segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

GUERRA COLONIAL: OPERAÇÕES ENCOBERTAS (4)




“OPERAÇÃO MAR VERDE”:  O DESESPERO - OU TUDO OU NADA 

A condução da guerra na Guiné-Bissau, desde os inícios de 1970,  estava a ser percorrida por uma série de eventos desagradáveis e negativos para o lado do governador e Comandante-Chefe português, o mais relevante dos quais era o próprio alargamento da luta guerrilheira a, praticamente, todo o território. 

Um recrudescimento da guerrilha, que se acentuara a partir de Maio de 1969.

O então brigadeiro António de Spínola fora nomeado para os cargos de chefe militar e civil da Guiné-Bissau, em 1968, por indicação do então chefe de governo Oliveira Salazar, tendo anunciado, aos quatro ventos, que, em três penadas, destruiria a guerrilha do PAIGC.

No entanto, no espaço de um ano, em 1969, apesar de toda a sua prosápia e da máquina de propaganda que montou à sua volta para a glorificação da sua pessoa e da sua estratégia, aquele que mais tarde veio a ser marechal, já depois do 25 de Abril de 1974, constatou, na prática, que o rumo da guerra no terreno começava a esfumar-se, como areia a fugir-lhe entre os dedos.

Precisamente, a Novembro de 1969, os guerrilheiros deram um salto na força da guerra com a introdução de tecnologia militar mais avançada no campo da artilharia. 

Levaram a cabo, então, o primeiro ataque desvastador a Bolama, com foguetões de 122 mm, tipo Katiusha.

No Estado-Maior spinolista, as “luzes vermelhas” acenderam-se com intermitência e a ideia de uma operação de grande envergadura extra-territorial para atingir o IN no seu principal santuário começou a germinar, e a ganhar adeptos, como única hipótese de conseguir suster o descalabro. Na realidade, o discernimento começava a minguar no sector “mais belicista” da entourage do “Velho”, como era conhecido, entre os seus apaniguados,  o já promovido general António Spínola.

Na Guiné, na messe da Marinha de Guerra em Bissau, na segunda metade de 1970, falava-se, com um certo à vontade, de uma “missão altamente sigilosa” que estava a ser organizada na Ilha de Soga pelos “homens do Calvão”. 

NRP Orion

Os indícios dessa operação “saltaram” para as conversas quando o  comandante Alpoim Calvão efectuou, anteriormente, uma série de “golpes de mão” clandestinos nos países vizinhos a arregimentar um conjunto de oposicionistas, utilizando uma Lancha de Fiscalização Grande, “Orion”, que, na altura, era comandada pelo 1º tenente Faria dos Santos, já falecido, um oficial do tempo de Escola Naval de Calvão e que foi, depois do 25 de Abril, Secretário de Estado das Pescas num dos governos de Cavaco Silva.

Com o aproximar da data, e notando-se um maior movimento operacional preparatório, alguns dos oficiais fuzileiros, que estavam inseridos nessa operação, davam umas “dicas” sobre o assunto a alguns dos seus pares,  quando se encontravam na capital guineense. 

Com esta discrição, foi organizada uma acção de grande envergadura à Guiné-Conacri. 

E posta em marcha, “em segredo”, no dia 20 de Novembro, com o próprio governador e comandante-chefe da antiga colónia a despedir-se, no local, com aparato, dos participantes.

Cerca da 01:30 de 22 de Novembro de 1970, provindos de navios, botes da Marinha de Guerra portugueses, com forças especiais de comandos e fuzileiros negros, e elementos oposicionistas ao regime do Presidente guineense Seku Turé a bordo, desembarcaram, clandestinamente, no porto de Conacri.

 Tinham uma missão central a cumprir: 

tomar o poder naquele país, matar o Chefe de Estado, Seku Turé, e prender ou aniquilar os principais dirigentes do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). 

Secundariamente, libertar um grupo de militares portugueses, detidos na prisão da guerrilha na capital guineense.

Estava em marcha a operação “clandestina” castrense extra-territorial mais espectacular e com a maior concentração de homens e equipamento das Forças Armadas portuguesas nos 13 anos de guerra colonial, que recebeu o nome de “Mar Verde”.

O comandante executivo desta operação, o então capitão-tenente, hoje capitão de mar-e-guerra reformado Guilherme Alpoim Calvão, descreve em livro, publicado em 1976, com o título “De Conakry ao M.D.L.P.” a sua versão do sucedido. 

