1
– A França, onde se desenrola, actualmente, uma prolongada luta classista para
impor legislação contra as classes
trabalhadoras, é o exemplo marcante do papel da social-democracia/socialismo
democrático na vida societária.
O
Partido Socialista francês assume-se, em todo o seu esplendor, como
representante da classe capitalista.

Este
facto não é um caso isolado de uma mera radicalização extemporânea de «desesperados»
que sente o poder fugir-lhe, enquadra, na realidade, neste caso, em França, com
toda a transparência, como actua a social-democracia quando ascende ao poder
numa situação de crise grave do capitalismo.
A
história da presença política do PS actual francês no poder de Estado desde a
sua recriação como tal no final dos anos 60 do século passado é a história do
seu percurso como fracção representante directa e qualificada do capital
financeiro no país.
Embora,
formalmente, o PS tenha sido criado em 1905, como secção francesa da
Internacional Operária, na realidade, o seu percurso de capitulação constante e
progressiva levou-o a tornar-se irrelevante no país desde a II Grande Guerra.
É
«recriado» em 1969, quando o gaullismo entra em agonia, depois da revolução
política anti-capitalista de *Maio de 1968*, e esse partido «renascido» recebe
então apoios financeiros vultosos da chamada Internacional Socialista e dos
Estados Unidos e o impulso da maçonaria gaulesa.
Foram,
aliás, promotores e organizadores apoiantes do regime de Vichy, como François
Mitterrand, Charles Henu e Jean-André Faucher, entre outros, travestidos de
*socialistas*.
Desde
a II Grande Guerra até à renúncia do falecido general, o gaullismo, como
entidade política de poder, representou o capital no seu todo, impulsionando,
em grande medida, o capital industrial no pós-II Grande Guerra.
Contou,
para se estabelecer, como representação política dessa burguesia, logo no fim
da guerra, com a prestimosa ajuda do Partido Comunista francês (PCF).
Este, que é o maior partido político e armado da Nova República gaulesa saído da guerra,
aceitou – em conivência com a liderança soviética de Josep Stálin, a entrada
num governo liderado por De Gaulle, com a orientação de desarme do Exército
guerrilheiro, os Francs-Tireurs et Partisans (FTP) e a submissão ao processo de
gestão capitalista da economia.
Eles
foram o suporte «vermelho» da recomposição capitalista em França.
Maurice
Thorez, o líder do PCE, ascende a Ministro de Estado (o governo incluía mais
cinco pastas daquele partido), foi o mais fiel propagandista da «batalha da
produção», da «reconstrução rápida da indústria» e da criação de «um potente
Exército francês».

Tal
orientação dividiu o PCF, principalmente o seu secretariado, tendo Charles
Tillon, o responsável pelos FTP, abandonado aquele partido, em protesto contra
a dissolução do Exército guerrilheiro.
Depois
do serviço prestado, o PCF e Thorez levaram um pontapé. Assim começou a
decadência daquele partido.
2
- A queda de De Gaulle está ligada, por um lado, às grandes convulsões sociais,
que vão desembocar na revolução de 68, por outro, ao ascenso progressivo do
capital financeiro, que o isolam e que inclusive, emerge já, dentro do próprio governo de De
Gaulle, com Georges Pompidou, e, mais tarde, com Valéry Giscard d'Estaing.
Com
o desaparecimento do general, a representação política do capital financeiro
começou a expandir-se com George Pompidou (foi um alto quadro do grupo
financeiro Rotschild) e solidificou com Valery Giscard d’ Estaing (criador da
bolsa de valores mobiliários), o promotor da entrada da França na estrutura
militar, ficando na dependência formal da NATO.
/O
Ministro do Orçamento de D´Estaing chamava-se Maurice Papon, o responsável pela
deportação de judeus sob o regime de Vichy/.
A
República gaullista, na realidade, sumira-se.
Mas,
estava em curso desde os inícios dos anos 70 do século XX, o reerguer de uma
oposição «socialista» oficial, que servisse o entrosamento do capital
financeiro no país.
O
gaullismo representou, em termos de poder político, um certo «cesarismo» que
enquadrou o renascimento capitalista. Com a entrada, em 1971, do PS de François
Mitterrand, esse mesmo «cesarismo» reenquadrou-se envolto numa pretensa
bandeira vermelha, levando como atrelado o então já decadente PCF, agora
liderado por George Marchais.
