sexta-feira, 15 de agosto de 2014

CGTP E CANAIS ROCHA: UM ELOGIO À PRÁTICA ANTI-DEMOCRÁTICA


1 -  Morreu, há dias, Francisco Canais Rocha, um antigo funcionário e membro suplente do PCP, que depois de detido e de ter falado na Polícia Política do regime fascista de António Salazar e Marcelo Caetano, foi ostracizado por aquele partido, já depois do 25 de Abril de 1974.


Esteve indigitado pelo PCP, de Álvaro Cunhal, para ser o ministro do Trabalho do I governo provisório, mas alguns oficiais, naturalmente com apoios civis *qualificados* do MFA, que vasculharam os primeiros documentos da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) detectaram algumas informações duvidosas sobre o passado de Canais Rocha, que o substituíram pelo então Presidente da Direcção do Sindicato dos Bancários do Norte, Avelino Pacheco Gonçalves, que exerceu funções entre 16 de Maio e 17 de Julho de 1974 e que tinha ligações à Intersindical, então já controlada pelo partido cunhalista.


No entanto, vieram a colocá-lo, fraudulentamente, na liderança da Intersindical Nacional, logo a 27 de Abril até Agosto de 1974, altura em que foi destituído, "por razões de ordem pessoal alheias à actividade sindical", razões estas que nunca foram explicadas, frontalmente, quer pelo PCP, quer pela hoje central sindical CGTP-IN até hoje.


Canais Rocha nunca fora sindicalista de base, nem dirigente sindical.


Na altura, esta destituição só ocorreu depois de, publicamente, ter surgido na Imprensa que Canais Rocha prestara declarações consideradas graves na então PIDE/DGS, o que o visado apenas veio a confirmar em 1986, mas nunca especificou a sua eventual gravidade.


O que é certo é que o PCP não emitiu uma linha sobre o falecimento de Canais Rocha, mas, a CGTP-IN fez um largo comunicado laudatório, elevando o falecido a "destacado militante antifascista, sindicalista, historiador, democrata", todavia, sem qualquer explicação real e factual do seu afastamento da actividade daquela central.

Deve aquela central essa exigência histórica, como instituições que se dizem democratas e transparentes: esclarecer.


O que é curioso é quem faz, politica e ideologicamente, o mais rasgado elogio, acriticamente, a Canais Rocha, é o Bloco de Esquerda, através do seu site "EsquerdaNet", com data de 10 de Agosto - será a caixa de ressonância do PCP, neste caso? - apelidando-o de "fervoroso combatente antifascista e um dos mais destacados nomes do distrito de Santarém na luta contra o fascismo".


Da sua real actividade sindical, apenas se conhece a sua acção, sempre, como "funcionário político" em Sindicatos, como o dos Electricistas do Sul ou mesmo na região de Santarém. 


Nos Electricistas, foi ali colocado como assessor da direcção. 


2 -  A questão *Canais Rocha* seria um assunto menor se não tivesse atrás de si, quer da parte da actual CGTP-IN, como do PCP, como seu "controlador político", tal como a UGT é uma estrutura ligada ao poder político saído do 25 de Novembro, uma 

omissão propositada da verdade histórica e dos 

artifícios anti-democráticos que aquele partido 

efectuou para desarticular o modelo nascente, em 



1970, da primeira Intersindical Nacional.





Oficialmente, a Intersindical Nacional, que, mais tarde, já sob a supremacia anti-democrática do PCP, se transformou em CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses), tem como data de criação o dia 1 de Outubro de 1970.

Na realidade, segundo sindicalistas que participaram na reunião de cinco sindicatos - de que apenas quatro assinaram a convocatória para um reunião alargada intersindical extensiva a 19 direcções -, ela ocorreu a 28 de Setembro desse ano. 


