1 –
Nunca, como agora, estão a aparecer declarações sonoras de generais
norte-americanos, comandantes da NATO, falando de cátedra, sobre o *perigo
russo*, ultrapassando mesmo a *diplomacia* do poder político, a que estão
subordinados.
Esses
*alfaiates* do complexo militar industrial dos Estados Unidos da América procuram,
nos últimos meses, afanosamente, provocar conflitos com Moscovo, desde o Mar
Báltico ao Azerbeijão, com compasso de espera na Ucrânia.
Um
exemplo. Estas foram proferidas, há cerca de dois meses, na Geórgia, uma zona
de crise, pelo general Philip Breedlove, que, então, ocupava os cargos
simultâneos de comandante das Forças norte-americanas na Europa e Supremo das
Forças Aliadas da NATO na Europa (SACEUR):
*Estamos
a assistir a um ressurgimento de uma Rússia agressiva, que, voluntariamente,
escolheu ser um adversário e representa uma ameaça agressiva e de longo prazo
para os Estados Unidos e os nossos aliados e parceiros europeus*.
Mas,
agressiva para os EUA…na Europa? Será que a fronteira norte-americana começa em
Portugal?

2
- Mas o que representa, verdadeiramente, a NATO na actualidade?
Qual
a razão de declarações cada vez mais agressivas de generais norte-americanos?
A
NATO – Tratado da Organização do Atlântico Norte -, criada em 1949, pelos
Estados Unidos da América *e os seus aliados* de peito, Inglaterra, Alemanha, e
França, portanto muito antes de existir a chamada *cortina de ferro* e de ser
instituída uma aliança militar sobre a liderança da antiga União Soviética com
os países *seus satélites* chamada *Pacto de Varsóvia* em 1955.
Nasceu,
desta maneira, como instrumento de poder imperial dos Estados Unidos para
*amarrar* os europeus ao seu controlo
económico que começou a ser instituído com o *plano Marshall*.
Wall
Street sabia que a recuperação económica da Europa ocidental seria superior e mais rápida face à
recuperação da parte leste e da própria ex-URSS, onde o desenvolvimento do
capitalismo estava em fase inferior e a destruição produtiva desses espaços
atingia percentagens muito superiores do que do lado ocidental.
O empréstimo
estatal de Washington, sob a supervisão do sistema financeiro e em seu
benefício, foi algo como 13 mil milhões de euros, a partir de 1947 (uma
valoração superior actual superior a 140 mil milhões de euros).
Era
uma batalha, contra o tempo, de salvação do capitalismo financeiro ocidental, o
que foi conseguido.
Na
realidade, o crescimento da Europa ocidental nas duas décadas seguintes foi significativo,
como foi arrasador o fluxo de exportações norte-americanas para o mesmo espaço
geográfico (cerca de 80 % dos produtos entrados), mas mais arrasador foi a
exportação bélica, o que representou a *asfixia* de Washington sobre a
capacidade europeia de impor a sua própria política externa e a política de
defesa.
O
primeiro objectivo de Washington foi o de enxamear a Europa ocidental de bases e
estruturas controladas pelas Forças Armadas norte-americanas. Ou seja, ocupação
efectiva de territórios. Transformá-los em protectorados.

No
continente europeu, devem existir mais de 100 mil soldados dos EUA, cerca de 40
mil só na Alemanha. As suas bases estendem-se desde Portugal até à Turquia,
passando pela Inglaterra, Grécia, Itália, Dinamarca, Islândia, Noruega, Holanda
e Luxemburgo.
E
desde a queda da URSS, à Polónia, Hungria, Roménia, Bulgária, Albânia e Kosovo.
Embora
a *ajuda* do plano Marshall fosse aproveitada pela burguesia desenvolmentista
europeia para levar avante o seu projecto de criar um espaço europeu, através
da cooperação económica primeiro, esse espaço está cerceado pela sua incapacidade de
forjar uma diplomacia e Forças Armadas únicas.
De
certo modo e em certo sentido, essa burguesia avançou, tirando lições dos
esforços anteriores (napoleónicos, prussianos e hitlerianos) de rasgar para
essa via, de maneira unilateral, brutal, desprezando os direitos nacionais e
soberanos dos povos.
Para
que se tivesse implantado a CEE, e, depois introduzido a UE, contaram com a
cumplicidade dos sectores mais conscientes das classes laboriosas. E isto
porque se instituíram, ao mesmo tempo, uma panóplia de direitos para todos os
diferentes povos e nações da Europa.
A
CEE nasceu, realmente, de uma nova tentativa de desbravar o espaço económico
sem fronteiras (circulação de mercadorias e de pessoas), agora em harmonia internacional.

