1
– Um avião comercial russo despenhou-se, há cerca de um mês, no Sinai, Egipto,
morrendo 224 pessoas, devido a um atentado, que foi reivindicado por um grupo
denominado Al-Qaeda, que é o ramo local da Irmandande Muçulmana egípcia.
Na
terça-feira passada, um avião militar russo foi abatido junto à fronteira
turco-síria por um caça F-16 da Turquia, sob a alegação de que voou em
território turco. A Turquia é governada por um partido islamista radical,
identificado, tal como a Irmandade Muçulmana, com o wahbadismo proveniente da
Arábia Saudita.
Mas,
antes, dia 12, já houvera atentados sangrentos (43 mortos) na capital libanesa
Tripoli, numa área de controlo do Hezbollá, a que se seguiram um hotel no Sinai
(Egipto) e um atentado em Tunis, Tunísia, com 12 mortos, polícias da guarda
presidencial. Sempre em nome do EI ou da sua cara-metade Al Qaeda.
Em
plena campanha eleitoral turca, que veio a dar a maioria governamental, ao
líder islamista Recip Erdogan, foi realizado um brutal atentado em Istambul, (cerca
de 100 mortos), mas, estranhamente, contra os apoiantes do partido secular HDP que integra, essencialmente, a população étnica curda do país.
Também aqui houve uma reivindicação do EI, mas quem a oficializou foi o próprio Erdogan,
depois de ter procurado acusar um partido pró-curdo, ilegalizado, o PKK.
Nihil
obstat, diria o Papa católico...
A
13 de Novembro, ocorreram vários atentados em Paris, que provocaram 130 mortos
e centenas de feridos, reivindicado pelo EI, sendo que os seus executantes, na sua
maioria, foram cidadãos franceses e belgas, segundo fontes oficiais,
acrescentando um vago: foram planeados longe.
De
repente, o Chefe de Estado francês, François Hollande, considerou que o seu
país estava *em guerra*, situação esta que se estendeu, em pouco tempo, à
Bélgica e à Alemanha, com repercussões imediatas nos restantes países da União
Europeia, que não os mais recentes de Leste, o que temos de classificar como
*curiosidade*.
Não sabiam os EUA e a UE que o fluxo de homens para as fileiras e treino, bem como toda a logística, em bens e armamento, do EI, no interior da Síria somente se podia (e pode processar) através das fronteiras com a Turquia, Jordânia e Israel?
E que todo esse movimento era, tacitamente, autorizado por aquelas potências, incluindo o seu regresso aos países da UE?
Não é do conhecimento público que os campos de treino e de retaguarda dos chamados «rebeldes» opositores do regime da Síria se situam, justamente, na Turquia, Jordânia e Israel?
E, finalmente, a Turquia atrever-se-ia a abater o avião militar russo, se não tivesse as costas quentes ou até o assentimento da parte dos Estados Unidos?

A Síria está rodeada de fronteiras de países que favorecem o EI
2 –
A política de violência desenfreada do chamado Estado Islâmico não nasce, por
acaso, fora do chamado *mundo ocidental*,
nem foi planeada +algures+ no Médio-Oriente, por obra e graça do
espírito santo.


O senador John McCain, responsável pela Comissão dos Serviços Secretos do Senado, com líderes jihadistas. À direita, al Bahagadi, à esquerda, Mohammad Noor, ambos assinalados.
Recuemos
um pouco.
A
desagregação da antiga União Soviética, após a renúncia de Mikhail Gorbatchov à
Presidência da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e de
secretário-geral do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) leva a um
frenesim de ascenso imperialista no Mundo por parte dos Estados Unidos da
América, e a cumplicidade abjecta das oligarquias políticas e económicas, ainda
hoje dominantes, na União Europeia.
Esse
frenesim, num julgamento apressado de que o domínio total do Mundo seria a
realidade do sistema financeiro de Wall Street, levou Washington a apostar no
apoio à fragmentação, explosiva e sanguenta, da Jugoslávia, por nacionalidades
e grupos étnicos, um processo iniciado, de maneira difusa, em 1990.
