1
- O agravamento da crise síria, com o
ataque aéreo dos Estados Unidos a uma unidade do Exército do regime de Bashar
Al Assad no leste do país (Deir ez-Zor),
onde os islamistas wabadistas o procuram cercar, ataque este ocorrido,
propositadamente, em pleno vigor de cessar-fogo, irá certamente ter
repercussões na União Europeia.
O
ataque norte-americano não foi acidental, nem produto de falta de coordenação.
Não.
Teve um objectivo preciso impedir – ou, pelo menos, limitar – uma inversão de
posições que o regime sírio e a Rússia, Irão e hizbolá libanês estão a
empreender na parte nordeste daquele país, com uma derrota dos seus aliados
*combatentes da liberdade*, que proliferam nas organizações militares
financiadas e municiadas por Washington, como o Exército Islãmico, Al
Qaeda/Frente al Nusra, Exército Livre Sírio, Ajnad al-Sham, Fatah al-Islam ou
Ansar al-Islam.

O
que se vislumbra no conflito sírio é o progressivo e desconjuntado recuo do
apoio «no terreno» das forças oposicionistas armadas à ofensiva conjunta do
Exército de Damasco e as forças armadas iranianas e chiitas libanesas, - que
igualmente operam juntamente com o Exército de terra do Iraque – e a supremacia
aérea russa.
Ora,
os EUA estão, pois, os acossados, cada vez mais enrodilhados, num conflito estratégico
que os está a afundar, não só militarmente, mas, principalmente, em termos
económicos.
A
reacção a esta senda de recuo pode levar o complexo militar industrial
financeiro norte-americano a reagir sem pés e cabeça.
E
aqui a guerra será generalizada.
Mas,
se apostarem nesta solução, os seus aliados europeus não se irão precipitar.
Então poder-se-á aprofundar a clivagem, já mais que evidente, entre a União
Europeia e os Estados Unidos da América.
Para
o sistema político-económico norte-americano, o afastamento «afectivo» da UE
face aos EUA é contabilizado em primeiro lugar em termos comerciais.
Então
o que está em jogo?
2
– Justamente, o mercado europeu.
A
UE é, apesar da próxima saída do Reino Unido, a principal potência comercial do
Mundo, e, até hoje o principal aliado
americano na luta concorrencial com as outras potências económicas e militares,
nomeadamente, a Rússia e a China. Além de conter um território com perto de 500
milhões de pessoas.
A
sobrevivência da Europa, como unidade política, depende, portanto, por um lado
da superação da crise em que está envolvida, refazendo a cooperação, o mais
harmónica possível, entre os países e nações que a compõem, por outro, a
unificação da sua política externa, assente na sua própria capacidade de defesa,
ou seja um Exército único, que sirva de cobertura para que o apoio à sua
evolução no sector exportador.

Este
é, para mim, o seu grande desafio.
Este
desafio somente irá avante se tiver a pressão constante dos movimentos sociais
e dos partidos e organizações revolucionárias.
O
que obriga, assim o penso, à elaboração de um programa revolucionário europeu
que seja a alternativa à política capitalista que domina a Comissão Europeia, o
Conselho Europeu, o Eurogrupo e o próprio Parlamento Europeu.
Esta
alternativa advém do facto de o capitalismo financeiro dominante no Mundo, mas
especialmente, nos seus centros mais pujantes (EUA e UE), se encontrar numa
encruzilhada que o pode fazer colapsar ou avançar para formas violentas de
resolver essa crise.
3
– Pode argumentar-se: certo, há uma crise internacional do capitalismo, mas os
EUA ainda são a potência hegemónica económica e militar.
São eles que
determinam os destinos do Mundo.
Sim
é real, os EUA ainda são uma grande potência económica, o dólar ainda é a principal
moeda de troca a nível internacional, as suas Forças Armadas estendem a sua
manápula por mais de 80 países.
O
que se tem de analisar é o que mudou, de maneira evidente, desde os chamados
atentados das Torre Gémeas, em Nova Iorque.