      Ao longo destes anos, ela tornou-se a mais mediática das acções encobertas, precisamente, porque o seu chefe operacional tornou público alguns meandros do acontecimento e não se conheciam outros.

A preparação da “Mar Verde” tinha começado nos princípios de 1970, na ilha de Soga, no arquipélago dos Bijagós, com o treino de umas centenas de oposicionistas da Guiné-Conacri, treino que foi ministrado por um grupo de oficiais, sargentos e praças das forças especiais portuguesas.

Alguns desses homens ficaram no “registo histórico” da guerra na Guiné e, mesmo depois, no pós-25 de Abril de 1974, no que se chamou de resistência ao processo revolucionário, como os tenentes fuzileiros Rebordão de Brito e Benjamim Lopes Abreu e os furriéis comandos Marcelino da Mata e Teixeira. 

Claro, além do próprio comandante Calvão.

Entre os  chamados “homens de mão do Calvão” (a designação era da gíria da Guiné na altura), que acompanhou o comandante nas suas “operações especiais” na antiga colónia citam-se os nomes do cabo Lopes Rosa e dos marinheiros Luís Tristão e António Augusto da Silva, todos fuzileiros.

(Soga, uma das muitas ilhas e ilhotas do arquipélago dos Bijagós, era, naquela altura, de difícil acesso face às restrições impostas pela guerra em África. O isolamento poderia ser conseguido facilmente. Daí um certo secretismo na sua estruturação. Era, portanto, um local ideal para se treinar tal tipo de acção. Só que, em torno dela, existiu um segredo de polichinelo).

O seu planeamento virado para uma acção de envergadura na Guiné-Conacri começou a germinar, no entanto, nos últimos meses de 1969, quando, aparentemente, a PIDE em Bissau interligou informações locais e as ordens vindas de Lisboa para a utilização da oposição guineense).

Alpoim Calvão reporta, no seu livro, que a génese da utilização dos oposicionistas guineenses teria sido congeminada na Guiné-Bissau. 

“As diversas ramificações do FNLG (Frente Nacional de Libertação da Guiné)  tinham vindo a contactar as autoridades portuguesas por canais diferentes – Ministério do Ultramar em Lisboa e sub-delegação da D.G.S em Bissau. Esta com o núcleo que se ia agrupando á sua volta, iniciou a recolha dum certo número de informações que, recortados com as que vinham de Lisboa, fizeram perceber a amplitude da dissidência guineense”, escreveu o comandante.

Contudo, o comandante Calvão não especifica se existiu relacionamento da PIDE com a oposição guineense através de contactos mantidos com a extrema-direita em França, mas documentos da própria polícia política do regime do Estado Novo, que foram consultados, referenciam um projecto anterior nascido na capital francesa para assassinar Amílcar Cabral e depôr Seku Turé, onde se enquadraria a FNLG, que participou, como partido, na tentativa de deposição do então líder político de Conacri.

“Colocar a operação *Chèvre* no quadro da luta contra o comunismo em África, particularmente contra Sekou Touré e os seus amigos”, assim definia o “quadro geral” de um “ESQUEMA” operacional para a elaboração de um golpe de Estado na Guiné-Conacri um grupo de extrema-direita francesa, o Rendressement Economique. 

Esse projecto foi apresentado ao governo português, através dos serviços diplomáticos portugueses em Paris, em Junho de 1969, onde incluía a participação de, entre outros, a FNLG. 

Marcelo Caetano mandou avançar.

Em Julho, através de um ofício do director da PIDE/DGS dirigido ao Director-Geral dos Negócios Políticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Silva Pais informava que aquela polícia “mandou a Paris o snr. Inspector Abílio Pires, devidamente credenciado com uma carta que o snr. Director da Casa de Portugal em Paris mandou a sua excelência o secretário de Estado da Informação e Turismo (César Moreira Baptista), sobre aquele assunto, a fim de estabelecer o necessário contacto”.

Depois dessa data, nos arquivos que se puderam consultar, desaparecem os contactos da polícia política com os interlocutores franceses.

Mas antes, 18 de Junho de 1969, uma outra missiva do mesmo director da PIDE/DGS ao mesmo director-geral sugeria já que se estudasse “minuciosamente o assunto” e que “deveria ser solicitada também a colaboração do Departamento de Defesa Nacional e do Ministério do Ultramar dada a importância transcendente que o caso pode vir a tomar”.

