domingo, 15 de abril de 2012

OS EUA DE HOJE: A IMAGEM DA POBREZA E DA DECADÊNCIA

 1 - Em Agosto de 2010, fiz uma viagem de 15 dias, em auto-caravana, juntamente com um grupo de portugueses, através seis Estados norte-americanos do chamado "Midwest", nomeadamente Nevada, Arizona, Utah, Wyoming, Idaho e Colorado. 

Passamos por grandes cidades, como Las Vegas e Salt Lake City, mas igualmente por pequenas povoações, como Moab, Jackson, Rexburg, Cortez, Dove Creek, entre dezenas e dezenas de outras.

Foi a terceira passagem minha por terras dos Estados Unidos da América. A primeira das quais começou, nos finais dos anos 80, por Nova Iorque.

Naturalmente, não tenho uma visão profunda da vida económica, social e política daquele país. 

Mas, pelos locais onde andei, procurei saber o que se passava, fiz perguntas, e, principalmente, vi, com os próprios olhos, aspectos - ainda que parcelares - da vivência norte-americana.

Verifiquei que havia uma enorme movimentação turística interna no país, mas, também, registei uma presença pouca significativa de residentes nacionais em restaurantes, que não fossem da apelidada "fast food". 

Vi muitas pessoas a viajarem em auto-caravanas, bem apetrechadas, da classe média, mas assinalei, igualmente, o número elevado de pessoas a viverem em caravanas, como casa de habitação.

Fiquei perplexo com o que sucedeu em dois Estados. 

No Nevada, em especial em Las Vegas, o jogo era "o produto comercial" dominante em todos os hotéis e similares. 

E, conforme nos informou um guia durante um itinerário pelas cidade. Ali tudo era dominado pela Máfia, incluindo "a segurança interna". Dos principais hotéis centrais daquela grande cidade do deserto, todos pertenciam a essa Máfia, com exclusão de um de que não fixei o nome. 

E, do ponto de vista social, o mais aberrante desprezo pela vida: os anúncios de prostituição masculina e feminina realizados, em pleno ar livre e ostensivamente, na avenida principal da capital do Nevada, por centenas de "clandestinos" latino-americanos, homens, mulheres e crianças que, com *placardes* normalizados e organizados, exibiam os números de telemóveis dos ditos e das ditas para "um serviço"  em prontidão "em poucos minutos".

Nos restaurantes, que frequentei, os empregados eram, quase todos, latinos e/ou de países do Leste europeu, que, quando inquiridos sobre a sua situação, se escusavam, por vezes, sequer a dizer o nome. 

No Utah, pelas informações que nos deram os nossos organizadores, o domínio económico e político pertencia a Igreja Mórmon.

Ou seja, o poder central está colado com cuspo. 

2 -  Esta longa introdução tem a ver com a confissão da realidade que os próprios fautores da decadência norte-americana fazem: aquele país que cresceu e evoluiu com o trabalho esforçado, abnegado e mesmo escravo de milhões de emigrantes de toda a parte do mundo está em depressão e recessão, há dezenas de anos, fomentadas pelos próprios beneficiários de um regime, que foi incensado, e hoje está na sua fase moribunda.

São os representantes político-económicos do próprio regime - e sistema - que o reconhecem.

No princípio do mês, o Presidente do Banco Central norte-americano, a Reserva Federal (sigla FED), o judeu militante Benjamim Bernanke, ressaltou: a economia dos EUA "está longe de se ter recuperado completamente" da crise financeira, engendrada, há dezenas anos, e aparecida a olho nú, em 2008, pelo complexo financeiro capitalista especulador de Wall Street.

Os grandes órgãos de comunicação social dos EUA, tipo Wall Street Journal, New York Times, Fox News, NBC, entre outros, com declarações sonantes de sumidades especuladoras, como George Soros, faziam alarde de um "reerguer" da economia do país, já nos princípios deste ano.

O balde da água fria da economia real está aí. "Passaram três anos e meio dos dias mais sombrios da crise financeira, mas a nossa economia  continua longe de se poder dizer que a recuperação esteja a produzir os efeitos", referiu Bernanke, numa conferência proferida em Atlanta.

"Os custos humanos e económicos da crise colocam na ordem do dia a importância de tomar todas as medidas necessárias para evitar a repetição dos eventos dos últimos anos", frisou, não explicitando que, com a sua afirmação, queria dizer que o empobrecimento da população é um facto, que vem de trás e continua, mas também que novas crises financeiras podem estar latentes.

Então o que é preocupante na economia norte-americana?: 

a riqueza nacional está a refluir, sempre penalizando os dependentes e enchendo os bolsos daqueles que estiveram na origem da crise.

Contra a opinião dos chamados analistas e economistas do regime, em Março findo,  segundo as estatísticas, o mercado de trabalho estagnou. 

Os valores que aqueles preconizavam em crescimento foram inferiores aos estimados, o que em termos práticos, comparativos, quer dizer que a percentagem de desempregados continua a crescer.

