa que interessa, pois é a única que é objecto da Ciência, é que a narrativa dos começos dessa doutrina não tem, justamente, uma... base histórica.


Cito: "Eu não vejo como se possa aduzir, em apoio de tal teoria (nascimento de Jesus em Nazaré,ndr) fontes verdadeiras. De facto, a propósito do nascimento de Jesus, não temos outras fontes além das narrativas da infância de Mateus e Lucas. Vê-se que os dois dependem de representantes de tradições muito diferentes; são influenciados (sublinhado meu) por perspectivas teológicas diferentes, e, inclusive as suas informações históricas divergem parcialmente". (Bento XVI, "Jeus de Nazaré - A Infância de Jesus" - Principia Editora, 2012)




As figuras de Cristo mudaram conforme as épocas e as tradições. Tudo obra de homens....

2 -  Quando Bento XVI refere que as narrativas de Mateus e Lucas, dois dos chamados Evangelistas - e são os Evangelhos os únicos textos, juntamente com os Actos dos Apóstolos e o Apocalipse que falam e descrevem algo da vida do eventual fundador da doutrina - representam "tradições muito diferentes", está a dizer que as transcrições que fazem são produtos de relatos de outros, logo já os receberam em segunda ou terceira mão. 


Ou seja, não reproduzem na sua escrita, documental e presencialmente, a vivência de Jesus Cristo.


Do Evangelho de Lucas, logo no início aquele sublinha: 


"Escreveram-se já várias narrativas sobre Cristo, em que se usaram, como informação principal, relatos que circulam entre nós e que nos foram feitos pelos primeiros discípulos e por outras testemunhas, que viram o que aconteceu. Pareceu-me, contudo, que seria bom verificar todos esses relatos, dos mais antigos aos mais recentes (sublinhado meu), e, após um exame completo, dar-te este resumo desses factos que aconteceram no nosso meio, para fortalecer a tua confiança de tudo o que foi ensinado". 


E, entrando na sua versão, Lucas apresenta dois casos de nascimento por intervenção do anjo Gabriel, um filho "endeusado" que nascerá, por obra e graça, e será pertença de um casal já velho, o homem de nome Zacarias e a mulher de nome Isabel, ele "sacerdote judaico, e os dois observavam - segundo o autor, embora de outra confissão religiosa - "todas as leis de Deus". Não tinham filhos. 


Esta criança nascida "por via divina", é transformado num João "pregador do Deus glorioso", porque - interpreta - irá preparar "o caminho para o Messias, o seu Enviado".


Ficamos a saber, logo depois que o anjo Gabriel, um mês depois, transmitia a Maria, que era prima de Isabel (cito o evangelista), que iria engravidar virgem, e a criança se chamaria Jesus e seria "o Filho de Deus eterno. O Senhor lhe dará o trono do seu antepassado, o rei David. Reinará sobre Israel para sempre; o seu reino jamais terá fim".


Como se pode verificar do que Lucas escreve, existem muitas relatos biográficos de uma figura que chamam Jesus Cristo, umas muito antigas, outros mais recentes, que são divergentes e que criam confusão nos apaniguados. Preconiza então uma formatação para dar confiança ao que estava a ser "ensinado".


Em termos práticos, era necessário unificar doutrina, pois as pessoas do tempo do Evangelho de Lucas não assistiram a nada que tivesse convivido com Cristo, nem estavam a aceitar, de bom grado,    as narrativas que lhe estavam a transmitir.



3 -  Os Evangelhos - Lucas reconhece e Ratzinger, dois mil anos depois, dá a mão à palmatória - não são provas testemunhais directas da existência dessa personalidade que ficou, mais tarde, conhecida como Jesus Cristo. 


A única razão dessa aceitação dessa existência é a crença, a fé. Ponto final.


Quando se tenta investigar em documentos coevos a figura histórica daquele, que os Evangelhos assinalam que teve uma importância enorme, em vida, no espaço geográfico, pelo menos da antiga Palestina, a situação complica-se de tal modo, pois não existe um único texto que permita referenciar sem hesitações a sua existência real. 


Quer da parte de apologistas ou discípulos de Cristo que com ele, eventualmente, tivessem convivido, quer da parte das diferentes entidades, desde Romanos ocupantes até às diferentes autoridades civis e religiosas das várias confissões que habitaram, ao mesmo tempo, o território, desde a Judeia, Samaria e Galileia, por onde Cristo se movimentara, nada ficou registado, nem na escrita, nem na arqueologia. Até agora. 


Estranho, pois os evangelistas e apologistas dos primeiros séculos do cristianismo ressaltam que Jesus Cristo era acompanhado de multidões nas suas movimentações e pregações e que, logo, nos primeiros anos da sua passagem pela terra, já eram às centenas de milhares os seus seguidores. E, tais factos, nunca foram registados na época por ninguém!!!. 


Ratzinger, como Papa, procura com este texto minimizar os documentos, entretanto, descobertos recentemente, também eles Evangelhos, pertencentes, no geral a épocas idênticas de concepção dos Evangelhos, considerados canónicos, a partir do Concílio de Niceia (325), justamente num altura que o Imperador romano, tornava o cristianismo em ascensão como religião oficial de Estado.


Com estes textos, o Papa Romano procura fazer obscurecer, do ponto de vista religioso, o manancial de documentação real, que uma outra versão do cristianismo. Desde as relações carnais de Jesus Cristo até ao papel ignaro que desempenhavam os próprios apóstolos, que, aliás, se apresentam diferenciados nos próprios Evangelhos canónicos.


4 - Ora, a descoberta destes documentos, que apenas sabíamos que existiam pela critica demolidora que os hierarcas burocratas dos princípios da nova religião oficial, lhe faziam, vem colocar, em primeiro plano, precisamente, a razão real do seu desaparecimento.


O bispo Eusébio, um fanático da religião cristã de Estado, no século IV, na sua História Eleciástica, admite que o facto de Jesus Cristo ter sido elevado a "divindade" trouxe "em cada país" discussões e polémicas que enquadraram "um grande número de pessoas estrangeiras de terras distantes da Judeia".




