sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

GUERRA COLONIAL: OPERAÇÕES ENCOBERTAS (8)




ZAIRE: OS “MERCENÁRIOS” CASTRENSES A ACTUAR, CLANDESTINAMENTE, PELOS SEUS GOVERNOS OCIDENTAIS

Os movimentos guerrilheiros independentistas necessitaram e necessitam, para sobreviveram, de “santuários” de retaguarda, que lhes servissem e servem de grandes locais logísticos. 

Os grupos que actuaram em Angola, mais do que em outro antigo território colonial português, sentiram a falta de um estável país limítrofe que os apoiasse sem reservas. 


O MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) foi o partido que mais dificuldade teve com os países receptadores.

Angola é um território imenso e a guerrilha fazia esforços hercúleos para levar a luta armada ao seu interior, em especial às zonas mais próximas do litoral, onde praticamente não actuou com armas na mão, mas sim pela acção propagandista clandestina 

(Está registada nos *anais* da própria polícia política portuguesa se quiserem consultar o Arquivo Nacional da Torre do Tombo). 


Atravessar um território imenso, sem uma base de apoio fora do controlo do inimigo, é um cabo dos trabalhos.

Daí, a importância para a potência colonizadora em conseguir manter ou levar ao poder nos países vizinhos um governo que limitasse a acção da guerrilha. 

Portugal, por si só, não conseguia determinar o rumo governativo dos vizinhos, mas, em associação, com outras potências ocidentais, que disputavam os interesses económicos do subsolo e os geo-estratégicos, do Estado raiano, poderia levar a água ao seu moinho. 

News Photo: Premier Moise Tshombe Pres Joseph Kasavubu Gen Joseph…
Tshombé (PM), Kasavubu (PR)m Mobutu (CEMGFA) e à direita o embaixador norte-americano

Claro, isto sucederia se as conspirações e as intromissões resultassem. 

Foi assim que surgiram os golpes, intrigas e acções militares no antigo Congo Belga.

O general (um sargento do Exército belga, promovido àquele posto no pós independência) Mobutu Sese Seko, que governou o antigo Congo Belga, com mão de ferro e com o apoio do mundo ocidental, esteve para ser afastado do poder, na segunda metade da década de 60, através de uma grande conspiração engendrada pelas mesmas grandes potências que o ampararam, orientaram e mimosearam durante cerca de trinta anos.

Portugal participou, nessa conspiração, como “peão” logístico, interessado em intervir nos negócios do vizinho país, que se chamou  Zaire, hoje República Democrática do Congo, para impedir as movimentações e apoios à guerrilha que actuava em Angola.

Foi precisamente desse então Zaire, que surgiram os principais apoios externos no início dos anos 60 ao despoletar da guerra de guerrilha no norte de Angola, com a vaga de assassinatos de colonos brancos cometidos, em 1961, pela Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), liderada pelo falecido Holden Roberto.

A FNLA tinha um “longo cordão umbilical” ligado a Mobutu, já que Holden Roberto era seu cunhado, e o recrutamento de guerrilheiros se fazia essencialmente na etnia bakongo que se estendia da parte norte angolana até ao Zaire.

Além do mais, aquela Frente era apoiada, forte, mas discretamente, no início, pelos Estados Unidos da América, que procuravam disputar a supremacia da descolonização em Angola à então União Soviética que veio a dar, após uma hesitação inicial, o seu apoio ao concorrencial Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

O antigo Congo Belga teve, em 1960, uma separação atribuladíssima da sua potência metropolitana europeia, a Bélgica, que foi forçada a dar-lhe a independência, mas quis mantê-lo na sua esfera de influência.

Logo após a independência, em 1960, as duas superpotências da altura, os Estados Unidos e a ex-União Soviética, procuraram ganhar-lhes os favores. 

Pela região, movimentavam-se outras potências europeias e ainda a República Popular da China. 

O subsolo era o principal motivo de cobiça: diamantes, urânio, cobre, ferro, ouro, fizeram desse país um tremendo palco de disputa, que o ensanguentaram,  praticamente,  até aos dias de hoje. Tal como na altura, havia e há, claro, interesses geo-estratégicos na região.

Joseph-Desiré Mobutu, que, mais tarde, num processo que chamou de “zairização” do país, mudou de nome, apelidando-se Mobutu Sese Seko Kuku Ngendu wa Zabanga, ascendeu ao poder nos interstícios da disputa inicial pós-independência, quando se aliou aos Estados Unidos, através do responsável da CIA no país Larry Devlin. 

O próprio país veio a chamar-se Zaire.

Começou como Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, cujo chefe do executivo era Patrice Lumumba, (pertenciam ao mesmo grupo Movimento Nacional Congolês) que estava em guerra aberta com Joseph Kasavubu, então de Chefe de Estado. 


Quando Mobutu pensava que o vencedor ser Lumumba...

Este queria manter-se na órbita da sua potência colonial e dos interesses das grandes companhias mineiras que operavam no país, Lumumba pretendia separar-se da asfixia neo-colonial e, para apoiar a sua estratégia política, socorreu-se da antiga União Soviética e …da própria ONU.

Kasavubu demite, a 14 de Junho de 1960, Lumumba do cargo de primeiro-ministro com o apoio de Mobutu, que, como coronel, estava a organizar as Forças Armadas do país, traindo o seu mentor.