A
China emergiu como potência económica. A Rússia reestruturou a sua economia,
depois de cerca de 10 anos de estagnação e retrocesso, no pós desagregação da
URSS, e, acima de tudo, impos uma nova capacidade tecnológica e reforço da
estratégias castrenses. Institucionalizaram-se os BRICS, como parceria
geo-estratégica em confronto com os EUA.
O
dólar já não é a moeda omnipotente nas relações comerciais e financeiras
internacionais. A UE, com as suas debilidades actuais, continua a ter uma
unidade monetária, o euro, que se está também a impor como referência. A China
em parceria com a Rússia organiza trocas comerciais sem a interferência do
dólar.
E
acima de tudo, a economia norte-americana entrou em estagnação, a situação
social interna regrediu. A política «proteccionista» de Donald Trump, que pode
ser o próximo Presidente norte-americano, é a bússola indicativa de que irá
haver uma *reestruturação* interna da actividade produtiva (com regresso de
empresas deslocalizadas, apostas declaradas em novas indústrias, possivelmente
até com um confronto entre o capitalismo +cristão+ em ascenso e o capitalismo
+judaico+ dominante).
Esta
realidade da vida societária interna tem, pois, os seus reflexos, de maneira
evidente, na esfera militar.
A
supremacia militar internacional norte-americana não se impõe, actualmente, nos
principais focos de disputa nos diferentes pontos do globo, desde o
Médio-Oriente ao Golfo Pérsico, passando pelo Mar da China ou mesmo no leste da
Ucrânia.
É,
justamente, no conflito afegão-sírio-iraquiano que mais se nota as contradições
e fraquezas dos EUA na sua concepção militar.
Incendiaram
o norte de África e o Próximo e Médio-Orientes, procurando impor o seu «modo de
vida», mas armando e financiando o sector mais retrógrado do wabadismo como
+força ideológica+ para destruir +as ditaduras nacionalistas+.
Os
seus «filhos», combatentes da sua liberdade, estão a roer-lhes a corda,
obrigando-os caminhar, lenta, mas paulatinamente, na estratégia delineada pela
Rússia.
4
– Será, pois, na UE que se vai concentrar o esforço norte-americano para não
perder a suserania sobre esse enorme mercado e ao mesmo território de
«contenção» com o concorrente militar russo.
Se
os EUA têm na sua estratégia a derrota da reemergência mundial da Rússia como
superpotência militar, através da utilização do «tampão» europeu, que poderá
servir de campo de batalha, a UE parece ter despertado, finalmente, do +abraço+
económico-político-castrense de Washington, seguindo uma via de conseguir a
coesão europeia.
E
tal via pressupõe, portanto, o corte com a supremacia de Washington.
Neste
caso, a Rússia, porque é continuidade territorial europeia, pode servir de
+aliado táctico+ numa fase mais distendida.
Moscovo,
igualmente, necessita da UE para impulsionar a sua tecnologia e interagir com o
sistema económico europeu para receber produtos em melhores condições de
mercado e exportar, particularmente, as suas principais matérias-primas.
Os
indícios de um agravamento das relações EUA/EU são dados por episódios
recentes: o ataque aparentemente pessoal
a Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia, por ter passado, com armas
e bagagens, para os quadros dirigentes do Goldma Sachs, o banco de Wall Street,
que fomentou em grande parte a crise financeira da Europa; as multas cruzadas
entre Washington e Bruxelas sobre as grandes empresas multinacionais (Apple,
Google, Volkswagen, Deustche Bank); a suspensão, praticamente corte, das
negociações em torno do Tratado de Comércio e Investimento Transatlântico
(TTIP), e, principalmente, o recomeço dos projectos de Forças Armadas e de
Segurança da União.
Os
próximos tempos vão ser, na minha opinião, pois, de tensão crescente nas
relações EUA/EU, naturalmente, em muitos casos essa tensão andará pelos
bastidores.
Vamos
esperar para ver as mudanças geopolíticas que se vão dar.