quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O REGRESSO À CONVENÇÃO DE VIENA DO SÉCULO XXI?




bacia das riquezas minerais da região do Mali, Mauritânia e Argélia



                            Mali, mapa político

1 - Assistimos hoje, e quando digo hoje vai desde os anos 80 do século passado, com toda a desfaçatez, às intervenções armadas neo-coloniais das chamadas potências - europeias, norte-americanas, russas ou chinesas - no interior de povos e territórios de países economicamente menos desenvolvidos, mas carregados de riquezas naturais ou situados em encruzilhadas geo-estratégicas, actuando, cinicamente, em nome da sua civilização que dizem superior.

Vem esta introdução a propósito da violência praticada pela França - em cumplicidade declarada com o chamado Conselho de Segurança da ONU, que se institui em polícia do mundo, conforme as conveniências - no Mali e a sua prática de violência e sangue, levada a efeito pela clique assassina, que se intitula socialista, e governa aquele país.

Os franceses, juntamente com os norte-americanos, que actuaram, descaradamente, na Líbia, provocando massacres e morticínios indiscriminados, que esfrangalharam o incipiente Estado Líbio, à custa de uma aliança táctica com os islamistas da chamada Al-Qaeda, pró-americana, fazendo expandir o descontrolo de armamento que foi aproveitado pelos tuaregues do sul líbio, que têm ligação com os da Argélia, Mali e Mauritânia, estão agora confrontados com a insurreição daqueles e com o expulsão, pura e simples, dos seus fantoches instalados em Bamaco.

Jogando, portanto, com as divergências internas no país, e considerando que, unilateralmente, se arrogam no direito de intervir onde não têm jurisdição, os representantes no governo de Paris da aristocracia financeira ligada aos petróleos pensam colocar a pata na reconstrução de um novo poder, apresentando-se como libertadores de uma invasão de retrógrados islamistas.

(No oeste  do Mali, segundo os dados já disponíveis em prospecção, existem jazidas de petróleo e gás natural na bacia do Taudeni algumas já em exploração -dizem os jornais do sector com mais capacidade do que as da vizinha Mauritânia-, e no leste, minas apreciáveis de urânio, que empresas gaulesas já exploram. Isto, portanto, em duas regiões onde os islamistas avançam ou já controlam.

2 - Esta intervenção neo-colonial das antigas potências e das novas em emergência, como a China e a Rússia, que está a levar a guerra total a todos os territórios onde proliferam as grandes riquezas naturais, como petróleo, gás, urânio, lítio, alumínio (bauxite), ouro, prata, ferro, cobre, tungsténio,  pisando, literalmente, de novo, os direitos nacionais e regionais.

Veja-se que o caso mais recente se iniciou com a chamada Primavera árabe, a qual partindo de uma real e genuína insatisfação popular, por ela vingaram os aliados islâmicos (principalmente sunitas) da grandes potências ocidentais.

Desde Marrocos até ao Médio Oriente, mas principalmente na Líbia, onde a ocupação e fragmentação daquele Estado somente se fez com a intervenção assassina do bloco imperialista NATO, para defender, única e exclusivamente, os interesses das chamadas oito *irmãs*, as companhias majestáticas do petróleo.

Mas já vem desde os ano 90 século XX, com a multiplicação de conflitos na regiões dos Grandes Lagos, em África, tendo como país de destino principal a República Democrática do Congo para a exploração brutal do lítio, através de senhores da guerra facto que este torna o produto mais barato do que sendo explorado por um único governo central.

Mas também pela intervenção nas Guinés (Bissau, por um lado, e Conacri, por outro). Nestes países estão riquezas substanciais em petróleo, bauxite, ouro e prata.

O exemplo da Nigéria, aparentemente dilacerada e, praticamente, esfrangalhada, por uma guerra interna com contornos religiosos, mas na realidade fomentada para o controlo real da exploração petrolífera.

