terça-feira, 25 de janeiro de 2011

PORTUGAL: A GUERRA FORÇOU A DIVISÃO NA QUESTÃO COLONIAL








Há 50 anos, que se convencionou situar a 4 de Fevereiro de 1961, foi iniciado um conflito nas antigas possessões portuguesas em África, que ficou conhecido, na História, como guerra colonial – e que os defensores da presença ocupante daqueles territórios classificam como guerra do Ultramar.



Finda a guerra e conquistada a sua independência, os territórios ultramarinos portugueses, que se constituíram em países, integraram-se na comunidade das Nações, que formam a sociedade terrena; alguns passaram por fases complicadas da sua estruturação interna, outros ainda sofrem efeitos de intrigas geoestratégicas, outros estão a assumir-se como grandes países emergentes em vias de desenvolvimento.



Todos eles, que optaram, na sua fase inicial, pela via revolucionária de conquista e gestão do poder, que abandonaram e renegaram, estão, agora, por sua iniciativa, a seguir a via do desenvolvimento capitalista acelerado, que nunca foi incrementado por aqueles, que estavam em condições de o fazer, mas não utilizaram essas vantagens, preferindo sujeitá-los a uma dominação imperial quase feudal do Portugal europeu.



A 4 de Fevereiro de 1961, um conjunto de independentistas angolanos, liderados por um hierarca mestiço católico, cónego Manuel Mendes das Neves, assalta a Casa de Reclusão de Luanda, onde foram mortos sete polícias.




Os conspiradores eram, na sua maioria, militantes ligados à UPA, União dos Povos de Angola, partido, formado, essencialmente, na base tribal da etnia bacongo, que se estendia do norte angolano actual penetrando no antigo Congo Belga, não se sabendo, com precisão, se o cónego Neves o era. Seguiu-se uma repressão intensa por parte do Exército, polícia e até alguns brancos armados nos bairros periféricos da capital angolana.


A razão imediata daquela acção – a libertação de detidos – está ligada a uma rebelião nativa, ocorrida cerca de um mês antes, na baixa de Cassange, onde se exercia a mais vil exploração humana no cultivo escravo do algodão por parte dos colonos brancos, detentores da Companhia de Algodão de Angola (COTONANG).


Como resposta à acção reivindicativa, foi realizada uma operação repressiva, essencialmente militar e paramilitar, da maior crueldade humana, de tal modo que conduziam a massacres selectivos inauditos com milhares de mortos e muitas centenas de presos, alguns dos quais foram colocados em Luanda.


O comandante da companhia militar portuguesa de Malange descreveu, em relatório, o sucedido, de que se cita o que abaixo se discrimina, desenvolvido pelo tenente-coronel Pires Nunes in “Angola 1961 – Da Baixa de Cassange a Nambuangongo”:




Durante as operações de pacificação da Baixa do Cassange, que descreveremos, o major Rebocho Vaz, comandante do Batalhão Eventual constituído para o efeito, ordenou, por sua iniciativa ou por indicação superior, que se fizesse um inquérito militar à actividade da Cotonang que todos apontavam como a causadora da sublevação. Das informações que recebeu e que chegaram até nós, não assinadas mas todas elas concordantes e apontando os mesmos factores de revolta, transcrevemos alguns excertos da mais profundamente investigada e pormenorizada:


"(...) O indígena na Baixa de Cassange vive em condições de absoluta miséria moral e material sob todos os aspectos. Resiste a essas condições de vida porque, quanto a mim, durante a sua infância, ou sucumbe à fome, às intempéries por falta de vestuários e às doenças de toda a espécie ou vinga e se torna imune a tudo o que desde pequeno se lhe deparou e o que mais tarde há-de passar. Apelidarei isto de selecção natural.


Habitua-se desde tenra idade a não ter personalidade de gente, pois que o único contacto que lhe devia ser benéfico (o do europeu), é-lhe altamente prejudicial e só aprende a não ser roubado e espancado. Existem sanzalas inteiras, em que as águas no tempo das chuvas passam pelo leito das cubatas onde dormem e vivem, isto para satisfazerem a vontade do chefe de posto e do agente da Cotonang que muitas vezes não se querem incomodar a ir mais para o interior recolher o algodão e obrigam as sanzalas a serem implantadas quase sempre à beira das picadas e das estradas.


