terça-feira, 9 de agosto de 2016

TRUMP: PROTECCIONISMO SIGNIFICARÁ GUERRA

1 – Os Estados Unidos da América, que, desde a II Grande Guerra, andam por todo o Mundo a expandir, pelo poder das armas, a sua visão de império «democrático», confronta-se agora com a candidatura presidencial do Partido Republicano, representada pelo especulador capitalista Donal Trump, que anuncia que, se for vitoriosa, haverá uma retracção do seu dispositivo expansionista castrense, bem como um corte com os tratados comerciais internacionais.

Na realidade, nestes 60 anos, os EUA semearam pelo mundo pequenas e médias guerras, desprezando e trucidando os direitos nacionais de Nações, países e povos.

Eis os principais, para que conste:
Indochina (1946–1954), Coreia (1950–1953), Laos (1953–1975), Líbano (1958), Vietname (1959–1975), Baía dos Porcos (1961), República Dominicana (1965–1966), Camboja (1967–1975), Chile (1973), Brasil (1964), Argentina (1976), Bolívia (governos militares – 1964/82), Venezuela, Perú, Equador, Uruguai, conflito cambojano-vietnamita (1977–1991), Líbano (1982-1984), Granada (1983),  Panamá ocupado pelos Estados Unidos em 1989, Golfo (1990–1991),  Iraque ( desde 1991), Somália (desde 1992), Haiti (1994), Bósnia, 1994, Jugoslávia, Kosovo (1998–1999), Afeganistão (desde 2001), Noroeste do Paquistão (desde 2004), Iémen (desde 2010), Líbia (desde 2011, Síria (desde 2011).

Neste período, a classe dirigente norte-americana construiu ao redor do planeta um sistema colonial gigantesco de bases militares, na realidade, fortes comerciais de rapina de matérias-primas.

Segundo o Pentágono, dados de 2005, existiam 865 bases nos mais diferentes locais, desde a Europa à América do Sul.

Não estavam contabilizadas as que vieram, entretanto, a surgir pelo Médio-Oriente (Afeganistão, Paquistão, Iraque, Kuwait, Qatar, Kosovo, entre outros).



O militarismo expansionista custa dinheiro.

Pelos dados recolhidos, em diferentes órgãos de imprensa, os EUA gastam anualmente entre 100 mil e 120 mil milhões de dólares com toda a logística das suas bases no exterior. (Não contabilizando as disseminadas pelo Iraque, Afeganistão e Paquistão).

Aparentemente, deveria ser o preço *controlado* da manutenção imperial, como vinha sucedendo.

Então porque as ameaças contra os aliados da NATO, em especial os europeus, de os deixar «ao deus dará»?

Então, porque a ameaça de saída da Organização Mundial do Comércio (OMC), criada sob a liderança e pressão do capital financeiro norte-americano para penetrar nos mercados internacionais?

Então, porque a ameaça de não subscrever os acordos de livre troca comercial, como o Tratado Transpacífico (TPP), justamente elaborados para relançar o poder das multinacionais norte-americanas em supremacia face aos Estados?

2- O desmoronamento da antiga União Soviética colocou os Estados Unidos da América no lugar da potência dirigente do Mundo, e, especial da Europa, que estava dividida, desde a II Grande Guerra, na vassalagem por dois blocos: a NATO e o Pacto de Varsóvia.

Essa desagregação lançou, na altura, para a agenda mediática um analfabeto, vira-casacas e informador policial chamado Ronald Reagan, que foi colocado no poder presidencial pelo capital financeiro.

(Claro que tal facto, para a História, já, agora, é, apenas, uma notícia de rodapé em letras pequenas).

Mas, na altura, Reagan transformou-se um ídolo da grande burguesia financeira, +deificado+ pela chamada «ideologia neocons», através dos orgãos de informação de Wall Street (ABC, Fox, CNN, CNBC). 

Não porque liderou a «luta» pela desagregação soviética, mas, porque elevou o sistema de império +democrático+ a modelo de dominação do mundo.

Na realidade, Reagan era o produto acabado da imagem arrivista e superficial da grande burguesia financeira.

(Como o foram os seus sucessores numa cínica *alternância democrática* entre  facções de Wall Street).

E ele foi o arauto propagandista no chamado mundo ocidental, em como, sob as bandeiras progressistas das eleições universais e dos direitos humanos, se podem constituir governos sufragados de oligarquias financeiras.

Em que a especulação bolsista, as fraudes criminosas com as transferências bancárias e as deslocalizações industriais, eram a matérias primeiras para a exploração e opressão desenfreada das classes trabalhadoras.

