1 –
Curioso, parece que o *filme* da lenta
fascização da França e da Alemanha volta a ressurgir naqueles países.
Tal
como nos anos 20 e 30 do século passado, no meio de uma crise económica,
política e social de uma envergadura descomunal, cujo poder dominante é
exercido pelo capital financeiro, este utiliza as armas mais díspares para,
através dos seus partidos e forças *nacionalistas*, e, com a cumplicidade de
forças policiais e militares, tentar manter o seu domínio por meios ditatoriais.
O atentado ao *Charlie Hebdo*: a segurança em França não existiu
2 –
No dia 13 de Novembro do ano passado, ocorreram ataques de membros do Exército
Islâmico (EI), estabelecidos e perfeitamente enquadrados em França (mas também
na Bélgica, Alemanha, e noutros países da União Europeia e da NATO).
Os
ataques deram-se no centro de Paris e nos arredores (Saint-Denis), com a
utilização de suicidas, que fizeram detonar artefactos, dispararam, quase
militarmente, com espingardas-metralhadoras, e tinham organizado planos de
fugas para os sobreviventes, o que sucedeu, estranhamente, atravessando vários
Estados.
Morreram
mais de 120 pessoas e cerca de 350 ficaram feridas.
Um
clamor apareceu e, nele se entronizou em bicos de pés o débil Chefe de Estado
francês, impondo, de imediato, o estado de emergência, limitando as liberdades
e ameaçando com legislação *purista* de corte da nacionalidade gaulesa sobre os
chamados binacionais, mesmo que nascidos no país, que sejam considerados como implicados
+em actos de terrorismo+.
O
estado de emergência – que se pretende legalizá-lo, permanentemente, na
Constituição, admite detenções e investigações arbitrárias sem decisão
judicial, restringe – e impede mesmo – o direito de manifestação e protesto,
bem como o de circulação, se necessário, se colocarem em causa +a ordem
pública+.
Quais
foram os primeiros resultados práticos visíveis deste estado de emergência?
Mais
de 200 manifestantes detidos por participarem numa acção a favor de medidas
práticas para a cimeira do clima que decorreu em Paris.
E
os resultados das detenções de *suspeitos* de casos de *terrorismo* islâmico, quantos casos tiveram seguimento?
Emergência, apenas para muscular Paris
Muito pouco. Tenho a impressão que não ultrapassam um dedo de uma mão.
Não se sabe nada, porque não existem, sequer até agora, processos
judiciais.
O
que é estranho, até porque já deveria ter havido um *roteiro* organizado, com
pés e cabeça, para +combater o Estado Islâmico+, nos bancos, nos negócios de
armas, no contrabando de petróleo, nos financiamentos a partir de Estados.
Na
realidade, a 15 e 16 de Janeiro de 2015, houve duas acções armadas sangrentas
e, mais tarde, reivindicadas por aquele em Paris e arredores (Charlie Hebdo e
um supermercado judeu), onde o ilustre Hollande já vociferou – só em palavras –
que havia um +ataque organizado+ contra a França.
Então
porque não foram fichados e presos todos aqueles que os serviços secretos
sabiam que estavam prontos a agir?
A
questão é que parte do EI (via Frente Al Nusra) é – ou era, até há pouco tempo
– pessoal amigo do governo francês, que a promovia (talvez continue a
fazê-lo) como +resistência moderada+ a Bashar al Assad, chefe de Estado da
Síria.
Afinal
quem é o verdadeiro inimigo do actual regime francês?
Uma
eventual explosão das classes laboriosas do país face ao aprofundamento da
crise económica do capitalismo.
Nesse
sentido, aí está a reserva *política* de ataque que pode ser conduzida pela
Frente Nacional.
Ora,
nada melhor que aplainar o caminho dando-lhe as bandeiras ideológicas práticas:
a emergência, a *pureza* nacional, a segurança *nas fronteiras da pátria*. Ou
seja, o PS francês deu como alternativas as bandeiras fascistas da FN...
3 –
Actualmente, tal como nos anos 60/70 do século passado, o patronato alemão está
interessado em receber mão-de-obra barata, através de migrantes.
A
situação de hoje é um pouco diferente da vaga migratória do século passado.
Neste período, a Alemanha recebera milhões e milhões dólares norte-americanos
para refazer a economia capitalista.
Recorreu
a um processo de recrutamento, entre o legal e ilegal, do chamado
+trabalhador-convidado+ em que a mão-de-obra mercadejada era trazida de forma
*orientada* e lenta, embora sem grande instrução. Assim, foram arrebanhados
turcos (cerca de três milhões), jugoslavos, portugueses, espanhóis e italianos,
principalmente.
Actualmente,
o patronato alemão está interessado em receber mão-de-obra barata, através de
migrantes do Médio-Oriente, tal como sucedeu nos anos 60/70 do século passado
com os migrantes turcos, e, em menor escala, portugueses, italianos e
espanhóis.