Chega-se, por vezes, a não se reconhecer se um determinado indivíduo pelo seu aspecto físico, é homem ou mulher, se é velho ou novo. São os povos indígenas mais enfezados que conheço na Província. (...)".


Como retaliação, o então grupo independentista mais organizado e já enraizado no terreno, a UPA – União dos Povos de Angola -, que se transformaria, mais tarde, em FNLA, decidiu, a 15 de Março de 1961, lançar um acção de igual e cega razia e com acentuadas características tribais, que conduziram ao massacre de centenas brancos colonos e suas famílias, bem como de pretos de outras etnias, que laboraram, como serviçais, daqueles.


A – A ocupação colonial das terras africanas que Portugal reivindicou como suas até ao século XX foi uma miragem. Na realidade, quando acaba a II Grande Guerra e se inicia o ciclo de independências em África e Ásia é um facto real que o modo predominante de gestão capitalista que estava enraizado em território lusitano europeu nada tinha a ver com a organização económica dominante em África, com especial ênfase em Angola e Moçambique.

Ao contrário de Portugal europeu, o trabalhador africano, na sua grande maioria, não estava desligado das condições materiais do seu trabalho, não se encontrava separado do solo, nem existia uma clara situação de ruptura entre o trabalho agrícola e o labor manufactureiro, nem se encontrava, em grande escala, um desligamento acentuado, económico, entre o que campo produz e o que do campo se pode transformar em capacidade industrial-manufactureira.


É, precisamente, com a II Grande Guerra mundial que o mundo capitalista pressente que o desfasamento entre a produção capitalista ocidental – e em particular na Europa – estava de candeias avessas com a situação económica real que existia nas suas colónias.




Para que o processo de formação capitalista vingasse naquelas teria de ser suprimir, de forma rápida e brutal, a propriedade privada baseada no labor comunitário (ou mesmo individual) que sobrevivia, em termos quase feudais, em África (e também na Ásia), mas tal acção iria fomentar a revolta e a rebelião.


Somente por esta altura – anos trinta/quarenta do século passado é que os gestores políticos da economia capitalista, particularmente, aqueles que tendo noção do que deveria ser o colonialismo militante (em Portugal, Norton Matos, Paiva Couceiro e, mais tarde, Henrique Galvão) é que se dão conta de que a rapina que se pretende fazer sobre a comunidade ou lavrador individual africano, retirando-lhe a terra, e escravizando-os, de um dia para, outro iria gerar o fermento da revolta e da separação.




Mas, esta divergência, levá-los-á a ruptura política com o poder dominante do regime do Estado Novo. Não a uma ruptura, ideológica, com o colonialismo.


B – Praticamente, até ao final da II Grande Guerra, as classes dirigentes de Portugal enquadradas no Estado Novo – e toda a oposição, desde a republicana até à que se intitulava comunista, representada pelo PCP – desprezaram, senão totalmente, pelo menos de maneira “despreocupada” qualquer atenção concertada pelo progresso e pela elevação económica e política das suas colónias, quer em África, quer na Ásia e Insulíndia.


Para o sistema político-financeiro que gravitava em torno do Salazarismo, desde o seu início até ao conflito com a Índia, as colónias eram, apenas, locais de rapinagem de riqueza e de centros de depósito de marginais e dissidentes políticos; para o republicanismo, as colónias significavam um adorno nacionalista ideológico, que igualmente serviam de territórios de retaguarda para as pilhagens coloniais, de modo a servirem o incremento económico da sua metrópole.




Por seu turno, para o PCP, as colónias eram territórios que faziam parte da “unidade da Nação para a conquista da Democracia”. Ou seja, então, o ditame político táctico e estratégico do PCP baseava-se na unidade com “patriotas”, que se acolitavam em torno do velho republicanismo, dos monárquicos anti-salazaristas e dos socialistas da Seara Nova, todos eles defensores incondicionais do colonialismo.


