1 –
O que está a suceder, nos últimos meses, na Síria e também no Iraque, deve ser
analisado e interpretado em ligação com a evolução dos acontecimentos mundiais
desde a crise financeira e económica capitalista desde 2007/2008.
Em
meados de 2015, a Síria estava no limiar da fragmentação total, destruída pela
cupidez norte-americana que não teve pejo em lançar o caos no país para substituir
o actual regime por governos *fantoches* formados por diferentes facções de
*combatentes da liberdade* jihadistas que lhes permitiriam, através de *feudos*
menores, rapinar e controlar as riquezas minerais, em especial o petróleo e o
gás para as multinacionais petrolíferas, ligadas ao capital de Wall Street.

O
Iraque, onde os Estados Unidos da América foram o invasor e ocupante em nome da
sua *liberdade* e dos seus * direitos humanos*, destruidor do país desde 2003,
ficou destroçado, ensanguentado, desarticulado, entregue, em grande parte do
território, aos jihadistas wahbadistas, enquadrados, militarmente, por antigos
quadros militares do regime de Saddam Hussein, tranvestidos, agora, de
apologistas do EI.
No
fundo, parecia que o rumo traçado pelos EUA para o controlo económico e
geopolítico da região com o retalhamento dos países produtores petrolíferos
iria dar novo alento aos objectivos norte-americanos de retomar a sua
supremacia sobre as outras potências.
Ora,
em poucos meses, a Rússia intervém directamente na Síria, e, indirectamente, no
Iraque, em parceria militar com o Irão e o Hezbolá libanês, e, as debilidades
económicas e castrenses norte-americanas vêem ao de cima. Um sinal de
decadência evidente do sistema capitalista norte-americano, e, por tabela dos
seus congéneres ocidentais.
E
a Rússia fortaleceu-se, militar e economicamente.
2
– De certo modo e em certo sentido, é esse o sentimento que existe nas classes
dirigentes em Washington. O capitalismo financeiro sediado em Wall Street está
a perder o controlo sobre o seu sistema político.
E,
no âmbito geoestratégico, o controlo da sua ponta de lança militar-imperial, a
NATO.
A
«cavalgada sem freio» em direcção ao Magreb, Próximo e Médio-Oriente da chamada
*aliança ocidental* por terras do Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Somália, Sudão,
está em banho-maria, mesmo em retrocesso, com os +aliados+ europeus dos Estados
Unidos, em retirada, deixando o seu parceiro, a gesticular sobre a falta de
empenhamento daqueles.
Na
realidade, mesmo na Europa, sendo mais precisos na União Europeia (UE), os
governos deram como tarefa à NATO, nesta longa crise de refugiados que a
percorre, a *fiscalização*... das águas costeiras no Mediterrâneo.
Nem
se fala, nem é pedida, na vaga de atentados que atinge vários membros europeus
da NATO, a *solidariedade* desta instituição.
A
obsessão dos EUA é a Europa. Mas, a UE já não olha para Washington.
Aqueles procuram,
por todos os meios, segurá-la firmemente nos braços da sua dependência do
capital financeiro de Wall Street.
Por
isso, brandem, através de ponta de lanças estribados em declarações de generais,
senadores, ou mesmo de candidatos às próximas eleições presidenciais
norte-americanas, o «perigo» que vem da Rússia.
Falam mesmo, com palavras
evasivas, em possível «invasão» iminente dos Exércitos de Moscovo.
E
isto, porque, uma realidade nasceu e proliferou, apesar de tudo, com a
Comunidade Económica Europeia: a necessidade de maiores territórios para o
alargamento comercial em espaços maiores, sem entraves alfandegários e
fronteiriços.
E
o complemento desse alargamento passará por território russo.
Eis,
portanto, o busílis da questão.
(A
ameaça de cessão do Reino Unido da UE – a quinta coluna dos EUA - e o fluxo
descontrolado de refugiados deve ser enquadrado neste problema).
O
avanço da CEE para UE é, simultaneamente, do interesse das suas burguesias, mas
também das classes trabalhadoras.
Porque
será essa grande Europa, que é historicamente o centro das grandes
transformações sociais e revolucionárias, que em caso de novas convulsões,
poderá contribuir para lançar os germes de uma nova sociedade.
3 –
A evolução do capitalismo financeiro está a bater num muro, em que o outro lado
já não tem a continuidade no modelo específico ocidental.
O capitalismo
financeiro atingiu dimensões mundiais com vários centros de decisão.
Em
concorrência feroz de interpares.
Estes novos centros também estão a patinhar com muros e sem caminho estabelecido.
A
UE, apesar da crise, permanece, com o euro a servir de farol para as novas
transacções mundiais.
Os
BRIC´s procura lançar a sua moeda como unidade de troca e de financiamento
transnacional à revelia do dólar e de Wall Street.

Existe
desorientação real nas superestruturas capitalistas. Porque as suas economias
estão em derrapagens, sem se ver uma luz ao fundo túnel.
Na
actual fase da evolução societária, existem condições materiais para uma
ruptura de onde pode vir a surgir uma nova sociedade.
São
factos indicativos evidentes desde a crise económico-financeira do capitalismo
de 2007/2008, que permanece e se tem aprofundado desde então: Será escusado
tentar esconder estes factos – as forças produtivas materiais societárias estão
em contradição com as actuais relações de produção existentes
Estamos
em época, mais ou menos prolongada, de revolução social?
Apontamos
para isso, e, esses indícios vem justamente do centro capitalismo
internacional, por excelência, os EUA.
Esse
indício vem, precisamente, da sua superestrutura política.
A
campanha eleitoral presidencial naquele país centra-se, a nível de ideias, entre
o candidato republicano Donald Trump que defende a fascização do poder estabelecido
e o candidato Bernie Sanders, que preconiza *a salvação* do mesmo através do
*socialismo*, ou seja de um poder de compromisso classista chamado
*social-democracia*.
Como
vai ser essa ruptura política ou asfixiamento por métodos violentos, os
próximos tempos o vão determinar.
A
questão principal para uma nova sociedade vai depender do papel prático que as
classes trabalhadoras vão desempenhar nos próximos anos.