Larry Devlin (o terceiro a contar da direita), tendo ao seu lado direito o embaixador dos EUA Godley, de calções. À esquerda está Justin Bomboko, que foi MNE mobutista, no meio, Mobutu e, na extrema direita, Victor Nendaka (que foi o tenebroso chefe dos serviços secretos de Mobutu) à direita. Vê ainda a mulher de Godley, e, mais retirado, um então jovem agente secreto chamado Frank Carlucci.

O primeiro-ministro Lumumba foi preso e assassinado com a cumplicidade directa do homem que se formou em informação e jornalismo no interior do Exército colonial belga. 

Numa viagem ao Congo, nesse tempo, o secretário-geral da ONU Dag Hammarsagold, que não era um incondicional do domínio norte-americano, morre num estranho e nunca esclarecido acidente de aviação quando sobrevoava o território.

Em Novembro de 1960, Mobutu, com o Exército, impõe um governo de tecnocratas a Kasavubu e assume o lugar de comandante-chefe das Forças Armadas. 


As mesmas Forças Armadas que o colocam no poder em Novembro de 1965.
            
Nos princípios de 1966, o novo homem forte do Congo Belga navegava nas águas da incerteza. 


Como pragmático criado no seio da política colonial, queria espaço de manobra interna e externa. 

Começou, na altura, a preocupar os seus aliados ocidentais, que espalharam pelo país milhares de “mercenários”, liderados por oficiais das tropas especiais, sob a cobertura de “assessores de segurança”.

Recomeçaram, desse modo, as intrigas internacionais. 

Estavam em jogo fontes essenciais de matérias-primas.

É então que se forja uma grande conspiração. 

O regime português de António Salazar foi o seu “pivô”, na segunda metade de 1966, com o propósito declarado de derrubar o governo do general Mobutu Sese Seko e colocar no poder na República do Zaire (ex-Congo Belga) o antigo Presidente da secessionista província do Catanga e ex-PM Moisés Tschombé.

A preparação dessa operação secreta está documentada em relatórios detalhadíssimos da polícia política portuguesa.

Recebendo ordens do chefe de governo, o então director da PIDE major Silva Pais interveio pessoalmente. 

Muito antes da data prevista para a tentativa de golpe de Estado.

Duas mensagens, com a chancela de secreto, dirigidas a “Interpol” (o responsável em Moçambique), em Lourenço Marques, com a recomendação de “cifrar o texto” e “seguidamente remeter” ao posto de rádio para expedição, tem a assinatura de Silva Pais.

Na primeira, com data de 19 de Julho de 1966 e a horas precisa, 17:30, Silva Pais dá directivas ao seu subordinado: 

“Por combinação entre Rodésia, Tschombé e esta direcção deve realizar-se (em) breve (na) nossa polícia (em) Lisboa (uma) importante reunião para (a) qual (é) indispensável  a comparência de um delegado categorizado da polícia da África do Sul. Rodésia já deve ter contactado sobre assunto  com a Africa do Sul , devendo V.Exa contactar com urgência general van de Bergh sobre se ele ou um seu delegado pode vir de imediato aqui visto delegados de Tschombé poderem aqui estar a qualquer momento. Responder urgente”.

Às 19:20 de 27 de Julho de 1966, Silva Pais quer respostas de Lourenço Marques.

“A situação actual  no Congo propicia o golpe projectado de Tschombé  sobre o Katanga para ocupar o poder em Leopoldville. Espero notícias da Rodésia sobre se viria a reunião aqui um elemento categorizado da Rodésia, devendo V.Exa contactar a Rodésia e a África do Sul  sobre se ambos poderiam enviar aqui com urgência delegados com poder para assentar plano exequível. Esta em Lisboa delegado de Tshombé, encontrando-se este em Madrid.”.

“Interpol” de Lourenço Marques responde nesse mesmo dia: “Representante da Rodésia seguirá amanhã, dia 30, no voo da África dói Sul, devendo chegar a essa cidade, na madrugada de domingo. A África do Sul lamenta não poder de momento enviar um delegado categorizado”. 



No planeamento do golpe de Estado contra Mobutu, Lisboa e a colónia de Angola seriam locais estratégicos de passagem e de logística para o pessoal e para o armamento. 

Estavam envolvidos “mercenários” militares belgas, franceses, norte-americanos, espanhóis, sul-africanos e rodesianos, e ainda algumas grandes empresas multinacionais, como a Union Minière.

Um relatório operacional detalhado da direcção da PIDE, com data de Dezembro de 1966, elaborado dias antes do programado golpe de Estado, que não chegou a ser levado às últimas consequências, referenciava, com pormenor, as forças em presença, as suas ligações aos governos, os dispositivos militares, sublinhando, como conclusão, que o êxito da missão só seria conseguido se fosse “mantido completo segredo”. 

Tudo descrito sem a menor preocupação de que viesse a ser tornado público. 

A polícia política de Salazar estava crente de que as suas acções nunca seriam conhecidas. Por isso, a passagem ao papel e à escrita não traria problemas.

Na sua conclusão, o relatório lançava ainda um alerta, que de resto se torna uma curiosidade: os conspiradores não queriam que “a espionagem inglesa” soubesse do que se estava a planear, pois aquela de imediato “informaria o governo inglês, o que os colocaria em situação gravíssima”. 

Como não existe uma explicação no documento para este alerta, não se sabe a razão porque a Inglaterra estava, aparentemente, a leste do “complô”.