Assim, as direcções dos Sindicatos Nacionais dos Caixeiros do Distrito de Lisboa (presidida por Malaquias Pinela), do Pessoal da Indústria de Lanifícios do Distrito de Lisboa, cujo Presidente era Manuel Lopes, dos Técnicos e Operários Metalúrgicos do Distrito de Lisboa, liderado pelo operário da TAP Santos Júnior e o Sindicato dos Empregados Bancários do Distrito de Lisboa, onde o Presidente era Daniel Cabrita, mas os quadros principais se chamavam Pina Correia e Ferreira Guedes, enviaram uma carta a 19 estruturas sindicais eleitos para uma reunião, apelidada de "sessão de trabalho para estudo de alguns aspectos da vida sindical cuja discussão lhes parece da maior oportunidade". 



Repressão da greve da TAP em 1973

A reunião efectuou-se a 11 daquele mês, com a presença de representantes mandatados de 13 estruturas.


Ora, a relação de forças no interior dos corpos gerentes dos principais sindicatos que estavam a impulsionar a Intersindical Nacional não eram favoráveis ao Comité Central do PCP, liderado por Álvaro Cunhal, nem muitos dos jovens militantes ou simpatizantes daquele partido que estavam em algumas dessas direcções se sentiam atraídos pela política de "unidade de todos os portugueses honrados" e de "pequenos passos" face ao regime fascista de Marcelo Caetano.



O que é factual é que os dois maiores sindicatos operários, por simplificação Metalúrgicos e Lanífícios de Lisboa, fomentadores das reuniões intersindicais, eram dirigidos, maioritariamente, desde aquele ano - 1970 - por elementos eleitos que estavam *à esquerda* da política cunhalista. 

Nos Bancários de Lisboa, embora, nominalmente, o Presidente fosse Daniel Cabrita, na realidade, em 1969, tal cargo deveria ter sido ocupado por Ferreira Guedes, mas o governo impediu-o que tomasse posse. 

Por razões de tomada de posições político-sindicais, o então secretário de Estado do Trabalho Joaquim Silva Pinto do governo de Marcelo Caetano impôs a suspensão de alguns dos dirigentes mais influentes daqueles quatro sindicatos, precisamente três dirigentes metalúrgicos entre os quais Santos Júnior, que era o principal impulsionador das reuniões intersindicais.


Nos Bancários de Lisboa, aquele governante impediu, precisamente, as candidaturas de Ferreira Guedes e Pina Correia, vindo esse cargo ser ocupado por Daniel Cabrita, que, dois anos depois foi detido por ter assinado uma carta a protestar quanto à representatividade da delegação governamental a uma reunião da OIT (Organização Internacional do Trabalho).


Curioso - e isto tem de ser referenciado e relembrado perante os elogios prestados, que logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, Canais Rocha esteve como simples "conquistador político" do Sindicato dos Escritórios de Lisboa, onde se intitulou dirigente interino  (acuso eu *usurpador* de um estatuto profissional que nunca teve) - é que aquele, na senda da directiva dos seus superiores, tivesse atropelado todos os direitos que o novo regime trouxe, à revelia da democracia e da liberdade e da representatividade eleitoral laboral, e isto para colocar a única estrutura sindical, que veio a ser reconstruida laboriosamente por sindicalistas simples e jovens, de alma e coração, em mera arma de "guerra política" para ganhar peso no regime abrilista, seja considerado como um *herói da classe operária*.

3 - A Intersindical Sindical pós 25 de Abril - que mais tarde - de golpe em golpe se tornou uma estrutura burocrática e anti-democrática chamada CGTP-IN, já nada tem a ver com a luta heróica encetada desde 1969.

E Canais Rocha foi um instrumento canhestro desse caminho anti-democrático. 

Não merece ser louvado. 

Merece ser tratado como bonzo sindical que foi. Esteve preso é certo, mas não sabemos o papel que desempenhou.

A luta contra esta CGTP, que pertence ao passado, a luta contra a sua política deve ser levada a efeito, ideológica e praticamente, pelas novas gerações, com a criação de uma nova central sindical democrática e revolucionária. 

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