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- "Se estivermos errados e as altas margens – de lucro - conseguirem
manter-se nos próximos anos (particularmente quando a procura global está
abaixo da média), há questões mais amplas a serem colocadas sobre a eficácia do
capitalismo".
Com
este parágrafo, o banco norte-americano Goldman Sachs termina um relatório, elaborado
pelos seus analistas Sumana Manohar, Hugo Scott-Gall e
Megha Chaturvedi e enviado para os seus investidores e accionistas.
Esta
tirada levou o editor-chefe da agência noticiosa económica Bloomberg Joseph
Weisenthal a comentar que tal é coisa que nunca se viu: um banco dessa
envergadura a questionar o próprio capitalismo.

E
qual a razão deste questionamento, pondo em causa o capitalismo?.
/A
especulação desenfreada do Goldman Sachs nos anos que antecederam a crise de
2007/8 fizeram com que ele fosse uma dos intervenientes principais no
acirramento dessa crise, pois levou à falência do seu fundo de cobertura de altíssimo risco Alpha Global,
que teve um ano antes uma queda de 12% do seu valor e em 2008 uma outra grande
quebra de 22,17%.
E,
recentemente, aceitou pagar uma coima de mais de cinco mil milhões de dólares
pelas suas práticas fraudulentas não só nos EUA, como na Europa/.
2
- O tema do relatório enquadra a questão das margens de lucro das grandes
empresas que surgem historicamente altas nas maiores economias mundiais, em
particular a dos Estados Unidos da América.
O
lucro nos EUA, já depois dos impostos, duplicou dos 5% do PIB em 2000 para 10%
do PIB em 2014.
Os
analistas citados interrogam-se se esta situação se pode manter, considerando
que existe um incremento concorrencial no mundo e o crescimento económico está
estagnado ou mesmo em regressão.
Colocam
então duas respostas possíveis.
Esses
analistas, que referenciam de «bulls» (touros, na gíria do sector) os
financeiros que sustentam que se deve continuar em alta. Esta sustentação está
no pressuposto de que essas margens de lucro crescentes podem ser enquadradas
por uma baixa de custos e pelo crescimento dos avanços tecnológicos.
A
outra resposta está na visão dos «bears» (ursos) que consideram que haverá uma
queda desses lucros, melhor dizendo uma diminuição do fosso de desigualdades,
já que a concorrência fará aumentar o crescimento económico, bem como terá de
se ter em contra uma pressão para incrementar as condições sociais, bem como
uma supervisão mais apertada sobre a distribuição de lucros que, na sua
opinião, influenciará o binómio preços/lucro.
A
perspectiva do banco é que nos próximos dois a três anos, os «ursos» devem
mostrar que estão correctos.
Se
assim não suceder, o banco emite, então, a citação com que abre este artigo.

3 –
O que os analistas dos bancos na sua linguagem «cifrada» querem dizer é que as
desigualdades estão a aumentar. E que se caminham para um ponto de ruptura se
as actuais relações produtivas da sociedade entrarem em contradição evidente
explosiva com as forças produtivas materiais da mesma, terá de haver uma
revolução.
O
que é inédito nesta análise de um superbanco capitalista é que admitem que o
capitalismo não é eterno e pode ser superado como modo de produção até aqui
dominante da vida societária na terra.
Os
analistas capitalistas do Goldman Sachs admitem que, se não houver um
+refrescamento+ do sistema, por sua própria iniciativa, o resultado será o
descalabro do mesmo.
Dão-lhe
um prazo de dois a três anos.
Não
prevejo um tal curto espaço para o afastamento do capitalismo como modo de
produção dominante.
Na
realidade, existe um «abafamento», um verdadeiro travão nas relações actuais de
produção capitalistas, em que se regista um desperdício significativo, em
crescendo, dos resultados dos melhoramentos material e intelectual das classes
laboriosas, em que o sector principal da classe dirigente, a burguesia
financeira, somente vê, à frente dos olhos, o objectivo de obter mais lucro.
A
análise do Goldman Sachs assenta num pressuposto capaz de ser mensurável do
ponto de vista económico, ou seja das condições económicas capitalistas, mas a
sua forma política, em particular, o aumento da consciência da ideologia como
superestrutura capaz de levar a cabo essa revolução e a resolução a favor dos
explorados ainda não está na ordem do dia.
Assim o penso.
Naturalmente,
se as condições económicas forçarem a via da ruptura social, com maior ou menor
esforço, haverá uma transformação política.
A
questão será, pois, o grau de consciência social transformadora que será ditada
por essa revolução e quais os países que são o principal esteio e consolidação
da mesma.