Todavia, toda esta discussão não foi transferida para escritos e documentos. Sabemos agora que existiram. 

O que pressupõe que o seu desaparecimento, logo nos primeiros séculos da oficialização da nova doutrina, se devolveu a uma perseguição organizada e profunda. 


A Igreja Católica actuou com sinistra actividade censória, que ia até à própria morte de todos aqueles que se opunham à versão oficial. 





sábado, 15 de dezembro de 2012

PCP:O QUE È UMA DEMOCRACIA AVANÇADA?









1 - O PCP efectuou, recentemente, princípios de Dezembro, o seu XIX Congresso, e única novidade ideológica e política deste partido  nesta sua assembleia magna, foi uma alteração ao seu programa, que passa a denominar-se por "uma democracia avançada - Os valores de Abril no futuro de Portugal".

Mas afinal o que diferencia, programaticamente, o PCP, dos restantes partidos ditos de esquerda, o Partido Socialista (PS)  e Bloco de Esquerda (BE), se todos defendem a democracia?

Referiu o PCP na justificação às alterações programáticas que elas visaram apenas "actualizar e enriquecer" o seu programa, que aprovado em 1992, se intitulava "Portugal: uma democracia avançada no limitar do século XXI".

"O processo contra-revolucionário - em desenvolvimento - e o processo de integração na União Europeia interligados, conduziram a uma situação marcada pelo domínio dos grupos monopolistas, associados e dependentes do capital estrangeiro, pela actuação do processo de perversão do regime democrático e por um elevado grau de comprometimento de soberania e independência nacionais", lê-se na argumentação da proposta aprovada.

Afinal que traz de novidade esta modificação? Nenhuma. 

O PCP, tal como o PS e o BE, afirmam-se vinculados ao actual sistema político-parlamentar, preconizando uma vaga e inócua "democracia avançada", que não representa nada mais, nada menos, que uma submissão ao parlamentarismo institucionalizado.

Existe um círculo que inter-une  os três partidos ditos da esquerda, que estão colados, como lapas, à dinâmica do poder concentrado no actual parlamento, fazendo fica-pé nas suas vagas "suas características próprias", mas nada apresentam sobre quanto à organização e luta pelo poder revolucionário num território mais amplo, que é o seu, chamado União Europeia, que é o campo próprio em convulsão de partidos e formações que se dizem defensoras, no caso em concreto actual, dos interesses das classes trabalhadoras. 

Mas, que afinal não demonstram capacidade de formular um acordo minimamente programático de política internacional.

2 - O PCP assinala no seu programa, de maneira evidente, uma orientação, nitidamente conservadora e retrógrada, que é a sua "preocupação" pelo "comprometimento da soberania e independência nacional", como se fosse esse o ponto fulcral de um partido se proclama internacionalista.

(Claro que não é uma novidade no PCP, ao longo da sua história, praticamente, desde a sua fundação em 1921, depois nos anos da II Grande Guerra, e, de maneira evidente, quando começa a guerra colonial colonial, em que o  primeiro pomo de discórdia surgido no então seu secretariado foi justamente o "carácter nacionalista" daquele partido face às formações guerrilheiras que emergiram em África na luta contra o colonialismo português, daí surgindo a maior cisão da sua História, que deu lugar à extrema-esquerda).


Este projecto constante do PCP conduzido para enquadrar o movimento social das classes trabalhadoras nas "baias" do nacionalismo, não é típico de Portugal, é uma distorção embutida em todos os dirigentes, que ainda resistem na arena internacional, na senda dos antigos partidos, ligados ao "internacionalismo proletário" submisso à antiga União Soviética, cujo expoente máximo hoje conhecido é o KKE grego.

É uma evidência que para se forjar uma força organizada de luta política revolucionária, as classes trabalhadoras têm de se organizar, com os seus interesses próprios classistas, em primeiro, nos Estados nacionais. 

Mas isto não pode significar um fim em si - é, essencialmente, formal. 

A estrutura produtiva de Portugal - o seu conteúdo, na realidade - está ligado e interligado, em primeiro lugar, à União Europeia.

Logo, quer pela natureza dos laços multinacionais que interligam as suas relações de produção, quer pela super-estrutura mais poderosa, que é dada pela política, formando a União Europeia, do ponto de vista político, a acção revolucionária das classes trabalhadoras tem de ser supranacional, neste caso no interior da UE, mas indo mais longe, impulsionando a luta internacional.

Daqueles três partidos, ditos de esquerda, do arco constitucional parlamentar português, o PCP é aquele que mais reacção apresenta a uma visão além-fronteiras: o PS, como partido liberal burguês pró-imperialista é adepto da internacionalização comercial, o BE, que se atem à democracia parlamentar, vê, no entanto, a importância do monetarismo europeu, como expansão do próprio comércio e da produção desenvolvementista. Mas, fica-se pela sua curta visão da política: a chamada "mais democracia" enroscada na legalidade existente.

O que falta é a visão, em todos em esses partidos, ou em militantes e dirigentes que nele se enquadram, de um novo programa internacionalista que consiga unificar as lutas radicais e, por vezes revolucionárias, que estão a surgir um pouco por toda a parte.

Os partidos actuais da chamada esquerda portuguesa puseram de lado, definitivamente, o internacionalismo.



3 - O PCP viveu toda a sua histórica debaixo das concepções ideológicas e políticas formuladas pelo stalinismo. 

Desde o seu programa geral até as reviravoltas tácticas (e estratégicas) formuladas ao longo dos anos, desde 1923 até 1992, estiveram sempre ditadas pelo poder político de Moscovo. 

Ou seja o poder moldado por Josep Stáline e os que foram o seu suporte e organizativo ate 1953, e, posteriormente, na manutenção moribunda da URSS até 1991.