(Uma cessão de Timor, a acontecer, quando em plena II Grande Guerra ali entraram os australianos e japoneses – segundo o jornal Avante de Janeiro de 1942 – tal facto teria uma gravidade antipatriótica, pois poria em causa a “integridade territorial de Portugal”. Já antes, o mesmo Avante, coloca como uma das notícias centrais do jornal um panegírico ao monárquico, inimigo da República, colonialista militante, em conflito com Salazar, Paiva Couceiro, por ocasião da sua morte. Com um título significativo: “PAIVA COUCEIRO – inimigo do fascismo”. Para o PCP, Couceiro divergia dele, mas “um ponto comum nos unia: a luta pela defesa da independência e da liberdade de Portugal, a luta contra o governo fascista de traição aos interesses do povo e da nação (sublinhando meu) portuguesa”).


C – No final da década de 80 do século XIX – altura que decorria uma forte emigração portuguesa para as Américas, Oliveira Martins, escritor, historiador e ministro da Monarquia, referia, no seu livro “Portugal em África” que “todos os europeus, espalhados pelo Império Colonial Português, incluindo funcionários, tropa e estrangeiros pouco excediam a 7.000”. Destes, assinala ainda Martins, 2.556 residiam na Ásia e Macau. Ou seja, menos de 4.500 viviam nas antigas colónias africanas.


O mesmo escritor, que faz uma citação de um antigo governador colonial J. Horta, ressalta: “Nem a Guiné portuguesa, nem Angola, nem S.Tomé … podem ser considerados como colónias, no sentido específico do termo. Angola, que a todos sobreleva, é que é o tipo e a jóias dos nossos domínios africanos, poderá intitular-se de estação político-militar---porém colónia não, e isto porque lhe faltam colonos”.


No princípio do século XX, em Angola foram recenseados cerca de 9.100 brancos, dos quais 60 por cento estão sediados em Mocâmedes (3.948) e Luanda (3.489 – a capital propriamente dita tinha somente 2.438 brancos). De referir, que a maioria dos quais eram militares, pessoal da burocracia estatal, degredados e alguns religiosos.


No mesmo período, 1900, em Moçambique estavam recenseados 950 brancos em três grandes distritos: Moçambique, Gaza e Inhambane. (Não há dados para Lourenço Marques e Quelimame, mas o historiador René Pélissier assinala, para 1912, que a população branca de Lourenço Marques e de todo os seus largos arredores atingia um total de 5.560 pessoas, muitos dos quais estrangeiros.


D - A emigração para colonizar os territórios imperiais extra-europeus não foi um desígnio quer da Monarquia, quer República. Depois da euforia da expansão nos séculos XV/XVI, e a partir do século XVIII nas vagas emigratórias para o Brasil, mesmo depois da independência daquele, nunca a expansão estratégica de colonização esteve no pensamento das classes dominantes portuguesas.


Quer a I República, que, apesar de tudo, dedicou nos seus inícios uma estratégia para as colónias, quer criado um Ministério específico, quer elevando as figuras políticos de representação de Estado para o estatuto de governadores-gerais, com amplos poderes autonómicos, quer a II República, com o nome de Estado Novo, e centramo-nos neste, porque, do ponto de vista de propaganda, o Império Colonial adquiriu uma preponderância retórica de grandiloquência, que não mereceu correspondência prática e nunca colocou, nos seus desígnios, a colonização africana do mesmo, mesmo quando estimulou a emigração.


A emigração portuguesa nos séculos XIX e primeira metade do século XX – e isto é que nos interessa, porque se situa no período exactamente anterior às independências das colónias europeias – foi elevada.




Segundo estatísticas compiladas por José de Sousa Bettencourt, in “O fenómeno da emigração portuguesa” (Luanda, 1961), nos primeiros cinquenta anos do século passado emigraram de Portugal 1.550.000 pessoas, das quais 1.105.000 para o Brasil, 190 mil para os EUA e 41 mil para a Argentina. Estes valores foram o dobro de todo o século XIX.




Ora, a emigração para as colónias africanas foi muito pouco significativa: cerca de 6 por cento.
(Somente, existiu um salto quantitativo migratório de Portugal para África a partir da segunda metade do século XX, em especial com a eclosão da própria guerra).




E – Mas este aparente desinteresse de emigração metropolitana para as antigas colónias era “obra” exclusiva dos que davam o salto de Portugal?


