quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O PAPA SAIU DE CENA E DEU LUGAR AOS ACONTECIMENTOS FUTUROS



O Papa da Igreja Católica Romana, que se auto-intitulou, como seu Sumo Pontífice, há cerca de oito anos, com o nome de Bento XVI, anunciou, num consistório (na linguagem ritual e cifrada da Santa Sé, é uma reunião de cardeais),  efectuado no Vaticano, no passado dia 11, logo após o domingo de Carnaval ocidental, que iria abdicar do seu cargo, porque, segundo ele, as suas faculdades “já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino”.

Esperando pela noite de cristal  

É uma explicação esfarrapada, pois o seu antecessor, em condições físicas mais extremadas, ocupou o cargo até ao fim. 

É um pormenor, certamente. 

Mas não a verdadeira razão. 

Os hierarcas da Igreja Católica são os mentores mores da mentira e da manipulação. Tem uma experiência contínua de mais de dois mil anos…

Este acto de renúncia não mereceria uma simples notícia se o Vaticano não fosse a maior instituição financeira mundial no presente momento. 

Os problemas dessa enorme seita são, pois, humanos, e, essencialmente, do âmbito da economia.

É um poder dominante e explorador, portanto.  Mas merece, também, um enquadramento.

1 - Há dois mil anos, começava a formar-se numa parte do Império Romano uma formação religiosa próxima do judaísmo, praticamente desconhecida.

De acordo com os próprios dignitários do poder de então de Roma, como Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, uma extensa região na actual Turquia asiática – ele escreve ao imperador Trajano, sendo, portanto, o primeiro documento oficial e documental a admitir a existência de cristãos nos princípios do século II DC – essa formação, em que os seus membros se intitulavam cristãos, eram, para o Império, “uma sociedade secreta”.

Tornaram-se subversivos – os cristãos primitivos - face a Roma, porque, - retiro da carta de Plínio -, em primeiro lugar, não reconheciam a autoridade imperial, nem lhe devotavam religiosidade como deus, e, nos seus rituais diferenciados do comum romano, em determinados dias, costumavam comer antes da alvorada e rezar responsivamente hinos a Cristo, como a um deus; obrigavam-se por juramento a não praticar algum crime, mas à abstenção de roubos, rapinas, adultérios, perjúrios e sonegação de depósitos reclamados pelos donos. Concluído este rito, costumavam distribuir e comer seu alimento. Este, aliás, era um alimento comum e inofensivo”. 

E Plínio acrescentava: “Esta superstição contagiou não apenas as cidades, mas as aldeias e até as estâncias rurais”.

Da descrição daquele alto funcionário imperial romano, infere-se que, na hierarquia dessa nova formação religiosa nascente, perigosa, nesses primórdios, para Roma imperial, se encontravam também mulheres, “chamadas diaconisas”.

O chefe romano não explicita a existência de outros hierarcas, incluindo bispos ou o seu equivalente feminino, como entidade superior. O que pressupõe que não haveria nessa região, pelo menos.

(Uma curiosidade: pouca referência de “missionação” existe nos textos cristãos canónicos nos inícios do cristianismo naquela região do Império).

Historicamente, com confirmação fidedigna coeva, igualmente, é desconhecida a existência dos chamados primeiros Papas.
  
Era, na altura, realmente, uma verdadeira formação revolucionária, que recusava o poder ditatorial de Roma, a usura, os lucros excessivos obtidos pela extorsão de impostos e de empréstimos por prestamistas ligados ao reinado imperial.

Esses revolucionários imiscuíram-se na administração do Império, controlaram as próprias Forças Armadas, desobedeceram, ainda que com repressão sem freio, dos Pontifex Maximus e Imperatores colocados em Roma.

Os autocratas de Roma, vendo o crescimento subversivo da nova religião, começaram a fazer alianças com os chefes cristãos, que se começaram a hierarquizar em bispos, presbíteros e patriarcas, e já detinham algum poder temporal regional.

No século IV,  em 380 DC, com a anuência dos bispos,  o cristianismo foi declarado como religião de Estado exclusiva do Império Romano.

A partir daqui, o Império passou a ser um Estado confessional e os seus maiores defensores foram os Papas, que entretanto foram transformados, com o apoio directo imperial, em chefes teocráticos unificados e ferozmente centralizados pelo novo poder.

Desde então, embora com altos e baixos, o Papado romano adquiriu um poder temporal de invejar, um poder de interferência directa nos reinos e nos Estados, principalmente do Mundo Ocidental.