Quando se constituiu, oficialmente, em 1921, somente realizou o seu primeiro Congresso em 1923, sendo eleito seu secretário-geral José Carlos Rates, que preconizou ao Congresso a "venda" das colónias portuguesas a outras potências estrangeiras, desprezando, precisamente, um dos aspectos mais progressistas defendidos pela Revolução Russa de 1917: a emancipação dos povos oprimidos, que foi o "elo" ideológico que veio dar consistência à formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). 

Teve de ser um delegado da III Internacional, presente naquele Congresso, a impor de fora - a frase é essa - a retirada de tal anúncio e a fazer subscrever a sustentação programática.

Durante a II Grande Guerra, o PCP, em 1943, defendeu no seu I Congresso Ilegal "A Unidade da Nação Portuguesa na luta pelo Pão, pela Liberdade e pela Independência", englobando a Nação, desde o Minho a Timor. 

Em 1946, quando se desenvolviam já as lutas pelas independências dos territórios ocupados, no seu II Congresso Ilegal, preconizava no seu informe político, aprovado, que a luta política se fazia sob o lema "Unidade da Nação para a conquista da Democracia". 

A mudança de orientação somente se dá quando se inicia a ruptura visível, nos pós-guerra, entre a antiga URSS e os EUA, e de maneira evidente quando estalam, nos inícios dos anos 60, as divergências ideológicas entre a ex-União Soviética e a China maoista. 

Com o desaparecimento da União Soviética, e com o total descrédito da sua sucessão na República Popular da China, as análises desapaixonadas devem ter lugar agora, repensar todo o movimento revolucionário que percorreu o mundo sem ter, até agora, um novo tipo de poder emergido no Mundo.

3 -  Quando se efectua o primeiro Congresso do PCP, em 1923, a antiga URSS estava mergulhada numa grande guerra civil, o programa inicial do PCUS, que o levara ao poder estava a ser abandonado progressivamente, tendo o Conselho de Comissariados do Povo (o executivo central do novo poder), optado, em 1922, pelo que ficou celebrizado como NEP (a Nova Política Económica), que permitiu a reintrodução dos princípios de gestão capitalista liberal, nomeadamente no comércio interno, na diferenciação salarial, e na abertura de empresas privadas.

E, principalmente, o impacto de uma revolução a Ocidente se tinha gorado, com a jugulação da Revolução alemã de 1918-19 e a destruição da Revolução Húngara de 1919, que isolou, na pratica, um verdadeiro progresso revolucionário, primeiro, na nova República Soviética, depois, provável e simultaneamente, em toda a Europa.




O que trouxe, no imediato, a Revolução Russa de 1917 foi um despertar e um ânimo revolucionário em todo o mundo, que levou para programas políticos consignas que ficaram, durante dezenas de anos, como bandeiras que levar a conquistas sociais duradouras, como a jornada de 48 horas, as melhorias das condições de trabalho, as reivindicações de trabalho igual, salário igual, tratamento igual para os trabalhadores, dependente dos sexos, contra o trabalho infantil, eleições de conselhos ou comissões de trabalhadores, controlo operário, entre outros.

Mas, no interior da própria URSS, esta estagnação do progresso revolucionário (convém sublinhar que o principal líder da Revolução Soviética Russa, Vladimir Lénin definiu, desde o início, que o novo poder político estava forjado sob a forma de Capitalismo de Estado, que dominava então a nova sociedade...e que nunca foi ultrapassado!!!) fazia vaguear as diferentes facções de dirigentes, que se degladiavam até 1924, ano da morte de Ulianov, doente desde 1922, sob rumos contraditórios.

Era o reverso da medalha, no interior de uma poderosa revolução, onde estava a germinar uma terrível contra-revolução, que era amadurecida e estimulada por dados contraditórios, subversivamente organizada e alicerçada sob os escombros e pseudo-programas socialistas e comunistas. 

Daí, o seu lado trágico, difícil de denunciar e obscurecido propositadamente para não se poder analisar o intrincado da sua contra-subversão, nem refazer uma análise sob os auspícios de Karl Marx e Frederico Engels, que fizesse renascer e amadurecimento de um novo levantamento revolucionário.  
  
A seguir à morte de Lénin, a orientação estratégica da classe dirigente que se instalava, ditatorialmente, em Moscovo, colocou o tema principal da acção política diária, na possibilidade de instalar "o socialismo num só país", (Stáline tem, logo após a morte de Lénin,  um debate agressivo, demolidor contra Trotsky, em Novembro de 1924, numa sessão preliminar do Conselho Central de Sindicatos), consigna que aquele fez ser aceite em todas as secções da III Internacional, ou seja os partidos considerados "irmãos". 

Como enquadramento ideológico, inventou a teoria do "marxismo-leninismo", como movimento inovador do pensamento de Marx e Engels, e tornou como dogma de "praxis" política a aplicação da "aliança operário-camponesa". 

Que uma dezenas de anos depois, transformou como modelo de governo, nas chamadas "democracias populares", provenientes das "frentes anti-fascistas". 

E foi este modelo, na versão stalinista, que prevaleceu desde a luta anti-hitleriana até à vitória na II Grande Guerra e a criação dos novos Estados na chamada órbita soviética, com especial relevância para a Bulgária, Roménia, Hungria e Jugoslávia, Checoslováquia e Polónia.

4 - Então surgirá a inquirição: como foi possível manter, como dominante, este sistema  obscurantista e manipulador durante tantas dezenas de anos?



A transformação de uma revolução, como a que teve lugar na Rússia czarista em 1917, em contra-revolução, não se efectuou, de repente, nem teve a particularidade de fazer reviver, com a sua fase contra-revolucionária, o reaparecimento dos poderes monárquicos que estavam antes instalados. 

(Tem de se referir, e até salientar, que foi efectuado um esforço monstruoso da Revolução, que ainda não estava assente no terreno, na derrota de uma intromissão poderosa externa do Ocidente, - Inglaterra, França, Japão e Estados Unidos) e o destroçar completo das chamadas tropas pró-czaristas - ex-generais e almirantes, cadetes -, o chamado Exército Branco, que durou desde 1918 a 1921).