Não e está documentado. Para se poder emigrar de Portugal para os territórios africanos havia, à partida, entraves legais, pelo menos na primeira metade do século XX. Numa primeira fase, era necessário a aquisição de um passaporte, que foi abolido ainda antes do início da I República, depois teria de haver uma “carta de chamada” para que o processo burocrático pudesse ter luz verde, além dos pagamentos dos transportes marítimos que eram caros.




Existia, então, uma nítida separação entre portugueses europeus e portugueses nascidos nas ex-colónias (tidos como de segunda), cuja discriminação atingia os próprios documentos pessoais, que eram de cores diferentes.


E o regime nas suas altas esferas estava pouco preocupado com a ocupação colonial com portugueses metropolitanos.


O assunto – a emigração – foi um dos temas do Congresso do Mundo Português de 1940, e o Presidente do Conselho de Ministros Oliveira Salazar foi um dos intervenientes. José Matos Santa Ritta, que escreveu um artigo intitulado “Da Emigração portuguesa nos últimos 50 anos – como se deve preparar o emigrante para ser um bom colono” explana, no mesmo, algumas das posições dos próceres do regime.


Salazar está pouco preocupado com o local de emigração, mas sim com uma eventual crise em Portugal europeu com o aumento da população. Ele quer empurrar os portugueses “a mais” para o exterior seja qual for o seu destino, e este principalmente que seja para um local que possa dar benefícios financeiros com retorno de dinheiro.




Ora, esse destino não era África. Respondendo ao banqueiro Fernando Emídio da Silva que defendia, em primeiro lugar, a colonização interna, e colocando a emigração, como segunda hipótese, e se esta se destinar ao Brasil, Salazar contrapõe: “Mesmo que supuséssemos o aproveitamento integral das terras irrigáveis e baixássemos para um hectare o lote a distribuir por família, teríamos conseguido estabelecer 150.000 famílias, e, a 4 ou 5 pessoas por família, 600 a 700 mil indivíduos. Ficamos longe de uma absorção total”.


Entre os funcionários de topo da Administração Colonial, apenas Henrique Galvão apresentou um programa elaborado de ocupação efectiva, referindo com argumentação as “zonas colonizáveis de Angola e soluções aconselháveis para intensificar a sua colonização”.


A “repugnância” entre a elite salazarista para com o continente africano ficam reflectidas naquele Congresso nas palavras de Fernando Emídio da Silva: “A emigração para as colónias portuguesas como que exprimindo um instintivo horror pela África, é uma espécie constante que não segue uma curva ascensional da emigração”.


F – Então como se explica o facto de ter havido uma guerra de 13 anos, e, um processo de recrutamento de cerca de um milhão de portugueses, que, ao entrarem nas fileiras da tropa nessa altura, tinham a percepção de que não poderiam fugir à aventura guerreira africana?


Quando surge o conflito colonial em Angola, o regime de António Salazar não foi apanhado desprevenido, mas o certo é que não preparou, de imediato, a reacção a uma sublevação que já fora anunciada e posta em marcha, anteriormente, quando perdeu, em 1954, os enclaves de Dadrá e Nagar- Aveli, na Índia, e veio a ser derrotada na Índia em 1961, na época em que aquele Estado ocupou, definitivamente, as pequenas cidades de Goa, Damão e Diu, últimas possessões no Indostão.


Desde a própria II Grande Guerra, o regime de Salazar, certamente, tinha a percepção que a fase independentista iria alastrar: Indonésia, 1994, Índia e Paquistão, 1947, Gana, 1957, Senegal, Congo Belga e Congo Francês, em 1960. E, estava consciente, perfeitamente, dos custos que tal guerra custaria ao erário público, custos estes que teriam maiores repercussões se o incremento guerreiro se prolongasse. Está documentado, profusamente, em relatório, ainda com o rótulo de secreto, que foi discutido no Secretariado Nacional de Defesa Nacional em 1961.


Praticamente, desde 1958, no interior das cúpulas do regime de Estado Novo existe uma discussão interna, por vezes surda, mas abertamente acutilante sobre a própria evolução da configuração e destino coloniais.




