domingo, 10 de abril de 2016

EUA: UM FUTURO COM ESPECTRO DE GUERRA CIVIL

1 – Quando o candidato presidencial norte-americano Donald Trump afirma que os Estados Unidos da América estão em recessão, tal divulgação, alicerçada nas propostas do capitalista, enquadra já uma promessa de futuro:

A sua eventual ascensão ao poder político será feita, com mão de ferro, em defesa do capitalismo puro e duro, alicerçado na supremacia da finança norte-americana.


E a mensagem política traz uma *armadura militar*: vai haver guerra contra todos os explorados do Capital, desde os naturais integrados até aos migrantes documentados e indocumentados.

Pode parecer estranho, mas a alternativa política dentro do actual regime norte-americano, construído, desde as primeiras décadas do século XX sobre a luta ideológica contínua contra o «comunismo soviético», abominando tudo o que cheirasse a revolução, está num senador desse próprio regime, Bernie Sanders, que defende uma *revolução política* e que essa deva nascer da implantação do *socialismo democrático*.

2 – O combate ideológico e político de Sanders centra-se sobre o domínio avassalador de Wall Street, ou seja o grande capital financeiro especulador sobre a própria sociedade norte-americana, em que o senador de Vermont engloba a própria antiga secretária de Estado Hillary Clinton, sua comparte partidária na liça.

Nesta perspectiva, Sanders apresenta-se como o representante da *oposição* burguesa – industrial, camponesa e, em grande medida, a pequena burguesia (intelectuais, artistas, certas profissões liberais) – afastada, na realidade, de qualquer representação no aparelho governativo e legislativo do Estado norte-americano.


Apesar da manobra da grande burguesia financeira, de há 10 anos, de alçarem uma personalidade como Barack Obama, proveniente, por nascimento, de um pai negro, a Presidente, o certo é que ele era – é – um membro destacado de um grupo escritório de advogados, que servia e serve a facção financeira dominante da grande burguesia.

Não resultou essa manobra face à crise existente aprofundada desde 2007/08.

O fosso entre governantes e governados aumentou nos EUA.

O ascenso revolucionário que impregnou a Europa na segunda metade do século XIX e primeiras décadas do século XX, que trouxe vitórias às classes trabalhadoras em todo o Mundo, desde a redução do horário de trabalho, os contratos colectivos, as seguranças sociais, o próprio direito de voto alargado impulsionou, todavia, uma enorme onda contra-revolucionária, cujo expoente desde a II Grande Guerra, se situou, precisamente, nos Estados Unidos.

Apesar do descalabro dessa onda, a partir dos finais do século passado, tal facto não viu crescer uma nova estrutura político-partidária, coesa e internacional,  com uma nova capacidade programática revolucionária.

3 – Os Estados Unidos da América, a alma mater do poder contra-revolucionário mundial durante décadas, estão, agora, acantonados sob a ameaça de uma possível implosão da sua sociedade.

Então, ainda que com reservas, admitem toda a argamassa ideológica e política de uma *sociedade socialista*.

Mas – sublinhamos – sob o manto diáfano da social-democracia.

Os Estados Unidos da América, como Nação independente, têm, historicamente, um passado recente.

Embora apresentem uma unidade política, na realidade, não tem o cimento de uma centralização definida desde os seus primórdios.

Os acontecimentos históricos marcantes na sua vivência estão assinalados por conflitos de envergadura, e, ainda hoje, problemáticos, porque fazem vir ao de cima clivagens na sua sociedade, como é o caso da guerra civil norte-americana (1861-85).

Uma guerra sangrenta que levou à morte de mais de 750 mil norte-americanos envolvidos nos combates e número não determinado de civis.



Ainda hoje em muitos locais públicos do sul dos Estados Unidos se usam bandeiras da Confederação secessionista.


Esta guerra civil provocou o incremento da grande burguesia industrial e impulsionou em poucas décadas o ascenso do capitalismo norte-americano à cidadania mundial, e, acima de tudo, internamente, à coesão como Estado territorial.

Na realidade, foram abertas estradas rodoviárias de norte a sul e de leste a oeste, e ferroviárias, que colocavam homens e produtos de costa a costa. Desenvolveram-se as comunicações, com os telégrafos; inundaram-se as grandes cidades com fábricas, estaleiros e navios, a agricultura elevou-se a agro-indústria. 

A indústria de guerra contribuiu para todo este ascenso. Rapidamente, abriram caminho ao extraordinário desenvolvimento do capital financeiro.

A actual fase recessiva desse capitalismo, ameaçado pela falência e pela ruptura entre forças produtivas e relações de produção, está a fazer vir ao de cima as clivagens sociais que estiveram na origem do nascimento do *milagre* norte-americano.

Claro que a sociedade norte-americana evoluiu muito desde a luta contra a escravatura, mas os resquícios permanecem – norte com sul, brancos contra negros e hispânicos, regiões de alta tecnologia industrial contra cidades decadentes da *velha indústria*, cidades contra campos.

Este fantasma está latente nas candidaturas principais dos republicanos, desde Trump a Marco Rubio ou Ted Cruz. Acirradas por muito ódio.

Do outro lado, é Sanders, que sustenta que é preciso uma *revolução*.

No ar, fica a ideia de guerra civil…se o regime claudicar.

Os resultados das escolhas da candidaturas presidenciais ir-nos-ão apontar o futuro que está reservado aos Estados Unidos.

Esse futuro parece bem sombrio.


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