Ora, esta contenção de uma Revolução foi efectuada por homens, que estiveram na frente da batalha em Outubro de 1917, e, apesar dos retrocessos ideológicos, políticos e sociais que se manifestavam,    esses líderes continuavam a apregoar, em palavras, os ideais de uma nova sociedade.

Além do mais, a devastação económica provocada no interior do território que agora se tornara União Soviética foi, em parte, reorganizada pelo novo poder, que apostou na industrialização, e, em certa medida, no fomento de um novo tipo de agricultura, e lançou campanhas de enorme alcance de educação e ensino.

O facto de a Europa, e, em parte os Estados Unidos, serem percorridos por um surto de poder ditatorial do capital financeiro e industrial mais desclassificado, obrigou as forças políticas avançadas a embrenhar-se numa luta sem tréguas contra as hordas nazi-fascistas que ganhavam, progressivamente, o poder político. 

Quando se começava a criticar, mesmo dentro dos partidos comunistas ocidentais, certos aspectos da evolução da Revolução Russa para os trilhos de contra-revolução, na agudização da luta de classes não existiu, portanto, um intervalo de acalmia que pudesse permitir, serenamente, a análise das causas que, por um lado, impulsionaram uma Revolução com um programa socialista num país plenamente impregnado de resquícios feudais, relações sociais nitidamente imaturas para avanços civilizacionais que, naquele momento, ultrapassavam a capacidade de entrar em aprofundamentos mais profundos os conflitos classistas que, superficialmente, estavam em marcha.

A questão não envolvia, portanto, este ou aquele dirigente em conflito aberto com outro. 

A análise e o estudo que deveria ter sido feito era o estado real da Rússia quando a guerra civil terminou, e como se comportavam, realmente, as diferentes classes, em especial os camponeses, que estiveram na projecção da Revolução em 1917.

O regresso daqueles aos campos foi feito, numa dupla mestiçagem de sentimentos: entre o progresso e o retrocesso. 

Muitos entraram numa dinâmica de proprietários, vinculados ao velho feudalismo agrário. O campesinato começou a refrear o espírito revolucionário. Era necessário sobreviver.

O capitalismo de Estado russo, que pensava ir impulsionar o progresso revolucionário, estava a ser tragado pela imensa mole camponesa que desejava controlar "os seus produtos" e "as suas míseras propriedades".

O novo poder com Lénin fez-lhe concessões, que nada resolveram no essencial, os que lhe sucederam optaram, pela repressão aberta, e pela chamada "colectivização forçada". 

Por seu lado, enquanto isto sucedia na ex-URSS, as burguesias dos Estados Unidos, França, Inglaterra, e mesmo da Alemanha, manifestavam-se numa fase evolucionista mais avançada. 

Registava-se um rápido avanço da produção capitalista, e, o feudalismo, na prática, já não causava, nelas, complicações de monta. Nesses países começava a emergir uma classe média, já pujante e eficaz, que se concentrava nas grandes urbes.

Ora, esta evolução societária na Europa e nos EUA também tem repercussões na estrutura das próprias classes trabalhadoras ocidentais, cujas reivindicações, por vezes, mais avançadas do que na própria ex-US, trazem contradições com a orientação pró-soviética da IC.

Os Partidos Comunistas ocidentais vão sofrer abalos conflituosos com as orientações de Moscovo, que se reflectem em cisões e, muitas vezes, em desmoralizações enormes, que se repercutem na própria luta contra o avanço nazi-fascista. 

Claro que o PCP sofreu dos mesmos males, nunca resolvidos, correctamente, por uma crítica serena e profunda.

5 - Temos de considerar, taxativamente, como o poder dominante capitalista sustenta, que o que capitulou com a destruição da URSS e o seu seu definhamento, a sua entrada num caminho contra-revolucionário, significou, pura e simplesmente, a derrota da Revolução Socialista?

Não.

Quer da experiência histórica, que se seguiu à Revolução russa, quer todo o trajecto posterior, mesmo quando a "crença" numa Rússia Socialista se esboroara, quase completamente, a partir dos anos 60 do século passado, quer pelas transformações económicas e sociais, que levam os próprios defensores do capitalismo, a afirmar que esgotou "o seu tempo", o que "se estilhaçou" não foi o caminho da revolução, mas todos os restos de outros sistemas sociais que entravavam o rumo socialista da sociedade.

O que foi ficou para trás foi um determinado período histórico, digamos pré-revolucionário, que tinha muito de voluntarista na sua argumentação teórica e ideológica, e que uma nova fase revolucionária, de carácter mais avançada, somente surgirá com uma crise económica de maior envergadura, que atinja países que nunca foram percorridos nas suas entranhas por convulsões revolucionárias, como os Estados Unidos, a Índia e a própria China.

Este passado, recente, de várias dezenas de anos, dizem-nos que se tem de refazer todos os conceitos programáticos, e que os projectos revolucionários têm de ser assentes em orientações multinacionais.

As revoluções, a partir de agora, não podem ser revoluções de minorias, mas de massas populares laboriosas e assente na estrutura de poder de baixo para cima, eleito, controlado e revogado a qualquer momento. 

Não podem existirem, pura e simplesmente, governo executivos centrais e secretariados partidários, ditos revolucionários, que tudo decidem e impõem, sem haver uma disposição popular para o fazer.

O desenvolvimento capitalista hoje está numa encruzilhada da sua própria destruição. O contrato que criou para se estabelecer no mundo está, nos nossos, dias a ser trucidado por si próprio. E nós também temos essa percepção. Temos, pois, o direito de o fazer desaparecer da História.

Por muitas derrotas que as revoluções tivessem sofrido nos últimos 150 anos, uma nova empresa revolucionária está a colocar-se em marcha. Os tempos estão a mudar. Naturalmente, não sabemos como irá ser esse caminho. O que é certo é que o trilho está minado e existem sementes que começam a irromper.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

EUA: AS MUDANÇAS DE DINHEIRO MODIFICAM AS ALIANÇAS






1 - Um dos mais badalados generais dos Estados Unidos, de seu nome David Petraeus, que, após a passagem à reserva, em 2011, assumira o cargo de director da CIA (o Departamento dos Serviços Secretos norte-americanos), demitiu-se, inesperadamente, argumentando que tivera um caso amorosos com uma senhora tenente-coronel do Exército dos Estados na reserva, Paula Broadwell, mas ligada, ela própria, aos mesmos serviços secretos.