Salazar e Caetano têm visões diferentes, mas de mero artifício organizativo. Por outro lado, havia, isso sim, uma clara clivagem entre o Ministro da Defesa Nacional general Botelho Moniz e o chefe de governo António de Salazar sobre a autodeterminação ultramarina.




Aquele, conjuntamente com o Ministro do Exército, Almeida Fernandes, e o subsecretário de Estado da mesma pasta, tenente-coronel Costa Gomes, entre outros, procurou afastar “pacificamente” o ditador, contando com a cumplicidade do anterior Chefe de Estado Craveiro Lopes, e uma eventual “neutralidade” do então substituto Américo Tomás.


Os salazaristas mais empedernidos, como Kaulza de Arriaga, e os mais liberais, como Adriano Moreira, poderiam divergir sobre eventuais “reformas” pontuais no regime, mas estavam e estiveram unificados, até pela repressão intensa e selectiva que se seguiu às eleições presidenciais de 1958, que, fraudulentamente, afastaram Humberto Delgado de vir a ser o provável eleito, a defender o sistema capitalista monopolista que foram edificado, com o apoio declarado de todo o sistema financeiro, desde o Banco da Agricultura, até ao Banco Nacional Ultramarino, passando pelo Banco Português do Atlântico e Espírito Santo, e pelas famílias empresariais dominantes Espírito Santo, Mellos, Champallimaud, Fonsecas e Burnay, Quina, Vinhas, Abecassis, Sousa Lara, Orey, entre outros, todos com ligações preferenciais à rapina colonial.


E o regime sabia, até pelas interligações económico-financeiras internacionais, que as colónias eram um centro de negócios, que teriam as multinacionais mais que interessadas, logo apoiantes, ainda que em cumplicidade “encoberta”, mas activa, a suportar o regime salazarista, por causa dos diamantes, do petróleo, do ferro, do algodão, do café, do sisal e do açúcar, nomeadamente.


Ora, quando, logo após a independência da União Indiana do Império britânico, o novo país se dirige ao governo português para dirimir, de forma pacífica, a integração dos enclaves coloniais na península do Indostão, Salazar tomou uma posição arrogante, indefensável: a Nação portuguesa não se divide, como se o seu regime tivesse poder económico e militar para sustentar tal pesporrência.


Mas, não poderia tomar outra posição naquela situação, apesar das divergências que existiram, pois toda a oposição monárquica e republicana considerava um acto de traição eventuais cedências. O colonialismo não era apenas uma questão do regime de Estado Novo, mas de toda a burguesia nacional.


Além do mais desde os finais da década de 40, o regime estava em fase de industrialização (com crescimento económico), e com aquela ascendia – a par da velha burguesia ligada à especulação financeira, como os Burnay, Champallimaud, os Espírito Santo – uma nova burguesia empresarial e financeira, com os Vinhas, os Pinto de Magalhães, os Cupertino de Miranda, Tomé Feteira, Metalúrgica Duarte Ferreira, grupo Grã-Pará, que estava unida em torno de um poder executivo, que Salazar harmonizava, como fomentar e organizador da “ordem burguesa” de desenvolvimento do Capital para um novo estádio.


Mas, acima de tudo, Salazar – melhor dizendo o seu regime de Estado Novo – representava a classe mais numerosa da então sociedade portuguesa, os camponeses da pequena propriedade, que olhavam para ele como o garante poderoso e colocado numa etérea superioridade quNegritoe lhe manteria os mínimos dos mínimos da sua sobrevivência, situação esta que ele não queria subverter por razão alguma. Ou seja, eram o esteio real do conservadorismo político.




Foi um processo histórico consolidado em décadas de poder autocrático fascista, desde 1928, que alimentou a uma confiança reverencial, mesclada de medo repressivo, desse campesinato perante o regime salazarista.


