terça-feira, 16 de agosto de 2016

90 ANOS DE FIDEL: DO REVOLUCIONÁRIO SÓ RESTA O MITO

1 – O antigo Presidente do Estado cubano Fidel Castro fez, sábado, 90 anos.

O ainda líder político de Cuba, já que dirige o partido que governa o país, formalmente retirado dos negócios correntes do Estado, apresenta-se, ainda agora, como revolucionário e comunista, alicerçado no facto de ter encabeçado os partidários que derrubaram o regime ditatorial capitalista pró-americano cubano do sargento Fulgêncio Batista, na noite da passagem do ano de 1958.

O regime castrista efectuou-lhe homenagens laudatórias, procurando fazer crer que Castro representa o mesmo ideário dos primórdios da Revolução anti-imperialista cubana.

Mas, continua Castro a ser o revolucionário que liderou a revolução nacional anti-imperialista de 1958?


2 – O papel desempenhado por Fidel Castro, nestas quase seis décadas, não se analisa pelas suas declarações a favor de uma ideologia ou de um estado de espírito, mas sim pelo protagonismo que desempenhou e desempenha no interior da sociedade cubana.

Em 1958, o grupo guerrilheiro de Fidel Castro – Movimento 26 de Julho - tomou Havana, após cerca de dois anos de combates contra o regime de Fulgêncio Batista, um protectorado dos Estados Unidos da América.

Ganhou a governação contra o poder de Estado existente, mas também contra a orientação política do então maior partido oposicionista, o pró-soviético Partido Comunista de Cuba.

A mudança de regime em Havana deu-se com uma revolução nacional anti-imperialista, numa conjugação de forças que incluíam a burguesia liberal, cujo representante era Manuel Urrutia Lleó, que foi o primeiro Chefe de Estado em 1959.

O novo poder político mereceu, de imediato, a hostilidade da administração norte-americana, o que levou Fidel Castro a procurar uma aliança com a então União Soviética.

Em poucos meses, o novo regime assume-se como socialista. Desfaz o velho PCC e funda um novo, a imagem e semelhança do novo poder, liderado por Fidel Castro.

Preconiza medidas de aparente socialização da sociedade, como a apropriação dos meios de produção.

Decreta e vai formalizando medidas económicas e sociais, que são do agrado de uma maioria do povo: tais como a diminuição do fosso salarial, ensino e saúde para todos.

A sociedade cubana era na altura do derrube do regime de Fulgência Batista uma sociedade de latifúndio, com um fraco desenvolvimento industrial. O proletariado era muito minoritário e sem real expressão no desenvolvimento societário.

Em termos económicos, o poder nascente adquiriu o modelo de capitalismo de Estado, com uma minoria a organizar a instituição estatal em torno dos interesses específicos que se vão tornar dominantes.

À medida que a sociedade cubana se tornava dependente das exportações para a ex-União Soviética e seus países +satélites+, dentro do regime cubano começam a verificar-se clivagens, que não surgem, aparentemente, à luz do dia, mas tem a sua expressão com a saída de Che Guevara do governo e de todas as funções políticas em Cuba e a saída para procurar «focos» guerrilheiros no exterior.

Guevara tinha criticado publicamente a antiga URSS no decorrer de um périplo ao estrangeiro, a chamada «declaração de Argel».

Ernesto Che Guevara foi-se tornando, progressivamente, crítico do «modelo socialista» implantado na ex-URSS.

Hoje, conhecem-se os seus escritos políticos sobre a situação nos chamados países socialistas.

Num carta de 1965, dirigida ao então ministro da Cultura cubano Armando Hardt, ele manifesta-se contra «o continuísmo ideológico» do regime face à política soviética.

Mais tarde, numas «notas críticas» sobre o Manual de Economia Política da Academia de Ciências da URSS, elaboradas entre 1965 e 1966, Guevara já assinala mesmo que os chamados países socialistas tinham entrado abertamente na via capitalista.

3 –  Embora o regime castrista não tivesse apoiado a via de desagregação do sistema soviético de capitalismo de Estado, e, continuasse com proclamações sonoras no apoio ao socialismo, o certo é que o Estado cubano era (e é) dominado pelo Capital.

(Guevara pode considerar-se como uma ténue via radical que não teve consistência económica e ideológica para subverter a situação).

A sua apropriação «colectiva» dos meios de produção ficou nas mãos dessa minoria que se auto-intitula revolucionária e que instituiu o novo Estado aos seus interesses.

A diferença formal entre o poder político castrista e o poder do capitalismo liberal de Wall Street assenta «numa maneira frugal» como beneficia da apropriação do produto dos meios produtivos.

O impulso da revolução cubana de 1958 para a via socialista exigiu um desenvolvimento económico que não estava ao alcance da sociedade, nem teve o apoio de revoluções socialistas noutras partes do mundo, que não existiram ou não conseguiram vingar.


Fidel Castro é um protagonista contraditório produto dos acontecimentos que sucederam no Mundo, ao longo de décadas, mas que não se sedimentaram.


O revolucionário Castro desapareceu com o ascenso contra-revolucionário que alastrou pelo planeta desde segunda década do século XX. 
Embora a sua auréola se mantenha em certos sectores sociais mundiais.

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