Os comentaristas de serviço e os  jornalistas de algibeira internacionais e nacionais ampliaram, quais vozes do dono, a versão oficial transmitida para a imprensa, como se um simples caso de "alcova" pudesse deitar abaixo um dos mais proeminentes político-militares dos EUA, que, foi comandante-em chefe das Forças norte-americanas no Iraque e Afeganistão, donde saiu com a auréola de vitorioso entre a elite dirigente do seu país, o que não corresponde minimamente à verdade, mas retirou lições que expôs pondo em causa a política de alianças do seu país no Médio-Oriente. EM CAUSA, justamente a subserviência da administração norte-americana face ao belicismo israelita.



Por tabela, e, curiosamente, ao mesmo tempo, os "problemas amorosos" vêem a atingir um outro destacado general, John Allen, que sucedeu no cargo de chefe militar no Afeganistão ao seu camarada Petraues, e estava indigitado para ocupar a função de comandante-chefe da NATO na Europa(claro com a indicação de Washington!). Na trama deste novo general surge uma nova mulher, de nome Jill Kelley, conhecida, também, de Petraues, mas que teria mantido uma correspondência de "carácter amoroso" com o outro seu camarada de armas.

Os jornais pretendem apresentá-la, apenas, como uma vulgar "socialite" da Florida, mas, na realidade, tem contactos estreitos com o Departamento de Estado e o Comando Conjunto de Operações Especiais (JSCOC), encarregado, justamente, das Operações Especiais, em Tampa, como responsável (não-renumerada, dizem os jornais) de relações públicas.

Paula Broadwell, com ligações entre o Departamento de Estado e o Pentágono, esteve como cadete de West Point, (hoje é tenente-coronel na reserva), a estagiar, durante meses em Israel, onde chegou a viver num kibutz.

O curioso é o facto de quem levantou a "lebre" foi um congressista profundamente ligado ao "lobby" israelita, Eric Cantor de seu nome, republicano, indefectível da candidatura presidencial de Mitt Romney, que teria recebido umas "dicas" de um mero agente subalterno do FBI (I Serviço de Segurança Interna dos Estados Unidos), como se um tal funcionário tivesse capacidade autónoma para "vasculhar" as comunicações do Director da CIA e do Comandante-Chefe das Forças multinacionais destacadas no Afeganistão! 



2- Tanto Petraues, como Allen, mas mais o primeiro, são generais de opereta, e o primeiro criou, à sua volta, um circo mediático, apresentando-se à imprensa, impecavelmente vestido à militar, com luzidias condecorações, mas poucas vitórias castrenses no seu "curricullum", fazendo lembrar, um pouco, o general Westmoreland no Vietname, e, posteriormente, o general Alexander Haig, na sua premeditada ascensão a uma alta carreira militar, mas balofa, para alcançar o cobiçado cargo de Secretário de Estado.

Ou seja, a versão caseira do falecido general Spínola. 

Mas, Petraues e Allen queriam colocar em causa a política imperial dos Estados Unidos no Médio-Oriente, e, acima de tudo, no mundo muçulmano? 

Claro que não: eles foram estrategas nos desaires sucessos castrense no Iraque e no Afeganistão, mas perceberam que a geo-política e os investimentos e circulação de capitais se diversificaram no Mundo e, em particular, no mundo muçulmano, onde os capitalistas islâmicos estão a adquirir um papel crescente na actual economia mundial. (só os Emirados Árabes Unidos teriam investido na UE e nos EUA nos últimos anos, mais de três biliões de dólares). 

Eles, os generais, são apologistas da intervenção directa e mesmo musculada no Médio-Oriente, mas sob novas alianças e a cumplicidade directa dos próprios regimes árabes e muçulmanos, incluindo os do Norte de África. 

E, Israel é, nos dias de hoje, uma fonte de problemas e não a solução que interessa, no futuro, ao Império. 

Para uma parte significativa da classe dirigente norte-americana, ciosa da sua hegemonia não partilhada, Israel  está a ser um sorvedouro de dinheiro e um "esqueleto no armário" que não serve as perspectivas estratégicas a novas saídas para o capitalismo decadente norte-americano. 

E entre um sector importante da estrutura dirigente militar norte-americana, Israel está a imiscuir-se demasiado nos "assuntos internos" do país. 

Que é, precisamente, o que aconteceu agora: o lobby judeu norte-americano, que obedece ao seu fanatismo religioso cego, que está concentrado numa frágil e mítica Terra Prometida, não está a perceber que está a ficar "cercado" dentro dos próprios Estados Unidos, e, então actua, à descarada, para inflectir a sua política interna. 

O visível desta cegueira está na actuação política de homens "pagos", como Cantor, Bernarke, Rahn Emanuel, entre centenas de outros, com os fundos do lobby judaico de Wall Street. 

Mas, por outro lado, judeus, que olham, essencialmente, para os movimentos dos negócios e lucros, através dos seus representantes, como Henry Kissinger (ex-secretário de Estado de Nixon) e Zbigniew Brzezinski (Conselheiro de Segurança Nacional de Carter) estão a avisar que se Israel seguir a actual orientação se desmembrará dentro de muitos poucos anos. 

3- Desde a última guerra entre Israel e o Líbano em 2006, cujos participantes principais foram, de um lado, as Forças de Defesa do Estado israelita, e do outro, os guerrilheiros do Hizbollah, e parte do Exército libanês,  guerra essa que durou 34 dias, verificou-se, no entanto, que o estado de organização e prontidão da estrutura castrense do primeiro, que iniciou, abertamente, as hostilidades, com uma barragem descomunal de artilharia pesada, ataques aéreos e bombardeamentos de unidades navais. sobre 40 localidades libanesas.