Como foi, posteriormente, orientada esta “importância transcendente”, no estado actual do conhecimento das informações, apenas se pode conjecturar. 

Foi abortada aquela via e reorientada para outros territórios? O certo é que os homens da FNLG são “despachados” para a Guiné-Bissau.

No seu livro, Calvão assinala, nomeadamente, que foi intenção inicial do governador e comandante-chefe António de Spínola instalar os oposicionistas da Frente de Libertação da Guiné Conacri (FNLG) no território para efectuar operações de guerrilha na vizinha República. 

Ora, a ligação destes oposicionistas ao governador foi “soprada” e orientada de Lisboa e não uma intencionalidade espontânea do general.

Mas – adianta Alpoim Calvão – “com o decorrer do tempo, a viabilidade do plano parecia maior e verificava-se com satisfação que o projectado ataque aos navios do PAIGC em Conakry, poderia ser perfeitamente enquadrado nas futuras operações de guerrilha do Front” . (A tradução é Frente).

Aquele oficial da Marinha, hoje na reforma, realça depois que houve mudança nessa orientação, tendo-se optado pela execução de um golpe de Estado em Conacri.

Alpoim Calvão justificou essa reorientação depois de ter sido feita “uma análise mais cuidada” que “lançou um balde de água fria nos planeadores”, segundo a qual a “guerrilha lançada contra a República da Guiné a partir do território português” poderia vir a provocar uma “reacção da ONU, OUA e países da Cortina de Ferro”.


Tropas portuguesas e uma centena de guineenses preparadas para partir para Conacri

Então, optou-se por uma acção de envergadura que incluiria, durante alguns dias, a violação da águas territoriais de um país, com uma esquadra da Marinha de Guerra, centenas de soldados a bordo e desembarque (de noite) na capital da Guiné, com combates de rua e movimentação em terra para alcançar mais de 50 locais tipificados como objectivos militares. 

Que necessariamente não seria silenciosa. 

E penso que muito pouco ponderada em termos políticos e diplomáticos, pois a reacção internacional seria ainda mais ruidosa.

Assim, quatro Lanchas de Fiscalização Grandes (Orion, Cassiopeia, Dragão e Hidra) e duas Lanchas de Desembarque Grandes (Bombarda e Montante), um Destacamento de Fuzileiros Especiais e uma Companhia de Comandos, ambos constituídos por africanos, e várias dezenas de elementos “brancos” de outras unidades de elite, saíram da ilha de Soga ao princípio da noite de 20 de Novembro, rumando para Conacri.

Ou seja, quatro das cinco unidades navais mais poderosas e ofensivas existentes naquela altura na Guiné-Bissau (a quinta, a “Sagitário”, estava inoperacional após ter sido atingida fortemente, meses atrás, por disparos do inimigo no rio Cacheu na zona do Tiligi) e uma parte substancial das tropas especiais e do pessoal da Marinha de Guerra tinham sido destacados para uma acção prolongada, de elevado risco, sem qualquer protecção aérea, de resultado muito incerto.

Não existem, para consulta, documentos oficiais nos Arquivos militares ou da polícia política sobre a operação “Mar Verde”. 

O marechal António Spínola assinala-o, em 1989, ao responder a missivas do CECA (Centro de Estudos das Campanhas Africanas) para “esclarecer as divergências” sobre o assunto.

Assim, Spínola sustentou que “o processo oficial sobre a Operação Mar Verde foi destruído”, sublinhando que o texto, em citações, inserido pelo comandante Alpoim Calvão no seu livro “De Conacri ao M.D.L.P.” é “o único documento válido existente sobre a operação, reproduzindo fielmente o relatório que – frisou - me foi entregue e que fazia parte integrante do processo destruído”.

Todavia, o então presidente do CECA, o falecido general Themudo Barata, questionava Spínola sobre o que se passara com a operação, porque havia outras versões sobre o sucedido: há determinadas descrições e afirmações nem sempre coincidentes com o descrito no livro do comandante Calvão”. 

No livro, Alpoim Calvão assume-se como o único oficial das Forças Armadas que propôs e planeou a operação, mas, na carta de António de Spínola ao CECA, o antigo governador e comandante-chefe das Forças Armadas na Guiné, coloca os majores, depois generais, Firmino Miguel e Carlos Azeredo, como os elementos preponderantes “com especial relevo para o primeiro que foi o elemento principal do planeamento”.