Impulsionou
então, de maneira aberta e sem qualquer rebuço ou preocupação de consultar os
povos locais sobre os seus interesses nacionais, em fazer avançar a máquina
militar da NATO (directa ou indirectamente), não só sobre os países do leste
europeu, que se sacudiram do Pacto de Varsónia e da suserania da ex-URSS, mas igualmente como sucedeu
em 1990, no Iraque, em 2001 no Afeganistão e 2003, novamente, no Iraque, e,
posteriormente, na Síria, depois de se imiscuir em todo o Magreb, a pretexto
das chamadas *primaveras árabes*.
Tudo
isto, com a conivência total e a incapacidade dos dirigentes mais abjectos e
senis, não só da UE, mas também do próprio Médio-Oriente e do
Extremo-Oriente.
Incluindo,
numa primeira fase, as classes dirigentes da Federação Russa e China, que, em
nome do *realismo* sucumbiram às suas dificuldades económicas, políticas e militares.
Ora,
toda esta situação não podia continuar, nem, mesmo, ter uma duração mais
dilatada.
Em
primeiro lugar, devido à deterioração crescente interna da economia
norte-americana, cuja visibilidade surgiu na crise bolsista de 2001, e que
provocou uma recessão enorme e o aumento exponencial do desemprego.
A crise
financeira de 2007 agravou o afundamento económico.
Aliado
a estes revezes, somaram-se os custos astronómicos do militarismo desenfreado,
com derrotas sucessivas no Iraque e Afeganistão, e, o impasse evidente na Síria.
O
retrocesso do seu dispositivo operacional castrense reflectiu-se nas suas
fraquezas geo-políticas actuais.
Em
segundo lugar, o ressurgimento de *frentes* concorrenciais na hegemonia de
grande potência económica e militar.
A
que mais preocupou a oligarquia norte-americana, na entrada do século XX, foi a
pujança comercial da UE, erigida, então, a principal potência comercial do
mundo, e, acima de tudo, a capacidade que a moeda europeia começou a adquirir
nas trocas internacionais, pondo em causa a hegemonia do dólar.
Daí,
os ataques sistemáticos à unidade europeia -elo fraco -, forçados, abertamente, desde a
crise de 2007.
Em
terceiro, o renascimento, por um lado, da potência militar russa interventora,
depois da crise política e económica subsequente à destruição da ex-URSS, por
outro, o incremento da China, como potência económica mundial e a sua
militarização acelerada em crescendo.
Este
avanço de potências capitalistas concorrentes, em ascensão, em confronto
directo com a potência, económica, política e militar, ainda em supremacia, mas
ferida por uma decadência que se acentua, exige que se construam, cada vez
mais, grandes espaços territoriais assentes em poderes estatais consolidados e
livres de entraves conflituosos, que prejudicam um maior enquadramento negocial
comercial internacional.
Ora,
a intervenção imperial actual norte-americana, decadente e desesperada, cria
desmembramentos de Estados, procura recriar novas estruturas neo-coloniais, de
carácter quase feudal e de retrocesso civilizacional.
Em
quarto lugar, o menosprezo pelos interesses dos povos e a sua exploração sem
freio em que a auto-elogiada intervenção em nome da «segurança nacional» e o
seu desígnio messiânico de imposição dos «direitos humanos» e a democracia sob
a égide norte-americana, conduziu à formação de grupos e partidos,
particularmente no Médio-Oriente, de inspiração nacional e libertadora.
Todos
eles inspirados e organizados, sob a cobertura da ideologia religiosa, no caso em
apreço, pelo sunismo wahbadista que enquadra um visão imperial de submissão
política religiosa.
Aproveitando
esta orientação, os Estados religiosos do Golfo de ideologia wahabadista,
como Árabia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Barein, Omã, principalmente
o primeiro, financiaram e impulsionaram as formações fundamentalistas da al Qaeda,
Frente al Nusra e Estado Islâmico, com o controlo político e militar dos
Estados Unidos.
Estes,
desde a invasão do Afeganistão pela antiga US, formataram, organizaram e
financiaram, em estreita ligação com a monarquia saudita, a primeira formação
político-militar sunita wahbadista, a Al Qaeda, para ser a *tropa de choque*
da sua estratégia geopolítica no Médio-Oriente, e, posteriormente, em África e
no Magreb.