Quando
os sucessores abastardados do gaullismo se afastam da cena política, surge
então Mitterrand e o +renascido+ PS, numa *frente comum* com o PCF.
Assim,
em 1981, François Mitterrand ascende a Presidente da República e o PSF, nas
legislativas que sucedem, torna-se o primeiro partido do país, ultrapassando a
formação política de Marchais.
Na
primeira fase da sua governação, Mitterrand quis fazer crer que não iria
trair as promessas de instituir um executivo «socialista». Fez algumas
nacionalizações, houve aumentos de salários e pensões. Tudo em gestão
capitalista.
Conseguiu,
assim, o objectivo do capital financeiro: pacificar o PCF, reduzi-lo a um
«apêndice» político.
Na
fase seguinte, princípios dos anos 90, o PS de Mitterrande tirou a máscara e
assumiu-se sem rebuços como representante único do capital financeiro:
privatização sem freio a favor do domínio do capital financeiro, desprezo total
dos direitos sociais em detrimento de empresas capitalistas financeiras na
saúde, na educação, na própria organização do trabalho.
Toda
a administração pública foi canalizada para servir o capital financeiro, desde
o parlamento à justiça. Bancos, bolsas, transportes, portos, agricultura,
cargos de gestão superior do Estado, tudo ficou sob a sua alçada.
Realizou
aquela o seu objectivo ideológico: produzir um rebaixamento da consciência política das classes e sectores trabalhadoras.
A
coligação PSF/PCF contribuiu para limitar qualquer hipótese de lançar, de
imediato, um revigoramento de uma via alternativa revolucionária.
Ora,
este papel estendeu-se a toda a Europa e foi justamente desempenhado pela
social-democracia...até aos dias de hoje.
3 –
O domínio avassalador do capital financeiro não é um exclusivo da França, ele
estendeu-se por toda a Europa.
Os
*plainadores* desse domínio foram, precisamente, os partidos sociais
democratas, que se intitulavam, muitos anos atrás, até marxistas-leninistas,
depois, apenas socialistas, decaíram para socialistas democráticos, e muitos
deles apenas se chamam agora democratas.
Cito
dois casos: o português e o espanhol, mas poderia enquadrar-se o alemão, o
inglês, o italiano, o grego, entre outros.
O
Partido socialista democrático/social-democrata português, o PS então liderado
por Mário Soares foi a *cobaia*.
O
partido soarista nasceu na Alemanha em 1973, sob os auspícios e financiamentos
alemães (Fundação Ebert), com um programa, mais ou menos idêntico, ao do PCP,
reivindicando-se do marxismo.
Aliás,
a sua apresentação formal, como partido, deve-se à divulgação de um programa
conjunto de governo com o PCP, um ano antes do 25 de Abril de 1974.
A
queda do regime marcelista provocou a formação de um governo provisório, que
reflectia, pela sua composição, um compromisso entre os partidos e novas
formações que contribuíram em diferentes graus para o derrube do regime.
A erupção popular que se seguiu deu-lhe um carácter revolucionário, obrigando os
diferentes partidos com interesses divergentes a acolher-se, sob o chapéu
militar do Conselho da Revolução, aos ditames da Revolução socialista e da
sociedade sem classes.
Mas,
sob esse compromisso, a representação governamental era constituída pelas
diferentes estruturas classistas da burguesia. O que as levava, no ramalhate
reivindicativo do socialismo »à portuguesa», a que todas empunhassem essa
bandeira.
O
PS foi o vencedor em eleições constituintes (1975) e legislativas (1976).

E
é esse PS, com o apoio dos militares que dão o golpe de Estado em 25 de
Novembro de 1975, que vai reestruturar o poder político, afastando-se
rapidamente do modelo definido pela Constituição do país, aprovada em 1976.
Logo
nesse fim de ano de 1975, começa a desarticulação da Reforma Agrária, com o
recomeço da entrega de terras aos latifundiários. Em 1978, Mário Soares anuncia
que o seu partido meteu o «socialismo na gaveta». Um ano depois, o mesmo Soares
apresenta um documento «Dez anos para mudar Portugal», onde enuncia a defesa de
um «modelo do socialismo democrático ou da social-democracia europeia».