E, com esta “ascensão”,  toda a história do cristianismo primitivo foi reescrita e destruídos os documentos que a ele se referiam e contrariavam a nova orientação dos responsáveis da religião agora já consolidada.

E aconteceu sem contemplações, trucidando tudo o que pusesse em causa a supremacia e os dogmas criados para o estabelecimento da teocracia ditatorial do Papa Católico Apostólico Romano.

2 – Desde então, o Papa Romano desempenha o cargo monárquico teocrático ditatorial mais antigo do Mundo.

O cargo, como atrás referimos, não existiu nos princípios do cristianismo. 

Tornou-se, no entanto, uma realidade à medida que a Igreja Católica foi centro de poder, quer pela posse territorial (muitos dos bispos na decadência do Império Romano, no século VI, tornaram-se condes e duques, com amplos poderes político-militares), quer pelo poder da autoridade religiosa, interligada com os poderes patrimonial e militar (cujo início se pode situar com o rei dos francos Carlos Magno, de que daremos uma breve explicação mais à frente), como sucedeu em toda a Idade Média e no Renascimento, quer, como sucede, nos últimos 80 anos, com o acesso ao controlo, de parte substancial, do sistema societário financeiro, industrial, comercial, educacional e político transnacional.

Foi, realmente, com Carlos Magno, que começou por ser rei dos francos, em 768 DC, e se tornou Imperador do Ocidente (Imperatur Romanorum), de 800 a 814, que abrangeu a Europa Ocidental e Central e o reino de Itália, tudo em íntima associação com as ordens religiosas e o Papado. 

O Sumo Pontífice Católico Leão III coroou-o como Imperator Augustus. 


Com ele. e, a partir dele, a Igreja Católica controlou toda a estrutura económica e cultural do que foi o reino de França e  senhor do Sacro Império Romano Germânico.

Os hierarcas religiosos foram, frequentemente, arcebispos-bispos-condes e, mais tarde, duques. 

Das suas famílias, da dos réis católicos, ou dos seus protegidos, foram escolhidos, os cardeais e entre estes os Papas, ao longo dos séculos.

(Um dos filhos do infante português Pedro, duque de Coimbra, filho do rei João I e da duquesa de Urgel Isabel, de nome Jaime foi arcebispo de Lisboa (com 20 anos, 1453), de Arras e cardeal-infante (1456) . Morreu com 25 anos (1459) e está enterrado em Florença (Convento de S.Miniato).

3 – A Igreja Católica somente ganhou poder e supremacia no Mundo, quando teve na sua posse bens terrenos patrimoniais e financeiros, que lhe garantiram (e garantem) uma capacidade de influenciar os diferentes poderes.

(O banco mais antigo do mundo ocidental, o Monte dei Paschi di Siena, nascido em 1472, aparentemente pertencente à comuna de Siena, na prática, em maioria, na mão da Igreja, quer directamente pela arquidiocese de Siena, quer instituições de voluntariado. O seu presidente executivo actual é o anterior presidente do banco do Vaticano o Unicredit)

Sem estes “atributos”, a Santa Sé, apesar dos prosélitos religiosos, pouco ou nada contou na política europeia, como aconteceu no final do século XIX, com a extinções dos chamados Estados Papais e o corte da circulação monetário, quando os revolucionários italianos unificaram o país. 

O Papa e a religião católica ficaram reduzidos a um “estado de espírito”, cujo poder de influência se baseava na manutenção do seu fanatismo e obscurantismo confessionais.

A inversão deste estado de coisas deu-se, em primeiro lugar, com o apoio directo e militante ao fascismo italiano e ao apoio cúmplice à ascensão do poder nazi na Alemanha.

O camareiro papal alemão Von Pappen foi indigitado, através do partido católico e a benção da Santa Sé, vice-chanceler alemão, tendo como líder Adolf Hitler.

Mas, situemo-nos na Itália, em 1929,  onde o Papa Pio XII se comprometeu a dar o seu aval sem qualquer subterfúgio ao regime fascista de Benito Mussolini, em troca de um vultosa quantidade de liras e da garantia da religião católica se tornar a religião oficial do Estado ditatorial, ao mesmo tempo que permitiu a existência de um pequeno Estado papal no Vaticano, com todas as garantias de imunidade para os negócios da Santa Sé. Chamou-se o Tratado de Latrão, a esse acordo, que vigora ainda hoje, com certas modificações.