Esse
espaço – económico e político – é essencial à emancipação política das próprias
classes trabalhadoras.
Estas
terão, agora, a tarefa de criar a sua própria estrutura própria com as suas
reivindicações específicas.
A
NATO é, hoje, um entrave a esse caminho, é, na realidade, um escolho mantido
por Washington para desarticular o nascimento de União Europeia independente, dentro de uma harmonia possível, e, englobar um território maior, talvez dentro
de duas décadas, com a própria Federação Russa.
Ou
seja, o maior mercado comercial do Mundo.
(O
capitalismo centrado em Washington tem consciência que foi – e será – na Europa
que surgiram as maiores convulsões revolucionárias que deram a perspectiva de
um novo rumo societário para o Mundo.
Essas
convulsões deram-se sempre na esteira do avanço da burguesia na sociedade
europeia, com o ascenso, primeiro, do capitalismo industrial na Inglaterra e
depois em França; depois com a sua extensão à Alemanha e à Itália, nos finais
do século XIX. Mais tarde, com a sua penetração na Rússia czarista).
E
esse escolho, presentemente, é visível desde a entrada forçada, eivada de *nacionalismos* e com o financiamento do lado
norte-americano dos países do leste, antigos integrantes do Pacto de Varsóvia
na estrutura da Aliança, totalmente dominada pelos Estados Unidos da América.
3 –
Com os novos rearranjos geo-estratégicos e geo-políticos, criados com o
aparecimento de novos centros capitalistas em concorrência directa com os EUA,
em particular, a Rússia e a China, o papel da NATO tornou-se obsoleto.

Numa
escala menor, o Brasil, com o MERCOSUR, a Índia e a África do Sul, associados
àquelas nos BRIC´S.
As
crises do Médio-Oriente trouxeram, de maneira mais visível e aguçada, a
impotência da NATO e da sua cabeça política, Washington, e financeira, Wall
Street.
Esse
obsoletismo político-militar faz vir ao de cima as ameaças dos generais, que,
no fundo, são as ameaças do complexo industrial-militar, ou seja, gritos de
agonia de um militarismo que contra a marcha da História pretende continuar actuante.
São, pois, perigosas, porque estão centrados no desespero de um modelo político-económico que está a entrar em colapso, ainda com poder castrense extraordinário.
Justamente porque
são gritos de desespero de um sector do grande capital financeiro que sente o
chão a fugir-lhe dos pés, e isto porque a UE não quer contribuir para o
financiamento da NATO.
Desde
os atentados do Charlie Hebdo em Paris, a França, que se considerou atacada de
fora pelo *terrorismo internacional*, nem sequer fez um esgar para se dirigir à
NATO, como organismo de *defesa colectiva*.
A
Alemanha, e por tabela a UE, na recente crise dos refugiados, opinou que a
Aliança Atlântica actuasse como *guarda costeira* no Mediterrâneo.
4 –
A gravidade da questão é que, na crise geral do capitalismo, a concorrência inter-imperialista está provocar um
incremento desmesurado do militarismo nos próprios EUA, na Rússia, na China, o
que provoca um aprofundamento crescente da crise financeira internacional.
Curiosamente
na UE, são os governantes dos países do leste que mais pressionam para que
aquela enverede pelo apoio à política de Washington dentro da NATO. Com o dedo
apontado ao *monstro* russo.
Mas,
os países mais evoluídos economicamente, como a Alemanha e a França, estão mais
preocupados em reatar os *laços comerciais* com Moscovo.
Quem
quer lançar gasolina para o fogo neste momento ao território europeu?:
Apenas
os EUA, e, depois colocar-se de fora para vir recolher os *proventos* quando a
Europa novamente estiver reduzida a cinzas.
Só
que, no presente, os ventos da guerra atingirão todo o planeta.
A
tecnologia castrense para alcançar a destruição não precisa de grande
deslocamento de forças.
Vamos
esperar para ver como reage a UE ao que se está a passar no Médio-Oriente.