Tudo serviu para lançar as garras imperiais democráticas pelo Mundo.

Mas, este sucesso de uma política expansionista a todo o custo, com o pau e a cenoura, teria de bater na parede.

Progressivamente, a expansão, ocupação e exploração capitalista imperial norte-americana foi desenvolvendo um forte sentimento de reacção nacionalista e anti-imperialista , que, em certos casos, geraram mesmo revoluções, algumas caminhando, par a par, com um programa socialista entretanto degenerado.


Com o desfecho da II Grande Guerra, ao mesmo tempo que, pelo planeta, se começava a forjar um movimento anti-colonialista (Índia, Paquistão, China, Vietname, entre outros), a burguesia dos países europeus mais massacrados pela destruição violenta lançou-se num processo de industrialização comum, que enquadrou, mais tarde, um novo tipo de constituição de uma formação estatal transnacional.

E tal caminhada, embora fosse realizada em ligação profunda com o capital financeiro norte-americano, com a crise geral de 2007/08, que se prolonga até hoje, levou a União Europeia, atolada nessa mesma crise, a fazer uma decantação, ainda bastante ténue, é certo, cujo rumo geopolítico, a tem levado a um afastamento do centro financeiro da City londrina, filial de Wall Street, com o reforço do Banco Central Europeu (BCE) em Frankfurt.

O que, por seu turno, em termos militares, irá cavar, cada vez mais, uma clivagem (ainda muito subterrânea) com a NATO/EUA.

Na América do Sul, onde, ao longo dos últimos 100 anos, se deram conflitos violentos, por vezes, com cariz revolucionário, contra a suserania e ocupação norte-americanas, a burguesia *progressista* social-democrata e liberal, decalcando do modelo europeu, iniciou, ainda, nas últimas décadas do século passado, um processo de integração económica dos respectivos países, que apelidou de MERCOSUL, indo até mais longe, forjando um princípio de Exército único, com o UNASUL.

Abertamente, contra a hegemonia ianque.

Mereceu o apoio directo da UE, e a hostilidade, primeiro latente, hoje, já aberta dos EUA, através da grande burguesia *criola*, vinculada a Washington, cujos efeitos se começam a sentir.

3 – É, pois, o aparecimento de espaços geoestratégicos (que são também geoeconómicos) em concorrência com o papel hegemónico dos Estados Unidos, que está a preocupar a grande burguesia norte-americana.

A principal preocupação concorrencial de Washington, não é, propriamente, no imediato, a UE e o Mercosul, mas o espaço geoestratégico, que se está a materializar em enquadramento político, económico e militar, formado pela Organização para a Cooperação de Xangai.

Criada, formalmente, em 1996, sob a égide da China e a Rússia, que enquadra ainda, presentemente, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão, Índia e Paquistão, que tem, ainda, como observador o Irão.

Eles colocaram de pé já um grande banco (Novo Banco de Desenvolvimento) e está em estado avançado a substituição do dólar, como moeda referencial universal de troca.


Este conjunto de países representa mais de 60 % do território terreno e 50% da sua população, controlando uma parte substancial das matérias-primas do planeta.

O busílis da questão está no confronto concorrencial: Rússia e China têm capacidade militar capaz de fazer valer a sua diplomacia e incrementar, independentemente, a sua economia.

Estão a fazê-lo utilizando a seu favor, o livre comércio, que a OMC lhes proporcionou.

Aproveitando, justamente, as fraquezas internas da economia dos Estados Unidos.

Claro que o maior mercado comercial do Mundo, neste momento, continua a ser a UE.

E, tal facto tanto o é para os EUA, como para a Rússia e para a China.

Mas, a UE para se fortalecer e relançar o seu desenvolvimento necessita de alargar as suas exportações para fora do seu território.
A única cobertura que utilizam na sua política externa é o manto da NATO.

Ou seja, a sua diplomacia fica travada nos interstícios dos interesses primeiros dos norte-americanos. Nem têm, portanto, as suas forças armadas conjuntas.

Para que a Europa seja uma força unida política, além da sua construção interna em harmonia, sem pôr em causa os sentimentos nacionais, requer um Exército único.

Este tornou-se, na actualidade, uma necessidade económica.

Por enquanto, esta UE, a principal potência comercial do Mundo, está amputada, permanece um campo de disputa, principalmente entre os EUA e a Rússia. Os primeiros ocupam-nas. A segunda precisa dela para aumentar as suas capacidades exportadoras e de incremento económico.

Mas, para a Europa, a Rússia é um território natural e essencial para a caminhada da burguesia no sentido da sua verdadeira unidade europeia, sem fronteiras, sem entraves alfandegários e sociais, na circulação de mercadorias e força do trabalho.