A bordo da Montante - à esquerda do comandante Costa Correira (centro) o indigitado futuro Presidente da Guiné-Conacri, um antigo sargento colonial francês, mais tarde coronel do Exército dissidente de Turé

Calvão, que enquadra toda a operação na sua alçada, desde a programação até à execução, nunca assinala, na esfera do planeamento, qualquer outro oficial do Estado-Maior de Spínola, a não ser – um policial - o então chefe da PIDE na Guiné inspector Matos Rodrigues.

O golpe de Estado em Conacri contava com o apoio de algumas centenas de oposicionistas e, possivelmente, mercenários ligados (ou recrutados) ao partido FLNG (Frente de Libertação Nacional Guineense), que, em caso de vitória, constituiriam um governo que “dependeria” de Bissau. 

E eventualmente, com a cumplicidade discreta, mas dúplice, de serviços secretos de alguns países ocidentais e mesmo de algumas figuras de topo do próprio regime de Seku Turé.

(Na messe da Marinha da Guiné-Bissau, alguns dos oficiais participantes, como os tenentes fuzileiros especiais Benjamim Lopes de Abreu e Falcão Lucas, com quem o autor manteve mais contactos pessoais, falavam, na segunda metade de 1970, na operação que estava em fase preparatória final.

Referia-se, por exemplo, que o então primeiro-tenente fuzileiro Rebordão de Brito, já falecido, que fez parte da missão, e que era mulato, seria, no caso de sucesso da mesma, uma “espécie de Ministro da Defesa” do novo regime de Conacri. 

A operação era considerada como altamente secreta mas, mesmo assim, alguns dos oficiais já “escalados” para a missão comentavam até aspectos das actividades no terreno que lhe seriam atribuídas na operação).



O relatório do comandante não se coaduna com os propósitos escritos por Spínola



Na missiva de António de Spínola ao CECA, que se encontra no Arquivo Histórico Militar, e no momento da consulta tinha a chancela de “reservado”, o marechal especificou os objectivos da acção: “a operação visava atingir dois objectivos. O primeiro de alta estratégia e de natureza externa com vista a apoiar a realização de um golpe de Estado na República da Guiné.

O segundo de natureza interna visava o desmantelamento das instalações do PAIGC em Conacri, aprisionando Amílcar Cabral e a libertação de militares portugueses detidos nas prisões do PAIGC”.

Alpoim Calvão confessa, num artigo inserto em a “Guerra de África (1961-74), que a directiva de prender Cabral era apenas uma “ideia”. 

Eis, um extracto do seu relato: quando chegaram a Conacri: “mandamos umas bazucadas para a casa que se presumia ser dele. A ideia era capturá-lo, apesar de, em minha consciência, e se fosse necessário…Os meus homens perguntavam: “E se chegarmos lá e eles atirarem?». Eu disse: «Ai, é tiro contra tiro». 

(A talhe de foice, um comentário: o comandante Calvão tinha como objectivo estratégico a captura de Amílcar Cabral, mas não sabia ao certo onde morava o líder do PAIGC. 

Presumia apenas onde ele estivesse!!!…então, porque não tentar antes o assalto antes de a destruir, para fazer prisioneiros ?)

Tal como se escreveu, a operação “clandestina” golpista à Guiné-Conacri foi idealizada, na parte final de 1969, com a inclusão dos homens da FNLG, depois de alguém da *entourage* do governador, ou então algum *conselho* do governo de Lisboa, ter feito “uma análise mais cuidada”, segundo o comandante Calvão, que não referencia quem a fez, o que levou a reorientar a táctica de utilizar o “ramo militar” dos frentistas guineenses “em acções de guerrilha contra o vizinho do sul” para “um golpe de Estado em Conacri”.

O oficial superior da Armada assume ser o autor desta última proposta. (Certamente, Calvão sabia que Lisboa estava a estudar uma proposta vinda de um grupo da direita e da extrema direita francesa para afastar Turé do poder e matar Amilcar Cabral). 

No seu livro, no entanto, justifica a reformulação do “processo técnico” com o argumento de que a utilização da guerrilha a partir da Guiné-Bissau levaria a “uma condenação total – hipótese mais branda – nos areópagos internacionais ou uma intervenção armada a favor de Sekou Touré, com consequências catastróficas”.