Um outro documento, este dos planeadores do golpe de Estado - escrito à mão, em francês - justifica a movimentação (“A ACÇÃO PROJECTADA NO CONGO É INDISPENSÁVEL SOB O PONTO DE VISTA INTERNACIONAL”) e a escolha de Moisés Kapenda Tshombé, antigo governador do Catanga, para liderar o poder saído do novo poder.

Com o assassinato de Lumumba, nas lutas de poder interno, Tschombé, foi Primeiro-Ministro e governador da rica província do Catanga, que pretendia ganhar espaço na cena política congolesa, veio a declarar, alguns anos depois, unilateralmente, a sua cessação.

Kasavubu conseguiu, mais tarde, afastar o antigo governador do Catanga da província em Outubro de 1965, seguindo aquele para o exílio em Espanha.

Depois de ascender ao poder, Mobutu pretendeu adquirir uma faceta de homem independente, mantendo no seu governo personalidades de algum recorte nacionalista.

Quis também manter, inicialmente, uma certa equidistância face aos seus antigos aliados europeus, reformulou algumas alianças internas e procurou apoios entre alguns governos nacionalistas africanos, nomeadamente a Tanzânia.

É nesta conjuntura que começa a equacionar-se um “complô” internacional pró-ocidental. 

Tschombé foi o escolhido, pelos países ocidentais, para ser a “cabeça” de um novo governo congolês saído do golpe de Estado. 

Convém não esquecer que o Catanga era o território dos diamantes, que se prolongava, na parte colonial portuguesa, nas Lundas.





“Um vasto plano de subversão da África está em acção desde há vários anos. O Congo é mais particularmente a vítima desta acção em virtude da sua vulnerabilidade própria e pelas vantagens que a sua situação geográfica proporciona ao prosseguimento da acção subversiva nos países situados mais a sul”, assim começa o manuscrito justificativo programático do golpe de Estado que consta de três partes.

Além da sua indispensabilidade do ponto de vista internacional, os autores sustentavam que “A ACÇÃO PROJECTADA NO CONGO DEVE FAZER-SE POR ELISABETHVILLE (hoje Lumumbashi) e que “A ACÇÃO PROJECTADA NO CONGO DEVE FAZER-SE SEM DEMORA”.



Para o sucesso desse golpe, Moisés Tschombé e os seus apoiantes contavam, essencialmente, com a participação de “mercenários brancos” presentes, normalmente como seguranças “em todo o Congo”, ao serviço dos seus país de origem.

O documento especifica-os, referencia-os e situa-os:

“Os belgas, 350 homens, comandados pelo general Delperdange, receberam ordem do governo belga para não intervirem, entretanto o comandante belga de Elisabethville (hoje Lumumbashi), coronel Marchand, envia periodicamente a Tschombé relatórios do que se está a passar.

“Os franceses, comandados pelo comandante coronel Bob Denard, 200 homens, entraram em contacto com Tschombé por intermédio dos Serviços Secretos Franceses da Presidência do Conselho, mais precisamente, por intermédio de Monsieur Foccard e asseguraram antecipadamente a sua colaboração.

“Os sul-africanos e rodesianos, 300 homens, comandados pelo coronel John Peeters,  asseguraram  a sua colaboração por intermédio de Max Dumas, dos Serviços Secretos da Rodésia.

“Os espanhóis, 60 homens, são fiéis a Tschombé.

“A CIA (Central Inteligence Agency), que controla a Wigmo (Aviação de Combate Táctica do Congo), aviões B-26 e T-28, assegurou a Tschombé que se manteria neutra”.

Os conspiradores, que rodeavam e assessoravam Moisés Tschombé, consideravam, no documento programático citado, que era “impossível organizar um golpe de Estado em Leopoldville (hoje Kinshasa). Uma acção em Leopoldville, nas circunstâncias presentes, exigiria a utilização de forças numericamente importantes, sem possibilidades do efeito de surpresa e provocaria uma verdadeira guerra civil”.

Depois, candidamente, consideravam que o movimento alastraria por todo o pais, onde viviam etnias rivais, fazendo “ruir o poder de Mobutu, criando um conflito de lealdade e libertando todas as forças da oposição”. 

Leopoldoville, somente, seria alcançado depois da revolta alastrar.

Argumentavam os homens de Tshombé que, na ocasião, “o regime de Mobutu depende sempre mais do dispositivo interior organizado pelas influências de Leste e dos apoios exteriores provenientes das mesmas fontes” e enfatizavam: “é indispensável impedir o Congo, com Mobutu, de cair completamente sob a dependência da subversão”.

Para a efectivação logística do golpe, de acordo com o relatório da PIDE, estavam accionados os seguintes dispositivos:

“a) Dispositivo para aterragem no Katanga:
      
Em colaboração com a Union Miniere e aterragem num aeroporto do território dos Lundas, tribo de Tshombé, devidamente escolhido.

 b) Dispositivo na Europa:
     
100 homens em Lisboa e um avião Super.Constellation.
      
Na Bélgica: 1 avião DC7
      
Na Rodésia: 1 avião DC4 e 1 avião Heron bem como todos os fardamentos.
      
Em Luanda: As armas necessárias.

Os aviões e respectivos pilotos que vão aterrar no Katanga são unicamente rodesianos.

Todo o dispositivo está devidamente sincronizado para entrar em funcionamento 48 horas após recebermos a respectiva autorização.”