Na
África do norte, o wahadismo procurou impor-se, primeiro na Argélia, sem o
conseguir, apesar de uma guerra civil mortífera e prolongada, e,
posteriormente, com as chamadas *primaveras árabes*, através da implantação da
al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQIM), que hoje, sem preocupações, dizem
«obedecer» ao Estado Islâmico.
Na
África, a sul do Magreb, o wahbadismo espalhou-se pela *missionação* de
organizações não governamentais sauditas, como a Liga Mundial, a Assembléia
Mundial da Juventude Islâmica e a Federação de Mab, de onde foi emanados
grupos, como o Boko Haram.
Os
chefes das principais organizações, como o EI e a AQIM, são elementos que passaram pelas
mãos da CIA, serviços secretos norte-americanos.
Abu Bakr
al-Bagdadi, que se auto-intitula califa do EI, é um iraquiano, que esteve
quatro anos num campo de internamento norte-americano e que foi *solto* após
uma *reeducação* à mão dos agentes americanos. Em poucos meses, juntou a
chamada al Qaeda do Iraque com a Frente al Nusra (que era chamada estrutura
oposicionista «moderada» síria, apoiada pelos EUA e França), dando origem ao
EI.
O
responsável da AQIM e actual «governador» da região de Tripoli, da dividida
Líbia, Abdelhakim Belhaj, foi detido na Malásia, em 2003, no que foi
publicamente divulgado como uma "rendição" extraordinária.
Esteve,
aparentemente, durante uns anos, numa prisão secreta em Banguecoque, e, foi
considerado «recuperado». Apareceu, em 2011, na invasão da Líbia pelas tropas
ocidentais, à frente de um grupo da al Qaeda.
3 –
A parceria entre os interesses islâmicos whabadistas retrógrados, nacionalistas
e imperialistas, e os norte-americanos e os seus cúmplices ocidentais, está a entrar em
em conflito à medida que os primeiros se sentem com capacidade para
avançarem pela sua própria via.
Essa
é a fase actual, ainda que embrionária, mas que já mostra um processo que pode
ter pernas para andar, se não for combatido de forma revolucionária e
progressista.
Os
atentados de Paris mostram, por um lado, que existe, no interior da sociedade
europeia, um descontentamento larvar entre uma comunidade de migrantes e seus
descendentes, provindos de países islâmicos, que estão espezinhados no seu
bem-estar e injusticiados.
Por
outro, que esse grupo social, no seu combate por um melhor nível de vida, procura a organização em torno de interesses reaccionários e retrógrados da religião que dizem
professar.
Espaço este não não é ocupado por formações políticas de vanguarda nos Estados europeus.
Para lutar contra o islamismo wahabadita, quer no Médio-Oriente, quer nas suas *bolsas* europeias, a via a seguir terá de se centrar, quer no desenvolvimento económico e comercial dos territórios árabes, quer na sua organização política estatal nacional estável, dando satisfação, não a processos militaristas, mas a reivindicações de liberdade, de separação entre a religião e os Estados, de destruição das estruturas monárquicas semi-feudais.
O
mesmo se coloca para o islamismo xiita.

campo de treino do EI na Turquia
4
– Mas, agora, a finalizar, uma questão secundária, mas importante:
Porque
será que os militantes fundamentalistas islâmicos se organizaram, com relativa
facilidade, no interior dos países da União Europeia?
Ou
existiu um menosprezo enorme pela segurança colectiva, ou uma cumplicidade
descarada com as estruturas *jihadistas*.
Naturalmente,
os dois aspectos co-existem.
Mas,
o segundo aspecto é o mais grave: os jihadistas «adormecidos» fazem parte da
rede de parceiros que os serviços secretos utilizam, por vezes, nas *operações sujas*
contra os interesses concorrentes das potências internacionais e regionais,
como a Rússia, a China ou o Irão.
Os
serviços de segurança europeus podiam não ter um conhecimento total das organizações
islamistas no espaço da UE, mas, certamente, estavam a par da sua movimentação
constante e sem controlo entre a Turquia, a Arábia Saudita, Qatar, a Jordânia,
Israel, as zonas controladas pelo al Qaeda na Líbia, Síria ou Iraque.
Não
podem agora limpar as mãos como tivessem sido violados como virgens inocentes.
Não,
eles são cúmplices conscientes, como os seus próprios governos.
E
tem de se lhe pedir responsabilidades.