segunda-feira, 2 de abril de 2012

PÁSCOA: UMA DATA DE MORTE SEM DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA



O obscurantismo medieval no século XXI

1 - O semanário português "Sábado", hoje publicado, apresenta uma ampla reportagem sobre os dias finais da vida do mítico fundador cristianismo, Jesus Cristo, sustentando, como um dado adquirido: "Foi assim a última semana da vida de Jesus".


Uma jornalista - Isabel Lacerda - enquadra esta afirmação, taxativa, argumentando, sem dó, nem... senso, porque a questão é de senso histórico, que "a ceia pascal (de Cristo e os seus seguidores mais próximos) aconteceu na quinta-feira antes da crucificação. Os julgamentos de Jesus seguiram-se nessa mesma noite. Certo? Errado. Uma nova investigação revela que os momentos finais de Cristo não foram assim".


A jornalista deveria, antes de fazer qualquer juízo ou apreciação sobre o sucedido, inquirir se tudo o que se afirma ou escreve sobre Jesus Cristo e a sua vida, tem consistência histórica.


2 - O cristianismo, como realidade histórica, existe, baseado em documentos coevos, desde a segunda metade do século I DC. 


Está provado por fontes diversas, desde romanas oficiais até de apologistas, que relataram sobre as primeiras comunidades cristãs, onde se inseriam ou se movimentavam.


 Todavia, não existe qualquer documento autêntico da época em que o eventual iniciador da religião viveu. Ou seja, a sua própria vivência pode ser questionada.


Os raros documentos, considerados como canónicos pela Igreja Católica, que relatam a existência de uma personagem Jesus (abreviatura do hebraico antigo Jehsoshuá) Cristo ( uma palavra grega, que quer dizer Ungido, o Rei, o Messias, na sua forma grecizada do hebraico) são os quatro Evangelhos, os Actos dos Apóstolos, as 21 Epístolas e o Apocalipse. 


Ao todo, um conjunto de 27. 


Todos estes livros foram escritos várias dezenas de anos, depois da chamada "crucificação" e "ressurreição" do citado Jesus Cristo. 


E, todos eles, foram conhecidos em língua grega, séculos depois dos eventuais acontecimentos e sucessos. 


Nada existe - até aos dias de hoje - que documente a existência da personagem em aramaico, que era a língua falada e escrita na região, onde teria vivido Jesus Cristo, nem sequer no chamado hebraico bíblico, que era escrito e transmitido pelas elites religiosas sacerdotais de então.


Mesmo os Evangelhos, que mais referências apresentam sobre a actividade de Jesus Cristo, são contraditórios sobre a sua vida. E, a análise histórica científica concluiu, desde o século XIX, que eles foram redigidos por várias pessoas e ao longo de tempos diferentes.


(De assinalar, por exemplo, que Lucas ressalta, justamente, na sua introdução, não referenciando sequer Jesus. 


Cito: "Querido amigo que amas Deus. 
Escreveram-se já várias narrativas sobre Cristo, em que se usaram , como informação principal, relatos que circulam entre nós e que nos foram feitos pelos primeiros discípulos e por outras testemunhas, que viram o que aconteceu. Pareceu-me, contudo, que seria bom verificar todos esses relatos, dos mais antigos aos mais recentes, e,  após um exame completo, dar-te este resumo desses factos que aconteceram no nosso meio, para fortalecer a tua confiança na verdade de tudo o que te foi ensinado".
//Um aparte do tradutor. No início a frase "querido amigo que amas Deus", literalmente é "excelentíssimo Teófilo", que ele regista como sendo que o nome quer dizer "amigo de Deus"//.


Por exemplo, o livro atribuído a S. Marcos é um escrito compósito.


Apenas no prólogo, que cito: "Aqui começa a admirável narração de Jesus, o Messias, o Filho de Deus". Depois ao longo da narração,  Marcos refere sempre e apenas a palavra Jesus.


Por seu turno, o autor das epístolas, que se atribuem a Paulo de Tarso, o romano que aderiu à doutrina cristã, e ficou conhecido por S.Paulo, utiliza, preferentemente, o termo Cristo/Messias.


(Estas citações são retiradas de "O Livro", editado por Publicações Europa América).


3 - Como se pode afirmar que Jesus Cristo teria 30 ou 33 anos ou 37 anos, quando morreu, se os Evangelhos tem versões radicalmente divergentes do evento? 


Em S.Lucas, afirma-se que Jesus, "quando começou o seu trabalho público", (ou missão, noutras versões) teria aproximadamente 30 anos. Um Evangelho refere que essa missão durou três anos, outro salienta apenas que a mesma durou pouco, antes da morte. 


S.João ressalta que ainda não tinha 50 anos.


Na tradição primitiva cristã, apresenta-se a eventual morte de Jesus Cristo como sendo obra dos dirigentes religiosos judeus. 


Aquele teria sido detido por "uma multidão" armada de espadas e mocas, a mando dos sumos sacerdotes, segundo alguns Evangelhos, mas João refere que foi um grande destacamento romano armado, com o seu comandante, que levou a efeito a detenção, embora sob a liderança de "sacerdotes e fariseus", o que merece inverosimilhança histórica, pois nunca o poder de Roma deixaria o poder militar nas mãos de inimigos. 


Além do mais, os soldados romanos tratavam-no como "Rei dos Judeus", o que mais absurdo se torna.



Barbaridades humanas em nome da religião


4 - A vida e actividade - e, acima de tudo, a sua doutrina - de Jesus Cristo foi obra inicial de um processo histórico, que se cimentou por razões de necessidade política e social do próprio Império Romano. Teve repercussões e alargamentos futuros. 


Vingou, essencialmente, no domínio da fé. 


Não tem, todavia, sustentabilidade histórica no seu bojo inicial. 


Existe, é uma realidade histórica mais tarde, como doutrina forjada e formatada, cuja estrutura actual, todavia, nada tem com o cristianismo primitivo.

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