O fracasso desta operação levaria certamente, como levou, a idêntica condenação e até a um distanciamento maior de aliados portugueses, como os Estados Unidos, (por razões tácticas, certamente) que vieram a apoiar financeiramente o regime de Turé.

Alpoim Calvão faz o seu relato como se tivesse havido sintonia governamental em torno desta acção. 

Ela, todavia, não recolheu a unanimidade no seio do governo de Marcello Caetano, nem… entre os próprios comandantes operacionais integrantes da operação.

Uma carta de Spínola para o Presidente do Conselho de Ministros, de 12 de Novembro de 1970, citada por José Freire Antunes, em “Cartas Particulares a Marcello Caeteno”, ressalta que, pelo menos, o então Ministro do Ultramar Silva Cunha colocava “reservas” à validade da operação, que o antigo governador sustentava ser “decisiva para o desfecho da guerra na Guiné”. 

Hoje, sabe-se que outros ministros se opuseram ou não concordaram com a aventura, como o da Defesa Nacional general Sá Viana Rebelo e dos Negócios Estrangeiros Rui Patrício.

Caetano deu o seu aval à missão, depois de António de Spínola levantar a fasquia e ameaçar: “ou empenhamos todos os meios para neutralizar o potencial de guerra do inimigo nos seus santuários ou perdemos irremediavelmente a Guiné”.

Era, portanto, uma missão do tudo ou nada.

E esse desespero está patente no próprio consentimento condicional dado pelo último chefe do governo do Estado Novo. 

Segundo um parecer elaborado pelo marechal António de Spínola de 28 de Janeiro de 1986 para o então Chefe de Estado-Maior do Exército (CEME) general Salazar Braga a propósito da operação, Marcelo Caetano deu o seu assentimento “mediante a exigência de certos condicionamentos, como seja, o não deixar vestígios, seja em material perdido e identificável, feridos, prisioneiros ou mortos”. 

Ora, estes pressupostos condicionantes eram piedosos e ingénuos numa acção desta natureza e o presidente do Conselho de Ministros sabia-o, mas o regime estava em desespero – instituíra-se até já, no seu interior um ala liberal, que contestava o prosseguimento da guerra colonial - e mostrava sintomas evidentes de desagregação. Marcelo Caetano era, já então, um homem acossado, sem ter um noção precisa para resolver a questão colonial.

Do ponto de vista militar, no Território Operacional (TO), nesse ano de 1970, a situação estava a agravar-se progressivamente para as Forças Armadas portuguesas, já que o PAIGC disseminara os combates de Norte a Sul, de Leste a Oeste, com o emprego de foguetões de longo alcance de 122 mm, cujo primeiro ataque ocorrera, conforme se assinala anteriormente, à cidade de Bolama. 

Ou seja a capacidade tecnológica e táctica do PAIGC começava a ultrapassar a das tropas portuguesas.

Os sintomas evidentes surgiam, no entanto já em 1969, altura em que a região do Boé foi abandonada por não haver já capacidade militar para a manter. 

Nessa região situava-se Madina de Boé, que serviu, em 1973, ao PAIGC para declarar unilateralmente a independência. 

Esse abandono permitiu a consolidação da guerrilha e serviu de corredor e “santuário” para ataques a Nova Lamego (hoje Gabu)  e  Bafatá.

Em Abril de 1970, o Estado-Maior do Comando de Agrupamento Operacional nº 1, sedeado em Teixeira Pinto (Canchungo), constituído pelos majores Passos Ramos, Magalhães Osório e Pereira da Silva, foi aniquilado em Jolmete, quando, aparentemente, negociava a rendição da estrutura dirigente do comando da Frente Oeste do PAIGC. Spínola,  que deveria participar no encontro, à última hora, faltou, e deste modo, escapou à captura e, provavelmente, à morte.

A 25 de Julho desse mesmo ano, na região de Teixeira Pinto, um helicóptero da Força Aérea despenhou-se no rio Mansoa, em condições ainda hoje não esclarecidas, matando todos os seus ocupantes, incluindo quatro deputados à Assembleia Nacional, entre os quais António Pedro Pinto Leite, o líder da ala liberal do regime marcelista, que se opunha à continuação da guerra colonial.

