domingo, 7 de fevereiro de 2016

GOLDMAN SACHS DUVIDA DA EFICÁCIA DO CAPITALISMO

1 - "Se estivermos errados e as altas margens – de lucro - conseguirem manter-se nos próximos anos (particularmente quando a procura global está abaixo da média), há questões mais amplas a serem colocadas sobre a eficácia do capitalismo".

Com este parágrafo, o banco norte-americano Goldman Sachs termina um relatório, elaborado pelos seus analistas  Sumana Manohar, Hugo Scott-Gall e Megha Chaturvedi e enviado para os seus investidores e accionistas.

Esta tirada levou o editor-chefe da agência noticiosa económica Bloomberg Joseph Weisenthal a comentar que tal é coisa que nunca se viu: um banco dessa envergadura a questionar o próprio capitalismo.

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E qual a razão deste questionamento, pondo em causa o capitalismo?.

/A especulação desenfreada do Goldman Sachs nos anos que antecederam a crise de 2007/8 fizeram com que ele fosse uma dos intervenientes principais no acirramento dessa crise, pois levou à falência do seu fundo  de cobertura de altíssimo risco Alpha Global, que teve um ano antes uma queda de 12% do seu valor e em 2008 uma outra grande quebra de 22,17%.

E, recentemente, aceitou pagar uma coima de mais de cinco mil milhões de dólares pelas suas práticas fraudulentas não só nos EUA, como na Europa/.

2 - O tema do relatório enquadra a questão das margens de lucro das grandes empresas que surgem historicamente altas nas maiores economias mundiais, em particular a dos Estados Unidos da América.

O lucro nos EUA, já depois dos impostos, duplicou dos 5% do PIB em 2000 para 10% do PIB em 2014.

Os analistas citados interrogam-se se esta situação se pode manter, considerando que existe um incremento concorrencial no mundo e o crescimento económico está estagnado ou mesmo em regressão.

Colocam então duas respostas possíveis.

Esses analistas, que referenciam de «bulls» (touros, na gíria do sector) os financeiros que sustentam que se deve continuar em alta. Esta sustentação está no pressuposto de que essas margens de lucro crescentes podem ser enquadradas por uma baixa de custos e pelo crescimento dos avanços tecnológicos.

A outra resposta está na visão dos «bears» (ursos) que consideram que haverá uma queda desses lucros, melhor dizendo uma diminuição do fosso de desigualdades, já que a concorrência fará aumentar o crescimento económico, bem como terá de se ter em contra uma pressão para incrementar as condições sociais, bem como uma supervisão mais apertada sobre a distribuição de lucros que, na sua opinião, influenciará o binómio preços/lucro. 

A perspectiva do banco é que nos próximos dois a três anos, os «ursos» devem mostrar que estão correctos.

Se assim não suceder, o banco emite, então, a citação com que abre este artigo.


3 – O que os analistas dos bancos na sua linguagem «cifrada» querem dizer é que as desigualdades estão a aumentar. E que se caminham para um ponto de ruptura se as actuais relações produtivas da sociedade entrarem em contradição evidente explosiva com as forças produtivas materiais da mesma, terá de haver uma revolução.

O que é inédito nesta análise de um superbanco capitalista é que admitem que o capitalismo não é eterno e pode ser superado como modo de produção até aqui dominante da vida societária na terra.

Os analistas capitalistas do Goldman Sachs admitem que, se não houver um +refrescamento+ do sistema, por sua própria iniciativa, o resultado será o descalabro do mesmo.

Dão-lhe um prazo de dois a três anos.

Não prevejo um tal curto espaço para o afastamento do capitalismo como modo de produção dominante.

Na realidade, existe um «abafamento», um verdadeiro travão nas relações actuais de produção capitalistas, em que se regista um desperdício significativo, em crescendo, dos resultados dos melhoramentos material e intelectual das classes laboriosas, em que o sector principal da classe dirigente, a burguesia financeira, somente vê, à frente dos olhos, o objectivo de obter mais lucro.

A análise do Goldman Sachs assenta num pressuposto capaz de ser mensurável do ponto de vista económico, ou seja das condições económicas capitalistas, mas a sua forma política, em particular, o aumento da consciência da ideologia como superestrutura capaz de levar a cabo essa revolução e a resolução a favor dos explorados ainda não está na ordem do dia. 

Assim o penso.

Naturalmente, se as condições económicas forçarem a via da ruptura social, com maior ou menor esforço, haverá uma transformação política.

A questão será, pois, o grau de consciência social transformadora que será ditada por essa revolução e quais os países que são o principal esteio e consolidação da mesma.


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