Segundo a imprensa económica do país, que se baseia nas estatísticas divulgadas pelo Departamento de Trabalho da Administração de Barack Obama, em finais de Março, foram registados 357 pedidos de subsídio de desemprego, quando o mesmo Ministério esperava que apenas surgissem perto de 350 mil. Ou seja, em termos práticos, a economia não dá mostras de evolução.

3 - As conclusões do Departamento de Estatísticas do Recenseamento, divulgado em Washington, relativos a 2010, ressaltam que mais de 46 milhões de norte-americanos vivem na pobreza. O censo refere que é a taxa mais elevada dos últimos 17 anos.

O mesmo relatório sublinha que o rendimento médio das famílias desceu no último ano (2,3 %)  e o número de pessoas sem seguro médico aumento no mesmo período (50 milhões de pessoas).

Aquele departamento especifica que a taxa de pobreza nos Estados Unidos subiu de 14,3 por cento em 2009 para 15,1 por cento em 2010, adiantando que o número de pobres é o mais elevado desde que a instituição estatal começou a fazer estatísticas sobre a pobreza, há 52 anos. 

O relatório admite que a continuar esta evolução - com um abrandamento global da economia - o país pode estar a entrar em recessão novamente, tal como há três anos.

Um organismo não governamental, o National Poverty Center, que fez um estudo a nível nacional,  sustenta que 1,4 milhões de famílias estão a viver com menos dois dólares por dia, ou seja cerca de 60 dólares/mês.

A instituição especifica que, das famílias consideradas em pobreza extrema (866 mil), 25/ são "afro-americanas" e 22%  "hispânicas". 

4 - A Comissão de Inquérito da Crise Financeira de 2008, uma comissão oficial criada para estudar aquela, elaborou um documento de 633, divulgado há meses, concluindo: " a crise resultou da acção e inacção humana, não da mãe-natureza ou de modelos que falharam", e apontou: "os capitães das finanças e os administradores públicos do nosso sistema financeiro ignoraram avisos e falharam ao não questionar, perceber e gerir os riscos crescentes dentro de um sistema essencial ao bem-estar do povo norte-americano".

A comissão, que era constituída por 10 membros, não subscreveu, na totalidade o documento. Quatro dos membros, no final, não assinaram o documento. A imprensa norte-americana escreveu que os quatro eram considerados "republicanos". 

Um das conclusão referida no documento é que "a administração Bush" estava "mal preparada" para enfrentar o que estava já em movimento desde o princípio do século e que tal impreparação contribuiu para a falência do Lehman Brothers.

Outra das conclusões é que os directores do FED (Alan Greespan; primeiro, e Benjamim Bernanke, depois) são responsáveis pelo "grau de desregulação" que permitiram ao sistema financeiro especulativo do país (o relatório não o diz, mas convém assinalá-lo, tanto Greespan, como Bernanke, são membros actos e intervenientes do sistema financeiro sediado em Wall Street, e nele continuam a actuar) actuaram como actuaram.

Um ponto a destacar deste relatório é que os seus executores chegaram à conclusão que a crise não era imprevisível, houve actuação deliberada e consciente de toda a especulação que estava a ser feita.

O seu Presidente, Phil Angelides, ao fazer a divulgação do relatório, fez questão de sublinhar: "se aceitarmos esta desculpa (a crise ser imprevisível) vai repetir-se outra vez".


"Alguns em Wall Streey e em Washington - acusou Angelides - com uma quota-parte da responsabilidade na manutenção do *status quo*, podem sentir-se tentados a limpar a memória desta crise ou a sugerir novamente que ninguèm a poderia ter adivinhado ou previsto".

Interessante é retirar um trecho de uma inquirição ao actual Presidente do FED, Benjamim Bernanke: "Se olharmos para as empresas que estavam sob pressão nessa altura, apenas uma não corria risco de falir". (Naturalmente, as megas-empresas)

Ou seja 12 das 13 principais instituições financeiras e bancárias dos EUA estavam na falência e foram socorridas com dinheiro dos contribuintes.

5- Mudou grandemente a situação da especulação capitalista? Houve contenção nos gastos dos bancos)?

Não. A Administração Obama continua a injectar capital público no sistema financeiro, de tal modo que o governo de Washinton já acumulou uma dívida total de mais de 15 triliões de dólares. Quando Obama subiu ao poder essa dívida era de 10,6 triliões.

E os salários e prémios dos administradores executivos das maiores empresas financeiras e bancárias cresceu 36,5 por cento em cerca de um ano.

Tal como antes da crise, a estrutura governativa e parlamentar dos Estados Unidos continua na mesma senda, como representante servil e obediente do sistema financeiro especulativo do país, especialmente do lobby capitalista judeu de Wall Street: uma enorme agência societária de gestão das acções e dividendos daqueles para sugar a riqueza produtiva e nacional dos norte-americanos.

Eis a realidade do sistema capitalista norte-americano, que apesar do seu imenso potencial em riqueza e poderio militar, se está a esboroar, porque qualquer alternativa de modificação deste estado de coisas não passa pela reforma do mesmo, mas pela sua destruição.

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