E tal verificação sucedeu quando as tropas de Israel avançaram Líbano dentro e tiveram contra-tempos que lhe advieram do facto da parte contrária comportar armamento sofisticado, que paralisaram e obstruíram uma aparente ocupação terrestre que parecia ser uma operação de abrir e fechar um olho para os israelitas.

A operação trouxe, por um lado, uma visão que horrorizou o mundo: destruição generalizada de infra-estruturas por todo o país dos Cedros, 900 mil deslocados e sem abrigo  libaneses, 1.200 mortos, também libaneses, entre civis, e, por outro, isto em Israel, pela primeira vez, um deslocamento forçado de 500 mil habitantes e um número elevado de mortos, principalmente soldados, como resposta do Hizbollah, que utilizou artilharia de longo alcance (misseis e katiucha), mas, essencialmente, armamento sofisticado contra tanques.

E uma realidade menos visível, mas muito real: o emprego da força armada por parte de Israel e o prolongamento dos combates custaram ao erário público um preço demasiado elevado em dinheiro.

E as Forças Armadas israelitas tiveram de recuar, sem conseguir nada de palpável. Sentiram o cheiro da derrota.  

(Naturalmente, esta questão foi muito ponderada no recente recuo da entrada em Gaza, com um Hamas que retaliou, fortemente, em todo o Israel. Como seria possível actuar em duas frentes, (a externa e a interna), atolado, certamente, numa terrível guerra em guerrilha em território palestiniano, e, provavelmente, com a beligerância activa o Hizbollah libanês?).

Desde essa altura, as relações de parceria e aliança sem qualquer contestação entre os EUA e Israel nunca mais foram as mesmas. 

Claro, que para a fotografia tudo corria às mil maravilhas, mas os relatórios "confidenciais" e "secretos" das agências de espionagem norte-americana e de estrategas castrenses sugeriam que Israel se estava a tornar um empecilho para as ambições imperiais dos Estados Unidos naquela região.

E este facto foi reforçado com a crise financeira que abalou o sistema norte-americano em 2007.

Tendo como base o início da chamada Intifada palestiniana, ano 2000, os gastos castrenses de Israel cresceram exponencialmente, sempre financiados pelo governo (reforço) norte-americano que canalizou, anualmente, uma média de nove mil milhões de dólares, teoricamente, destinados a fins civis, mas verificou-se que 50 por cento foram "desviados" para o chamado "reforço da segurança" e para o armamento.

(No Orçamento de Estado de Israel, 20 % são atribuídos ao Orçamento militar. Claro que o governo israelita fica dependente da "ajuda" norte-americana, que é de pagamento "suave", mas mesmo assim gastou, só em 2011, perto de quatro mil milhões de dólares em armas sofisticadas, desde F-16 norte-americanos, F-4E Phanton, f-15-Eagle, mas também helicópteros 57 Cobra Attack, Ay-Apache, bem como carros de combate. Claro que os norte-americanos, ao "serem generosos", estão a testar armamento e a receber uma parte substancial de retorno).

Tal como os EUA, Israel tem como objectivo quase único da sua sustentação como Estado a manutenção da sua estrutura militar, e isso está a "canibalizá-lo".

Aliado à sua cada vez mais política isolacionista entre os seus aliados ocidentais (principalmente europeus), a evolução dos seus inimigos próximos, hizbollah, palestinianos, sírios, iranianos, outros como os sunitas, estão a começar a dominar a vida política de Estados que lhe eram favoráveis, como o Egipto e Tunísia.

Israel está, pois, numa encruzilhada, até porque a actual administração norte-americana e os seus principais estrategas político e militares estão mais interessados em manter uma política de parceria (ainda que seja fugaz e dúplice) com a nova camada sunita que emerge em todo o mundo muçulmano.

Isto porque essa nova elite sunita está também no centro de uma movimentação de capital extraordinária.

(Foi o investimento de 7,5 mil milhões de dólares dos Emirados àrabes Unidos, em 2008, que salvaram, em parte, da falência o gigante falido dos EUA, chamado Citigroup).

Ora, os EUA não estão em posição de "hostilização" de capitais que começam a ombrear, na economia interna, com os judeus de Wall Street, desde os árabes até aos chineses, passando pelos indianos.

Não estarão, até os EUA, em conversações secretas com o Irão, que tem sido já o parceiro "cúmplice" para a pacificação do Iraque, e está a fazê-lo também no Afeganistão, sendo o elo intermediário com o clan do Presidente, Hamid Karzai?

É que a exploração das jazidas de petróleo e gás do Cáspio, além da Rússia, depende, também, e muito, das relações com o Irão.

Mas, acima de tudo, o militarismo norte-americano está a contribuir para o afundamento das finanças do país. 

E essa realidade está a vir ao de cima: as Forças Armadas e a política imperial de Washington custam um balúrdio de dinheiro e esse rumo, que até poderia ser benéfico, pois criação de armas pode trazer progresso científico e industrial, ou seja económico, tem o reverso da medalha, porque o essencial do dinheiro não está a provir, no país, da produção económica nacional. 

O mapa seguinte dá algumas indicações




Os Estados Unidos da América foram o centro, em 2007, de uma crise financeira, produto da especulação desenfreada e criminosa, que teve repercussões mundiais. Eles tentaram "exportar" essa crise para os seus próprios aliados, como a União Europeia, e, numa primeira fase conseguiram-no.

Mas, fizeram, com falcatruas evidentes, puseram em circulação forçada quantidades enormes de dinheiro, que não correspondia a uma evolução económica produtiva interna.

Agora têm de prestar contas. E falam em "colapso fiscal".

Todas as manigâncias vieram a fazer vir ao de cima que a divida nacional (a transferência da dívida privada para aquele é escandalosa) já ultrapassou os 16 biliões de dólares (Há um ano, estavam nos 14 biliões!!!).

