1 –
O Conselho de Ministros de Portugal aprovou, recentemente, um documento, que
permite o recrutamento de elementos das forças armadas, na reserva, para fazer
tarefas policiais de *vigilância escolar*.
"Esta
alteração visa facilitar a contratação de elementos para o desempenho das
funções de chefes de equipa de zona e de vigilantes para integrarem as equipas
de vigilância, bem como permitir a renovação das comissões de serviço, de modo
a assegurar a continuidade da actividade de vigilância das escolas", lê-se
no comunicado emitido no final da reunião do Governo.

Aparentemente,
pode parecer um atitude bem pensada de segurança, mas a iniciativa nasce,
justamente, numa ocasião em que se verifica uma divórcio crescente entre as
forças guardiãs do actual regime e os seus mentores e promotores – políticos e
económicos.
Tal
como sucede em quase todos os países do Mundo, os representantes do capital
financeiro no poder estão a forjar «exércitos mercenários», que disfarçam sob a
pacata supercialidade de «seguranças
privadas«, (a ESEGUR era ou é dos BES) que, paulatinamente, procuram
enquadrá-las, militarmente, e armá-las com material letal.
Uns
já o fazem abertamente, como os Estados Unidos da América, outros, como
Portugal usam artimanhas para chegar a esse objectivo.
Vão
buscar, desta vez, militares reservistas, com o o argumento de *bom samaritano*
de segurança para preparar o futuro.
2 –
Mas, qual a razão desta procura da «militarização» e controlo castrense da
sociedade?
O
actual regime assente no domínio absoluto do lumpen-grande capital internacional
está numa encruzilhada - são forças que já eram, sentem que surgem outras
forças do progresso, da ruptura política, estão a emergir, e podem varrê-lo do
panorama político num espaço, mais ou menos longo, dando origem, possivelmente,
as novas formas de poder – que não consegue desfazer o *nó de pescador*.
Claro
que esse poder antigo, ainda que apodrecido, não desaparecerá por si próprio.
As
principais potências capitalistas modelam formas de actuação, que plasmaram em
documentos internos, confidenciais, ou até já os estão a aplicar no terreno,
quer a nível interno, quer em território exterior, sempre em nome da «defesa
dos interesses nacionais».
Um
documento emitido do Estado-Maior do Exército norte-americano, divulgado, em
2014, pelos meios de comunicação e intitulado *Megacities and the United States
Army*, sublinha, sem qualquer rebuço, que as forças militares teriam de entrar
e ocupar grandes cidades, para obstar que se formem levantamentos civis e
revoltas politico-sociais.
No
fundo, segundo o documento do Chefe do Estado-Maior, a actuação poderá dar-se
sempre que estiver em perigo o poder político existente.
Foi,
justamente, com esse receio que o governador do Estado de Missouri decidiu
enviar unidades, fortemente armadas, da Guarda Nacional para conter o
levantamento da população de Fergusson, que protestava contra a morte, obtida a
sangue frio, de um negro da cidade por um polícia branco.
Que
foi absolvido do crime...

Embora
as autoridades norte-americanas tentem fazer crer que a Guarda Nacional é uma
mera agremiação de voluntários com carácter quase caritativo, na realidade, é
uma instituição armada dependente do Pentágono.
As
unidades (Exército e Força Aérea) são treinadas e enquadradas como fazendo parte
das Forças Armadas, e, em último caso, podem ficar mesmo na dependência do
Presidente dos Estados Unidos.
Comportam mais de 400 mil homens.
3 –
Em Janeiro de 2015, vários indivíduos, que mais tarde o poder instituído
associou ao chamado Exército Islâmico, atacou, em Paris, França, a sede do
jornal satírico *Charlie Hebdo*, matando 12 dos principais e jornalistas do
periódico e outras pessoas.
De
imediato, o poder político +militarizou+ o país.
Tropas
de elite da polícia e das Forças Armadas ocuparam várias cidades francesas e
cercaram as fronteiras do país.
Aparentemente,
os autores do atentado à sede do jornal “Charlie Hebdo” eram, somente duas
pessoas – dois irmãos de apelido Kouiach – que actuaram, com plena naturalidade
e com enquadramento militar.
Tiveram
até oportunidade de parar o automóvel numa rua de um só sentido e mesmo assim conseguiram
escapar.
Dias
depois, segundo a imprensa oficial, dois homens teriam assaltado uma bomba de
gasolina, com armas ak-47.
Uma
movimentação militar e policial desenrolou-se por todo o norte, pois segundo as
autoridades o assalto teria sido praticado a 70 Km a norte de Paris.

Surgiram
detenções de vários +suspeitos+ de ligação aos fugitivos, que acabaram por ser
abatidos.
Entretanto,
um novo incidente surge quando um franco-argelino de nome Amedy Coulibaly, tido
como antigo cadastrado e referenciado como militante activo do chamado
*terrorismo* islâmico entra num talho judaico, onde faz vários reféns, alguns
dos quais abateu, bem como um agente policial.
Após
um cerco de centenas de polícias e exército foi, ele próprio, abatido.
Segundos
os relatos das autoridades, e o sucedido tem sempre a chancela oficial, Amedy agiu
em cumplicidade e sintonia com os irmãos Kouiach.
O
curioso é que a mulher de Amedy de nome Hayat Boumeddiene, considerada, de
imediato, como cúmplice daquele e *mais radical* do que ele próprio – tida como
«a mulher mais procurado de França» conseguiu sair do país legalmente e foi referenciada,
dias depois, como fazendo parte dos quadro do Estado Islâmico do Iraque e de
Levante e já actuar na Síria.
(Uma
pequena notícia da altura, que não foi explorada pela grande imprensa, é que a namorada
de um dos suspeitos pertencia ao próprio corpo policial).
Tudo
isto sucedeu em Janeiro, mas até hoje não houve um relato circunstanciado das
*falhas dos serviços secretos* de que denuncioiu então o primeiro-ministro
Manuel Valls.
4 –
Não podemos considerar esta *militarização* da sociedade, como actos pontuais.
São planos preparados face à evolução
descontrolada da lumpen burguesia no poder, que por um lado puxa o cobertor
para cobrir a cabeça, por outro deixes os pés ao labéu, porque já não consegue dirimir suavemente a situação.
A
luta de classes no mundo caminha para um terreno enxameado de descontentamento,
que cresce e evolui, ainda sem um rumo programático definido.
As
classes laboriosas querem mudança, mas a sua percepção de ruptura com o poder
instalado ainda é difusa, e, por vezes, descrente de que possa irromper uma
nova sociedade.

Mas,
a mudança está em movimento, vai surgir. Poderá, muito em breve, a sociedade
ser percorrido pela violência.
O mundo está prenhe de algo novo. Está a forjar
o parto.