A “Mar Verde” esteve quase a ser abortada na véspera do seu início operacional, quando alguns oficiais, que exerciam funções de comando de unidades. questionaram a justeza de um ataque a um país com quem Portugal não estava em guerra.

No seu livro, Alpoim Calvão refere-se-lhe apenas em três parágrafos, mas o que se passou a bordo, naquele momento, atingiu as proporções de motim.

O então oficial supervisor da Companhia de Comandos Africanos major de Cavalaria Leal de Almeida, com provas dadas em combate, quando se efectuava o “briefing” final, manifestou-se contra o ataque a Conacri, considerando que era “contra a ética militar” realizar uma acção um país que não estava em guerra contra o Estado português.

Foi-lhe dada voz de prisão e mandado apresentar ao comandante-chefe. 

“Foi inacreditável o que passei, eu e a minha família que estava em Bissau na altura. São recordações muito profundas e traumatizantes. Não quero falar delas”, referiu ao autor, já há alguns anos atrás, o coronel Leal de Almeida, que, então já na reforma, era professor de Educação Física no Ginásio Clube Português.

A recusa do major Leal de Almeida abalou toda a estrutura de comando da companhia, incluindo os próprios soldados. Almeida esteve, no entanto, presente no desembarque em Conacri, mas não acompanhou os seus homens no terreno.

O capitão graduado do recrutamento da colónia João Bacar Djaló, que comandava, operacionalmente, a companhia de comandos africanos, também questionou a razão daquele ataque clandestino, juntamente com os seus oficiais, nomeadamente o tenente Zacarias Saiegh, que, posteriormente, lhe veio a suceder, quando Djaló morreu em combate na zona de Tite.

Ameaças de conselho de guerra forçaram os comandos africanos a seguir para Conacri e o facto de Djaló se prontificar a continuar na operação “neutralizou um pouco a desmoralização incipiente”, reconheceu Calvão.

Mas este não foi o único episódio de relevo. 

O comandante da LDG “Montante” primeiro-tenente Costa Correia no “briefing” com os comandantes dos navios, igualmente pôs em causa a ética militar de fazer guerra a um país com quem se estava em paz. 

“Era um acto de puro desespero e aventura, uma missão sem pés, nem cabeça, iríamos ter contra nós toda a comunidade internacional”, ressaltou Costa Correia, que já depois do 25 de Abril de 1974 abandonou a carreira militar e se tornou, até à reforma, um alto quadro em Portugal da União Europeia.

Foi confrontado com a ameaça de prisão e conselho de guerra que estava subjacente numa mensagem do Comando da Defesa Marítima emitida, dias antes, para acautelar as indecisões e recusas: “Todas as ordens emanadas de CT G.2 devem ser pronta e integralmente cumpridas seja qual for a sua natureza e quaisquer que sejam implicações que daí possam resultar”.

Costa Correia seguiu, contra-vontade, para Conacri e exarou – segundo nos revelou - a sua posição no “Diário Náutico”, que ainda hoje não é de acesso público, apesar de sucessivos e infrutíferos pedidos.

O antigo comandante da “Montante” descreveu a sua participação num relato feito, anos atrás, na Academia de Marinha, cujo registo facultou ao autor, de que se retiram alguns pontos essenciais.

O texto está escrito na terceira pessoa: “Recebeu instruções para se apresentar na ilha de Soga, nos Bijagós, e a partir daí, deixar de ter comunicações com o exterior. Na ilha de Soga souberam que se estava a organizar uma operação, mas não sabiam para onde, e começaram a fazer alguns treinos específicos dantes dela se realizar, e os seus contornos foram definidos numa reunião que o comandante Alpoím Calvão promoveu na antevéspera da operação (...) com os comandantes dos seis navios que iriam participar na operação em causa, quatro LFG`s e duas LDG`s.

“Recorde-se que a LFG *Orion* era o navio-chefe e as LDG`s eram a *Bombarda*, comandada pelo então primeirO-tenente Aguiar de Jesus e a *Montante* sob o seu comando.

O desembarque em Conacri efectuou-se, depois de contratempos vários. 

Foram atingidos alguns pontos estratégicos da capital.

Quando nasceu o dia em Conacri, a força invasora estava, no entanto, vulnerável. Teve de recuar rapidamente para bordo dos navios e zarpar do porto da capital guineense. 

A operação fracassou.