O dinheiro do Estado italiano doado por Benito Mussolini foi assim distribuído 750 milhões de liras a pronto pagamento e mil milhão de liras em Títulos do Tesouro a bom juro.


No Estado do Vaticano,meses depois, foi instituída como Lei Fundamental, a concentração de poderes, sem qualquer espécie de discussão, (legislativo, executivo e judiciário) nas mãos do Papa.

Isto no bairro do Vaticano propriamento dito e em mais 12 edifícios espalhados  por Roma, bem como no Palácio de Castelgandolfo. No fundo, a administração financeira, patrimonial, meios de comunicação social vaticanistas, tudo ficaria (a ainda está) ao arbítrio do Chefe de Estado da Santa Sé, ao mesmo tempo Sumo Pontífice universal da Igreja Católica e bispo de Roma.

4 – Os dignitários do Vaticano aplicaram este dinheiro – com o assentimento directo do regime fascista – primeiro, dentro da própria Itália. 

Entraram nas finanças (os principais bancos), nas seguradoras, na indústria (química, armamento, ferrovia, aviação, marítima), no comércio (empresas distribuidoras alimentares), na educação (escolas e universidades), comunicação social (a RAI) e na própria actividade partidária (fundaram um partido católico- A Democracia Cristã). 

O Banco de Itália é, maioritariamente, administrado por sicários da Santa Sé.

Ler, para o efeito, o livro “Empório do Vaticano”, do jornalista norte-americano, correspondente na Santa Sé do "New York Herald Tribune" durante oito anos, Nino LoBello, falecido em 1997, onde, além de referenciar os principais patrimónios controlados pela Igreja, assinala que a ligação entre o Vaticano e a Máfia era tão forte que “muita gente” considerava que a Sicília não era mais do que um edifício do Papado.

Escreveu ainda o livro “The Vatican Papers", em 1978.

Lo Bello sublinhava, com dados, que o Vaticano, já naquela altura, segunda metade dos anos 60 do século passado, “era um dos maiores accionistas do Mundo”.

Descrevia ainda que o número de companhias de que a Santa Sé era proprietário, ou continha uma participação societária relevante, era de tal modo elevado, que nem dava para acreditar, desde os principais bancos, as seguradoras, a Italgás, que era a única empresa fornecedora de gás a 36 cidades italianas. 

Por seu turno, esta ultima empresa controlava 11 outras formas desde os anidridos, minérios de ferro, fósforo, carvão, destilados, água potável (a EPAL de Roma), fogões de gás e industriais, grandes construtoras civis. Controlava a Montecatini-Edison, então uma das maiores instituições industriais de Itália.

Expandiram o seu negócio pela Europa, pelos Estados Unidos, pela América Latina.

Depois seguiram para África. Hoje apostam, em grande, na Ásia, incluindo a China.

Fundaram empresas de fachada, multiplicaram e entrecruzaram centenas de “off-shores”. “um império secreto”, como lhe chamou recentemente (Janeiro de 2013) o jornal inglês The Guardian.

A revista The Economist, igualmente, tem acompanhado com frequência a evolução do poder político, económico e financeiro da Santa Sé.

Dois livros de um jornalista italiano chamado Gianluigi Nuzzi, um intitulado “Vaticano S.A – a verdade sobre os escândalos financeiros e políticos da Igreja”” (2009), e “Sua Santidade – As carta secretas de Bento XVI – Como o Vaticano vendeu a alma”,  são fontes que ajudam a conhecer toda a trama em que se transformou a Santa Sé.

Uma outra personalidade investigou profundamente os negócios do Papado. Trata-se do aristocrata e filósofo britânico Avro Manhattan, morto em 1990, que escreveu,  em 1983, a obra, entre outras, “Os Biliões do Vaticano”.

Antes de sair da Igreja Católica foi cavaleiro da Casa de Sabóia e Templário.

Indicamos estes jornais, investigadores e jornalistas, porque os seus relatos nunca foram postos em causa.

Deles respigamos – e, essencialmente, de dezenas de publicações de vários países, incluindo italianos – que a Igreja Católica é sócia maioritária – ou com intervenção decisiva – em quase todos os principais bancos de grande projecção internacional: desde o Bank of América, Stanley Bank, Chase Manhattan, City Bank, JP Morgan Chase, Bankers Trust., dos Estados Unidos, aos Rothschilds, Hambros, Barclays e Royal Bank of Scotland (Inglaterra), Crédit Suisse, UBS (Suíça)  NBP Paribas (França),  Santander, Bilbao y Vyscaya (Espanha).