A “Execução” está assim enquadrada e sintetizada no documento da PIDE:

a) O DC7 estacionado na Bélgica  voa para Lisboa, toma 100 homens e segue para um aeroporto a indicar em Angola.

b) O Super-Constallation estacionado em Lisboa voa para as Canárias, toma o Presidente Tshombé e segue para o mesmo aeroporto dos 100 homens.

c) O DCe e o Heron estacionados na Rodésia voam para o mesmo aeroporto, transportando os uniformes, e se necessário o DC4 pode ir buscar as armas a Luanda.

d) Deste aeroporto parte o DC4 com 60 homens, o DC7 com os restantes 40 homens e restantes armas e o Heron com o Presidente Tshombé.

e) Aterra primeiramente o DC4 com os 60 homens, depois de instalados este 60 homens, aterra o DC7 e finalmente o Heron com o Presidente.”

O relatório da polícia política referia um pormenor, como “conclusão”, de manutenção do carácter encoberto da operação: retirá-la o mais possível dos olhos do Mundo.

E assim recomenda: “Em Angola apenas se pretende uma escala técnica de duas horas”.

A mesma recomendação do governo “branco” da Rodésia: “Não podem oferecer o seu próprio território – assinalava o relator policial – porque a espionagem inglesa imediatamente informaria o governo inglês, o que os colocaria em situação gravíssima. Tal não se dará no respeitante a movimento de aviões porque esse movimento é habitual e diário”.

Entre a documentação da PIDE existente na Torres do Tombo encontra-se uma mensagem cifrada, enviada de Luanda para Lisboa, a alertar que havia “fuga informações que se relaciona rádio”, nada mais explicando, e com um recado de confidencialidade: “segue carta avião hoje”.

Não parece que a fuga de informações reportada tivesse levado a abortar a operação, mas sim o facto de Mobutu ter conseguido espaço de manobra interno, endurecendo o regime e, acima de tudo, retomar uma aproximação aos países ocidentais, de quem se tornou um dos aliados mais firmes durante quase 40 anos até ser afastado do poder por Laurent-Desiré Kabilla, pai do actual chefe de Estado Joseph Kabilla.




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

ELAS SÃO SENSUAIS, ELES SÃO SUGADORES ECONÓMICO-POLÍTICOS...




1 - Nas últimas semanas, saltou para a praça pública, em particular para o nosso jornalismo actual de pacotilha o facto de um grupo de advogadas, que se organizou em escritório profissional ter organizado um vídeo promocional, onde se apresentam vestidas e arranjadas à "la mode" do mercado dos dias de hoje da classe média feminina, para passarem a mensagem que lhe interessava para a "sua carreira" profissional.

Mereceram as advogadas, pela sua forma promocional, os epítetos que de iam de praticamente as apelidarem de prostitutas até à abertura de inquérito oficiais pela parte da Ordem de Advogados por "violação das regras de publicidade" e "de decoro" que, eventualmente, ultrapassam as regras estatutárias daquele resquício institucional feudal.

Mas, o que se estranha nestas críticas ao trabalho profissional destas advogadas é, justamente, à sua pose como mulheres, ou seja à sua condição feminina.


Elas, como mulheres, nas suas poses, procuram atrair os homens para o seu negócio - e eventualmente mulheres se forem lésbicas, o que é apenas uma questão de mensagem para "encher o olho", a não ser que considerem a sua mensagem mediática um acto de angariar clientes para a prostituição.

E isso, é grave, para quem faz as críticas deste ponto de vista, porque está a fazer um processo de intenções.

É pura difamação.





2 - Já não é difamação a promiscuidade entre os grandes escritórios de advogados e o grande capital, que representam aquele quer nas empresas, quer no seu governo.


Elas, a promiscuidade e a sua propaganda descarada - está inserida  nos seus "sites", existe e é de uma gravidade extrema, porque, aí sim, é um acto de negócios fraudulentos, perfeitamente pornográficos, pois os advogados não estão a defender uma causa pública, mas sim a serem gerentes económicos e políticos do bordel que é o grande capital.


Aqui sim deveria actuar a Ordem dos Advogados com mão de ferro, e a Procuradoria Geral da República deveria investigar e proceder judicialmente contra as ligações ilegais entre a advocacia e os negócios obscuros das grandes empresas capitalistas.


(Mas claro quer esses escritórios de advogados, quer a PGR, quer o governo, estão sim a procurar criminalizar as denúncias públicas que os jornalistas ainda conseguem fazer...Isto sim é fascismo na sua forma mais descarada)


Mas isso, dirão alguns, é utopia querer actuar sobre o grande capital e os seus agentes. Eles são os garantes do poder económico.


Tretas. Eles são vampiros em decadência.


Claro só é utopia, porque não se actua, nem se quer actuar, radicalmente, sobre quem destrói, paulatinamente, o actual regime político.


3 - Vejamos a prostituição política no seu melhor.


Apenas alguns casos.


A recente notícia de que José Luís Arnaut, antigo Ministro de Durão Barroso e de Santana, advogado sem curricullum profissional relevante, mas integrado, como número dois, numa grande firma, a do ex-ministro Rui Pena (o seu último cargo governamental Defesa Nacional, geriu, entre outros negócios, o processo de aquisição de submarinos), foi escolhido para um lugar de topo da empresa especulativa financeira norte-americana Goodman Sachs.