Com Vítor Constâncio, como secretário-geral, o PS, em Congresso, fez eclipsar os
estatutos da fundação do PS e deu-lhe o formato social-democrata. Foi a adaptação
teórica à pratica política desencadeada desde Novembro de 1975 à sociedade
burguesa dominada pelo capital financeiro.
Em
Espanha, esse papel começou a ser estabelecido pelo PSOE de Felipe Gonzalez, a
partir de 1982, mas o *percurso político* foi estabelecido muito antes da morte
do general Francisco Franco.
Com
a decadência do franquismo, em particular após o assassinato de presidente do
governo almirante Carrero Blanco, em 1969, os «tecnocratas pragmáticos» do
regime, que começavam a ter peso no governo de Franco, tinham noção que a
continuidade do sistema capitalista somente se poderia conseguir com o apoio de uma
*oposição* moderada.
Permitiram,
assim em semi-clandestinidade, os movimentos de um «PSOE renovado», formado por
um grupo de jovens onde se veio a impor Felipe Gonzalez.
Nos
finais dos anos 60, iniciava-se um confronto no seio do enfraquecido ,
Partido Socialista
Operário Espanhol, saído, praticamente, da letargia do pós II Guerra, em que os
«jovens turcos» puseram em causa a direcção do exterior encabeçada pelo então
secretário-geral Rodolfo Llopis.
Deu-se
uma ruptura entre
o PSOE Histórico de Llopis e o PSOE Renovado de cuja direcção fazia já parte
Felipe Gonzalez. O lugar de secretário-geral alcança-o em 1974, e, a sua
preocupação central ideológica foi transformar o PSOE em formação
social-democrata, o que conseguiu em 1979.

A
política prática desta mudança conseguiu-a em 13 anos de governação. O
capitalismo financeiro floresceu, então, em toda a sua essência na sociedade
espanhola.
4 –
As sucessivas crises desde o princípio deste século foram crises do sistema
financeiro capitalista e mostraram que as relações de produção e as forças
produtivas atingiram um estado tal de contradição, que apresentam sintomas de
ruptura não só na Europa, mas em todo o planeta, em especial nos EUA.
A
social-democracia, que foi o esteio político da gestão capitalista da burguesia
em riscos de implosão, atinge também um patamar de insolvência, de descrédito.
Há
condições de uma iniciativa de revolução europeia, mas não existe uma
alternativa programática revolucionária entre as classes trabalhadoras. Há insatisfação,
mas também desânimo. As hesitações estão ligadas a um processo longo de
contra-revolução que avassalou as sociedades da Europa desde Maio de 1968.
As
sociedades europeias estão impregnadas de crimes praticados pelo domínio de uma
aristocracia financeira que não tem pejo em espoliar os cofres estatais, ou
seja o bem-estar e o progresso dos desfavorecidos.
Apesar
do desânimo que se instaurou no seio das classes trabalhadoras, a espoliação e
a devastação económica que a grande burguesia financeira efectuou em todo o
espaço europeu nos últimos 20 anos provocou sempre movimentações e protestos
populares.
Nestas
duas últimas décadas, começaram a surgir grupos sociais e até pequenos partidos
que ganharam certo peso político, esgrimindo um vago programa anti-capitalista
capaz de ser realizado dentro da «democracia», ou seja o sistema actual.
É
neste contexto que se organizam novos partidos, como o Die Linke, na Alemanha,
o Partido de Esquerda, na França, o Syriza, na Grécia, o Bloco de Esquerda, em
Portugal e o Podemos, em Espanha e o Grupo da Esquerda Unitária/Esquerda Verde
Nórdica.
Alguns
deles, são hoje o governo do país, caso da Grécia, onde aplicam os ditames da
ordem burguesa.
De
uma maneira ou de outra, esses partidos não colocam, como princípio basilar da
sua actuação, a tarefa de transformar, de maneira revolucionária, as sociedades
dos seus países, mas de agir, no seio do regime estabelecido, visando a sua
adaptação a uma «melhor democracia».
Existem,
é certo, debates no interior desses partidos para inflectir a orientação
dominante.
Mas,
no estado actual, se esta via continuar a ser prosseguida irá desembocar na
continuidade do domínio do capital financeiro.