Aproxima-se o fim do ano e a convergência entre os cortes em gastos, que a maioria do poder parlamentar quer ver ser feito nos contribuintes dependentes e um vencimento de impostos que deve ser mais baixo, levou os economistas de pacotilha a inventar a tal mnemónica de "colapso fiscal".

Ou seja, a economia norte-americana irá retroceder.

Uma agência tão judia capitalista, como a Bloomberg, não tem dúvidas que a economia dos EUA irá entrar em recessão prolongada em 2013. 

A secretaria-geral do Congresso norte-americano referia, em Agosto passado, e estou a citar a Bloomberg, que o aumento de impostos e os cortes previstos para 2013 iria fazer com que a economia, que está estagnada, entrasse em fase decadente, com uma descida de 0,5 por cento e um desemprego que atingir os 9 % da população. Ou seja recessão.

4 - A supremacia imperial da política norte-americana, nas últimas quatro décadas, com a arrogância feroz de espezinhar direitos de povos, impor as suas medidas económicas asfixiantes a Estados nacionais, como se de vassalos se tratassem, o desprezo, como aquele país levou um estado de quase guerra total contra todo o mundo. 

Desde a Indochina (Vietname, Laos, Cambodja); Coreia do Norte, Indonésia,  América Latina, com intervenções directas ou camufladas - através das das grandes burguesias internas - no Chile, Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina, Nicarágua, El Salvador, Venezuela, Colômbia, África (Angola, Congo, Nigéria, Ruanda, Uganda, Quénia, Líbia, Tunísia, Argélia, África do Sul, Moçambique, Sahrá, Niger, Tchade), até ao Médio-Oriente (Irão, Iraque, Afeganistão, Paquistão e à própria Índia).

(Na implantação desta política arrogante mundial, os EUA têm cerca de mil bases e centros operacionais nas diferentes partes do Mundo. Ostensiva e ocupante nalguns - Iraque, Afeganistão, Cuba, Líbia, Iémen, Corno de África, forçada no seguimento da II Guerra noutros, Itália, Grécia, Turquia, consentida noutras, como Qatar, Arábia Saudita, Barein, noutros).

Para não falar na submissão europeia, desde Portugal até à Polónia, passando por Itália e, essencialmente, Balcãs, fez despertar novos conjunções de esforços entre países e grupos de países (Mercosul), ASEAN, que aproveitaram os progressos tecnológicos e as suas próprias riquezas e evolução própria, para evolucionar numa nova relações de forças geo-estratégicas, um pouco por todo o mundo. 

Ora, este estado de coisas, não poderia durar face à evolução que se produziu no Mundo. 

O espectro da liberdade e da independência percorre, actualmente, o Mundo e certamente, nos próximos anos, a geo-política será outra. E principalmente o desejo de uma outra política internacional está a ser forjada, sob o espectro de uma ruptura de grandes dimensões.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

MANIFESTAÇÃO DE 14 DE NOVEMBRO: A AUTORIDADE E A VIOLÊNCIA





1 - A actuação policial no final de uma manifestação realizada no passado dia 14, sob a égide da direcção da CGTP-IN (a central sindical liderada por um membro do Comité Central do PCP), que terminou em frente do Parlamento português, com uma carga policial em profundidade e violência e o subsequente processo montado pelo governo, através do Ministério da Administração Interna (MAI), para "legalizar" a sua acção, com uma consulta "consentida" pela gestão da RTP (Administração/Direcção de Informação) às imagens recolhidas e não editadas trouxe polémica, com defensores e detractores dos actos praticados.


Os comentaristas políticos habituais e os "reflexos" do poder deste regime no interior do jornalismo português concentraram-se  "no ponto de vista legal" da acção de autoridade (esta questão será explanada mais à frente), e, na existência de "arruaceiros" alguns, segundo eles e a polícia, "estrangeiros".(Não serão estrangeiros, os muitos portugueses, que se manifestam, por vezes, de forma musculada, em Paris, Berlim ou Bruxelas?).


Se a acção policial foi legal e justificada, porque acorreu, no imediato, a PSP, via consentimento do Ministério da Administração Interna (MAI)/Governo, a ir buscar "imagens não editadas" às instalações da RTP, onde já havia uma "cadeia de comando" sintonizada com o executivo, que autorizou o visionamento e as reproduções apropriadas?


(Claro que é inadmissível o que aconteceu na RTP. É o produto da subserviência que existe nas estruturas dirigentes de administração e de jornalismo desta, como doutras empresas com capitais públicos maioritários. Continuam todos nos seus postos, nem questionados são pelos chamados partidos da oposição). 


Soubemos, no momento, e, depois nos relatos da imprensa, que havia agentes policiais infiltrados, com a própria conivência da direcção da CGTP-IN, que tem "uma parceria" de segurança com a polícia para estas ocasiões!!!. Grande respeitosa CGTP-IN....



Retiramos do jornal I, do dia 19, este naco 


de prosa, com as explicações "ingénuas" da 

PSP argumentativas da sua actuação.

Citamos:


"Mesmo que o Corpo de Intervenção (CI) da PSP tivesse cercado quem arremessou pedras e outros objectos à polícia durante a última manifestação frente ao parlamento, dificilmente os manifestantes teriam sido detidos. Isto porque, contaram ao I fontes policiais, o Comando Metropolitano da PSP de Lisboa - que estava a coordenar as operações - ordenou a retirada das brigadas à paisana do meio da multidão logo depois de o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, abandonar o protesto, pouco depois das 17 h. 

Na base desta decisão do comandante terão estado razões "estratégicas" e de "segurança". Os agentes à paisana - a maioria pertencentes à Divisão de Investigação Criminal (DIC) da PSP - deixaram o epicentro da manifestação e foram depois colocados, estrategicamente, em zonas periféricas do protesto (sublinhado meu) - continuando, no entanto, a passar informação ao comando. Por não estarem no meio da multidão, seria mais fácil aos polícias à paisana, explicam as mesma fontes, "cooperar, caso fosse necessário, numa eventual intervenção".(sublinhado meu).