Factual, sinistra, perfeitamente, enquadrada como um caso de investigação policial por ligação íntima do poder político aos negócios mais obscuros de Wall Street.



Rui Pena & Arnault em reunião e com os lumpen capitalistas, como Mira Amaral e António Mexia


Qual a razão porque Paula Teixeira da Cruz é ministra da Justiça? Pela sua actividade curricular profissional? Não, porque é dirigente do PSD e membro destacado de uma das mais importantes firmas de advogados do país ( FCB&Associados).





Onde actuam:


Direito Societário e Comercial; Direito Público, Administrativo, do Ambiente; Direitos Reais, Imobiliário e Construção; Resolução de Litígios; Direito Laboral e da Segurança Social; Direito Fiscal;Direito Bancário e Mercado de Capitais; Propriedade Intelectual.


4 - Onde estão os promiscuos (machos e fêmeas) advogados representantes directos do poder económico possíveis integrantes do poder polítíco? 


Façam uma pesquisa.


Eis os nomes das principais firmas de "lobos" desse poder:


Retirado do jornal "Diário de Notícias" do suplemento "Notícias Sábado", de 27 de Novembro de 2011.

Refere, na sua introdução, a reportagem que, em Lisboa, entre o Parque Eduardo VII, a Avenida da Liberdade e a Praça dos Restauradores se encontra a maioria das grandes firmas de advogados.

A reportagem assinala diferenças - tácticas, estratégicas, de ligações multinacionais e até culturais - das grandes empresas de advogados, mas ao assinalar os seus principais sócios e consultores é uma única orientação a ligação directa ao poder económico-político do grande capital.

E os seus líderes estão e estiveram dentro do poder governamental e ao mesmo tempo dentro do poder económico é a realidade.


Comece-se pela multinacional Uría Menéndez/Proença de Carvalho (UMPC) .


Vejamos os "lobos" do lado espanhol: Aurelio Menéndez é Presidente Honorário da Uría Menéndez. Pertenceu ao Tribunal Constitucional Espanhol, Minsitro da Educação e Ciência entre 1976/77. Conselheiro de Estado entre 1992/2006.


Do lado português: Proença de Carvalho. Ministro da Comunicação Social no 4º Governo Constitucional, presidido por Mota Pinto (1978/79), Presidente da Rádio Televisão Portuguesa (1980/83), Presidente do Conselho de Administração da Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva (1993/2007).

Actualmente é Presidente do Conselho de Administração da Cimpor - Cimentos de Portugal, SGPS, S.A., Membro do Conselho Geral da AEM - Empresas Emitentes de Valores Cotados em Mercado, em representação da Cimpor - Cimentos de Portugal, SGPS, S.A., Membro da Comissão de Remunerações do Banco Espírito Santo, S.A. e Presidente da Assembleia Geral de numerosas sociedades, entre elas a Galp Energia, SGPS, S.A., a Socitrel, S.A., a Renova, S.A., etc.

Será em breve PCA da Controlinveste, proprietário do DN,JN, Jornal do Função, TSF, entre outros meios de comunicação social.

Quatrecasas Gonçalves Pereira (CGP).

Do lado espanhol. Emílio Quatrecasas.

É membro do conselho de administração de Áreas, Accenture, Cofiber, Confederación Empresarial de Madrid e outras sociedades comerciais, do conselho directivo do Institut d'Educació Contínua (Universitat Pompeu Fabra) e do conselho académico e social da
Universitat Internacional de Catalunya.
Também é Presidente da Associação Barcelona Global, bem como Vice-presidente do Conselho Directivo da Asociación para el Progreso de la Dirección (APD) e Presidente da APD zona Mediterrâneo e membro do Conselho Consultivo do Patronato Foment del Treball Nacional.


Da parte portuguesa. André Gonçalves Pereira. 

Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Portuguesa de Janeiro de 1981 a Junho de 1982.

Antigo representante de Portugal nas Nações Unidas, Fundo Monetário Internacional e UNESCO.
Administrador (não-executivo) da Fundação Calouste
Gulbenkian, desde 2002, bem como de várias sociedades comerciais.


Faz-se ainda uma referência especial a uma dos escritórios, com maiores vínculos políticos ao poder sócio-económico-político do actual regime: a AMPereira, Sáragga Leal, Oliveira Martins e Associados (PLMJ), que existe desde os finais dos anos 60 do século passado, fundada por António Maria Pereira e Luís Saragga Leal, e que hoje o seu rosto mais proeminente é José Miguel Júdice.

(António Maria Pereira foi destacado militante do PSD, seu deputado entre 1987 e 1995 e, acima de tudo, Presidente do Comité Político Parlamentar da NATO. Jose Miguel Júdice foi um dos protagonistas da ascensão de Cavaco Silva ao poder, como "jovem turco" do PSD, em associação, então, com Durão Barroso, Santana Lopes e Marcelo Rebelo de Sousa. Depois já apoiou em eleições municipais Maria José Nogueira Pinto e António Costa).

É desta firma que Rui Machete é consultor destacado - foi Presidente do PSD, vice-Primeiro-Ministro e Ministro da Justiça, agora é MNE.

Eis a sua actividade "comercial mercantil" como advogado.


Enumerem-se apenas mais algumas:

Correia, Seara, Caldas, Simões e Associados, onde pontifica esse activo político/comentador futebolístico chamado Fernando Seara e o antigo Ministro da Defesa - que trabalhou no dossié dos submarinos - Júlio Castro Caldas;

José Pedro Aguiar-Branco & Associados, cujo sócio governamental é o actual Ministro da Defesa.