Estes refugiados só existem com apoio turco
Não
é por puras balofas razões humanitárias que o governo de Merkell abriu, numa
primeira fase, as portas à migração.
O
objectivo era, justamente, a entrada de migrantes, essencialmente, letrados,
para acolher mão-de-obra barata que fizesse concorrência ao nível dos
trabalhadores locais e organizados sindicalmente na sociedade alemã.
Só
que a Turquia, acossada por um fluxo enorme de refugiados provindo dos
conflitos – Síria e Iraque - em que fomentou, e fomenta, juntamente com os seus
parceiros da NATO, aproveitou a oportunidade, para organizar através de redes,
para canalizar uma mole indiferenciada de pessoas, que incluía, jovens, mulheres, crianças e até idosos, para os remeter maciçamente com a indicação,
perfeitamente orientada, repito, perfeitamente orientada, para que seguissem
para a Alemanha e países nórdicos.
E,
com esse fluxo desordenado, que, curiosamente, partiu (e continua a partir)
sempre da Turquia, servia (e serve) os objectivos de Erdogan de pressionar a
UE, aflita, para *conter* essa movimentação a troco de choruda compensação
financeira.
Ao
mesmo tempo, pressionar a Alemanha para *facilitar* a aproximação à UE sem
condições.
Ora,
a Alemanha poderia receber esses migrantes, em condições normais
de evolução capitalista da sua economia,
o caso é que, nos últimos dois anos, deu-se uma regressão no tecido produtivo
do país, que entrou em estagnação.
Aqui
o patronato alemão entrou em parafuso, perante a avalanche, que não consegue
fazer entrar na cadeia produtiva, até porque os migrantes são, em grande parte
mulheres, crianças e homens, sem instrução e dificuldade de adaptação.
Pressiona, então agora, a sua chanceler para conter, e até fazer retroceder parte dos migrantes, e, ao
mesmo tempo esse mesmo patronato fomenta, com o apoio de forças de serviços secretos
e de segurança, e, através dos grupos fascistas, o confronto e a xenofobia,
esperando o endurecimento político do regime.
Reflictamos
sobre os acontecimentos de fim de ano em Colónia.

Esta foto colocada na net como sendo de Colónia é uma manipualção: Trata-se de uma agressão ocorrida em Londres à modelo Danielle Lloyd,
Na
realidade, começaram, noticiosamente, a 4 de Janeiro (quem deu a notícia aos
jornais?), empolados três dias depois, com dimensão nacional, e, curiosamente,
apesar da sua aparente dimensão e gravidade.
Desapareceu,
nos últimos dias, quase por encanto, dos noticiários dos grandes meios de comunicação
social.
Um
relato sucinto: a 4 de Janeiro, em certa imprensa alemã, surgem notícias de que
junto à estação ferroviária de Colónia, Alemanha, se produziram desacatos, onde
teriam havido roubos, alguns casos de assédio a mulheres, com apalpões, e, um
ou dois casos de violações (ou tentativas).
Noticiou-se
então que teriam sido um centenas os eventuais criminosos, uma parte,
minoritária, de indivíduos com a «aparência» de norte-africanos e árabes.
Do
primeiro relatório policial, referia-se que os agentes, destacados para o local,
conseguiram dissolver a concentração, levá-los para o interior da estação, onde
os teria abandonado à sua sorte. Sem qualquer detenção ou contenção.
O
sucedido ter-se-ia dado depois do abandono da polícia.
Após
4 de Janeiro, os casos de eventual assédio sexual crescem exponencialmente, e,
fica-se a saber que acontecimentos idênticos tiveram lugar em outros cidades
alemãs em diferentes Estados regionais.
Cito
as interrogações sobre estes acontecimentos feitos, no passado dia 10 pela rádio
pública alemã Deustche Welle.
*O
que se sabe sobre os crimes na passagem de ano em Colónia?
Mais
de uma semana depois dos assédios sexuais contra mulheres na noite de passada
passagem de ano, em Colônia, muitas questões continuam sem resposta.
Confira
o que se sabe até o momento e quais perguntas seguem em aberto.
O
que se sabe
–
Segundo a polícia, os criminosos saíram de um grupo de cerca de mil homens que
se concentrava em frente à estação central de Colónia, ao lado da Catedral.
–
Segundo o presidente regional do sindicato da polícia, Arnold Plickert, já na
noite de passagem de ano, os agentes abordaram e pediram os documentos a mais
de 70 pessoas. Destas, quatro foram detidas, 11 foram mantidas sob custódia e
houve o registo de 34 ocorrências.
Segundo ele, várias pessoas abordadas apresentaram
comprovantes de registo do Departamento de Migração, que são concedidos a
pessoas que pedem asilo. "Isso mostra que havia refugiados entre
elas", disse. Ele não soube responder por que as pessoas foram abordadas
pela polícia.