Convém recordar o caso da Costa do Marfim, cujos piedosos governantes e comentaristas ocidentais falavam à boca cheia de diamantes de sangue, pois ali foi desencadeado, através de actores internos, um massacre inaudito para que as grandes companhias do sector, controladas pelos capitalistas financeiros judeus, se assenhoreassem directamente daqueles metais preciosos.

O que produziu, realmente, naquele país foi um constante turbilhão de tensões entre o norte - com migrações enorme de origem islâmica, provenientes de outros países, - e o sul, de populações que professam o cristianismo. Claro que o poder interno está periclitante, servindo de motivo para as intervenções imperiais de França, ali, actualmente instalada.

Gritante é o que se passa no Sudão, onde se acirram conflitos, que se estendem do Darfur até ao Nilo Azul, retalhando o próprio país em dois Estados - Sudão e Sudão do Sul, com argumentos de defesa das populações e por razões humanitárias, onde chafurdam, como ícones, estrela de cinema, palhaços úteis, como George Clooney, para repartir na realidade as riquezas do crude.

3 - O que referimos, faz-nos lembrar, claro com a distância do tempo e das mudanças sociais e políticas de quase 200 anos, o sucedido após o Congresso de Viena em 1815, em que as potências vencedoras e poderosas se lançaram, desenfreadamente, na conquista (sim conquista, porque nunca a houvera antes, apesar de serem os europeus os chamados "descobridores" do continente africano) dos territórios coloniais em África, Médio e Extremo Oriente, quando a industrialização necessitava, urgentemente, de matéria-prima barata.

O mapa de África, do Médio e em grande parte do Extremo-Oriente foi desenhado então a régua e esquadro, ou redistribuído conforme os apetites e interesses imperiais europeus.

Desprezaram-se vidas inteiras tribais, mesmo sentimentos nacionais, fragmentaram-se nações forjadas desde os tempos antigos sob as concessões religiosas então vigentes. 

Colocaram-se garrotes indecorosos aos povos de África, mas também da região do Indostão e da Conchichina, para não falar na humilhação aos chineses, através da guerra do ópio.

Claro que isso tinha de acabar e acabou no rescaldo da II Grande Guerra. 

A História avançou para dar lugares a concepções de nacionalidade e nacionalismo.

Essa revolução que terminou, grosso modo, nos anos 70 do século passado com as derrotas gritantes dos Estados Unidos no Vietname, Cambodja e Laos e nas colónias portugueses (Guiné, Angola e Moçambique) por essa mesma época, as quais permitiram a queda abrupta, uma dezena de anos depois, dos regimes racistas da Rodésia e da África do Sul, foi, portanto, orientada para a satisfações das reivindicações nacionais e de liberdade face ao opressor colonial e imperial.

Foi, realmente, um período de grande efervescência pré-revolucionária, pois havia a ameaça de um avanço sobre o poder dominante das classes laboriosas.

Mas, a burguesia, que então se retraíra, e, ascendera ao poder, sob as consignas da revolução, foi ganhando terreno, e, sob os escombros dessas bandeiras, veio a dominar, cerca de duas dezenas de anos mais tarde, totalmente, as rédeas da dominação.

Com o descrédito total da antiga União Soviética, nos anos 90 do século XX, mudaram rapidamente de alianças do capitalismo de Estado para o capital financeiro liberal e desclassificado.

Afastando-se das velhas ilusões pseudo-revolucionárias das teses soviéticas (russas, maoístas ou albanesas), novas gerações procuram restaurar o seu orgulho nacional, escudando-se sob ideologias religiosas, católicas, na Polónia e em parte na Roménia, Hungria e Roménia, islâmicas, em grande parte de África e Médio-Oriente.

A reprovação desta avançada islâmica não pode ser feita sob a alçada do neo-colonianismo, mas sim através de um novo programa de revolução que seja radical, completo e sirva os interesses gerais dos povos, e, essencialmente, das classes laboriosas.









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