BrancoAPORT – Advogados Portugueses em Consórcio, com um nome sonante do CDS, Sílvio Cervan;

Abreu & Associados, onde submergem Luis Marques Mendes e Paulo Teixeira Pinto;

Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados, com personalidades como José Manuel Galvão Teles e António Lobo Xavier;
E a Sociedade Rebelo de Sousa e Advogados Associados, com o irmão do dito Marcelo, de nome Pedro e Manuel Porto.

Um rol imenso de podridão....



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

GUERRA COLONIAL: OPERAÇÕES ENCOBERTAS (7)



OPERAÇÃO MECA: A SEPARAÇÃO DE ZANZIBAR


O Portugal de Marcelo Caetano pretendeu fomentar a “Guerra Santa” islâmica em África. 

Incendiar o continente africano e levá-lo para a “Civilização Ocidental” era o objectivo confesso dos “conspiradores” do Antigo regime português.  

A luta anti-terrorista era conduzida na “clandestinidade” em nome da defesa da integridade territorial imperial lusitana, com o penacho da organização de estruturas terroristas em nome de Alá. 

Está tudo escrito. 

Não nasceu com as peripécias e intrigas americanas no Mundo.
            
Retiramos o “roteiro” da Torre do Tombo, engendrado pela polícia secreta portuguesa de então. 

Corria o ano de 73 do século XX.
            
Sigamos as pisadas.
            
Um grupo de selectos hóspedes do sultanato de Zanzibar acolheu-se, em 1973, ao hotel Crillon, em Paris, para umas merecidas férias.

Esta era a sua cobertura informal. 

Aparentemente, gozavam os dias do Inverno francês para fazer compras e passear na capital.                    
No entanto, o alojamento no hotel parisiense tinha um outro objectivo, nada consentâneo com os prazeres da vida. 

Aqueles muçulmanos “ocidentalizados” conspiravam, na realidade, em nome do islamismo, contra o regime de Julius Neyrere, o falecido presidente da Tanzânia.
            
Preparavam-se mesmo uma cessão no Estado da Tanzânia. 

Este era (e é) constituído por um território continental e duas ilhas: Zanbibar e Pemba, que formam um governo autonómico regional, sob a liderança de um sultão, de nome Karume.

Os visitantes do sultanato não conspiravam sozinhos. Tinham interlocutores. 

Não eram, todavia, as autoridades de Paris, mas responsáveis da polícia política portuguesa, a PIDE.  

Estes documentaram a reunião. 

Pode ser consultado no ANTT.
            
Conspirava-se, deste modo, clandestinamente, num Estado democrático -França - e, aparentemente, só aparentemente, à sua revelia, contra um outro país, com quem mantinha relações diplomáticas. 

Não era caso inédito: as relações entre as polícias secretas dos dois regimes eram estreitas e muitas vezes complementares na perspectiva política de defesa da “civilização ocidental”. 
            
Da leitura do documento, um aparte interessante deve ser realçado, digno mesmo de ser referenciado: a PIDE estava interessada em “encaminhar” esta sua aproximação ao mundo árabe, através do sultão de Zanzibar, para uma “campanha mais vasta de JIHAD (Guerra Santa) em oposição do continente e em defesa do ISLÃO”, uma orientação que visava ainda “captar a simpatia de diversas nações árabes, nomeadamente a LÍBIA”.
            
A história está toda documentada no relatório sintético da própria antiga polícia política, com data de 18 de Fevereiro de 1973 e a classificação de “Muito Secreto”. 

O autor do documento deveria ser ou um alto funcionário do regime ou um responsável de topo da PIDE, muito meticuloso, quase militar na explanação do sucedido.

                       Operação Meca
            
“Em 13FEV73, iniciou-se a *Operação Meca* com uma reunião em Paris no hotel Crillon na sequência de contactos ordenados e instruídos ao 410 (o historiador e antigo jornalista José Freire Antunes no seu livro “Jorge Jardim, Agente Secreto”, editado em 1996, liga aquele número de código a Sidney Alleyne, uma “misteriosa figura, natural dos Barbados”, que serviu “directamente” Jorge Jardim e a PIDE) para desenvolver junto da organização do sultão de Zanzibar”, assim inicia o seu relatório o responsável governamental ou da PIDE presente, que nunca é referenciado explicitamente.

A reunião na capital parisiense demorou dois dias.
            
Pela investigação de documentação existente na Torre do Tombo, verifica-se que decorreu em sintonia com uma outra que se efectuou, na mesma altura, no Hotel President, em Genebra, Suíça, que envolveu, entre outros, três políticos oposicionistas ao regime de Nyerere: os irmãos Óscar e Andrew Kambona e o médico James Nkombo, este a residir na Alemanha Ocidental.

Esta acção paralela recebeu o nome de código de “Operação Girassol”.


                          Operação Girassol

Pelo tipo de letra dos documentos e pela sua ordenação, admite-se que o responsável pelas duas operações junto da PIDE deveria ser a mesma pessoa. Mas que permanece incógnito em ambos os relatórios.
            
(Óscar Kambona é um velho conhecido do regime português. Desde 1971, tinha sido montada, em Moçambique pelo engenheiro Jorge Jardim, uma figura tentacular do regime salazarista, que viveu naquele território colonial, uma “Operação Óscar Kambona”, para a qual foram atribuídas largas somas em dinheiro para a financiar.