Os objectivos estratégicos centrais falharam: Seku Turé não estava nem no palácio presidencial, nem na Villa Silly, uma residência secundária do Chefe de Estado, onde era suposto estar;  o líder do PAIGC Amílcar Cabral nem sequer se encontrava na Guiné-Conacri (e isso era do conhecimento público ainda antes da acção se desencadear); os aviões de combate MIG tinham sido desviados do campo de aviação onde, previsivelmente, deveriam estar estacionados; a estação de rádio nacional não foi tomada e a sede principal do PAIGC não foi alcançada.

Apenas um objectivo secundário foi alcançado: a libertação de mais de duas dezenas de soldados portugueses que se encontravam detidos.


soldados portugueses prisioneiros em Conacri

Todavia, um pelotão de soldados comandos africanos, encabeçados por um oficial prestigiado, tenente Januário Lopes, desertou em plena operação. 

Houve mortos e feridos entre as tropas portuguesas, que, em caso de captura, seriam consideradas como não pertencendo às Forças Armadas.

As forças invasoras destruíram muitos edifícios públicos e assassinaram numerosas pessoas, incluindo civis.

(Nebuloso é o papel desempenhado e o destino dado posteriormente a um grumete de nome Alfaiate, que, oficialmente, desertara nos primeiros meses de 1970, da base naval de Ganturé, no norte do Senegal, onde o comandante operacional era na altura o comandante Alpoim Calvão e se entrega ao PAIGC. Seguindo para Conacri. A direcção do movimento guerrilheiro, que lhe deu acolhimento e lhe permitiu certas liberdades de movimento, libertou-o, meses depois, colocando-o em França, onde ele manifestou desejo de se instalar. Aparece depois a ser o guia das tropas portuguesas que desembarcam na Guiné-Conacri. Após a investida naquele país, Alfaite veio a morrer em condições estranhas em Lisboa, vitima de um atropelamento.)

No terreno, ficou ainda a maior parte das forças oposicionistas da Guiné-Conacri.

Os vestígios da presença portuguesa em Conacri foram evidentes, o que embaraçou a diplomacia portuguesa e levou o Conselho de Segurança da ONU a fazer uma condenação do ataque português, incluindo os próprios Estados Unidos da América.

O tenente Januário Lopes proferiu declarações da Rádio Conacri  que denunciavam toda a amplitude da Operação “encoberta”. 

O jornalista António Luís Marinho, que editou, em 2006, um livro sobre o sucedido, que intitulou “Operação Mar Verde – Um documento para a história”, apresenta com destaque o depoimento do interrogatório feito na ocasião pelo alferes comando desertor às autoridades da Guiné Conacri e a responsáveis da ONU.

“O insucesso do Golpe de Estado ficou-se devendo à manifesta carência de informação que falhou completamente no que toca à presença da aviação de caça em Conacri e aos apoios activos internos que não existiam ou, se existiam, não se concretizaram”, é o único “acto de contrição” de Alpoim Calvão no relatório que entregou a Spínola.

No entanto, é o reconhecimento, puro e simples, de que, em termos políticos e militares, foi mal planeada, principalmente, em termos políticos.

Mais tarde, num livro intitulado a “Guerra em África (1961-1974), Calvão confessa: “o objectivo estratégico falhou, não há dúvida nenhuma”, mas o comandante operacional, que se assumiu também como seu planeador, atirou com a responsabilidade do fracasso para os oposicionistas guineenses…que dependiam de si: “A FLNG não foi capaz de derrubar o governo de Sekou Touré”.

No acto desordenado de reembarque, deixou-os à sua sorte. 

“Eles ainda aguentaram a luta oito dias e depois foram apanhados e foi uma repressão tremenda”, eis o relato frio de um responsável que planeia e desencadeia uma operação que tinha precisamente o objectivo central de derrubar o antigo Chefe de Estado guineense, mas que, perante o insucesso, não o assume na plenitude

“Esta não era a minha função”, descartou-se com todas as letras.

Quando se completaram 20 anos da invasão de Conacri, a antiga agência soviética Novosti, citando fontes dos serviços secretos, escrevia que Seku Turé estava a par da aventura portuguesa. As armas ligeiras, que os oposicionistas guineenses e a tropas especiais portuguesas utilizaram na operação, eram AK-47, vulgo Kalashnikovs, compradas a Moscovo e o KGB seguiu o tráfico do armamento. 