A supremacia da UE, no presente, face à Rússia está na sua capacidade produtiva e desenvolvimento tecnológico.  

A Rússia deu um grande salto, nos últimos 20 anos, na sua força produtiva, incluindo a armamentista, depois da decadência constante da fase final do império soviético, e da desarticulação e marasmo que se seguiu com o período de Boris Ieltsin.

É potência militar que ombreia com os EUA. Mas a economia produtiva não acompanhou, ainda, a indústria de ponta do armamento.

É, neste contexto, que a UE se torna o território mais frágil no confronto entre duas grandes potências castrenses, armadas até aos dentes.

É +um campo de batalha+ militar preferencial, se se desorganizar, se se desunir, se não souber impor a sua verdadeira força.

A única potência dominante, essa, já não o é.

4 – A concorrência acirrada entre potências militares custa dinheiro. E cada vez que se evoluciona no domínio de conseguir armas cada vez mais sofisticadas, mas sempre mais caras, tal facto leva a um espiral de despesa pública, que somente poderia ser minimizada se a produção industrial e comercial interna acompanhar a sustentabilidade dos orçamentos militares.

Esse, hoje, é o calcanhar de Aquiles do regime norte-americano. Os EUA perderam a sua hegemonia industrial, e economia retraiu. A falência paira sobre a capacidade produtiva. 

Embora aquela seja, ainda, aparentemente, elevada.

Os Estados Unidos da América têm a maior dívida pública do mundo em crescimento, e, com o dólar a enfraquecer: 19,268 biliões  de dólares, 102% do PIB.

As receitas – valores de 2014 – atingiram os três biliões de dólares, mas as despesas atingiram os 3,5 biliões.

As exportações trouxeram ao país 1,62 biliões de dólares, mas importaram 2,35 biliões em 2014.

A pobreza aumentou. Cerca de 15 % vivem mesmo abaixo do seu limiar, segundo dados de 2013.

Embora os censos oficiais coloquem os valores do desemprego nos 5%, este valor aumenta significativamente nos antigos centros industriais. O certo é que os mesmos censos assinalam que a oferta de emprego não aumentou em valor estável desde a crise de 2007/08. Os salários estão estagnados há cerca de 10 anos.


O grande problema, para a grande burguesia norte-americana, é, portanto, o enfraquecimento da sua produção interna.

A luta de classes que está no interior da actual disputa de candidatura presidencial liga-se, justamente, ao facto de ter aumentado a crise económica e financeira na sociedade norte-americana.

Os de baixo estão a manifestar-se contra a lúmpen grande burguesia financeira. Trump e Sanders apontaram, precisamente, o dedo à sua representante mais mediaticamente comprometida com Wall Street, Hillary Clinton.

Sanders cedeu, como social-democrata que é, Trump – ele próprio um arrivista criminoso pertencente esse lumpen financeiro, critica o sistema para conseguir diluir esse descontentamento no seio da sua política, que vai ser o da repressão fascista contra os desfavorecidos, quer sejam proletários brancos, quer de minorias negras, árabes, ou hispânicas.

Sobre a propaganda sonora contra o sistema, Trump é, portanto, o representante fascista do capital financeiro (precisamente como o foram Hitler e Mussolini na Europa). Claro que o regime norte-americano não terá o carácter imediato violento do sistema nazi-fascista dos anos 30/40 no continente europeu.

5 – O programa político de Trump, que, até agora, não foi formalmente divulgado, para dar consistência aos seus slogans dispersos, terá de assentar numa via de criar algum emprego, ou seja numa base de recuperação industrial ou pós industrial, com eventual regresso de empresas que foram deslocadas para países estrangeiros.

Ou seja, em termos de economia burguesa, falar em proteccionismo. Tal aposta irá colidir com uma política de exportação, essencial para a expansão imperialista norte-americana.

Colidirá tal política com os tratados comerciais internacionais. Para os pôr em causa, uma eventual administração Trump, se for eleita, terá de desarticular os grandes espaços comerciais internacionais concorrenciais, em particular os elos mais fracos , em termos de segurança castrense, nomeadamente, a União Europeia, e o MERCOSUL.

Estará a saída do Reino Unido da UE inserida  nessa estratégia da grande burguesia norte-americana? E a tentativa de desintegração do MERCOSUL, a partir da Argentina, do Brasil e da Venezuela seguirá já essa estratégia?

Se tal suceder, o regresso do «proteccionismo» acirrará as contradições inter-imperialistas.

O que em termos práticos, a médio prazo, significará guerra.






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