José Freire Antunes, no livro citado, refere que o governo português atribuiu, a fundo perdido, entre 1971 e 1974, uma soma em dinheiro que ultrapassava, naquela data, os 42 mil contos, para apoiar um golpe de Estado na Tanzânia, liderado por Óscar Kambona.

 
Óscar Kambona, ministro dos Negócios Estrangeiros da Tanzânia e agente de Jorge Jardim


Este fora uma figura de proa do regime de Nyerere, ocupando, durante vários anos, lugares de ministros, o primeiro dos quais MNE. 

Depois, veio viver para a Europa, e começou a servir o regime de Salazar, que nele investiu muito dinheiro. 

Dinheiro gasto, mas que nada de eficácia produziu.

Então, depois de ter sido utilizado pelo regime português anos atrás, como testa de ferro para encabeçar uma incipiente oposição golpista e mesmo terrorista contra o regime de Neyrere,  Óscar  Kambona surge, em 1973, numa conspiração paralela, sob a alçada da PIDE, cujo início tem lugar em Paris, com a polícia política a considerar que a “família Kambona e os seus partidários não parecem dispor de meios de acção directa na evolução dos acontecimentos”.)
            
O relatório policial da “operação Meca” referencia um a um dos elementos presentes da delegação do sultanato. 

“A delegação de ZANZIBAR era chefiada pelo primo direito e cunhado do Sultão, M.K. BARGHASH”, pormenoriza o responsável da PIDE, que assinala ainda que o numero dois “AHMED SEIF KHARUSI”, um “professor e jornalista” mostrou “ser o elemento de maior preponderância na organização disfrutando (sic) a qualidade de Primeiro Conselheiro”.
            
Seguem-se a descrição e explicitação de facetas dos principais elementos participantes.
            
“SULEIMAM SULTAN MALIK, graduado em inglês. Secretário do gabinete do Sultão, presentemente estacionado no Cairo. Elemento ponderado, trabalhador, disfrutando de grande aceitação entre os restantes membros do Comité. Designado para chefiar o *working team* da sua Organização”
             
“AMANI THANI, antigo cônsul de ZANZIBAR em WASHINGTON. Prsentemente no sultanato do DUBAI. Nomeado para o *working team*. Elemento de muita valia dispondo de bons contactos em Zanzibar. Bom para o sector informação. Nem ligado à primeira mulher do Sheik Karume (Fahtma Karume) e à segunda mulher, ambas preferidas nos últimos anos de Karume”.
            
“SALIM BARWENI, antigo superintendente da Polícia de ZANZIBAR. Nomeado para o *working team*. Reservado, observador. Só fala quando tem a certeza do que afirma”.
            
Os restantes conspiradores são apenas referidos pelos nomes e profissões.
            
“SAID HILAL, técnico de TV
              
ABDULLA IBRAHIM, professor.
              
MUHAMED SALIM THINAY, antigo elemento do ZNP Youth League.
              
HILAL MUHAMED, agricultor
              
ALI KHAMIS, técnico de motores
              
SALIM MUHAMED SALIM, arquitecto”.
            
Um pormenor sobre este conjunto de “segundas linhas” da conspiração; o responsável policial acrescentou ao nome do professor Ibrahim uma classificação psicológica: “jovem impulsivo”.
            
Do relatório retira-se ainda que o seu autor “torceu o nariz” à capacidade dos seus interlocutores para subverterem, de imediato, a ordem interna tanzaniana em Zanzibar, embora considerando que a organização do sultão “tem bases dispondo de bons contactos no interior e no exterior do país, susceptíveis de boa utilização por nós, não só na colheita de informações mas também nos contactos com o mundo árabe, o que lhes foi incutido tendo principalmente em atenção TRIPOLI (coronel CADAHFI) e o Cairo”.
            
O interesse do responsável da PIDE ia essencialmente para “a especial relevância” de “conseguir a adesão do mundo árabe nesta luta contra a presença chinesa no ÍNDICO e na ÁFRICA ORIENTAL”.
            
E para conseguir uma *aliança* com o conservadorismo árabe para conter o nacionalismo revolucionário africano, a PIDE não tem pejo em fomentar o islamismo mais radical, incluindo a GUERRA SANTA.
            
“Sob o ponto de vista religioso, constatou-se nesta primeira reunião que do grupo faziam parte alguns sunitas, facto que se reveste de certa importância, visto que a população das Ilhas pertencem na sua maioria a esta escola.
            
“Inicialmente tinha-se julgado que o grupo zanzibarita a contactar seria todo pertencente à escola ibadita, mais ligado portanto à família do Sultão e a OMAN. Tal facto permite encaminhar no plano interno e internacional (sublinhando nosso) a campanha sob a tonalidade mais vasta de JIAHD (Guerra Santa) em oposição ao continente e em defesa do ISLÃO.
            
“Chama-se ainda a atenção para a identidade existente entre o sunismo nas Ilhas e a mais forte escola corânica de MOÇAMBIQUE. A tradicional solidariedade islâmica e o espírito da comunidade internacional (UMMA) parece ser portanto um factor a aproveitar nesta luta pois a posição a tomar face aos interesses do islamismo no Indico pode captar a simpatia de diversas nações árabes, nomeadamente a Líbia.
            