O jornal descreve depois os actos violentos atribuídos a manifestantes que seguiram. E refere uma reportagem do jornal "Correio da Manhã".

Transcrevo: 

O "Correio da Manhã" escreveu ontem que as brigadas da PSP infiltradas entre os manifestantes terão esperado, em vão, que o CI cercasse os agressores (sublinhado meu - o que permitiria aos agentes à paisana da investigação criminal fazer detenções "cirúrgicas". Fontes ouvidas pelo jornal explicaram que o treino policial para intervenção em conflitos urbanos pressupõe que o CI ao ser apedrejado pelo manifestantes, os tivesse cercado em poucos minutos. Esta acção daria segurança aos agentes à paisana para efectuar as detenções. Contudo, a manobra táctica não terá avançado por decisão do Comando de Lisboa - o que terá gerado "desconforto" entre as chefias da polícia".

 Esta acção daria segurança aos agentes à paisana para efectuar as detenções. Contudo, a manobra táctica não terá avançado por decisão do Comando de Lisboa – o que terá gerado “desconforto” entre as chefias da polícia".


Como podemos aferir, a PSP filmara 

tudo, controlara tudo, veio a actuar com 

premeditação, e depois necessitava de 

uma fonte exterior, neste caso, a RTP, 

para "legalizar" a sua acção, já que a 

"infiltração" esteve no centro da explosão. 

E não poderia ser comprovada, como 

verosímil, pelos próprios autores da 

cabala.
2 - Este acontecimento nada teria de perigoso, nem de grave, apesar da violência cometida, se fosse um caso pontual de desorientação momentânea policial perante uma conjunto de manifestantes desalinhados, com laivos de provocação.

O que é grave é que não é pontual. Faz parte de conjunto ideológico-político assumido existe, principalmente, desde a subida ao poder do actual executivo, uma linha de rumo política, económica, social e de segurança policial-castrense que visa impor uma nova governação baseada no domínio total, sem reservas, do capital financeiro, e estribada no princípio da ordem musculada, desprezando todos os direitos constitucionais do actual regime.

Ora, tal imposição exige um endurecimento securitário, que passa pela violência, se necessário, e o estabelecimento de um conjunto de leis, que por um lado, limitem ou ultrapassem a própria Constituição, por outro, restrinjam o nível de vida das classes trabalhadoras, lhe façam perigar os seus lugares de trabalho, e enfraqueçam, pelo medo, o poder reivindicativo das mesmas.

Poderão contrapor alguns: mas esta situação já mostrava indícios com o anterior governo de José Sócrates. Certo. 

Mas o período de vigência daquele governo mostra uma divisão política entre a elite financeira e os maiores industriais do país. 

Embora a governação Sócrates tivesse, em grande medida, aberto caminho para o domínio total do capital financeiro mais desclassificado, e, nesse pressuposto, desbravado o rumo para actual sintonia perfeita desse Capital, proclamava, no entanto, que produzia medidas de gestão estatal em nome dos princípios do socialismo, que espezinhava todos os dias. Criou uma reacção que se estendeu a todo o país, restringindo a sua própria base de apoio eleitoral.

A governação PSD/CDS venceu agarrando bandeiras eleitorais de uma "mudança", mas o seu projecto político estava - como está - assente num programa de desmantelamento de toda a estrutura de Estado enquadrada pelas actuais balizas constitucionais: quer na economia, na política, como na própria regulação da sociedade.

Para levarem a cabo este projecto, que está subjacente a todas as medidas gravosas que estão praticando, têm de abater os direitos conquistados pelas classes trabalhadoras, um certo bem-estar relativo alcançado, uma restrição económica-social da própria classe média (que se pode apelidar de burguesia democrática), e, finalmente, estilhaçar a própria República parlamentar actual.

Pretendem, enfim, aniquilar todo o tipo de poder oposicionista.


Todavia, verifica-se que este caminho, que o capital financeiro português pensava ser realizado sem sobressaltos, está a ter reacções populares que não imaginava engendrar, agravado por se entrelaçar numa crise europeia, e, acima de tudo, mundial. 

As manifestações são as reacções justas a esse estado de coisas, o que leva os detentores do poder a tentar "muscular" o Estado, através de acções policiais cada vez mais arrogantes.

Numa situação destas, a revolta é um direito adquirido e tão importante como o próprio voto. 

Os governantes actuais, que lançaram um programa contrário aos seus manifestos e promessas eleitorais, colocaram-se, eles próprios fora-da-lei. E como tal sujeitam-se ao escrutínio da rua. A luta política em campo opostos não são jogos de salão. São campos de acção política. 

3 - Deixamos para o fim a questão da aplicação da autoridade.

Um Estado, uma comunidade, uma empresa, uma escola, enfim, a questão de representação impositiva de alguém sobre outrem é um facto que na sociedade humana não pode ser escamoteada.


O desaparecimento desta autoridade somente poderá desaparecer se se esfumar a razão de ser da existência do Estado.

A autoridade tem, pois, de existir, por muito que nos custe. Nascendo de uma base eleitoral justa, assente em programas que sejam sufragados, temos de a admitir nas balizas com que ela surgiu com o seu valor programático.

Mas esta autoridade não pode ser entendida como exercício de actos discricionários que não podem ser contestados, porque existe uma vigência consentida pelo voto ou pelo poder que se impôs. 

Quando são postos em causa os pressupostos da sua validação, a autoridade perde o poder de agir com total impunidade.

Tem, portanto, o direito em ser posta em causa.

E esse direito, quando as condições económicas e sociais estiverem maduras, podem estender-se à própria Revolução.

A jugulação de uma Revolução pode ser levada a efeito por quem exerce o poder em determinado momento, mas também a mesma Revolução pode ter direito de cidadania se as relações de forças se inverter.

Logo, a admissão da autoridade tem de ser sempre compreendida no contexto das relações de forças no interior da sociedade. 

Não é uma coisa má em si, é um assunto que tem de ser encarado, tratado ou ultrapassado consoante as condições materiais e subjectivas estiveram amadurecidas.