sexta-feira, 24 de março de 2017

A UE TEM DE OPTAR UMA POLÍTICA REVOLUCIONÁRIA DE COOPERAÇÃO

1 - A 25 de Março de 1957, teve lugar, em Itália, a assinatura dos Tratados de Roma, que instituiram a Comundade Económica (CEE) e a Comunidade Económica Europeia da Energia Atómica (CEEA), e que previam, a prazo, a criação de uma união alfandegária, bem a criação de instituições estatais: Comissão Europeia, Conselho Europeu, Parlamento Europeu e o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias.

Os signatários foram seis países: Bélgica, França, Alemanha, Itália, Luxemburgo e Holanda.

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Passam, portanto, 60 anos da criação do que hoje é a União Europeia.

A UE confronta-se actualmente com uma crise grave, económica, financeira, política e social.

Todavia, não se deve falar sobre a crise em abstracto.

É, acima de tudo, uma crise do sistema capitalista que a gere.

E particularmente, contra a facção da burguesia capitalista no poder em todos os Estados, a grande burguesia financeira.

Pode a UE desagregar-se?

Realmente pode, se persistir o actual modelo de governação assente no domínio absoluto desse capital financeiro.

Esse ascendeu dentro da UE com a supremacia do capital «nórdico», em particular alemão, sobre as economias mais «fracas».

E essa dependência transformou-se em penúria financeira crescente desses Estados.

Será impossível transformar essa supremacia em nova cooperação europeia sem equilibrar os orçamentos dos diferentes Estados, ou seja sem restringir o poder desse capital financeiro dominante.

O que significa, em termos práticas, uma mudança política na maioria dos Estados da UE, incluindo na Alemanha, fazendo recair o peso dos impostos necessários para o investimento público sobre o sistema bancário europeu.

Em termos reais de eficácia, terá de haver uma alternativa política conjunta europeia de progresso que leve a forçar um novo sistema governativo.

Podem clamar contra o estado actual da gestão europeia os chamados «progressistas de esquerda», mas não passarão de cúmplices pregadores do deserto, se não optarem por alcançar uma política comum radical, com um programa socialista.

2 - Claro que a burguesia europeia, em bloco, não é suicidiária, mas se persistir a supremacia do capitalismo financeiro alemão, aliado ao norte-americano, na estratégia de provocar os regressos dos «nacionalismos», isso também será dessatroso, não só para os Estados alvos de ataques da arrogância imperial alemã, que se oculta por detrás da governação da senhora Merkell, mas igualmente para a própria Alemanha, ela própria submersa numa crise que se aprofundará com a política de Trump, já que obrigará à subida do euro e em sequência um rombo nas próprias exportações alemãs.

E a própria política migratória estabelecida pelo actual governo de Berlim levará a ter efeito sobre os salários dos próprios trabalhadores do país, com a consequente descida dos mesmos e do consumo interno.

Além do mais, a UE somente se consolidará se tiver uma política externa própria, o que exige uma organização conjunta no domínio da segurança e defesa, que afaste a capitulação perante a NATO, ou seja contra a supremacia desafiadora dos EUA.

Para se impôr no mercado externo tem de ganhar um espaço próprio castrense que lhe sirva de «guarda-costas» fora das pressões externas contínuas e desagregadoras.

O avanço das conquistas económicas, políticas e sociais dos diferentes Estados que integram a UE - com o Reino Unido fora - somente poderá ser conseguido se uma nova política governativa comum for imposta em detrimento da actual.

Essa só ganhará consistência - repito - com a capacidade de forjar políticas anti-capitalistas em cada Estado e numa estrutura verdadeiramente progressista que se forme a nível das instituições europeias.

Apesar das incertezas, o que é certo é que a UE continua a ser a principal potência comercial do Mundo.

Assinalo os próprios dados oficiais da UE para justificar tal facto

«A economia europeia, medida em termos da produção total de bens e serviços (PIB), é maior do que a dos Estados Unidos. PIB da UE em 2015: 14 600 mil milhões de euros.

Embora a UE represente apenas 6,9 % da população mundial, o volume das suas trocas comerciais com o resto do mundo corresponde aproximadamente a 20 % do volume das exportações e importações mundiais.

Cerca de 62 % das trocas comerciais dos países da UE realizam-se com outros países da UE.

Em termos de comércio internacional, a UE é uma das três maiores potências mundiais, juntamente com os Estados Unidos e a China.

Em 2014, as exportações de mercadorias da UE representaram 15,0 % do total mundial. Pela primeira vez desde a criação da UE, as exportações europeias foram ultrapassadas pelas da China (15,5 %), mas mantiveram-se à frente das dos Estados Unidos (12,2 %), cuja parte das importações mundiais (15,9 %) excedeu quer a da UE (14,8 %) quer a da China (12,9 %)».

3 - Perguntar-se-á: Mas uma eventual desagragção da União Europeia, leva ao desaparecimento dos Estados componentes?

Naturalmente, que não.

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Mas haverá, certamente, um retrocesso civilizacional, pois a competição intereuropeia aumentará e os «abutres» imperialistas exteriores a esse espaço tentarão cravar as garras, para extrair cada vez mais lucros.

Ou seja concorrência intereuropeia exacerbada levará novamente à guerra, porque o mercado comunitário desagregado continuará a ser extremamente apetecível.

Tudo isto se abaterá sobre as classes trabalhadoras, porque ficarão à mercê dessas sanguessugas, sem uma alternativa revolucionária de mudança política.

Temos de olhar para a História. O avanço para a uma Europa de unidade é o percurso que tem sido tentado desde o Renascimento europeu.

Foi o capitalismo nascente que impulsionou o fim do feudalismo e fez nascer, ao longo dos séculos, os Estados unitários cujo objectivo primário e central foi o de acabar com os particurismos dos condes e barões que controlavam nos seus feudos o movimento de pessoas e de comércio, através de impostos e mais impostos.

Os condados feudais lutando entre si eram um travão à cooperação e contactos entre povos e nações.

Sem a extensão da industrialização não poderia haver um reforço das classes trabalhadores e, particularmente, do proletariado industrial.

Quando Karl Marx e Frederico Engeles lançaram a sua consigna «proletários de todo mundo uni-vos», a sua preocupação visava, especialmente, a Europa. A sua «aposta» revolucionária estava centrada precisamente numa revolução na Europa fortemente industrializada.

Ora, para atingir esse fim teria (e terá) de se forjar a cooperação europeia harmónica entre Estados.

Ou seja, acabar com o nacionalismo serôdio e ultrapassado e constituir uma união que tenha em contra a autonomia e independência possível de cada Estado e Nação.

Lutar e fazer desaparecer os conflitos inúteis entre Estados «superiores» e «inferiores».

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