“Neste aspecto, os contactos a estabelecidos poderão ser úteis, porque mais uma vez poderão esclarecer certas nações árabes sobre a nossa actual política islâmica em MOÇAMBIQUE”, assim reza o relatório do dirigente policial do regime marcelista.
            
Tal como a América de Ronald Reagan nos anos 80 face ao Afeganistão no combate contra a presença soviética naquela região, uma década antes já o moribundo regime português defendia que para combater o nacionalismo africano era de apoiar o radicalismo islâmico. 

Ou seja, para combater o que se chamava “terrorismo” dava-se trela e impulsionava-se o terror fanático conservador da religião muçulmana como arma política de defesa dos “valores ocidentais”!

Tal como sucedeu com a América de Bush filho, com os neoconservadores, que acolheram e fomentaram Bin Laden.
            
A PIDE não conseguiu recolher dividendos imediatos desta orientação, até porque cerca de um ano depois era afastada da cena política já na fase revolucionária que se seguiu ao golpe de Estado de 25 de Abril.
            
Pelo teor do relatório elaborado sobre a operação “Girassol”, retira-se que a capacidade da PIDE (e consequentemente do regime político português) de organizar a oposição na Tanzânia em 1973 era diminuta e que a própria polícia pouco acreditava nas forças tanzanianas que estavam na sua frente.
            
Os conspiradores presentes a 15 de Fevereiro no hotel President, em Genebra, “pretendiam convocar uma conferência nacional, estabelecer um comité de juristas internacionais, um comité de apoio a presos e deslocados políticos, meios de mobilidade e comunicação rádio para as equipas no interior”, assinala o relatório.
            
Mas, o responsável policial ou governamental desconfiou deste *poder de forças* e recomendou: “foi referida a pouca viabilidade do seu plano”, tendo antes decidido *apalpar terreno*. “Deste modo a reunião subdividiu-se, tendo-se constituído um grupo de trabalho que analisou e discutiu em detalhe os vários pontos”.
            
E a reunião foi canalizada para por de pé uma mínimo de organização e essencialmente “arranjar” elementos para trabalhar na logística, cujos resultados práticos se desconhecem.
            
A própria PIDE/DGS parecia não estar preparada, no imediato para apoiar a operação, pois o relator no documento solicita ao governo que “será necessário que a DGS MOÇAMBIQUE instale para o efeito Postos de Vigilância em OLIVENÇA, CHAMBA, GOMBA e COBUÉ, sendo dotada unicamente para esta finalidade de 1 subinspector, 2 chefe de brigada, 5 agentes de 1ª e 6 agentes de 2ª, além de instalações tipo pré-fabricado, dotadas de mobiliário, emissores/receptores, geradores de energia, viaturas e armamentos adequados”.
            
“A criação destes postos da DGS torna-se indispensável ao trabalho de triagem, controle e enquadramento” dos refugiados, justificava o relator que acrescentava: “nestas circunstâncias julga-se que a DGS MOÇAMBIQUE deveria ser dotada em meios financeiros e pessoal suplementar”.
            
O autor do relatório referia ainda que “a data da próxima reunião” do grupo conspirador tinha sido marcada para 26 de Abril de 1973, mas não foi possível encontrar nos Arquivos da PIDE/DGS na Torre do Tombo novas informações sobre a “Operação Girassol”. 

Pelo menos até 25 de Abril de 1974 não há registo de qualquer acto relevante subversivo na Tanzânia contra o antigo Presidente Nyerere.
            
Em documentos fragmentários, aparentemente sem uma ligação directa às operações supracitadas, mas contidos nas mesmas pastas do Arquivo do ANTT, regista-se que existe uma tentativa antiga da PIDE de organizar uma estrutura de informações na Tanzânia.
            
Assim, um relatório escrito em francês referente a uma relacionamento com os serviços secretos alemães assinala-se que existiram negociações com a PIDE/DGS a 9 de Julho de 1970 para estabelecer “uma rede rádio *Special Branch*, Tanzânia”, que recebeu mesmo “o nome de guerra de operação *SIMBA*”. Não foram encontrados mais documentos que permitissem conhecer o seu desenvolvimento.


Operação Simba


            
Encontrou-se, todavia, um outro documento, com a chancela de “SECRETO”, emitido pelo gabinete do Director-Geral da Direcção-Geral de Segurança, com data de 10 de Julho de 1970, datado de Munique e escrito em português, que relata uma visita ao serviços secretos alemães de contra-espionagem e uma entrevista com o seu  presidente.

(Convém salientar que os serviços secretos da antiga Alemanha Ocidental foram organizados por oficiais-generais e superiores dos Serviços Secretos Militares, das SS e da Gestapo de Adolf Hitler, com a cumplicidade e o apoio militante da CIA, dirigida então pelo pró-nazi norte-americano Allen Dulles, irmão do secretário de Estado do general Dwight Eisenhover, que foi Presidente dos EUA).  

Embora o relatório esteja incompleto – pelo menos o que nos foi facultado oficialmente – constata-se que a polícia política continuava interessada em adquirir material altamente sofisticado nos sistema de comunicações e de infiltrações no interior do regime tanzaniano.
            
Apenso a um dos documentos está um cartão do primeiro secretário da Embaixada da Alemanha em Lisboa dr. Kurt Kohler, que parece ter sido o intermediário nas diligências entre Lisboa e Bona a nível de operações secretas.