Mas, igualmente, mantém uma forte componente accionista em empresas de grande gabarito industrial, como a General Motors , a General Electric e a Bethlem Steel no sector da do aço, automóvel e electricidade, Boeing, Lockeeh, Douglas e Curtis Wright, da aviação,  ou a Gulf e a Shell, do petróleo.

Mas, segundo as investigações que estamos a referenciar, nos Estados Unidos, a sua penetração económica é muito superior: na educação, desde jardins de infância até universidades, passando por colégios e instituições de ensino primário e secundário. E isto, pago a taxa zero pelos contribuintes norte.americanos, através de organismos ditos de “assistência” ou “caridade”. 

E a seguir na saúde: hospitais, centros de reabilitação, clínicas de apoio a doenças crónicas. Registos ainda que podem passar pelas empresas de construção civil, empreendimentos turísticos.

5 – A penetração dos investimentos do Vaticano no Mundo não se fazem somente de maneira subtil e sub-reptícia, mas também pelo papel desempenhado pelos seus representantes no aparelho de Estado.

Assim como o lobby judaico domina os principais corpos legislativos norte-americanos (Senado e Câmara dos Representantes) e muitos dos governadores de Estado, e através particularmente de Wall Street, a Igreja Católica segue-lhe o mesmo caminho.

No Senado, existem 25 representantes que se confessam abertamente católicos (16 democratas e nove republicanos) e na Câmara dos Representantes, num total de 436, 134 afirmam professar e seguir a Igreja Católica Romana.

No Supremo Tribunal dos Estados Unidos, actualmente, a maioria pertence a praticantes católicos.

Na política, dois nomes a reter: o vice-Presidente Joe Biden e o Secretário de Estado, recentemente nomeado John Kerry.

6 – A renúncia do Papa Católico Bento XVI, que ele fez, oficialmente, em 11 de Fevereiro em consistório, não nos pode emocionar pelo argumento da velhice. 

Dizia ele: “Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para  administrar bem o ministério que me foi confiado”.

Parece uma linguagem simples, propositadamente púdica, hipocritamente admitida, elevada pelos outros hipócritas hierarcas e confrades da Igreja Católica a uma virtude de frontalidade.

Na quarta-feira de cinzas católica, um dia depois, Bento XVI  fustigava com os verdadeiros argumentos: fracassara a sua tentativa de ser mediador e o verdadeiro controleiro das lutas intestinas do Vaticano, minadas pelas confrarias do poder financeiro que se foram constituindo e ocupando posições que já ombreiam com o próprio poder do autocrata.     
                                                                                                               
Cito da imprensa:

Foi a última missa pública do Papa Bento XVI e a ocasião não poderia ser mais simbólica. Na Quarta-feira de Cinzas, que lembra o carácter transitório e efémero da vida humana, Bento XVI apelou à superação dos "individualismos e rivalidades" no período da Quaresma, num sinal "humilde e precioso para aqueles que estão distantes da fé ou indiferentes".

Bento XVI comentou a sua renúncia: "É uma ocasião propícia para agradecer a todos, agora que me preparo para concluir o ministério de Pedro."

Bento XVI deixou também vários alertas e avisos, contra "a hipocrisia religiosa", contra "o comportamento de quem quer aparecer" e contra "as atitudes que procuram aplausos e aprovação".

"A qualidade e a verdade da nossa relação com Deus é o que certifica a autenticidade de qualquer gesto religioso", frisou o Papa, num tom grave, segundo o relato da agência AFP.

Numa missa interrompida pelos aplausos dos presentes, Bento XVI alertou contra o que considera ser "os golpes contra a unidade da Igreja" e a "divisão do corpo eclesiástico", lamentando que "o rosto da Igreja seja, por vezes, desfigurado".

O Papa criticou ainda aqueles que se dizem prontos "a rasgar as próprias roupas face aos escândalos e às injustiças, naturalmente perpetrados por outros", mas que não se mostram "prontos a agir de acordo com o seu próprio coração, a sua consciência e as suas intenções", cita a AFP.

Ou seja, o Sumo Pontífice da Igreja Católica confessou, com a sua renúncia, que não sabia ou não conseguia governar ou gerir o saco de lacraus e altos interesses económico-financeiros  que estão a surgir com a própria crise mundial, nem estava a conseguir apoiar-se numa das facções para contar as outras, nem destruir ou trucidar as mais afoitas. 

Nem queria romper com elas.

Deixou, saindo de cena, que o curso dos acontecimentos possa resolver a questão.   


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