–
A polícia de Colónia registou 516 ocorrências até este domingo (10/01), sendo
que cerca de 40% são de assédio sexual. Há também muitos casos de furto de
telemóveis, bolsas e carteiras. Duas pessoas testemunharam que teriam sido
violadas.
–
A polícia de Colónia afirmou que 20 suspeitos estão sob investigação. Muitos
deles foram identificados, mas não foram detidos. Um marroquino de 19 anos foi
detido neste sábado. Está referenciado pela polícia desde 2013. As identidades
dos demais suspeitos não foram reveladas. Entre os investigados estão sobretudo
homens de países do norte da África.
–
A Polícia Federal, que é responsável pela segurança dentro da estação central e
numa distância de até 30 metros do prédio, registou 32 ocorrências na noite de
passagem de ano, incluindo ferimentos, roubos e crimes sexuais.
A Polícia
Federal afirmou ter identificado 32 suspeitos. São eles nove argelinos, oito
marroquinos, cinco iranianos, quatro sírios, um iraquiano, um sérvio, um norte-americano
e três alemães. Desses 32 suspeitos, 22 são requerentes de asilo.
Nenhum
deles foi até o momento acusado de crimes sexuais e as acusações contra eles
assinalam casos de ferimentos e furtos.
–
Na sexta-feira, a polícia de Colónia prendeu dois suspeitos, de 16 e 23 anos,
um deles do Marrocos e o outro da Tunísia. Os dois são requerentes de asilo e
foram libertados pouco depois por falta de provas.
Três
pessoas estão em prisão preventiva por suspeita de roubo durante naquela noite.
O
que não se sabe
–
Não se sabe quem são os criminosos e quantos são.
Até
o momento há apenas suspeitos.
–
Também não se sabe se há requerentes de asilo ou refugiados entre os
criminosos.
Eles
formam, porém, o principal grupo de suspeitos. Requerentes de asilo e pessoas
que vivem ilegalmente na Alemanha estão no foco das investigações da polícia de
Colónia, mas a própria polícia ressalvou que nada foi provado contra eles.
A
Polícia Federal afirmou que há refugiados entre os suspeitos. Testemunhas,
vítimas e polícias, falam de homens de aparência árabe ou norte-africana.
A polícia
local abordou e pediu documentos a pessoas que estavam na área da estação
central, e entre elas havia refugiados, mas não se sabe se as pessoas abordadas
têm alguma relação com os crimes cometidos.
–
Não se sabe também se os criminosos planearam ou organizaram o que aconteceu diante
da estação central de Colónia. Também não se sabe se há relação entre o que
aconteceu em Colónia e crimes semelhantes ocorridos em outras cidades alemãs na
mesma altura.
A
procuradoria de justiça de Colónia, porém, parte do princípio de que se trata
de crime organizado.
O
ministro da Justiça, Heiko Maas, também afirmou acreditar que haja uma relação
entre os acontecimentos em várias cidades e que as agressões foram planeadas
com antecedência.
O
jornal Bild am Sonntag publicou que grupos de norte-africanos usaram redes
sociais para chamar conterrâneos para Colónia.
Segundo
informações da emissora WDR, a polícia investiga já há alguns meses grupos de
criminosos formados maioritariamente por argelinos, marroquinos e tunisinos.
Esses
grupos estaria a seguir para a Alemanha como refugiados. Viajariam para
Istambul e, de lá, entram na Europa misturados com grupos de refugiados que vêm
da Síria, do Iraque e de outros países, segundo as informações da WDR.
Fonte.AS/dpa/epd/kna*
Esta
ambiguidade do poder político alemão, acompanhada de toda a trama obscura da
estrutura policial, lançando suspeitas sobre a existência de um *grupo
organizado*, sem identificar, que enquadrou, a nível de várias cidades do país,
uma acção, onde pontificaram *árabes e norte-africanos* deu imediato alento à irrupção de manifestações fascistas.
Facto
este aumentado pela grande imprensa conservadora.
Empolado,
organizadamente, na net com fotografias, claramente manipuladas, de pseudo
agressões, sexuais ou não, de mulheres que teriam ocorrido em Colónia na noite
da passagem de ano. Le Monde 11.01.2016
4
– A velha tragédia do capitalismo financeiro alemão e francês pode avolumar-se
naqueles países através da sua fascização. Por agora, apenas pela via
eleitoral.
Se
não se encontrar uma alternativa política revolucionária nacional e ao mesmo
tempo europeia para fazer frente a essa realidade.
Não
se pode esperar que a alternativa surja no *mal menor* de uma Merkell ou
Holande.
A
aparente luta entre, por um lado, a coligação CDU/SDP e os partidos fascistas
alemães, por outro o PS/Holande e a Frente Nacional, é uma comédia entre os
dois lados dos apologistas da *ordem nacional* capitalista.
Esperemos
que um alento de viragem que se verifica em outros países europeus brote, no
meio da crise capitalista, e estilhace a argamassa que ainda consegue manter o
poder do Capital.