Segundo a Novosti, “o presidente guineense foi informado da data da operação”.

O então gerente da empresa Norte Importadora José Joaquim Zoio, que serviu de intermediário do governo português para a compra de 250 kalashnikovs, 20 morteiros 82 mm e 12 RPG-7 à União Soviética, sustentou que os planos que levaram à Mar Verde foram “um monumento à irresponsabilidade dos estrategos que o conceberam, pois partiram de premissas erradas, não tiveram em consideração os mais elementares princípios de segurança e cometeram o grave erro de subestimar as potencialidades do adversário”.

Zoio, que respondia a declarações de Alpoim Calvão, recolhidas por José Freire Antunes num artigo do jornal Semanário de 10 de Dezembro de 1988, referiu que “Moscovo não pôs qualquer dificuldade na venda de material em causa desde que fosse entregue o respectivo certificado de destino final”.

E acrescentou: “O lamentável reside no facto de não haver ocorrido ao senhor capitão-tenente, ao programar as suas operações que os serviços secretos russos poderiam ter seguido as amas até Lisboa e de Lisboa para a Guiné, bem como investigado o destino a dar às mesmas”.

A França, que não estava interessada numa “actividade autónoma” de Portugal naquela zona de seu “interesse estratégico”, e que conhecia “a fraqueza da oposição” igualmente “alertou” Turé, referiu um oficial superior do Exército português, que esteve ligado às informações militares.

No parecer enviado ao general Salazar Braga, António de Spínola sustenta, em 1987, que a “operação foi coroada de êxito”, sem especificar onde esteve esse sucesso, e isto – sublinha na mesma mensagem, - “apesar de não ter conseguido todos os objectivos que se propunha”.

No final da operação, Alpoim Calvão teve de ser “recuado” para Lisboa. Ele próprio o reconhece, no livro “ A Guerra em África (1961-1974): “Acabei a comissão. Devia fazer vinte e quatro meses e fiz só vinte e dois. Vim em Dezembro de 1970”.

Na carta de António de Spínola, guardada no Arquivo Histórico Militar, o primeiro Chefe de Estado português após o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 justifica, de certo modo, o insucesso da sua política na condução da guerra ao afirmar que efectuou “diligências” junto de Amílcar Cabral em Outubro de 1972 “para se encontrar em Bissau com o governador e comandante-chefe português”.

Diligência esta que, segundo o antigo vice-Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas de Marcelo Caetano “não foi outorgada pelo governo central que, assim, assumiu, perante as Forças Armadas a total responsabilidade de não ter aproveitado” uma oportunidade, que considerou “histórica para solucionar o problema da Guiné, pela via do diálogo, em situação de superioridade”.

O antigo Presidente da República da Guiné-Bissau Luís Cabral, questionado pelo autor, em diferentes entrevistas na sua casa de Miraflores, em Carnaxide, a propósito destas “diligências”, sublinhou que se trataram de “justificações tardias” de António Spínola. 

“Ele nunca quis dialogar com Amílcar Cabral, procurou sempre aniquilá-lo”, afirmou.

A ideia de “situação de superioridade”, que Spínola imagina ainda existir no teatro operacional quando era governador, entra em contradição com o reconhecimento posterior que, na mesma carta, faz da derrota no terreno, ao afirmar que as declarações que “alguns chefes militares” proferem “de que em Abril de 1974 a guerra em África se encontrava ganha são totalmente infundadas e até ridículas”. 



Mais vale tarde do que nunca.







1 comentário:

  1. Sobre o sucesso da operação mar verde já ouvimos e lemos muitas opiniões. Este artigo é especialmente crítico e efectivamente se todos os objectivos a que se propunha tivessem sido atingidos, a guerra na Guiné acabava ali. Tal não aconteceu mas numa coisa todos concordamos, libertou portugueses prisioneiros num país governado por um ditador. Só por isso a operação estava justificada e como português agradeço a todos os que nela participaram. Nota: Não entendo esse tal Luis Cabral (responsável pelo massacre dos majores portugueses que se apresentaram desarmados para as negociações) que nunca se cansou de dizer mal de Portugal e dos portuguese, porquê que escolheu Portugal para viver (era tão bom que nem os guineenses e cabo-verdianos o quiseram) e espante-se, escolheu logo o país colonizador???. A opinião desse senhor vale o que vale.
    Obrigado
    Carlos Leme

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