Aliado a este poder e representação de conservação incutida nos camponeses, quase sem eira, nem beira, que olhavam com desconfiança para os senhoritos sacadores de impostos da capital (do qual excluíam o rural, que então tinham como sendo um deles, Salazar), o poder do Estado Novo deu ao camponês a ideia de que ele era o “esteio” das Forças Armadas (quão cerimonioso, lembrar-se-ão muitos, se tornava para os jovens filhos do camponês do meio hectare a festança das sortes, com gaita-de-foles e acordeão, a importância de aparecer na terra de uniforme militar, e quão mais *penachante* isso se tornou quando os primeiros soldados com o famoso caqui militar colonial apareceram nas aldeolas saudados como heróis e sagrados em festanças religiosas pelo padre, padre este que foi o outro artefacto humano instrumental, institucional e ideológico do Estado Novo que o ajudou a que se alicerçasse como obra e desígnio de Deus para salvar o homem do campo das tentações do diabo das ideias de progresso e desenvolvimento social.




Rui de Azevedo Teixeira in “A Guerra de Angola 1961-74”, enquadra-o, citando Michel, na classificação de “fascismo clerical”.


Foi esse exército, de maioria rural, que avançou, em 1961/1962, sem saber onde eram as colónias, mas sem qualquer relutância especial, para servir de tropa de choque imediata, e até com algum sucesso, numa pretensa defesa da Nação portuguesa “do Minho a Timor”. Até porque a ida para as colónias significava, também, um salário fixo durante, pelo menos dois anos, um parte dos quais revertia para os progenitores!!!


Era um sentimento vago de patriotismo do camponês que pensava ir para África, estando a defender a sua propriedade metropolitana, que o seu Chefe representante lhes transmitia como palavra de ordem da extensão natural do seu minifúndio a ser ameaçado pelos negros “terroristas infra-humanos”, ao serviço de causas estrangeiras.



O regime contava, depois de se ter servido dos resquícios monárquicos deixados nas Forças Armadas pelo I República – e contou pelo menos durante quase dez anos – com o servilismo de uma pequena burguesia de jovem oficialagem que entrou na carreira militar já nos finais dos anos 50, provinda do baixo funcionalismo e dos comerciantes provinciais, com fanfarronice de ascender a um manto diáfano de falsa sensação de uma carreira pomposa de dragonas e estatuto social. (Com a aceleração do processo de industrialização nos anos 50, o salazarismo cria um excesso de população no campo, população esta que vê à sua frente a possibilidade do desemprego, que, por portas de uma estratégia de evitar uma crise mais profunda, os vai, em parte, colocar, com garantia de lealdade ao regime, em pequenas funções de funcionalismo público. Salazar é, realmente, o primeiro político representante do capitalismo português a criar os esmolares serventuários funcionários de Estado -central, regional e local -, que lhe serve de base apoio, que, por tabela se estende ao mundo rural, como base de retaguarda de subsistência).

Naturalmente, anos mais tarde, uns e outros começam a enxergar outra realidade, quando os primeiros mortos começam a ser enterrados nas aldeias e os soldados regressados, depois de verem novos mundos, já não querem ficar agarrados à enxada que não lhes dá o bem-estar em crescimento que existe nas cidades de um Portugal para eles desconhecido e a divulgação que tiveram, entretanto, da miragem de uma “nova vida” que podiam conseguir em França ou Alemanha.




E a oficialagem apenas se destinava a carne para canhão, sem qualquer benesse que não fosse a repetição atrás de repetição de uma nova comissão de serviço.


A passividade das classes laboriosas mais conscientes das cidades e urbes industriais à mobilização massiva para uma guerra, em que naturalmente essas classes são mais renitentes tem de ser procurada,


- por um lado, na sua frustração por derrotas sucessivas em lutas de certa envergadura levado a efeito nos anos 50, fortemente reprimidas e cortantes para os seus dirigentes e famílias, que tiveram um epílogo, nas presidenciais de 1958, com que não contavam que o candidato Humberto Delgado, tivesse sido derrotado ingloriamente, sem qualquer reacção popular face à imensa fraude cometida (convém frisar que durante a campanha eleitoral de Delgado a questão colonial não foi debatida);



- por outro, à linha política de conciliação do partido maioritário com influência entre o operariado da cidade e dos campos, bem como entre a intelectualidade e os estudantes anti-fascistas e anti-salazaristas de esquerda, que, em nome dos compromissos que fez para “conquistar a unidade da nação” para o “derrubamento do fascismo” (directivas estas que vinham desde o 2º Congresso Ilegal de 1943), desprezou, completamente, a luta anti-colonial. (Em 1949, os estudantes e líderes africanos a viver em Portugal assinaram, inclusive, como directiva partidária, um manifesto, em nome do MUD juvenil a apoiar a política colonial de Norton de Matos!).


Foi, precisamente, a posição dúbia da direcção do PCP face à questão colonial, que, quando se iniciou o conflito em Angola (os nacionalistas amgolanos, em particular os liderados por Viriato da Cruz romperam mesmo com o PCP, criando um efémero Partido Comunista de Angola), se produziu no interior da equipa dirigente daquele partido a mais profunda clivagem e divergência, que veio a dar uma cisão de tal envergadura, que permitiu a consistência de criação de todo o movimento de extrema-esquerda (desde os maoístas aos guevaristas) que veio a ter forte influência, primeiro, nos meios universitários, depois em certas zonas industriais, e, em valor significativo na jovem oficialidade miliciana que esteve na guerra colonial.


O conflito colonial em África de 1961, que terminou em 1974, produziu a maior movimentação militar de toda a História de Portugal num período relativamente curto – 13 anos: mais de um milhão de portugueses foi mobilizado (Chegaram a estar, por comissão de serviço, 70 mil homens em Angola, 42 mil na Guiné e 57 mil em Moçambique in “Guerra Colonial”). Os guerrilheiros nos três Teatros Operacionais nunca ultrapassaram os 20 mil combatentes, segundo as informações militares portuguesas.


O desgaste económico e social da guerra trouxe para a população portuguesa a sua maior fase de emigração igualmente num período curto (1960-1974), perto de um milhão e meio de pessoas (França, Alemanha, EUA, Venezuela, Brasil, principalmente.




E, apesar da adesão inicial dos portugueses à participação na guerra, depois de 1964 veio, contudo, a formalizar um número elevado de “refractários”: perto de 250 mil.


A guerra, oficialmente, causou à parte portuguesa, em soldados, 10.000 mortos, um número elevado de feridos – cerca de 20 mil, e um número não identificado de traumatizados psíquicos (os valores humanos vão, conforme a baliza que se toma para os classificar, entre os 25 mil e os 100 mil).


O número de mortos entre a população africana foi muito mais elevada, largas centenas de milhares nos 13 anos de guerra, além da grande deslocação forçada populacional que a presença militar forçou, por razões várias, algumas das quais completamente injustificadas.


G - A razão histórica que os defensores acérrimos da Nação portuguesa, do Minho a Timor, argumentam está estribada numa falsa justificação: a intencionalidade de elevar o bem-estar social das populações do então Portugal extra-europeu para os níveis de desenvolvimento do território metropolitano.




Ora, isso nunca aconteceu. Daria a mão à palmatória, se o Portugal monárquico, republicano da I República, ou regime salazarista tivesse impulsionado, num período histórico determinado, datado, essa revolução, mesmo que esse revolucionamento fossem conduzido pelos interesses mais nojentos e escravizadores que se possam imaginar.




Como ser humano amante do progresso, não fico desesperado, do ponto de vista da evolução humana, que os modelos produtivos primitivos e anacrónicos, que existiam em África e na Ásia, sob o domínio português, fossem ultrapassados.




Era (e é), em História, o desaparecimento do mundo antigo.




Mas, não foi isso que aconteceu em 500 anos de presença de feitorias lusitanas – não ocupação colonial real, efectiva – que não revolucionou as entranhas das civilizações primitivas daqueles territórios.



Quando a época da independências floresceu, como cogumelos, decretou, então, Salazar, hipocritamente, “em força para Angola”, mas era tarde.




Tal como os Imperadores espanhóis no XI e XII procuraram jugular, pela força, a ideia emancipadora dos habitantes do condado portucalense, que veio a ser o embrião de Portugal, que agora ninguém põem em causa, também nos finais da II Grande Guerra esses mesmos ideais percorreram, com sucesso, os antigos territórios ocupados da África e Ásia.




Não vale a pena atormentar-nos porque a marcha da História no século XX foi essa. O futuro poderá mudar. Mas, aí, já são outros a analisar e interpretar essa nova realidade.



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